Chapter 1: Introduction
1.4 Structure of the thesis
Segundo Lacan, o objeto a é resultado da entrada do sujeito na linguagem, o qual é o produto, o resultado da divisão que ocorre no momento em que o sujeito advém. Considerando que a constituição do sujeito se produz a partir da introdução de um significante primeiro, vindo do outro que formulará e circunscreverá sua imagem enquanto um Eu,
diferentemente do Outro, com uma imagem e corpo próprios (LACAN, 1962-63, p. 31). O objeto a aparece como resultante dessa operação de separação entre o Eu e o Outro.
No texto O estádio do espelho como formador da função do eu, Lacan (1936) explica que a imagem do Eu é investida de libido pelo Outro, porém, há uma parte de libido que não é dirigida a essa imagem especular; assim, haverá um resto libidinal, produto desse investimento no sujeito pelo Outro. É no lugar desse resto, denominado de objeto a, que, imaginariamente, o falo se articula, sendo esse o representante de um lugar de falta (-φ), em outros termos, o falo é o significante que se refere à inscrição do desejo no lugar vazio do encontro entre a representação e a coisa. E o objeto a aquilo que não pôde ser representado pelo falo (-φ) nessa operação.
Esse resto que sobrou na operação de constituição do sujeito está ligado ao campo do Real e, por isso, não pode ser representado por significantes fálicos, escapando ao estatuto de derivar da imagem especular, como acontece ao objeto perdido freudiano. Assim, a está nesse lugar de resto, como “aquilo que sobrevive da operação de divisão do campo do Outro pela presença do sujeito” (LACAN, 1962-63, p. 243) e é irredutível na ordem da imagem.
A irredutibilidade dessa falta é radical na constituição do sujeito. Portanto, o objeto a faz referência à falta, porém, não é especular, muito menos apreensível na imagem. De acordo com Lacan, no Real não existe falta e somente no Simbólico e no Imaginário há a tentativa de apreendê-la e preenchê-la. Entendemos que essa afirmação refere-se ao modo como o Real se produz, completamente fora do campo da linguagem, sem nenhuma marca da falta, diferenciando-se de maneira radical do que ocorre com o Imaginário e o Simbólico, tendo em vista que esses dois campos trabalham com a falta, transformando-a em um vazio circunscrito a partir da linguagem.
É na medida em que o objeto a sobra que assume a função de causa de desejo. Por isso, o estatuto que Lacan reconhece como o de objeto perdido, constituindo para o sujeito a imagem de seu desejo, uma imagem que fica no lado do Outro. É do lado do Outro que colocamos aquilo que nos falta; todavia, a imagem disto que nos falta só temos acesso de maneira imaginária, especular, refletida pelo Outro. O objeto a “é o que lidamos no desejo e por outro lado na angústia” (LACAN, 1962-63, p. 179).
O sujeito se organiza em torno desse processo de formulação da imagem do Eu, e é assim que os objetos se tornam objetos de troca, objetos contabilizáveis que têm, como função, orientar e circunscrever o desejo, tendo em vista a dificuldade de o Eu se diferenciar da imagem do Outro. Lacan afirma que o objeto a é anterior à constituição do status do objeto comum, social, representável e comunicável.
Entretanto, alguns objetos se tornam privilegiados, como o mamilo, as fezes, o olhar, a voz, agarrados ao corpo encarnam semblantes para o objeto a, porém, sem se confundirem na mesma coisa. O objeto, constituído a partir da relação especular, não é da mesma matéria do objeto a, apesar de poder vir a ser seu semblante.
Parece-nos que, para melhor tratar sobre o conceito de objeto a, é necessário fazermos uso do conceito de angústia desenvolvido por Lacan (1962-63, p. 119). Segundo Lacan, é somente a partir do fenômeno da angústia que se pode ter uma representação subjetiva do objeto a.
Lacan desenrola o conceito de objeto a no seminário cujo tema é a angústia exatamente por ser de acordo com Lacan, precisamente o objeto que se materializa na angústia, um objeto que aponta para a inexistência de um significante que trate da falta que, no momento da angústia, aparece no campo do Outro. Logo, a angústia abole o significante, e isso faz parecer que não há objeto, porém, se olharmos mais detidamente, veremos que, o objeto que aparece é forjado pela matéria-prima do Real, e por isso emudece os significantes.
O objeto a sustenta, na psicanálise, também o lugar da causa, essa é uma de suas vertentes e, a outra vertente do objeto a é o lugar de resto, excedente da operação de constituição do sujeito. Como objeto-causa, o objeto a impõe sempre uma interrogação à experiência da análise, não podendo ser essa tomada por um espaço inerte ao qual se aplica um saber predefinido. É o objeto a que move o analisando a experimentar, no lugar do analista, sua causa de desejo, assim, temos o objeto a como ponto fundamental da operação da própria experiência da psicanálise, um conceito que interroga a própria causa de tal operação.
No outro momento, com a introdução do objeto a, não se trata mais do conceito inscrevendo a falta no pensamento psicanalítico apenas como registro de um suposto real originário. O objeto a busca se dirigir à falta, tomando-a pelo que irrompe na atualidade da análise. Neste caso, não se trata, apenas, da inscrição do real, pelo modo da falta, na trama conceitual da psicanálise, mas do conceito se dirigindo à experiência da falta no que ela coincide com a experiência analítica. (DARRIBA, 2005 p. 17).
O que se transmite em relação ao conceito de objeto desde Freud a Lacan é a marca inquestionável da falta, que, de um modo ou de outro, se articula invariavelmente ao tema objeto na psicanálise, sendo a experiência analítica a via privilegiada de seu conhecimento. Para Lacan, o que há de inapreensível para o sujeito neurótico na experiência analítica não é o rochedo da castração, como dizia Freud, mas o objeto a. Lacan acrescenta, explicando que no neurótico a castração já se apresenta de maneira imaginária na representação do (-φ). Todavia,
ao sujeito é difícil fazer de sua castração imaginária aquilo que falta ao Outro (LACAN, 1962-63/2005).
O sujeito é resultado da introdução primeira do significante feita pelo Outro, que se torna o detentor enigmático daquilo que falta ao sujeito, considerado um ser de linguagem. Conforme o ensino de Lacan, toda essa experiência ocorre no campo da linguagem, é ao adentrar nesse campo que algo se perde. “O objeto a é algo de que o sujeito, para se constituir, se separou como órgão.” (LACAN, 1964, p. 101). E que faz com que o sujeito apareça marcado, dividido, não-todo.
É nas operações de alienação e separação que o sujeito se apoia em sua constituição, uma operação de separar-se e alienar-se no campo do significante do Outro, na diferença e semelhança do Eu em relação ao Outro, lugar de linguagem onde a causa do sujeito se localiza, ou seja, o sujeito “não é causa dele mesmo, mas traz em si o germe da sua causa que o cinde.” (LACAN, 1960/1998, p. 849).
No advento do sujeito há, de acordo com a teoria lacaniana, uma escolha forçada, inconsciente que definirá a entrada do sujeito dentro da lógica da cadeia significante ou dentro do funcionamento da linguagem, cuja via sexual se inscreve na falta de um representante da diferença sexual. A falta inaugura, ao sujeito, a possibilidade de se articular no campo das representações simbólicas. Todavia, alguns sujeitos fazem outro modo de escolha no momento de sua constituição, os sujeitos psicóticos são aqueles que não captaram a inscrição da falta dentro da via sexual o que terá tido como efeito um modo de se organizar na linguagem desarticulado do encadeamento de significantes. Nesses sujeitos, o objeto a não foi extraído como causa ou resto da operação de entrada na linguagem; na psicose o sujeito não se separou do objeto e, assim, nada lhe falta, e ele não conhece a inscrição da diferença.
Dedicar-nos-emos, no próximo ponto, às particularidades dos sujeitos psicóticos em relação à linguagem e ao objeto a.