No ano de 1989, o Jornal A Tarde fez uma matéria sobre o pioneirismo da Vila Operária da CEIN.37 O jornalista entrevistou moradores, antigos operários e, entre estes, alguns descendentes dos pioneiros da experiência da Vila. O propósito da entrevista, como a chamada sugere, foi destacar “uma experiência pioneira em termos de justiça social”. Importa nessa reportagem, particularmente, ouvir as vozes das pessoas entrevistadas, reconhecendo o uso de filtros sobre estas manifestações, que foram adequadas aos interesses da matéria. O tom melancólico e saudosista das lembranças dos “bons tempos” que a matéria procurou enfatizar não conseguiu mascarar muitas das dificuldades vividas que aqui e acolá escaparam e insistiram em aparecer nos depoimentos. Neste sentido, a fala do Sr. Lino Silva Santos, então com 72 anos e ex-servente da empresa por mais de 40 anos é emblemática para se perceber a compreensão que os moradores tiveram sobre as interferências ocorridas naquele espaço e os problemas por eles enfrentados:
Meu pai dizia que no tempo de Luiz Tarquínio, a vila era uma beleza: tudo cuidado, tudo limpo. A gente aqui já passou por muitos apertos depois que ele morreu. Primeiro, foi com a Coca-Cola, que comprou uma parte do terreno da Vila e obrigou muita gente a procurar outro lugar para morar, distante da fábrica. Depois destruíram os coretos, o armazém, o açougue, o consultório e a escola, que ficava no meio da praça, foi trocada por outra, maior, mais modernosa, lá no fundo. Quando as coisas começaram a ficar
35SAMPAIO, José Luiz Pamponet. op. cit.
36 CELESTINO, Mônica. Memória da Bahia II, publicada no ano de 2004. 37O Pioneirismo de Luiz Tarquínio. A Tarde. 29.03.1989
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pretas para o Empório, eles já não sabiam o que fazer com a gente. Havia uma determinação de Luiz Tarquínio de que um operário, depois de 10 anos de trabalho seguidos ganhava a escritura da casa, e, mesmo assim, só pagava aluguel até o quinto ano de serviço, mas na prática, as coisas foram diferentes.38
Este breve relato do Sr Lino traz à tona alguns pontos sobre as alterações físicas ocorridas naquele espaço e que repercutiram no cotidiano dos moradores da Vila. Algumas refletiram as oscilações que o empreendimento industrial experimentou no correr dos anos. As dificuldades enfrentadas pela Empresa terminaram por influenciar na dinâmica da Vila anunciando mudanças de rumo, na maioria das vezes em desacordo com os propósitos que lhe deram origem. Essas alterações seguiram os ritmos das transformações mais amplas vividas pela sociedade brasileira e baiana em particular. Mas também obedeceu à lógica interna de funcionamento.
É preciso compreender a dimensão simbólica dessas intervenções, e as falas dos moradores possibilitam conhecer como elas se deram e de que maneira eles ressignificaram os espaços internos e as relações com antigos vizinhos. O confronto das informações presentes neste e em outros depoimentos permite acompanhar a manutenção dos laços afetivos vividos no campo das lembranças comuns, desencadeadoras da lembrança social. Permite também conhecer as tensões que marcaram o viver naquele espaço de sociabilidades.
Num outro momento, o relato do Sr. Fernando Mendes de Souza, “morador da 8ª seção, casa 6, da Vila Operária da Empório”, com 87 anos, “dos quais, 63 dedicados à fábrica” registra sua compreensão das intervenções no interior Vila. Sua fala está presente no jornal Tribuna da Bahia, no ano de 1974, ocasião em que a prefeitura de Salvador negociou a reforma na praça central da Vila e a construção de um colégio maior para atender à crescente demanda escolar da região. Para esta matéria, o jornalista também colheu alguns depoimentos de moradores e foi possível perceber a frustração do Sr. Fernando quando afirmou que não entendia porque na “seção e meia que a Souza Cruz comprou e demoliu” nada ainda tinha sido construído.39 A frustração advinha, sobretudo, da adequação dos moradores ao novo arranjo espacial, afinal, os que ocupavam as casas dos quarteirões vendidos tiveram que ser remanejados para outras casas dentro da Vila e outros ainda tiveram que procurar outro lugar para morar. Muitos são os registros em que os depoentes mencionam ter morado em
38O Pioneirismo de Luiz Tarquínio. A Tarde. 29.03.1989.
39Uma praça na Vila que Tarquínio criou. Tribuna da Bahia. 02.09.1974. A área que o Sr Fernando se refere
correspondeu ao projeto de expansão da Souza Cruz que, nesta ação, teria comprado e demolido o correspondente a15 casas.
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momentos distintos, em casas diferentes da Vila revelando o constante arranjo de adequação as alterações impostas pela realidade enfrentada pela CEIN.40
Embora apareça em alguns depoimentos de antigos moradores a instalação do depósito da Coca-Cola numa área da Vila, não foi encontrada nenhuma documentação sobre a negociação entre a CEIN e esta empresa. O site da Coca-Cola informa que a empresa chegou ao Brasil no ano de 1941, se instalando inicialmente em Pernambuco. Consta ainda que sua produção teve início na cidade de Recife, na Fábrica de Água Mineral Santa Clara, se espalhando por outros estabelecimentos da capital pernambucana e simultaneamente estenderam-se por outras cidades. Ainda segundo o site, aquela produção servia para “matar a sede dos pracinhas americanos e brasileiros que circulavam pelo chamado ‘Corredor da Vitória’, parada obrigatória dos navios para a América do Norte e a Europa, na Segunda Guerra Mundial”. Ainda de acordo com o site, foi no início da década de 1940 que a Empresa implantou o sistema de franquias no Brasil dilatando sua atuação após a criação da primeira fábrica no bairro de São Cristóvão no Rio de Janeiro.41 É possível que a instalação do depósito da Coca-Cola numa área anteriormente pertencente a CEIN tenha acontecido durante esse período.
Sobre as negociações entre a CEIN e a empresa de cigarros Souza Cruz foi possível perceber que ela se deu em dois momentos distintos. No Arquivo Municipal de Salvador e na documentação da CEIN consta o projeto proposto pela Souza Cruz de modificações e acréscimos nos edifícios situados à avenida Luiz Tarquínio. Uma vez que se tratava de uma fábrica de cigarros, foi preciso o aval da Inspetoria de Engenharia Sanitária, órgão vinculado ao Departamento de Saúde Pública. O aval foi dado em 18 de maio de 1935. Após esta liberação, a Diretoria de Engenharia Municipal aprovou a planta para a reforma das instalações e adequação aos interesses da nova empresa no dia 08 de agosto de 1935.42 A empresa Souza Cruz comprou mais de um quarteirão da Vila e os moradores que ocupavam estas casas tiveram que ser realocados. Sem dúvida alguma tudo isso provocou alterações no estabelecimento de novas vizinhanças que certamente causou frustrações para os que tiveram que dela sair. Nos registros de lembranças dos antigos moradores, as datas em que aconteceram essas intervenções aparecem confusas, características próprias das memórias que por vezes se revelam fragmentadas.
40CELESTINO, Mônica. Memória da Bahia II, publicada no ano de 2004. 41Site oficial da Coca-Cola. Acessado em: 20.08.2010.
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Conforme visto no capítulo anterior, alguns filhos de antigos operários passaram a trabalhar nas novas fábricas instaladas na região. No depoimento prestado ao jornal Correio
da Bahia, no ano de 1995, D. Luiza Ferreira Sena, então com 76 anos, afirma que “passou a
adolescência desembaraçando fios de algodão” e que, ainda “na juventude trocou seu posto por uma vaga na fabricante de cigarros Souza Cruz, caminho percorrido por inúmeros” outros filhos dos antigos operários da CEIN.43
Talvez as novas empresas instaladas na região oferecessem melhores salários. Talvez as famílias buscassem diversificar as fontes de renda do grupo com membros trabalhando em lugares distintos. É possível ainda que os trabalhadores, ao perceberem as oscilações na produção da CEIN, buscassem novas formas de sobreviver àquela nova realidade. É possível ainda que os recursos empregados pela CEIN para atrair e reter os trabalhadores não mais representasse vantagens competitivas em relação as oferecidas pelas demais fábricas instaladas na região. Difícil saber sobre as escolhas individuais, certamente o conjunto desses fatores contribuiu para a mobilidade dos trabalhadores.
A documentação consultada permitiu saber que a Fábrica realizou modificações em suas instalações físicas para se adequar as exigências que se impunham, ora fruto das necessidades internas, ora fruto das adequações as novas Leis implantadas. No Relatório de 1937 os diretores mencionam a montagem de um refeitório “dotado de mesas e bancos higienicamente dispostos, fornos aquecedores e abundante serviço de lavatórios, onde, ao abrigo de toda e qualquer impureza” pudessem os operários fazer suas refeições.44 Até então os operários que moravam na Vila ou nas imediações podiam almoçar em casa. Cabe lembrar o episódio narrado no capítulo anterior em que os policiais atiraram nos operários quando estes retornavam do horário de almoço. Os que não moravam na Vila ou nas proximidades traziam suas marmitas. É possível que o número de trabalhadores que moravam distante tenha aumentado ou mesmo que a Empresa tenha reduzido o tempo do almoço porque o refeitório foi construído antes da exigência da Lei que impunha a construção de refeitório para as indústrias que tivessem mais de 500 operários. O número dessas empresas no Brasil, nesse período, era bastante reduzido. Em 1920, somente 16,93% dos estabelecimentos tinham mais de 100 operários e eram responsáveis por 89,01% do total de operários; em 1940, a proporção era de 17,33% e 85,95% respectivamente.45
43Abandono condena a Vila Operária a decadência. Correio da Bahia. 26.08.1995. 44CEDOC. CEIN. Relatório. 1937.
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Segundo o Relatório datado de 1940, o refeitório foi inaugurado em 24 de julho de 1937, em mais uma celebração na data do aniversário do Luiz Tarquínio. Ainda segundo o relatório, o refeitório foi “visitado pelo Exmo. Sr. Ministro do Trabalho em 13 de dezembro de 1938” constatando que ele já se encontrava “enquadrado nos princípios estabelecidos no Decreto nº 1.238 de 2 maio de 1939 que torna obrigatório a construção de tal dependência nas fábricas que trabalham com número superior a 500 operários”.46
No ano de 1947 a CEIN realizou uma mudança interna acentuada no que diz respeito à localização do posto médico. No Relatório do ano seguinte, consta que, no ano anterior, “por conveniência do serviço interno” e talvez atendendo às exigências da seguradora dos acidentes de trabalho, a CEIN teria iniciado “a adaptação de um local dentro da Fábrica para a transferência” do posto médico, até então “localizado na Cidade Operária”. A expectativa era de que a mudança atendesse melhor as “atuais necessidades” da Empresa. No mesmo ano adquiriram ainda um aparelho de raio X cujo fim seria o censo radiológico semestral dos operários.47
A citada Lei que impôs a construção dos refeitórios para empresas que tinham mais de 500 trabalhadores definiu também sobre sua proporcional contribuição ao Instituto de Aposentadoria e Pensões aos industriários prevendo a aprendizagem dos operários.