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3.2 Deep Neural Networks

3.2.7 Repeat Ensembles

Como observado anteriormente, a Vila contava com uma infra-estrutura interna que atendia as necessidades básicas dos moradores. Apenas para relembrar, cabe destacar que eles dispunham de água, luz elétrica, armazém, farmácia, creche e posto médico. Este também era um ponto de distinção entre os moradores da Vila e demais moradores pobres da cidade. Nos registros de memória dos moradores antigos nota-se o envaidecimento pelo fato de disporem de tais benefícios. A introdução desses serviços requeria o aprendizado do seu uso. Cabe lembrar que os moradores, em sua grande maioria, advinham de moradias que não dispunham desses recursos, mesmo aqueles que residiam anteriormente na cidade de Salvador. Há que se considerar ainda o fato de alguns originarem do mundo rural a exemplo das famílias que vieram em decorrência da seca. Essa investida da Empresa encontrou também alguns embates.

O contingente de mulheres empregadas na fábrica se manteve maioria por quase todo o período abarcado por esse estudo e percebe-se que desde cedo houve preocupação em manter esse exército de trabalhadoras.89 Para tanto, alguns recursos atrativos foram implementados a exemplo da criação da creche no interior da Vila e ainda nos primórdios da empresa era concedido as parturientes um repouso de duas semanas antes do parto e um mês após.90 As mulheres também podiam deixar o trabalho no horário de amamentação dos filhos, demonstrando que os empresários se preocupavam ou comungavam com as idéias sobre a importância da puericultura como investimento no futuro do país e o investimento na educação da mulher operária com relação à saúde e higiene, com a intenção de interferir na maneira como elas se relacionavam com a maternidade e o aleitamento.91 A preocupação com a família operária, com a infância, com a amamentação, a creche, era justificada pela idéia de

89Conforme será observado no próximo capítulo, essa proporção mudou a partir dos primeiros anos da

década de 1940.

90PINHO, Péricles Madureira de. Luiz Tarquínio. In:_____. PINHO, Péricles Madureira de. São assim os

baianos. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1960, p. 95.

91Estas preocupações foram difundidas pelo saber médico do período através das teses de doutoramento.

Consultar a respeito SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

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melhoria racial, através do cuidado com o físico e a mente, idéias tão caras e difundidas no final do século XX e início do século XX.92

No que diz respeito à creche, um dado importante chama a atenção. Embora ela tenha sido construída juntamente com a Vila, até o ano de 1899 não havia sido utilizada, pois “as mães operárias preferiam confiar seus filhos aos cuidados de parentes”.93

Percebem-se neste registro elementos identificadores das dificuldades encontradas pelos empresários para promover as mudanças de hábitos tradicionalmente vivenciados pelos moradores e adequar suas condutas aos interesses da empresa. A julgar pelos demais serviços internos da Vila, é possível que a creche dispusesse de condições para a guarda e cuidado das crianças. Ainda assim, as mães demonstraram pouca confiança nesta nova modalidade proposta pela empresa, preferindo adotar a forma costumeira de confiar a guarda de sua prole a parentes.

Este registro também é revelador dos limites enfrentados pela empresa para fazer valer as suas exigências. O rigor, tão destacado em muitos aspectos do cotidiano aos moradores da Vila, ao menos neste ponto foi flexibilizado, porque se as mães não deixaram seus filhos na creche foi porque puderam fazê-lo ou quiseram manter a tradição de que a educação de filhos menores é obrigação da mulher e não da empresa.

Ao que parece, esta relação das mães com a creche mudou a partir do final do ano de 1923, quando, segundo o Relatório publicado no ano seguinte, a Empresa noticiou uma mudança na creche que foi valorizada pelo Conselho Fiscal. No relatório consta que:

Procurando reviver uma das belas criações do grande benemérito que foi Luiz Tarquínio, reinstalamos a CRECHE MATERNAL, dotada desta vez sob moldes mais modernos. Encarregou-se da sua instalação o batalhador e distinto médico Dr. Martagão Gesteira, a quem, aqui, nos cabe o dever de testemunhar os nossos sinceros agradecimentos. Perante grande número de acionistas e mais pessoas de alta representação, foi reinaugurada em 8 de Dezembro p.p. recebendo a denominação de CRECHE LEOPOLDO JOSÈ DA SILVA, em homenagem a memória de um dos fundadores da nossa Empresa e seu dedicado Diretor até o último dia de sua existência.94

92

Idem. Ibidem. p. 232 e 233

93SAMPAIO, José Luiz Pamponet. A evolução de uma empresa no contexto da industrialização

brasileira: A Companhia Empório Industrial do Norte, 1891-1973. 1975. 236f. Dissertação (Mestrado

em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências humanas, Universidade Federal da Bahia. p. 89.

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O posto médico e a farmácia tinham um papel emergencial e preventivo. A presença do médico tinha ainda o papel de socorrer prontamente aqueles que sofriam acidentes no processo produtivo.95 Buscava-se também, com a higiene, evitar as constantes epidemias que assolavam a cidade em virtude das condições de sobrevivência da maioria da população, e, sobretudo pela dinâmica do porto que proporcionava os contatos com o mundo de fora. O Relatório de 1903 informa que além da assistência médica, a direção geral da Vila teria ficado também a cargo do Dr. Adriano Gordilho que teria continuado “no seu papel de facilitar o trabalho do bom comportamento do operário” bem como o cumprimento com a “observação de uma boa higiene”.96 Dois anos depois, o Relatório informa que a “organização e higiene da Vila” foi comprovada pelo fato da mesma ter atravessado “incólume uma epidemia de peste bubônica”.97

Os relatórios teceram continuados elogios à boa “conservação, sendo lisonjeiro o seu estado sanitário” para quem muito concorreu a “dedicação do nosso ilustre Dr. Adriano Gordilho”.98 Os registros diziam respeito à higiene dos moradores e do espaço físico da Vila que, de acordo também com o Relatório do ano seguinte continuava em virtude da “dedicação e competência” com que o médico prestava seus serviços e a quem era sempre creditado “principalmente, o bom estado sanitário da Vila Operária.99

No ano de 1919, contudo, o Relatório informa que “uma epidemia de varíola” teria atingido os trabalhadores em “diversas secções da Fábrica”. Mesmo assim, o Relatório registra que apesar dela, a “taxa de lucro” ainda foi “considerada satisfatória”.100 Infelizmente o Relatório não informa sobre a existência de óbitos, sobre o número exato de trabalhadores acometidos pela doença e se dentre os doentes, havia maior ou menor incidência de moradores da Vila.

Todos esses elogios feitos ao Dr. Adriano Gordilho também visavam justificar os investimentos materiais feitos pelo mesmo para garantir a saúde dos moradores da Vila. Desde o ano de 1901 que o fornecimento de medicação gratuita aos doentes estava

95Os acidentes de trabalho serão tratados no capítulo 04.

96CEDOC. CEIN. Relatório. 1903. O fato do médico passar a ocupar também o cargo de administrador da

Vila fazia parte das medidas de contenção de custo anunciadas pelos diretores após a morte dos seus fundadores.

97APEBA. CEIN. Relatório. Jornal de Notícias. 14.03.1905. 98CEDOC. CEIN. Relatório. 1916. p. 8

99CEDOC. CEIN. Relatório. 1917. p. 7

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entre os prêmios que a empresa recompensava os operários “assíduos e dedicados ao trabalho”.101 O médico pode, em momentos distintos fazer aquisições de equipamentos para o consultório da Vila e no ativo do Balanço Geral da Empresa, o registro referente ao estoque da Farmácia da Vila aparece com valores significativos altos.102

José Simão descreve que além da “farmácia”, a Vila possuía “uma bem fornecida loja de fazendas e ao fundo do açougue o armazém de víveres”, onde se viam expostos “desde o champagne ao vermute, e desde a clássica farinha e carne seca até o mais custoso e delicado confeito”. Ali se achava também as “frutas européias, conservas em lata e a multidão de objetos (...) de primeira ordem” lá se encontrava “à venda”.103

Ao que parece os produtos mais sofisticados expostos nas lojas internas da Vila tinham o propósito de estimular o consumo, se não imediato, ao menos como projeção para o futuro. Aquele sortimento em exposição aliado a toda a campanha que a empresa fazia da valorização do trabalho e dos seus resultados despertavam a crença no acesso àquelas mercadorias e ainda fomentavam o estímulo ao aumento da produção.

De acordo com o detalhado Relatório de 1896, os operários recebiam pelo preço de custo os principais gêneros alimentícios, registrando que esta medida representava uma economia de 40% para os mesmos comparando com os demais preços praticados pelo comércio da cidade e os da loja da Vila. Informava ainda que aquela “benéfica medida”, no entanto, não acarretava “nenhum ônus” à Companhia.104

Três anos depois, os diretores ainda se justificavam aos sócios sobre os investimentos feitos na Vila. Para aqueles que ainda duvidassem da validade daqueles investimentos afirmaram: “à execução do capital nela empregado, das despesas com reparações de prédios e iluminação, ela em nada é pesada aos cofres da Companhia As suas escolas, o serviço sanitário e outros são pagos apenas com os lucros dos seus armazéns”.105

Bem, se os produtos eram vendidos a preço de custo, certamente não poderiam cobrir todos os serviços descritos acima. É possível que os preços praticados tenham

101APEBA. CEIN. Relatório. Diário da Bahia. 28.03. 1907 102CEDOC. CEIN. Relatórios.

103COSTA, José Simão da. Jornal de Notícias. 07.11.1898 104CEDOC. CEIN. Relatório, 1896, p. 11.

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aumentado, ou mesmo que tenham permanecido mais baratos somente os gêneros de primeira necessidade. Esta hipótese é alimentada pelo registro encontrado na ata da

Associação Comercial da Bahia. Nela o empresário Luiz Tarquínio fez saber aos

demais que, em face da carestia dos alimentos, em virtude da seca, disponibilizou a compra da farinha aos necessitados pelo mesmo preço que pagavam seus operários. Para controlar esta aquisição ele limitou a quantidade por comprador.106

Nos registros de antigos moradores encontram-se também a referência a venda de cortes de tecidos com pequenas avarias mais baratos. Os trabalhadores eram multados quando, no processo de produção, danificavam o tecido. Posteriormente era possível adquiri-los na loja da Vila. Esta prerrogativa possibilitava aos moradores disporem de alguns tecidos que, em outras circunstâncias, provavelmente não teriam condições de adquiri-los.

Quanto aos produtos mais sofisticados descritos pelo engenheiro José Simão, ainda que tenham sido vendidos mais baratos do que em outras lojas da cidade, o rendimento médio dos trabalhadores não permitia o acesso rotineiro àquelas mercadorias. É provável que o consumo dos mesmos se desse em ocasiões especiais e contribuíram dessa forma para uma interferência nos hábitos de consumo dos seus habitantes. O consumo dos produtos das lojas e o acesso aos serviços nas dependências internas da Vila promoviam uma mudança nos hábitos de consumo. A família aprendia a conviver com os serviços e deles passavam a depender. Nos relatos dos antigos moradores da Vila, percebe-se que a disposição desses serviços despertavam encantamento entre eles.107

O custo dos serviços básicos como luz, água, escola e creche estavam embutidos no valor do aluguel. A referência ao pagamento destes nos depoimentos de antigos moradores é quase sempre minorada. A oferta dos serviços internos da Vila de fato trouxe vantagens materiais aos moradores, ainda mais se consideramos a oferta habitacional da cidade de Salvador e as condições gerais vivenciadas pelas camadas populares do período. Segundo Mario Augusto Santos, a maioria da população, se

106AMBA. Atas. 20.08.1899. 107

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deparava com uma moradia cara e de baixa qualidade, agravada pela contínua expulsão dos moradores em função do comércio.108

As reiteradas falas a respeito dos “diminutos” aluguéis pagos pelos moradores contribuíram para a disseminação da idéia de que eles foram baratos. Estes representaram, ao longo do tempo, uma média de ¼ dos salários. Num dos seus escritos Luiz Tarquínio, informou que, a “família operária pela insignificante soma de 2$500 (dois mil e quinhentos réis) por semana” tinha direito a muitos serviços, como “água, médico, escola primária onde seus filhos” poderiam aprender “simultaneamente duas línguas, escola de música, escola de desenho e de pintura, escola de tecelagem, sala de leitura, biblioteca e museu.109 O empresário informou um único valor para os aluguéis. Sabe-se, contudo, que as casas eram distintas no que se refere ao tamanho do imóvel, e que os alugueis também eram diferentes. Neste registro o empresário se referiu apenas ao aluguel dos imóveis menores.

A julgar pela informação de José Simão, em apenas três anos ocorreu um aumento considerável, pois segundo ele, “o aluguel das casas menores [era] de 3$500 e das casas maiores 9$000 por semana”. Os moradores tinham “direito a água, luz elétrica, escolas, livros escolares, biblioteca, música, diversões e serviços médicos, tudo gratuitamente”. Os pagamentos dos salários aconteciam semanalmente com os descontos referentes ao aluguel e as multas caso houvesse.

As casas maiores foram provavelmente ocupadas por famílias mais numerosas, e os alugueis ficavam proporcionalmente menores, a depender do número de pessoas que morassem nelas. Por sua vez o custo da sobrevivência onerava, uma vez que aumentava o número de corpos para serem alimentados, vestidos, medicados.

Muitas experiências brasileiras com vilas operárias registram a variação no tamanho das moradias e dos respectivos valores pagos referentes aos aluguéis. Na Vila Maria Zélia, construída em 1912 na cidade de São Paulo pelo industrial Jorge Street, por exemplo, eram significativas as diferenças nessas construções. Naquele caso, as casas mais aparelhadas e maiores justificavam-se tanto pelo fato de abrigar famílias

108SANTOS, Mario Augusto da Silva. Sobrevivência e Tensões Sociais – Salvador (1890-1930). 1982.

472f. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo. op. cit., p. 152-166.

109TARQUÍNIO, Luiz. Apelo aos ilustres representantes da Nação e a Ilustrada Comissão Revisora da

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mais numerosas quanto os administradores, chefes intermediários, mestres e operários mais qualificados. Para Palmira Petratti a presença desses moradores colaborava com a vigilância dos demais.110

A julgar pelo registro do Sr. Jacob Penteado, ao menos os técnicos mais qualificados moraram na Vila da CEIN, pois seu pai, morador da Vila, teria montado e dado manutenção aos teares instalados. É possível que nesta experiência também os operários que ocupavam cargos de confiança e eram hierarquicamente superiores também contribuíssem para a manutenção da disciplina.111

Entre os empresários fundadores a obediência devotada pelos operários moradores da Vila era conseguida, sobretudo pela forma como os administradores se impunham. No detalhado Relatório de 1895, informam aos acionistas que a superintendência de “todo o serviço médico e sanitário” cabia ao “muito distinto e ilustre Sr. Adriano Alves de Lima Gordilho, cuja aptidão e proficiência só pedem meças à sua inexcedível dedicação, amor ao trabalho e fidalgo trato”. Registra o rigor na assepsia do espaço e credita a ele a “quase ausência de moléstia séria, fruto das severas medidas higiênicas que a todos impõe”. O Relatório destaca que aquelas medidas eram “aceitas sem queixas, graças as suas maneiras delicadas e corteses” com que o médico tratava a todos.112

As referências ao asseio e a ordem foram reiteradas em diversos registros sobre a Fábrica e a Vila e apontados como as condições necessárias para o bom desempenho e para o progresso de todos. A exigência referente à limpeza dizia respeito ao espaço físico e se estendia ao corpo dos trabalhadores.

A exigência com a limpeza do espaço de moradia, do trabalho e dos corpos dos operários foi analisada por Margareth Rago ao mostrar que a “fábrica higiênica” marcou o despontar de um novo regime disciplinar, que pretendia tornar o espaço de produção

110Palmira Teixeira, estudando a Vila Maria Zélia, do industrial Jorge Street, em São Paulo cuja

construção teve inicio em 1912, observa que naquele caso, a diferenciação das construções explicava-se em decorrência da distribuição aos empregados, uma vez que as casas maiores e melhor aparelhadas eram destinadas aos administradores, mestres, operários mais qualificados e famílias mais numerosas. Consultar a respeito TEIXEIRA, Palmira Petratti. op. cit, p.76.

111PENTEADO, Jacob. Op. cit. P. 92 112APEBA. CEIN. Relatório. 1895. p. 11

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“tranqüilo, agradável, limpo e atraente para o trabalhador”.113 Para a autora, esse entendimento pautava-se em um saber “científico”, no qual a organização do trabalho deveria correr num ambiente com uma boa ventilação e iluminação, em edifícios amplos e espaçosos, com novas tecnologias que facilitassem os trabalhos mais pesados. Assim, no ambiente de trabalho os operários deveriam se sentir “seguros, protegidos e com vontade de produzir” ao lado de patrões também “educados”.114 Rago destaca que, essa transformação deveria ser interna e externa à fábrica, alcançando o trabalhador, visando à alteração da subjetividade, pois, do mesmo modo que a fábrica, ele deveria ser limpo e sua casa, mesmo que pequena, limpa e confortável.

A autora reflete sobre as investidas na mudança dessa imagem da fábrica e das moradias operárias. Mostra que a situação vivida pelo trabalhador inglês em meados do século XIX levou a todo um esforço para mudar a imagem “satânica” que os operários construíram a respeito da fábrica e do trabalho. É claro que esta imagem refletia as condições reais vivenciadas por eles. Muitas e diversificadas foram as experiências de empresários que perseguiram a alteração deste modo de ver o ambiente produtivo. Rago destaca que a representação desta “nova fábrica”, também foi anunciada nos Estados Unidos no final do século XIX, por Frederick W. Taylor, visando mudar a representação anterior do trabalho que também os operários daquele país tinham. Estes empresários defendiam a eliminação da imagem da “fábrica satânica”, escura e fétida, “detestada pelos trabalhadores, que se sentiam sugados em todas as suas energias”. Em contrapartida, a nova fábrica deveria ser asséptica e racional, e apagar todos os ranços e lembranças negativas do passado.115

No Brasil, algumas experiências que já foram estudadas revelaram empresários que também investiram na mudança dessa representação. Infelizmente há uma lacuna na história empresarial do país confrontando essas e outras idéias para melhor se conhecer as estratégias adotadas pelo empresariado brasileiro.

Ainda de acordo com Margareth Rago, a imagem recorrente no meio não acadêmico dos primeiros empresários brasileiros que introduziram métodos de trabalho diferenciado é mitificada e associada à idéia de pais protetores. Para ela a maioria das

113RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar – a utopia da cidade disciplinar (Brasil 1890-1930). Rio de

Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 37.

114Idem. Ibidem. p.39. 115

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ações assistencialistas empregadas por industriais como Luiz Tarquínio e Jorge Street foram compreendidas como bondade, até mesmo por alguns operários e não como estratégias para extração racional da força de trabalho. Segundo a autora, foi a imprensa operária que atuou na “desmistificação a ideologia da assistência social das obras de Street, tido como um dos industriais mais progressistas do período, ou de outros como Luiz Tarquínio na Bahia, admirado até mesmo por um operário como Jacob Penteado”.116

A mitificação da “assistência” de Luiz Tarquínio foi alimentada pela intensa campanha que a própria empresa fazia para propagandear entre suas redes de influência, a Vila Operária como um empreendimento de cunho social, sem destacar suas funções lucrativas. Esses elementos só eram abordados aos sócios da CEIN quando se buscava convencê-los a aprovarem as medidas propostas pela Diretoria.

Durante a sua existência, a Vila sofreu inúmeras transformações. Se no início os diretores registravam que, as “despesas com reparações de prédios e iluminação” em nada pesavam “aos cofres da Companhia”, destacando que “despesas com a escola, o serviço sanitário e outros” eram “pagos apenas com os lucros dos seus armazéns”.117 Na seqüência, as direções passaram a registrar o quanto a sua manutenção onerou para a Companhia. Essas alterações aconteceram gradativamente até os anos 1930. Nas