Como procedimento metodológico para analisar o objeto de estudo fez-se opção pela análise de conteúdo por ponderar que nessa técnica
o analista tira partido do tratamento das mensagens que manipula, para inferir (de maneira lógica) conhecimentos que extrapolem o conteúdo manifesto nas mensagens e que podem estar associados a outros elementos (como o emissor, suas condições de produção, seu meio abrangente, etc.) (FRANCO, 2007, p. 29 – grifo da autora).
Neste trabalho, a análise de conteúdo tomou por base a análise temática. Esse tipo de análise “consiste em descobrir os ‘núcleos de sentido’ que compõem a comunicação e cuja presença, ou frequência de aparição, podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido” (BARDIN, 2011, p. 135). A busca dos núcleos de sentido se deu por temas como unidades de registro, em trechos das informações obtidas e transcritas consideradas como unidades de contexto. Esse procedimento foi adotado procurando imprimir significado às
10 Ressalta-se que o processo de transcrição foi dificultado pela dinâmica da entrevista em grupo, tendo como
principal dificuldade a sobreposição de falas das colaboradoras, sendo necessário um processo extenuante de ir e vir (a gravação) para garantir a compreensão de cada uma das falas, exceto na entrevista individual. Por isso, a transcrição de cada uma das entrevistas levou mais de um dia.
categorias de análise, visando uma interpretação mais aprofundada e contextualizada das representações das necessidades formativas dos colaboradores da pesquisa.
Segundo Franco (2007, p. 41), “a unidade de registro é a menor parte do conteúdo, cuja ocorrência é registrada de acordo com as categorias levantadas”, enquanto que “a unidade de contexto é a parte mais ampla do conteúdo a ser analisado, porém é indispensável para a necessária análise e interpretação dos textos a serem decodificados” (p. 47).
Ainda sobre a unidade de contexto, considera-se que esta sirva para “codificar a unidade de registro e corresponde ao segmento da mensagem, cujas dimensões (superiores às da unidade de registro) são ótimas para que se possa compreender a significação exata da unidade de registro.” (BARDIN, 2011, p. 137).
A opção pela análise temática foi por considerá-la “como a mais útil unidade de registro, em análise de conteúdo. Indispensável em estudos sobre propaganda, representações sociais, opiniões, expectativas, valores, conceitos, atitudes e crenças” (FRANCO, 2007, p. 43, grifo nosso).
O tema é compreendido como “uma unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo certos critérios relativos à teoria que serve de guia à leitura” (BARDIN, 2011, p. 135). Assim, o tema é “uma asserção sobre determinado assunto. Pode ser uma simples sentença (sujeito e predicado), um conjunto delas ou um parágrafo” (FRANCO, 2007, p. 42, grifo nosso). Dessa forma, as unidades de registro permitiram ao pesquisador fundamentar as interpretações, inferências e discussões em relação às informações relacionadas a cada categoria de análise.
A inferência é apontada por Franco (2007) como a própria razão da técnica de análise de conteúdo, pois, para a autora, é o que lhe garante relevância teórica.
Dessa forma, inicialmente, os dados provenientes das três fases foram submetidos à técnica das “leituras flutuantes” por ponderar que “a primeira atividade consiste em estabelecer contato com os documentos a analisar e em conhecer o texto deixando-se invadir por impressões e orientações” (BARDIN, 2011, p. 126). Ressalta-se que a transcrição e as notas de campo, mesmo tendo sido realizadas pelo pesquisador, foram submetidas ao processo de leitura após o retorno dos colaboradores da pesquisa.
Para a análise das informações dos questionários, a íntegra das respostas foi considerada como unidade de contexto e, em seguida, palavras e até mesmo orações completas foram sendo destacadas como unidades de registro. Para facilitar esse processo, as respostas a cada questão de todos os questionários foram digitadas em um software editor de planilhas eletrônicas e uma nova leitura foi realizada para identificar as unidades de registro a
serem destacadas, em cada uma das respostas, para serem agrupadas e categorizadas tematicamente.
Ao finalizar as análises das respostas aos questionários, as necessidades formativas representadas pelos colaboradores foram categorizadas tematicamente a partir das dificuldades, anseios e expectativas, ou seja, por meio dos aspectos críticos e significativos referentes aos saberes/conhecimentos necessários à prática profissional.
Dessa forma, elaborou-se um quadro para auxiliar na orientação das categorizações temáticas obtidas para análise a partir dos referenciais teóricos que subsidiam o presente estudo.
Quadro 3 – Categorias temáticas elaboradas Tipologias de conhecimentos/ saberes
necessários à docência Categorias elaboradas
Conhecimento do conteúdo Necessidades formativas do conteúdo específico Conhecimento pedagógico do conteúdo Necessidades formativas do conhecimento pedagógico do conteúdo
Saberes da formação escolar anterior Necessidades formativas da formação escolar anterior Saberes da formação profissional Necessidades formativas da formação profissional
Saberes dos programas e livros
didáticos usados no trabalho Necessidades formativas dos programas e livros didáticos Saberes da experiência na profissão, na
sala de aula e na escola Necessidades formativas da experiência na profissão, na sala de aula e na escola Fonte: Tardif e Raymond (2000, p. 215, adaptado) e Shulman (2005, adaptado).
Vale ressaltar que a divisão temática por categorias tem um caráter mais didático para facilitar a apresentação e análise dos dados, pois de forma análoga à considerada por Tardif (2010) quanto aos saberes docentes, conforme explicitado anteriormente, na seção 3.2, as necessidades formativas das colaboradoras também se apresentaram na forma de um amálgama, de certa forma coerente com as categorias elencadas. Assim, as necessidades foram representadas por meio de dificuldades, perspectivas e anseios provenientes de diferentes fontes de saberes, como: do conhecimento específico, do conhecimento pedagógico, da formação profissional, entre outros, ou seja, das categorias analíticas apresentadas.
Retomando os procedimentos de análise das informações, após o consentimento dos participantes da pesquisa quanto às transcrições das observações e entrevistas, essas foram
impressas e submetidas a diversas leituras para a identificação das unidades de contexto referentes a cada categoria. Para facilitar a categorização, cada tema foi identificado por uma cor diferente. Assim, durante as leituras das informações desses dois instrumentos, foram sendo destacados os fragmentos correspondentes a cada unidade de contexto de cada categoria temática elaborada.
Após a seleção das unidades de contexto, novas leituras foram realizadas com a finalidade de destacar as unidades de registro em cada trecho selecionado para subsidiar as interpretações do investigador para cada segmento escolhido. Esses segmentos textuais foram usados no processo de análise como suporte e fonte para compreensão das necessidades formativas identificadas e representadas pelo grupo de colaboradores. Por isso, os dados provenientes dessas duas etapas são apresentados na forma de recortes, com destaque de palavras e/ou trechos temáticos para a produção de significados, pois conforme assinala Bardin (2011), os resultados são tratados para que sejam “falantes”.
Todo o processo de análise das informações culminou na elaboração de um quadro11, com a organização dos segmentos textuais correspondentes a cada unidade de contexto, vinculados às categorias temáticas elaboradoras em que foram, ainda, destacadas as unidades de registro em cada um desses fragmentos.
Dessa forma, no processo de apresentação, análise e discussão das informações, busca- se validar os resultados da pesquisa destacando, nas informações das colaboradoras, palavras, trechos, fragmentos e até mesmo orações inteiras dentro das unidades de contexto, que se relacionassem com as categorias temáticas de análise elencadas. Os resultados da investigação são apresentados na seção a seguir.