3. Materials and methods
3.6. Western blot
Que grande parte da história de Minas não se terá desenvolvido nas margens do Rio das Velhas? E que mundo de segredos não estarão escondidos no fundo de suas águas profundas?” Lúcia Machado de Almeida (1956)43.
O rio das Velhas tem muitas histórias: reais e imaginárias. Nas histórias contadas pelos índios, antes da chegada dos colonizadores, registram-se momentos de luta e de destruição que resultaram na mortandade de índios com a sua escravização e com a ocupação do território para exploração de ouro e de metais preciosos enviados diretamente à metrópole para enriquecimento da corte portuguesa. Expedições coloniais que desvendaram seus mistérios produziram uma história extraordinária da vida natural que ali se desenvolvia. Cientistas do século XIX traduziram na linguagem da ciência as maravilhas da natureza. Outras histórias foram sendo contadas à medida que o rio foi mudando com impacto cada vez mais intenso da ação do homem em seu fluxo permanente.
2.3.1 Por que chamá-lo de rio das Velhas?
O nome rio das Velhas carrega consigo versões variadas e fascinantes. Uma delas, cunhada por um historiador de ofício e escritor de primeira linha, como Diogo de Vasconcelos
(1974), associa o nome do rio à tradução para o português da palavra "Gwaim–i”, de origem Tupi-Guarani, aportuguesada para Guaicuy, que significa “Gwain (velha) i (rio)”. Embora houvesse uma quantidade grande de outras nações indígenas, na região, a presença dos Tupi- Guarani em território mineiro, se deu em virtude da entrada dos bandeirantes, na visão de Diogo de Vasconcelos. Servindo-se das metáforas que o escritor Cassiano Ricardo faz da relação entre o homem e o sertão, Vasconcelos (1974) diz que, enquanto as montanhas das Minas Gerais empurravam os sertanistas terra-a-dentro, o rio, por sua vez, os carregava nos ombros para que eles soubessem o que o sertão tem de majestoso. Outra versão poética sobre nome do rio que complementa a ideia da origem indígena do nome do rio aparece nos belos poemas de Cláudio Manoel da Costa quando este expõe no Canto I de seu magistral Vila
Rica44 como surgiu a primeira Capital da Capitania da Minas. Por ordem do rei de Portugal, D
João V, o herói do poema de Cláudio Manoel da Costa que era o governador-geral das Capitanias do Rio de Janeiro e de São Paulo e Minas, Antonio Albuquerque Coelho de Carvalho (1655-1725), entra no território das Minas para exatamente ocupá-lo como
propriedade do reino português logo após o episódio da “Guerra dos Emboabas” que opôs
mortalmente bandeirantes paulistas em companhia de índios Tupi-Guarani aos portugueses. Sua ação colonizadora começa com a ocupação da margens do rio que posteriormente foi chamado de rio das Velhas. Em seu acampamento recebe três velhas índias (daí o nome do rio) e uma delas reconhece o filho de Fernão Dias Pais, de nome Garcia Rodrigues Pais, que era membro da companhia de Antonio de Albuquerque, e que trazia no dedo um anel de ouro. A velha que o reconheceu chamava-se Neágua, mãe de Aurora, uma índia que tinha sido
44
Se o ver-me neste estado é maravilhos/Ó Garcia, lhe diz, humilde e nua,/Eu sou Neágua, eu sou a escrava tua/ Muitas luas, me lembro, tem passado,/Desde quando vossos atacado/foi meu esposo Caribó [...] /Assaltaste de noite a nossa gente/E, mortos os mais destros na peleja/Fosse rigor do Céu, ou fosse inveja/Da Fortuna, eu, que a Aldeia
governava,/Passei com minha filha a ser escrava [...] /vagando esses sertões na companhia/
Dos vossos, eu me lembro como um dia/A preço do medo que desprezamos,/Vós nos comprastes; ainda nos lembramos/Do mimo de agasalho que fizestes [...] /Fomos por vosso mando: ali dispostas/A viver de outras leis, outros costumes/ Detestávamos já dos nossos Numes/(Se alguns Deuses talvez nós conhecemos/Na bruta liberdade em que vivemos) [...] / Armávamos ao peixe; sobre o rio/ Nos viu um dia o bárbaro Gentio/Que em pequenas canoas rouba e mata/Fugíramos talvez, mas o pirata/Nos supreende e conduz: vivemos cativos/a viver entre o seus e apenas viva [...] Se pois Aurora ocaso lhe incita/À compaixão, se em vosso peito habita/O antigo amor, fazei que a liberdade/Se dê a quem deseperta essa saudade;/ Esse vizinho povo ao fogo ao ferro/Abatei, destruí: apague seu erro;/ E alegre eu veja em vossa companhia/A vossa Aurora que a meu lado vivia (COSTA, 2012).
escravizada pelo bandeirante Garcia Pais, episódio que é retratado magnificamente pelo poeta da Inconfidência45.
Ao reunir o material já escrito sobre a origem do nome do rio das Velhas, para compor a presente tese, foram encontrados outros textos escritos em épocas diferentes que, de certa forma, reproduzem as descrições acima. Vale ressaltar a persistência de uma dada imagem do rio, no imaginário, pelo menos dos nossos escritores. A herança indígena do nome do rio, entretanto, não está apenas na palavra de origem Tupi-Guarani, mas carrega também a história de luta dos povos indígenas dessa região e condensa todo o processo de ocupação e de exploração da região na qual o rio das Velhas está situado. Ou seja, essa é uma parte de sua história que já não mais faz parte dos segredos escondidos no fundo de suas águas profundas. Um dado empírico que reforça a ideia da persistência lendária foi tirado de um artigo da Revista de Cinema Filmes Polvo, escrita por Nísio Teixeira (2008), ao fazer uma tomada cinematográfica na região banhada pelo rio das Velhas, na qual ele apresenta a reação de um menino de 11 anos de idade, em Barra do Guacuy, Minas Gerais, que fazia o papel de “guia
turístico” de sua equipe de trabalho e morava em frente a uma igreja construída no século
XVII pelos Jesuítas com o trabalho dos índios. Perguntado sobre porque o rio tinha esse
nome, o jovem guia, segundo a reportagem, respondeu sem titubear: “os índios, com a
chegada dos bandeirantes, fugiram com medo de serem escravizados, e só ficaram as velhas”. Ao vê-las se banhando no rio, os colonizadores o identificaram como rio das Velhas.
Mas a história poética do rio das Velhas teve outros caminhos inspiradores. Guimarães Rosa com seu amor profundo pelos sertões e veredas das Minas Gerais escreveu histórias fascinantes ambientadas na margem desse magnífico rio. Em seu discurso de posse como sócio titular da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro em 20 de dezembro de 1945, ao justificar seu amor pela Geografia, diz o escritor
De início meu amor pela Geografia me veio pelos caminhos da poesia – da imensa emoção poética que nos sobe da nossa terra e das suas belezas: dos campos, das matas, dos rios, das montanhas; capões, chapadões, alturas e planuras, ipuêiras e capoeiras, caatingas e restingas, montes e horizontes; do grande corpo, eterno do Brasil [...] Desarmado da luz reveladora dos conhecimentos geográficos, e provido tão só da sua capacidade receptiva para a beleza, o artista vê a natureza aprisionada no campo puntiforme do momento presente. Falta-lhe o saber da grande vida, envolvente do conjunto. Escapa-lhe a majestosa magia dos movimentos milenários: o alargamento progressivo dos vales, e a suavização dos relevos; e rejuvenescimento dos rios, que se aprofundam; na quadra das cheias, o enganoso fluir dos falsos-
braços que são abandonados meandros; a rapina voraz e fatal dos rios que capturam outros rios, de outras bacias, o minucioso registros dos ciclos de erosão, gravado nas escarpas; as estradas dos ventos, pelos vales, se esgueirando nas gargantas das serranias; os pseudópodos da caatinga, invadindo pouco a pouco, os “campos
gerais”, onde se destrói o arenito e aonde vão morrendo, silentes, os buritis; e tudo o
mais, enfim, que representa, numa câmara lentíssima, o estremunhar da paisagem, pelos séculos (ROSA, 1945 apud BEZERA E HEIDEMANN, 2006, os grifos são nossos).
Em 1952, Rosa viajou pelo sertão com um caderno onde anotava tudo que via: nome de bicho, de planta, de riacho, raça de gado, canções populares, foi aí que ele conheceu o vaqueiro Manuel Nardi (Manuelzão) que o inspirou a escrever Estória de Amor.
Fig.7 – Guimarães Rosa na comitiva do Manuelzão46
46 Ao contrário da título importado com a fotografia, Guimarães é que seguia Manuelzão na condução
A estória se passa na “Samarra que não era nem fazenda era só um reposto, um currais de gado, pobre e novo ali entre o Rio e as Serras-dos-Gerais”. Gira em torno de uma festa que celebrava a inauguração de uma igreja que Manuelzão fez construir a pedido da falecida mãe. Foi um evento altamente mobilizador que atraiu várias pessoas dos arredores, inclusive o padre, vindo para satisfazer o desejo do Manuelzão de fazer a missa na nova capela onde enterrara sua mãe Rosa Amélia. Mas na noite anterior à festa, quando todos
dormiam, ocorreu um evento inusitado, coisa profética: “o riacho que abastecia a casa secou”.
E aí:
[...] cada um sentiu no coração o estalo do silenciosinho que ele fez, a pontuda falta da toada, do barulinho [...] o riacho soluço se estancara, sem resto e talvez para sempre. Secara-se a lagrimal, sua boquinha serrana, era como se um menino sozinho tivesse morrido (ROSA, op. cit.).
É uma historia de solidariedade. Manuelzão, com a sua festa, orquestrava encontros e encontros, onde cada um conta sua própria história de reis e rainhas, noite a dentro. Até que, por fim, Manuelzão ouve de um dos convidados, a história de um vaqueiro que conseguiu
domar um boi brabo, “o Boi Bonito”. No final das contas, o vaqueiro não quis prêmio nenhum pelo seu feito. Ao contrário, a única coisa que desejava era que “o Boi Bonito pastasse livre naquelas paisagens”. Encantando com essa história, Manuelzão teve um ânimo muito grande,
nem seus sessenta anos o impedia de sonhar. Sentia-se um menino para conduzir a boiada
pelas Gerais. “A boiada vai sair, somos que vamos” (Rosa, op. cit.).
Manuelzão nasceu no distrito de Saúde, hoje Dom Silvério, na zona da Mata mineira, e só conheceu o sertão e as veredas mais tarde, quando o destino o encaminhou ao grande sertão e às águas do São Francisco, com seus peixes, povo e histórias. Foi por acidente de percurso. Em desespero existencial, após romper um noivado com uma prima, subitamente toma o rumo de São Paulo aos 28 anos, quando, no caminho, já em Carandaí, conheceu o fazendeiro José Drummond Figueiredo, chamado de Boca Preta, assim apelidado por causa de uma mancha escura no rosto. O criador e comerciante de gado e tropas, homem rico e trabalhador, facilmente convenceu o Manuelzão a ajudá-lo a levar as mercadorias até Pirapora, via Cordisburgo, onde embarcariam os animais num trem até o destino. Manuel Nardi encontrou o queria na vida e deixou de lado a ideia de ir para São Paulo. Sempre elogiou o Boca Preta pela correção e cumprimento da palavra empenhada. Após a morte do Boca Preta Manuel Nardi foi trabalhar com o Chico Moreira, fazendeiro primo de Guimarães Rosa, que tinha a fazenda Silga, na barra do rio de Janeiro, em Andrequicé, encostado no São
Francisco. O riozinho de nada engrossava em janeiro quando a cheia do Velho Chico o barrava com força e o fazia tomar respeito e nome de rio.
Inteligente, astuto e forte, Manuelzão teve liderança e criou uma lenda em torno de si. Entusiasmou o João Rosa, entrou na literatura mundial, dá nome à revitalização do rio das Velhas. O encontro com professores e estagiários do PMz se deu no espaço do Internato Rural em Andrequicé, onde vivia o Manuelzão. Do conhecimento à amizade e ao engajamento no movimento pelo rio das Velhas foi um passo, um sonho de fecunda realidade. Manuelzão e Guimarães Rosa lembram o sertão preservado em sua natureza e em sua cultura colonial. Evocam a nostalgia de um mundo que foi se alterando com a chegada da tecnologia, da poluição e do eucalipto, exterminando veredas e histórias. Manuelzão dizia que tinha sorte com rosa: sua mãe era Rosa Amélia e João Rosa, como se referia ao escritor, quem o projetou. Ele se encantava com a prórpia capacidade de atrair as pessoas, “parece que tenho um imã”, dizia. Brincalhão, dizia que gostava das novas, que lhe alisavam as barbas, mas que não desgostava das velhas, pois sem as velhas não haveria as novas! Considerava João um chato a lhe incomodar com perguntas o tempo todo, sobre nome de passarinhos, plantas e riachos, que anotava num caderninho, pedindo para contar histórias e atrasando a viagem. Mas não sabia que João Rosa, primo do dono da fazenda, a quem servira como vaqueiro, iria ficar tão famoso após a morte súbita. Após este evento trágico, jornalistas chegaram ao sertão querendo conhecer Manuelzão.
Amou o sertão de tal forma que não aceitava em hipótese alguma a destruição generalizada dos seus ecossistemas. Na bacia do rio das Velhas, além dos municípios de Buenópolis, Corinto e Cordisburgo onde fixou morada, transitou muito mais por toda parte, de Goiás até a Bahia e várias vezes indo e vindo no lombo de burro. Por isso, sabia e atribuía à capital de Minas a razão de tanta poluição das águas do mais importante afluente do São Francisco. Em 1932 cruzara o rio das Velhas em Belo Horizonte e guardava dele uma imagem muito positiva, bem diferente daque viu aos 90 anos junto com o PMz.
Estava feliz da vida sendo símbolo da luta pela revitalização do rio das Velhas e participando de diversos eventos do PMz, quando morte súbita o levou dia 5 de maio de 1997, com quase 93 anos. Foi velado no salão de reuniões da Congregação da Faculdade de Medicina da UFMG, instituição que conferiu a Guimarães Rosa o diploma de médico, e seu
nome, Manuelzão, para sempre estará associado à revitalização da bacia do rio das Velhas e do São Francisco.47
Fig. 8 - Manuel Nardi, o Manuelzão de Guimarães ou Manelão da região, em sua casa em Andrequicé, com mais de 90 anos. Fotografia Apolo Heringer Lisboa
2.3.2 História do rio das Velhas narrada pelos viajantes do século XIX
Vale lembrar que a história do rio das Velhas não foi feita só de lendas, contos e poemas. Ela foi produzida também pela ação de pesquisadores em expedições científicas que o poder colonial patrocinou ainda no século XVIII. Segundo o historiador da ciência, Pedro Ernesto de Luna Filho (2007)
[...] a flora e a fauna da Terra Brasilis exerciam fascínio sobre os naturalistas europeus do final do século XVIII. Dezenas deles zarparam do Velho Mundo em viagens muitas vezes financiadas pelos seus governos, e não raro eram pagas com o próprio bolso. Essas expedições duravam anos e eram repletas de perigos, como riscos de doença, ataque de índios, de fome e de um desconforto inimaginável para os dias de hoje (LUNA FILHO, op. cit. p. 55).
As expedições exploradoras tiveram um papel importante nas primeiras tarefas de colonização portuguesa no Brasil. Segundo os pesquisadores Carlos Bernardes Mascarenhas Alves e Paulo dos Santos Pompeu (2005 e 2008, p. 97), “o rio das Velhas foi um dos poucos a
47O PMz contribuiu para preservar seu acervo pessoal simples, mas significativo e ameaçado,
transferindo-o para a Biblioteca Central da UFMG que o guardou até a transferência para o Memorial Manuelzão em Andrequicé, no município de Três Marias, cuja concretização não foi obra fácil.
ser exaustivamente estudado no passado”. Diante desse observação os autores analisam minuciosamente a contribuição desses estudos para se compreender a ictiofauna da bacia do rio das Velhas no século XIX, que já registravam a diversidade de espécies distribuídas em várias regiões.
São por meio dessas explorações que se processaram o reconhecimento e a posse efetiva da Terra Brasilis. Entretanto, na segunda metade do século XVIII, essas expedições colocaram também, como uma de suas missões, a produção de novos conhecimentos ou mais precisamente de conhecimentos que ajudassem a responder os mistérios do mundo, sem precisar recorrer a explicações de cunho religioso, pois estas, no contexto em que florescia o Iluminismo, já não mais satisfaziam as necessidades culturais do homem europeu. Inicia-se uma certa ruptura com a visão de mundo que dominou o pensamento europeu durante muitos séculos. Buscou-se introduzir na tripulação das grandes embarcações exploratórias cientistas que se ocupavam da investigação da natureza, chamados de naturalistas. Segundo a
historiadora Lorelai Kury (2001), “muitas vezes essa tarefa era realizada por naturalistas mais
jovens, oficiais da Marinha, nobres em busca de entretenimento filantrópico ou aventureiros
em geral” (KURY, op. cit.).
É importante destacar esse aspecto porque ele aponta para mudanças de mentalidade no campo do conhecimento cujo foco era a natureza. Estudiosos da área ambiental mostram que as mudanças identificadas tinham um suporte acadêmico importante que lhe dava sustentação. Sobre esse tema existem várias discussões e mesmo controvérsias quanto à direção que as investigações sobre a natureza poderiam ter tomado diante das descobertas ocorridas no século XVIII. Entretanto, limita-se na presente tese destacar, como dentro desse contexto de pensamento em transformação surgiram os naturalistas que vão produzir uma primeira história científica do rio das Velhas.
Como dito acima registram-se as presenças desses investigadores no século XIX. Dentre eles encontram-se o dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1808-1808), o botânico alemão Ludwig Riedle (1790-1861), o naturalista francês Auguste Saint-Hilaire (1779-1853) e muitos outros. A vinda desses ilustres naturalistas para o Brasil colônia não se deu de forma tão imediata. De acordo com Luna Filho (2007)
O fascínio, à vontade de descrever e catalogar todas as formas de vida aqui endêmicas de forma sistemática teve que aguardar a transferência da família real portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 (LUNA FILHO, op. cit. 58).
Ainda segundo esse autor, com a chegada da Corte duas medidas importantes foram tomadas por ordem de D. João VI: a criação do Jardim de Aclimação posteriormente chamado de Jardim Botânico do Rio de Janeiro e a abertura dos portos brasileiros para as nações amigas
Aproveitando a oportunidade, os governos destas (nações) não tardaram por enviar expedições científicas lideradas pelos famosos naturalistas que começaram a escrever a história da zoologia e da botânica no Brasil (LUNA FILHO, op. cit. 58).
Mas o que interessa destacar nesses naturalistas é o fato de que eles representavam uma visão diferenciada dos procedimentos utilizados pelo naturalismo clássico. Os
historiadores os identificam como membros da vertente denominada “naturalismo viajante”
que se distinguia do “naturalismo de gabinete” (LUNA FILHO, op. cit. e KURY, op. cit.), este último representado, segundo os historiadores da ciência, pelo naturalista francês George Curvier que se recusava em se servir das expedições para realizar suas pesquisas, alegando que seus estudos eram muito mais frutíferos em Paris, porque ali se encontravam as mais completas coleções da história natural. As expedições, na concepção de Curvier,
atrapalhariam os estudos sistemáticos. “Naturalistas viajantes”, embora pudessem captar pela observação a natureza em ação, não conseguiriam, segundo os “naturalistas de gabinete”, ter
uma visão do todo, pois a mesma seria sempre particularizante.
Por outro lado, como destaca Luna Filho (op. cit.), os “naturalistas viajantes” defendiam sua posição intelectual com muito entusiasmo. Para se ter uma ideia de por onde passavam as suas percepções reproduz-se a seguir a posição do Príncipe Maximilien von Wied-Neuwied (1782-1867)48
Faz-se geralmente na Europa uma ideia bastante inexata desses longinquos países. Pode-se atribuir esse erro a certos viajantes , que não se limitaram a tratar somente do que viram e a escritores que fizeram descrições elaboradas nos gabinetes e compostas sobre o tema escolhido, com as mais interessantes citações de autores conhecidos, e arranjados pela fantasia, sem nenhum conhecimento da matéria, que podem agradar pelo primor do estilo e a forma atraente com que foram apresentados. Mas não possuem nenhum valor intrínseco, pois estão repletos de erros. Como evitar os erros e as inexatidões, quando não se tem presente, aos olhos, o objeto que se deseja traçar a imagem?Aplicam-se ao conjunto traços que só convém às partes de um país tão grande como Brasil, se pareçam mais umas com as outras, quando cada província sua particularidade distinta? (WIED-NEIWIED, 1940 apud LUNA