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1. Introduction

1.9. Succinate

âmbito Departamental

Como dito anteriormente, o Projeto Manuelzão começou a ser concebido no final de 1989, tendo sido aprovado em novembro de 1990 com outro nome, Projeto do Rio das Velhas. Entretanto, sua implantação, só se deu em janeiro de 1997, com a realização de um seminário organizado pelo Departamento de Saúde Coletiva e com o posicionamento de um grupo de professores e pesquisadores nesse contexto. Seminário esse que começou com rigor acadêmico clássico. Fez-se uma avaliação histórica a partir da revolução de 1930, passando pelo impacto flexneriano, pela reforma curricular dos anos 70, pela trajetória da disciplina Internato Rural desde seu nascedouro em 1978 e pelas últimas novidades da saúde pública e da epidemiologia no Brasil. Na última parte do seminário solicitou-se que fossem apresentadas propostas para nortear a referida disciplina e viu-se, naquele momento, que as discussões estavam descoladas da realidade da própria disciplina.Apenas uma proposta foi

apresentada, cujos referenciais aprovados por “consenso” departamental(que logo em seguida,

verificou-se que não existia) na própria reunião estabeleciam que as práticas oriundas do Internato Rural se concentrariam em duas áreas geográficas, ou no máximo três; com grupos de professores trabalhando em comum, baseados na definição de um mesmo eixo temático por área geográfica; com distância máxima de 400 km de Belo Horizonte; e mínima de 70 km.

Para tanto, solicitava-se que todos os supervisores abrissem mão dos municípios onde atuavam isoladamente para se integrar na implementação da nova proposta.

Embora o seminário departamental tivesse apresentado uma proposta de reformulação da disciplina, que rompia teoricamente com uma visão puramente disciplinar em favor de uma mais agregadora, na sequência, o que se observou foi a ruptura desse consenso e uma aparente retomada dos pressupostos que orientavam as práticas docentes. Na reunião ocorrida após o seminário, desfez-se o objetivo ali proposto, desconsiderando suas resoluções e afirmando outra postura, que será apresentada mais à frente.

Na realidade, na análise dos registros históricos do PMz foi possível perceber os posicionamentos dos atores sociais envolvidos em embates teóricos e paradigmáticos. O esforço metodológicos foi de não tratar esses embates em uma perspectiva reducionista que se contenta em simplesmente identificar atores que são contra ou a favor desta ou daquela iniciativa pública. Ao contrário, recorrendo às obras de dois teóricos da Sociologia da Ação, Alain Touraine e Anthony Giddens (1989), respectivamente, buscou-se extrair dos registros relativos ao seminário de 1997 elementos conceituais importantes que permitiram analisar os processos nos quais estavam envolvidos atores que eram, ao mesmo tempo, professores, pesquisadores e agentes sociais.

No embate que parecia à primeira vista refletir de forma reducionista um problema exclusivamente institucional acadêmico, continham questões fundamentais que projetavam modelos de ação para a saúde da sociedade com suporte pelo menos de dois diferentes paradigmas. Utilizando a linguagem de um dos teóricos da ação acima citado, pode- se dizer que, naquele momento, tornava-se explícito a ação de atores sociais que atuando dentro de um mesmo sistema social, para falar como Touraine, disputavam o controle de orientação cultural de suas ações que implicava não apenas em novas concepções de saúde, como também exigiam práticas condizentes a elas. Lembrando-se que, segundo Alain Touraine, para que os embates dentro de qualquer sistema de ação se constituam explicitamente em elementos de conflito e de negociação pressupõem-se que os atores tenham pelo menos o mesmo objeto de disputa, caso contrário, o conflito vira guerra sem qualquer mediação (TOURAINE, 1998).

Analisando os resultados dos debates originados no seminário do Departamento em 1996, utilizando essas observações que Touraine faz sobre a constituição de um conflito, pode-se perceber que havia um objeto comum de disputa que era definir que paradigmas deveriam orientar os ensinamentos e as ações do Internato Rural. Nesse contexto, explicitam-

se posicionamentos diferentes, e entorno deles configuram-se atores que, como veremos mais à frente, buscam articulações com outras atores formando redes interativas com objetivo de difundir suas ideias e práticas. Para tornar mais claro essas articulações, pareceu-nos importante incluir nesse capítulo histórico do PMz um esclarecimento sobre o conceito de

“posicionamento” e ver como ele auxilia na compreensão de como esse projeto se constitui na

prática social.

Tal conceito aparece articulado ao conceito de “estruturação”, de forma magistral na

obra de Anthony Giddens (op.cit) na qual ele analisa a “Constituição da Sociedade”.

Lembrando-se que, para esse autor, a prática dos agentes transformam as estruturas rotineiramente. Esta é a razão pela qual ele usa em sua obra o conceito de estruturação para se referir o que há de processual nas estruturas. Para Giddens,

a estrutura refere-se, em análise social, às propriedades de estruturação que

permitem a “delimitação” de tempo-espaço em sistemas sociais (e) às propriedades

que possibilitam a existência de práticas sociais discernivelmente semelhantes por

dimensões variáveis de tempo e de espaço, e lhes emprestam uma forma “sistêmica”

(GIDDENS, op cit.p13).

Os sistemas sociais, para esse autor, é algo bastante preciso. Os sistemas “estão

organizados como práticas sociais regularizadas”. Estas práticas são mantidas nos encontros

entre os atores ao se dispersarem no tempo e no espaço (op. cit.p. 66). Entretanto, diz

Giddens, “os atores cuja conduta constitui essas práticas estão posicionados” (idem). Nas

sociedades contemporâneas, diz o autor

Os indivíduos são posicionados numa gama cada vez mais ampla de zonas - em lares, locais de trabalho, bairros, cidades, nações-estado e em um sistema mundial -, todas elas apresentando características de integração de sistema que relacionam de forma crescente os detalhes secundários da vida cotidiana com os fenômenos sociais de extensão tempo-espaço maciça (op. cit. p. 68).

Esses posicionamentos, para Giddens, são produzidos “estruturalmente como

interseções específicas de significação, dominação e legitimação”, envolvendo uma “identidade definida numa rede de relações sociais, sendo essa identidade uma categoria à qual uma gama de sanções normativas é concernente” (GIDDENS, op. cit. 67). Essas

explicitações das posições sociais dos agentes atuantes ocorrem em diferentes interações.

Uma delas é a que Giddens identifica como “interações face-a-face” nas quais os agentes se

posicionam em circunstância de co-presença. Por exemplo, nos encontros, nas reuniões, nos debates, os posicionamentos envolvem modalidades sutis de movimento corporal e de gestos que precisam ser considerados nas análises que pretendem compreender as direções tomadas pelos agentes nessas interações (idem). Mas esse posicionamento se reflete também no

“âmbito da regionalização mais ampla de totalidades sociais e dentro de sistemas

intersetoriais cujo alcance de difusão converge com a distribuição geopolítica dos sistemas

sociais em escala global” (GIDDENS, op. cit. p. 68).

Voltando ao seminário acima citado, pode-se dizer que nos registros analisados, há dados que refletem momentos importantes nos quais emergiram os posicionamentos dos agentes em interação, ou mais precisamente, no quais esses agentes explicitaram suas posições. Para efeito de análise, esclarece-se, de imediato, o sentido que Giddens atribui ao

conceito de “agente”. Este, na sua obra, é aquele ator capaz de “monitorar reflexivamente a sua atividade”. Segundo Giddens, o monitoramento reflexivo

...é uma característica crônica da ação cotidiana e envolve a conduta não apenas do indivíduo mas também de outros. Quer dizer, os atores não só controlam e regulam continuamente o fluxo de suas atividades e esperam que outros o façam o mesmo por sua própria conta, mas também monitoram rotineiramente aspectos, sociais e físicos, dos contextos em que se movem. Por racionalização da ação, entendo que os atores – rotineiramente e, na maioria dos casos, sem qualquer alarde – mantêm um

contínuo “entendimento teórico” das bases de sua atividade (GIDDENS, op. cit.

p.4).

Com essa explicação, Giddens reforça sua hipótese de que os atores enquanto agentes seguem regras aplicadas reflexivamente, ou seja, estas não são repetidas mecanicamente. Os atores podem modificá-las quando se encontram, por exemplo, em circunstância de co-presença com outros atores, ou quando, acrescentamos nós, se deparam com situações ecossistêmicas que exigem adequações sucessivas . Entretanto, o que nos interessa de sua teoria é identificar que aspectos ela traz em seu bojo e que podem auxiliar na análise das ações do PMz, ou seja, que elementos ela nos oferece para compreendê-lo como resultado de uma ação coletiva. Ressaltando-se que esse projeto, já no seu embrião, se estruturava em um contexto em que se construía a democratização da sociedade brasilileira, não há como não considerar esse contexto na sua constituição.

Lembrando que Giddens, como ressalta Felipe Dutra Asensi (2006), ao considerar a democracia como instrumento de transformação coletiva, procurou mostrar em sua obra que os indivíduos (agentes), por meio de uma mediação, agem coletivamente para modificar os padrões existentes.

Assim, analisando os resultados do Seminário de 1996, pode-se identificar que na disciplina Internato de Saúde Coletiva (um dos nossos sistemas de ação em questão) havia, pelo menos naquele momento, duas posições coletivas explícitas disputando as orientações

culturais do sistema de ação (para falar como Touraine). E cada uma delas era formada por agentes capazes de monitorar reflexivamente suas atividades (como diria Giddens).

Uma das posições (P1) que, como dito anteriormente, foi construída posteriormente, em uma reunião na qual participaram professores não satisfeitos com as conclusões tiradas no Seminário e construindo em direção oposta, destaca-se a que invocava uma epidemiologia dos

bolsões de pobreza, que preconizava trabalhar de forma deliberada e dispersa nesses bolsões,

segundo a opção de cada professor e de acordo com a oferta desse ou daquele município, para a instalação do Internato Rural. Esta proposta foi aprovada pela maioria dos docentes e foi vista como uma saída para as decisões tomadas no Seminário, consideradas por muitos, como idealistas. Tornou-se assim explícito a cisão de ideias e práticas que, possivelmente, já existiam na estrutura da própria disciplina (sistema de ação), mas sobre as quais não se tinha um debate suficiente para se perceber a sua força constituidora.

A outra posição (P2) introduz os eixos que orientaram o PMz. Este projeto, contrariamente à P1, foi definido respeitando todas as decisões tiradas no Seminário. Basicamente, seus princípios são encontrados em várias publicações do próprio PMz, condensadas no Jornal Manuelzão (JM), isto é, foram integrados nas estratégias de mobilização empreendidas nesse movimento, com o objetivo de funcionar como um instrumento de divulgação das ideias-força que visavam à transformação da mentalidade ambiental em vigor no país. À medida que seus escritos foram submetidos a uma análise crítica, como se poderá ver mais à frente, foi possível captar em seus textos e de forma condensada, como o PMz foi evoluindo ao longo dos anos, as idas e vindas no processo, os embates e as contradições inerentes em todos projetos de ação que envolve atores e interesse convergentes e/ou divergentes que ali aparecem, às vezes de forma explícita, permitindo categorizar sentidos e significados atribuídos a atividades dos agentes envolvidos, a questões ambientais e às políticas públicas da saúde. Mas também aparecem de forma implícitas, por meio de metáforas visuais e literárias. Por ora, far-se-á uso desse material apenas para sustentar a narrativa do nascimento do PMz como um movimento histórico de agentes que, como define Giddens, tinham condições de monitorar reflexiva e racionalmente as suas ações e que se ajustando às exigências comunicacionais da sociedade em rede (para falar como Castells e Balman) vão construindo instrumentos condizentes com essas novas formas de interação.