3. Materials and methods
3.3. Experimental conditions
3.3.1. Cell stimulation with experimental conditions
O PMz nasce em janeiro de 1997 e em dezembro do mesmo ano surge seu primeiro jornal difundindo seus ideais. Em nota clara e decisiva apresenta para os seus leitores (parceiros ou não) o eixo que o orienta. Entre os artigos que o compõe, um intitulado
“Internato Rural Ambientalista” afima que
A dispersão de objetivos não estava fazendo bem ao trabalho do Internato Rural. Os coordenadores resolveram então concentrá-lo numa região e definir o eixo temático. A questão do saneamento básico, precário no Brasil e associado às doenças de transmissão hídrica, aos parasitas, aos vetores associados a lixos e esgotos, levou a definir a sociedade, saúde e meio ambiente como eixo temático, e as águas, como elemento fundamental, como eixo físico do Projeto. Substância essencial à vida e básica em matéria de saneamento, a água espelha fielmente a realidade social, sobretudo a qualidade do meio ambiente. A água permite pesquisar como vive uma população, a poluição que produz e a qualidade de vida (JM n 1, 1997, os grifos são nossos).
Entendendo que entre seu público leitor estão incluídos não apenas os estagiários e os docentes, mas também gestores municipais que demandam serviços do Internato Rural em suas cidades e parceiros que atuam nas atividades de mobilização, a mensagem abre o debate indicando os pontos que serão trabalhados, a instância de onde partiu a decisão para modificação da atuação e o conceito-chave em torno do qual girará o projeto. Nesse sentido, o alerta inicial do texto informando as razões pelas quais foram adotadas mudanças no “fazer” do Internato Rural já indica que o foco a ser atingido relaciona-se ao fortalecimento de uma consciência prática para responder questões envolvidas na mesma ação: sociedade, saúde, meio ambiente e água. A saúde não deveria ser concebida como sinônimo de assistência médica. Com isso, aproximou-se a disciplina Internato Rural à epidemiologia aplicada, que permitia estabelecer o vínculo entre as patologias prevalentes e o meio ambiente. Este incluía, além do verde e das águas, o meio urbano e do trabalho, produzidos pela história humana, não apenas pela história natural. Passou-se a trabalhar a epidemiologia com ênfase nos determinantes de saúde e não nos indicadores de doença apenas. Isto impulsionou o PMz a buscar alternativas noutro paradigma, tendo as águas como eixo de mobilização e os
bioindicadores dos corpos d’água como indicadores de saúde positivos para todo um
ecossistema, modelo que inclui os seres humanos que estão no topo da classificação zoo- botânica.
É nesse contexto que se introduz na disciplina as contribuições de John Snow, epidemiologista britânico do século XIX que se destacou por ter sido um dos primeiros cientistas a identificar a cadeia de transmissão de doenças, no seu caso a cólera, Vibrio
cholerea. Snow demonstrou que esta doença não era transmitida pelo ar, como se acreditava
na época, mas sim pelas fezes dos esgotos que contaminavam as correntes de água, pelo contágio indivíduo e indivíduo e por meio de alimentos contaminados (SNOW, 1967)37. Diante disso, o trabalho maior desse cientista reconhecido internacionalmente, foi propor uma série de recomendações sanitárias preventivas que, segundo a Epidemiological Society, associação criada por ele, eliminou a cólera da totalidade das comunidades inglesas.
Na sequência de apresentação do PMz pelo JM, introduziu-se o que seria a área de atuação
A bacia do rio das Velhas destacou-se, então, como a área geopolítica, devido ao critério das águas e de sua significação acadêmica e política. Esta área incluía a capital do Estado. A região metropolitana de Belo Horizonte é a maior poluidora da bacia do rio São Francisco e o do rio das Velhas, o maior afluente da bacia (JM n 1, 1997, os grifos são nossos).
Além da ausência do saneamento básico, destacaram-se também: o impacto do desmatamento na proliferação de epidemias e endemias, as zoo-antroponoses, a utilização de procedimentos agrícolas e industriais patógenos, a construção das cidades com ocupação do solo segundo os critérios da especulação imobiliária e das empreiteiras que se manifestam nas águas.
Conquistar saneamento básico, saúde e recuperação do rio significava conquistar a cidadania. Esse apelo se justificava na seguinte afirmativa
E isto só se consegue com a mobilização social e o trabalho integrado em toda a bacia. Trata-se de uma ação globalizante numa área determinada, envolvendo instituições e áreas do conhecimento num só objetivo pontual, que amarra a proposta: a qualidade das águas e a volta do peixe como indicador biológico principal (JM n 1, 1997, os grifos são nossos).
A água, devido às suas propriedades específicas, é um solvente universal, único mineral movente e abundante cujos ciclos produzem as chuvas e a lavagem do espaço, passa a ser a delimitadora do espaço geográfico. No contexto do PMz esse território foi o da bacia hidrográfica, habitat de bioindicadores capazes de monitorar a qualidade das águas e, em consequência, do meio ambiente e da mentalidade civilizatória.
Analisando, quase 20 anos depois, essa decisão de utilizar a bacía hidrográfica do rio das Velhas como um delimitador do espaço de atuação do PMz, relacionando-a com alguns
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achados da História Ambiental já apresentados, pode-se dizer que essa decisão trouxe componentes teóricos e práticos que exemplificam como o conceito de ecossistema pode ser empregado de uma forma bastante abrangente, tal qual foi pensada por quem o idealizou Roy Clapham (1930) e por quem o aperfeiçoou Arthur Tansley (1935).
No PMz, a água permite integrar metodologicamente todos os ecossistemas e a biodiversidade num só eixo, e medi-los, tendo como referência as unidades geossociais de bacias e sub-bacias. Por meio desse sistema foi possível ao PMz dispor de um indicador positivo de saúde coletiva, vinculado ao desenvolvimento da civilização e da avaliação objetiva de suas práticas históricas, rompendo com os parâmetros da indústria da doença, alterando inclusive a linguagem tradicional. Como dito anteriormente, grande parte das patologias, epidêmicas e endêmicas, está vinculada ao meio ambiente, que inclui o que é construído historicamente pelos seres humanos: as cidades; as fábricas; sua agricultura; sua produção animal; enfim, suas relações sociais em desenvolvimento. Tudo isso está refletido na água, que pode servir de método diagnóstico análogo a um exame laboratorial, pois é o
sangue da Terra.