A Rebrip constitui-se, atualmente, um polo de articulação e divulgação de iniciativas sociais coletivas frente ao TLC MERCOSUL-União Europeia, que impõem a desregulamentação financeira-comercial e obstaculizam a execução de uma política industrial autônoma a partir do atual nível de desenvolvimento tecnológico. A Rede brasileira também tem se posicionado frente à conjuntura política do país: tem acompanhado as negociações dos BRICS e da nova estratégia norte-americana de impor a Aliança do Pacífico e desarticular o MERCOSUL. A ALCA não ficou no passado, pois faz parte da estratégia de elevar à sua máxima potência o cumprimento das políticas receitadas pelo Consenso de Washington que “em solo 13 años, han devastado em Colômbia y em América Latina la capacidade instalada agrícola e industrial, la organização social y la soberania nacional” (RECALCA, 2006, p.219).
A Organização Mundial do Comércio (OMC) e as instituições financeiras internacionais (IFIs) foram criadas para favorecer e estimular os acordos bilaterais ou plurilaterais. Tais acordos fortalecem a hegemonia norte-americana no campo internacional ao assenhorem economicamente do maior território contínuo do mundo. Regionalmente os EE.UU impõem sua estratégia de negociar sem nada conceder e exigir constantemente maior abertura por parte das contrapartes. Frente as imposições estadunidenses a Colômbia adotou uma curiosa contra estratégia, “una astuta estratégia secreta (...) de acatar sin objeciones las exigencias norte- americanas” (RECALCA, 2006, p.39). Os países sul-americanos ao recepcionarem as cláusulas de rapina impostas pelos EE.UU, como é o caso das inversões de capital, das compras governamentais ou da garantia de mercado para suas empresas, aumentam a dependência estrutural.
A Rebrip, mesmo acompanhando as negociações da ALCA e o processo de criação do MERCOSUL, decidiu monitorar e incidir sobre a institucionalização da UNASUL, acrescentando assim mais um lócus de ação e mobilização coletiva. A UNASUL, compreendida como marco da cooperação e arquitetura financeira internacional (IARA PIETRICOVSKY, op. cit.), cresceu em importância enquanto o Brasil e a
Argentina apoiaram o processo de integração regional, mas depois que o Movimento da ALBA47 foi criado, em 2013, gerou um ambiente embaraçoso entre as organizações e movimentos sociais integrantes da Rebrip. Algumas organizações da ALBA passaram a caracterizar a Rebrip como uma organização que mantém um discurso da autonomia institucionalizada, governamental. Esses contratempos no interior da Rede ficaram ocultos para a sociedade civil (IARA PIETRICOVSKY, op. cit. GRACIELA RODRIGUEZ, op. cit. Brasil).
A Rebrip, junto com a CUT, MST e organizações eclesiais de base da Igreja Católica, foram fortes pilares na campanha contra a ALCA. No Brasil foi lançado o plebiscito contra a ALCA e o êxito repercutiu positivamente em diversos países sul- americanos. “Se han lanzado la consigna de forzar la realización de consultas o referendos populares: en Brasil resulta exitosa. Casi diez millones votan en contra en septiembre de 2002” (RECALCA, 2006, p.17).
A III Cumbre de los Pueblos (2005) realizada em Mar del Plata aumentou consideravelmente a pressão sobre os presidentes sul-americanos ao colocar em marcha mais de 35 mil pessoas contestando a proposta dos EE.UU e festejando o fim da ALCA (RECALCA, 2006, p.172). A Rebrip, nas atividades coletivas em que participou e nas que promoveu conseguiu acumular experiências que foram incorporadas pelos grupos de trabalhos temáticos. A participação em fóruns internacionais e regionais (conferência sobre o clima, reuniões da UNCTAD/ONU, reuniões do MERCOSUL e da UNASUL, conferencias da OMC, reuniões com instituições financeiras multilaterais e reuniões ministeriais no Brasil, onde defendeu a incorporação nos textos dos TLCs a perspectiva dos direitos humanos e o combate a desigualdade social) resultou em um repertório de experiência de ações e mobilizações internas e externas.
47Entre os dias 16 e 20 de maio de 2013, a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), que fica em Guararema (SP), recebeu a 1ª Assembleia Continental dos Movimentos Sociais da Aliança Bolivariana das Américas (ALBA). Participaram 200 representantes de 22 países, de diversos movimentos sociais da América Latina. A Assembleia teve como principais objetivos fortalecer a integração dos povos e organizações do continente americano e concretizar um projeto de articulação política através de suas lutas em comum.
http://www.sof.org.br/2013/06/03/1a-assembleia-continental-dos-movimentos-sociais-da-alba-pela- emancipacao-da-america-latina/
Foto 1 - Mobilização contra o TLC MERCOSUL-União Europeia
O sociólogo Sidney Tarrow e seus colegas concebem atividades como esta realizada no espelho d‟agua do Itamaraty como performances, pois envolve surpresa, improviso e criatividade a maneira do jazz e do teatro de rua. “Estas performances se agrupam em repertórios, conjuntos de interações possíveis conhecidas que caracterizam um conjunto particular de atores. (...). As performances inovam a partir dos repertórios herdados” (TARROW et al, 2005, p.53).
São acúmulos de experiências como estes, além da postura propositiva da Rebrip que a legitimam como proponente da criação do Conselho Nacional de Política Externa; da participação crítica no MERCOSUL, na UNASUL, no Banco do Sul, na CELAC e junto aos BRICS. A Rede é composta de pessoas que pensam propositivamente e possuem capacidades técnicas e de liderança para serem centros mobilizadores e formuladores de posições no cenário nacional e internacional. Essas pessoas conseguem distinguir uma proposta que promove a união das organizações e uma proposta apenas ideológica, que muitas vezes traz a cizânia e o desconforto ao grupo (IARA PIETRICOVSKY, op. cit. Brasil).
A REBRIP a partir dos acúmulos temáticos das organizações, que a integraram, em áreas como agricultura familiar, propriedade intelectual, serviços, investimentos, meio ambiente e sobre o papel do parlamento, examina, com uma qualidade e
Foto: Mobilização no espelho d‟água do Itamaraty contra o TLC MERCOSUL- União Europeia e acordos junto a OMC, que prejudicam os produtores
competência singular, as implicações dos TLCs para setores vulneráveis da população brasileira. As manifestações da Rebrip são importantes reforços às atividades da Aliança Social Continental que reúne dados dos capítulos nacionais para sistematizar as agendas comuns que seguem os princípios de resistência aos TLCs e de construção de alternativas democráticas e sustentáveis.