Abbreviations and definitions
The 4 th International Consultation on Incontinence (Paris, 2008)
1.3 From paper to Web-based epidemiological research
1.3.3 Web-based research
Além da vilania feminina, a ambiguidade em seus personagens é outra marca registrada do autor Emanuel Carneiro. Desde a sua primeira telenovela, Da cor do
pecado, ele brinca com a construção de personagens, cujo caráter está sempre posto à
prova. As evidências quanto à sua preferência partem das próprias aberturas de suas obras que de cara dão pistas da multidiversidade presente em seus personagens. Com cerca de 50 segundos de duração, as aberturas das telenovelas são, desde a sua criação, um dos meios utilizados para informar ao telespectador sobre o que se fala a narrativa. Além disso, é na abertura que se encontram dados sobre a autoria, ficha técnica, informação sobre o corpo de atores e em alguns casos a correlação entre personagem e o ator que o interpreta.
Em Cobras & Lagartos, por exemplo, a divisão de classes sociais é evidenciada por meio da abertura, onde artigos de pratos de comida, roupas, calçados, bebidas e bijuterias são apresentados em simultâneo, sendo metade da tela voltada para pessoas com alto poder aquisitivo e a outra parte direcionada para os que têm menor poder. Entretanto, há itens como uma calça jeans e um colar que estão presentes em ambas as esferas, deixando uma mensagem subliminar sobre uma possível variação de conduta independente da esfera na qual o cidadão esteja presente. O sociólogo francês explica que a “dualidade é um elemento básico de muitos contos, que reconhecem e encenam a parte obscura do humano e não se limitam ao unilateralismo do ideal solar (o racional)” (Maffesoli, 2004, p. 119).
A telenovela A Favorita já na abertura evidencia com exatidão a briga entre o Bem e o Mal. O jogo de duplicação de sombras acompanhadas pela trilha sonora Pa’
bailar, do grupo espanhol Bajofondo, dão dicas que há tanta mentira quanto verdade
nos discursos das personagens em questão. Mais que uma marca autoral, a dualidade na construção dos personagens de Emanuel tornou-se um chamariz para a sua obra. Com A
Favorita, Carneiro reinventou a maneira de personificar o Mal nas telenovelas e ao
contrário das demais narrativas que trazem cada personagem com suas características de Bem e Mal já pré-estabelecidas, o público não faz ideia de quem seja a vilã, ou melhor, ele é literalmente enganado pelo autor.
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A ideia da Favorita, da dubiedade da vilã e a dubiedade da mocinha, da heroína da história, surgiu quando eu estava fazendo A Cor do Pecado, que a personagem Bárbara, da Giovanna Antonelli, que fez maravilhosamente bem esse personagem. Ela era uma louca, uma degenerada e conquistou a simpatia do público e a minha simpatia de alguma maneira. Eu queria fazer uma novela, no caso da Favorita, que justamente, jogasse com essa figura da heroína que pode ser heroína, que pode ser a vilã, jogasse essa dubiedade em torno desses dois personagens e fazer uma coisa ousada, arriscada, que é mexer com a identificação do público com os personagens. (Memória Globo, 2018)
Reconhecer um vilão na telenovela sempre foi uma tarefa fácil para o público, com características óbvias os personagens que incorporam a vilania exalam desde sempre a maldade e o mau caratismo. O vilão é mais uma personificação do Tinhoso no mundo hodierno, onde ele veste-se de um personagem e como forma de se sobressair na trama anda na contramão do Bem, ou melhor, do herói. Vogler (2006) adverte, que o anti-herói não é o oposto do herói, mas sim um tipo especifico de herói que pode desempenhar o papel de fora da lei ou vilão, mas isso dependerá da forma como a sociedade o enxergará. E mesmo exalando maldade, esses personagens ganham a simpatia do público porque “nós nos identificamos com esses párias, pois todos nos sentimos párias em um momento ou outro” (Vogler, 2006, p.44).
Desde o surgimento da televisão, muitos produtos que compõem a programação diária sofreram diversas modificações não apenas em sua forma estética como também na construção de seus conteúdos, com a telenovela não seria diferente. A inserção da dualidade ou ambiguidade nas novelas da Rede Globo faz parte de um novo modo de produção não-linear iniciado nos anos 2000. A inovação não aniquilou o antigo modo de apresentação da vilania, entretanto possibilitou a extensão do Mal dentro das narrativas, fazendo com que ele se destaque em inúmeras formas. O primeiro autor a experimentar essa abordagem foi Silvio de Abreu com a telenovela Belíssima (2005).
No âmbito de uma sociedade que valoriza muito mais a estética do que a própria essência humana, Abreu, que é conhecido pela criação de trabalhos recheados de mistério, trouxe para dentro da telenovela a abordagem sobre a importância da aparência tendo como foco a ditadura da moda. Belíssima foi uma novela que se passou na cidade de São Paulo e conta a história da bem sucedida família Falcão, comandada pela matriarca Bia Falcão, que controla alguns dos mais importantes eixos da moda no
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Brasil. Apesar de todo o patrimônio, a estrutura familiar mantém algumas divergências desde que a filha de Bia, Stela Falcão faleceu em um fatídico acidente de carro. Bia é uma mulher amargurada, ardilosa e extremamente vingativa, entretanto seus netos, os quais foram criados por ela, seguem a linha contrária de tudo o que ela pensa.
Em Belíssima a divisão entre Bem e Mal estava bem estabelecida, sendo Bia Falcão interpretada por Fernanda Montenegro, titular da posição de vilã, e sua neta Júlia Falcão, interpretada por Glória Pires, exercendo o papel de mocinha da narrativa. A dualidade desta novela decorre de forma sutil, quando há a quebra de conduta já estabelecida na narrativa. Um bom exemplo disso é do personagem André, interpretado pelo ator Marcelo Antony, que articula seduzir, casar-se com Júlia Falcão e se apoderar de todo o seu patrimônio. Tendo assim o feito, o personagem percebe que está completamente apaixonado e se arrepende de suas maldades tentando por sua vez, conquistar sua amada.
As telenovelas Paraíso Tropical de Gilberto Braga, lançada em 2007 e Duas
Caras, de Aguinaldo Silva, apresentada no final de 2007, também nos servem de
exemplos. As tramas fogem um pouco da estrutura maniqueísta das novelas e trazem alguns personagens com uma visão intermediária quanto aos valores éticos regidos pela sociedade. Em Paraíso Tropical, enredo que tem como mote a prostituição por exemplo, o vilão Olavo transforma-se em um personagem caricato, que apesar das maldades por ele exercidas consegue arrancar risos do público. Já em Duas Caras, Adalberto Rangelo mente, rouba, muda nome e fisionomia, é condenado por seus crimes e ainda assim no final da trama ele é absolvido e tem um final de contos de fadas. Motter (2003) afirma que, a construção das narrativas se modificaram sem abrir mão da estrutura básica do folhetim, que é sustentada por uma trama amorosa e mantém a divisão estabelecida entre Bem e Mal.
“Mudam os temas que perpassam a trama amorosa. As personagens ganham interioridade, complexidade e ambiguidade que se exteriorizam em conflitos, problematizando sujeitos, ações e situações” (Motter, 2003, p. 42). Mas, ao contrário dos demais autores, que construíram a ambiguidade em seus personagens de forma branda, no fenômeno A Favorita, ambas as personagens mantinham tanto as características do Bem quanto as do Mal, levadas ao extremo. O que dificultou o reconhecimento por parte do público e o fez crer que de facto os discursos apresentados continham veracidade dentro da esfera ficcional. Sem arrependimentos ou mesmo culpa,
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a dualidade construída por Emanuel Carneiro tinha como objetivo evidenciar que esses sintomas, produzidos pelo Bem e pelo Mal, estão presentes em todos os seres humanos e propensos a serem externados em qualquer momento, a depender da situação em que estejamos.
Maffesoli (2004) explica que, por mais que nos pareça estranho, a dualidade dentro da esfera audiovisual é nada mais do que uma representação do nosso próprio cotidiano, onde o ser humano exerce com proeza o ofício independente da abordagem: “Os papéis podem variar. Sucessivamente, ou convergentemente, eles dizem o bem e o mal”, (Maffesoli, 2004, p. 50). A Favorita trouxe a subversão de valores, mas não somente isso, pois por meio de suas personagens a telenovela trouxe à tona situações corriqueiras que são reconhecidas pelo telespectador.
Outro fator que, auxiliou na sustentação e aceitabilidade dos discursos de Flora e Donatela tem referência com a própria realidade urbana do Brasil. A narrativa está situada na cidade de São Paulo, e justamente no ano de 2008, na mesma cidade, os brasileiros assistiram um dos crimes mais brutais já noticiados. Conhecido como o caso Nardoni, o crime faz menção ao assassinato de uma menina de cinco anos, arremessada pelo pai e a madrasta, do quinto andar de um prédio. Apesar de não haver correlação com o crime, a telenovela, segundo Nichols (2005), é a “representação do mundo em que vivemos” (Nichols, 2005, p.47), ou seja, Flora e Donatela dramatizam muito da realidade.
A relatividade do Mal, como aponta Max Weber (1973), está presente desde o surgimento do mundo, e está indicada nos livros de Salmos e Isaías. Segundo Weber, há o mal e o bem, o belo e o feio dentro de cada ser, sendo revelado apenas aquilo que nos convém. Segundo o autor, o antagonismo dos valores é irredutível na precisa medida em que os princípios opostos acabam por coexistirem pacificamente, embora o racionalismo religioso e científico não queiram reconhecer este facto em nome dos princípios da separação e da distinção.
Se há algo que hoje já não ignoremos, é o facto de que algo pode ser sagrado, não apenas embora não seja belo, mas até porque o não é, e na medida em que o não é (...) Também sabemos que algo pode ser belo, não só embora não seja bom, mas justamente pelo facto de o não ser. Voltámos a sabê-lo com Nietzsche e, além disso, vimo-lo realizado em As flores do mal como Baudelaire intitulou o seu livro de poemas. Por
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último, a sabedoria popular ensina-nos que algo pode ser verdadeiro embora não seja belo, nem sagrado, nem bom. Contudo, estes são apenas os casos mais elementares dessa batalha que entre si travam os deuses dos vários sistemas e valores. (Weber, 1974, p. 84)