Abbreviations and definitions
The 4 th International Consultation on Incontinence (Paris, 2008)
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A primeira aparição das personagens principais, Flora e Donatela, ocorre nos minutos iniciais de exibição da telenovela. Deitadas e com a câmera em ângulo fechado em vossas faces, Donatela e Flora, cada uma em seu mundo particular, evidenciam ao espectador o seu despertar. Após a frase proferida por Donatela “Chegou o dia”, os apreciadores são convidados a conhecer mais a fundo o mundo em que elas habitam.
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Donatela se espreguiça em uma cama de casal king size forrada com lençóis egípcios 300 fios bordados à mão, além da cama aconchegante há ao pé da mesma um puff que contribui para a harmonização do ambiente, que conta ainda com duas amplas janelas, permitindo a entrada de luz solar por vários ângulos, e dezenas de objetos de decoração, todos alinhados ao estilo e bolso da dona do quarto.
Figura 17: O acordar de Flora e Donatela. Fonte: Youtube, 2018; e elaboração da autora, 2018
Enquanto isso, Flora põe-se a pé em sua cela prisional, que não deve medir mais que quatro metros quadrados. A cama de solteiro forrada com jogo de lençol e coberta de quinta categoria é o único espaço em que a luz do sol por meio do pequeno gradil fixado no pé direito da parede pode entrar. Quanto às vestes para o repouso é igual a todas as outras centenas de presas. Após levantar, ambas seguem para o seu ritual de beleza, onde mais uma vez as semelhanças entre as personagens são apontadas. Ao contrário do que sempre foi pregado pela hegemonia cristã, de que Bem e Mal se diferem entre si em todos os aspectos, Flora e Donatela evidenciam que as verossimilhanças ultrapassam as barreiras impostas, tornando-as praticamente invisíveis.
Bem e Mal mantêm hábitos tão semelhantes que impossibilitam um primeiro palpite do público de diferir quem é quem. Maffesoli (2004) ressalta que o “cotidiano está impregnado dos fenômenos de "dupla vida", cheio de práticas de transgressões, fundando-se essencialmente em táticas de ardil que lhe asseguram uma espécie de eternidade” (p. 148). O Mal em A Favorita apodera-se dos costumes do outro para
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assegurar sua imunidade e dificultar seu reconhecimento, mantendo-se livre no mundo dos bons.
Figura 18: Espaço físico ocupado por Flora e Donatela. Fonte: Youtube, 2018; e elaboração da autora, 2018.
Dando seguimento às práticas, no mundo de Donatela, como já ficou notório, o luxo e a riqueza estão presentes em cada detalhe. Em sua casa de banho composta por um largo espelho que reflete o closet, Donatela inicia sua rotina vestida com uma camisola de seda verde água e como forma de rejuvenescer a pele deleita sua face em uma bacia com tônico facial e gelo, esta de certo preparada por algum serviçal. Mas, antes de todo esse rito, ela faz um penteado rabo de cavalo para não molhar os longos cabelos negros. Já sua rival, levanta-se de imediato e sem escolha de outro cômodo senão o que ela ocupa no momento segue imediatamente para a pequena pia, instalada em frente a sua cama.
Ao ver-se no espelho que mede 10x15 cm, nota-se a face de uma mulher sofrida e um tanto quanto desanimada. Flora, penteia os cabelos ligeiramente com as próprias mãos e lava a face com a água fria e misera que sai pela torneira, em seguida troca de roupa e começa a reunir seus pertences, entre eles a foto de uma bebé e um disco de vinil que traz na capa a foto dela e Donatela. Faísca & Espoleta é o título do disco que entrega ao público a existência de uma ligação profunda entre as duas.
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Figura 19: Semelhanças entre Flora e Donatela. Fonte: Youtube, 2018; e elaboração da autora, 2018.
Na cena subsequente Donatela coloca vagarosamente seu par de brincos de brilhante, seu semblante a princípio não expressa nenhum sentimento. De repente voltamos à Flora, que é surpreendida por uma carcereira que lhe pergunta: “Vamos
embora ou você já está com saudades daqui?”, após a resposta de Flora, que diz não ter
pressa por já ter aguardado tempo em demasiado retornamos ao glamuroso mundo de Donatela, que ao falar no telefone inicia o processo de revelação de quem é de facto ela. Em tom agressivo e autoritário, Donatela ordena a pessoa do outro lado da linha que acompanhe todos os passos de Flora e que não perca “essa vagabunda de vista”.
O vocábulo chulo utilizado por Donatela para nomear Flora entra em contradição com o momento da saída da mesma, após 18 anos de detenção. Ao sair da cela Flora é ovacionada por suas companheiras de cárcere, que juntamente com demais agentes penitenciárias se posicionam durante seu trajeto como forma de se despedir e emanar boas vibrações a ela. Essa ação faz com que o telespectador subentenda uma provável falha na justiça quanto à veracidade do crime ainda não revelado. Numa sociedade cujos valores éticos e morais nos fazem crer que todo o individuo condenado
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à reclusão é um ser aparentemente pertencente à esfera do Maligno, nos deparamos em
A Favorita com o rompimento dessa crença.
Em contradição ao que nos é ensinado como “valor” a ser seguido, o sociólogo francês Émile Durkheim (1999) em sua obra, As regras do método sociológico, afirma que o crime nada mais é que “um fator da saúde pública, uma parte integrante de toda sociedade sadia” (p.68). Durkheim defende que a sociedade necessita do crime, por consequência do criminoso em si, para garantir sua evolução e assim manter-se enquanto sociedade organizada, quanto a isso ele indaga: “Imaginem uma sociedade de santos, um claustro exemplar e perfeito. Os crimes propriamente ditos nela serão desconhecidos; mas as faltas que parecem veniais ao vulgo causarão o mesmo escândalo que produz o delito ordinário nas consciências ordinárias” (Durkheim, 1999, pp. 69-70)
Em A Favorita não se sabe o motivo, até então, que levou Flora a ser presa e tampouco o porquê desse estranhamento entre ela e Donatela, entretanto é perceptível que a construção da narrativa tende a inocentar, neste primeiro instante, aquela que por quase duas décadas manteve-se atrás das grades e, para legitimar essa ação o autor conta com a autorização do público. Apesar da inversão de valores, o público se sensibiliza com a dor do Mal, os motivos que levaram ao posicionamento de cada uma são rapidamente banidos pelo telespectador. De acordo com Candido et al (1976), essa associação de Flora ser de imediato a mocinha e Donatela a vilã integra um processo sociológico, do qual o ser humano tende a associar a bondade àquele que de alguma forma cometeu menos erros, mesmo sendo esse indivíduo apenas um representante da vida real.
Via de regra, a encarnação (personagem/pessoa) se processa através de gente que conhecemos muito bem, em atores que nos são familiares. Aliás, nos casos mais expressivos, tais atores são muito mais que familiares: já são personagens de ficção para a imaginação coletiva, num contexto quase mitológico. (Candido et al, 1976, p.114)
A construção de A Favorita, como já foi explanado pelo próprio autor da trama, quebra o que se compreende por percurso natural das coisas. De um lado, uma mulher aparentemente manipuladora e rica, do outro uma pobre coitada com semblante frágil, sem condições financeiras de reiniciar a vida dignamente e que possivelmente foi condenada injustamente. Após ganhar a liberdade Flora segue sem rumo e com muito pouco dinheiro em busca do que havia deixado para trás. Em seguida, Donatela,
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desesperada pela soltura da sua rival reverbera que um dos pontos conflituosos entre ambas é a guarda de Lara, a bebé que Flora guardou a foto durante todos esses anos e a utilizou como uma das suas fontes de inspiração é a que Donatela cria como se fosse sua.
Neste momento a narrativa começa a ganhar forma e os discursos das personagens passam a ter mais sentido para o público. Oriundo do imaginário popular, o Monstro traça o seu “trajeto no qual a representação do objeto se deixa assimilar e modelar pelos imperativos pulsionais do sujeito, (...)” (Durand, 2002, p. 41). A similaridade entre os mundos do Bem e do Mal não se limita apenas aos ritos realizados por ambas as personagens, encontramo-la na capacidade que ambos têm em utilizar as mesmas armas de defesa para manter seus segredos velados. Além disso, tanto o Mal quanto o Bem transmutam naturalmente, incorporando sem cerimônia trejeitos, falas e ações do outro.
A. J.R. Santos e J. Santos (2013) alertam que cada sociedade tem o poder de criar seus próprios Monstros, e verdadeiramente o faz, “sendo que cada monstro só pode nascer, crescer e gerar descendentes dentro de uma cultura que o alimente e sustente, tanto em suas glórias, quanto em seus medos, mas de fato dando-lhe atenção” (A. J.R. Santos & J. Santos, 2013, p. 1). No mundo hodierno o Maligno encontrou como rota de fuga a esfera audiovisual, onde através das telas de ecrã, especificamente nas telenovelas, ele pode ser quem ele quiser ser, inclusive quem ele é de facto sem chocar ou perder o carisma da sociedade. De facto, “há uma verdadeira profusão de representações e de discursos sobre os monstros, reais ou imaginários, físicos ou morais, humanos ou maquinados, nos domínios da arte, da literatura, do cinema e dos media interactivos”. (Rabot, 2011, p.191).
Se de um lado Donatela apodera-se do modo “tirano” para amedrontar sua rival e tentar dominar a situação a seu favor, do outro, Flora mantém-se imune à perversidade, exala retidão e reafirma através da falácia sua bondade. Em apenas dois minutos Bem e Mal conseguem transitar em ambos os mundos. Vestindo-se dos trajes alheios, Flora e Donatela instalam a desordem e com a ajuda do telespectador ajudam a desconstruir padrões já considerados normais, mas ainda banidos pela sociedade. A verossimilhança nos mundos, do Bem e do Mal resulta no que Maffesoli (2004) chama de homeopatização do Mal. “Em contrapartida, a reafirmação da pessoa plural num mundo policultural tende a integrar o mal como um elemento entre outros. Ele poder ser
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vivido, tribalmente — e, com isto, "homeopatizar-se", tornar-se mais ou menos inofensivo”. (Maffesoli, 2004, p.15).