Abbreviations and definitions
The 4 th International Consultation on Incontinence (Paris, 2008)
3 Materials and Methods
Para dar concretude a ambiguidade do Mal, ambas as personagens pertenciam ao mesmo cenário econômico, social e cultural. Os laços de proximidade foram criados através de uma fatalidade, onde Donatela após mudar-se para a casa em frente a de Flora, perde os país em um fatídico acidente de carro, o que ocasionou a união entre ambas, a ponto de dividirem o mesmo teto, já que a família de Flora passa a ter a guarda de Donatela. As meninas que cresceram como irmãs formam uma dupla sertaneja e no auge do sucesso, Donatela que era a mais bela e mais talentosa põe fim na carreira para casar-se com Marcelo Fontini. E é justamente desse ponto que se constrói a psicopatia de Flora. As meninas aparentemente mantêm uma relação saudável, até Flora elucidar um sentimento doentio por todo o universo que Donatela faz parte, almejando ter tudo que era da sua amiga-irmã.
A vitalidade das personagens foi possível através de duas atrizes com perfis estéticos opostos, mas com extremo carisma perante o público. Cláudia Raia e Patrícia Pilar foram incumbidas de dar vida às personagens Donatela e Flora, respectivamente. Com mais de duas décadas de carreira dentro da emissora, as atrizes aceitaram o desafio e incorporaram as personagens de uma trama que inaugurava na tv brasileira uma nova forma de representação do Maligno. A divisão dos papéis levou em consideração a própria trajetória artística das atrizes e por opção do autor o papel de verdadeira assassina foi desempenhado por Patrícia Pillar, já que ela até então nunca tinha interpretado uma vilã, gerando mais credibilidade junto ao telespectador.
Ao longo de sua carreira Pilar sempre interpretou papéis, cujas personagens provocavam um apelo emocional muito grande. Sua primeira telenovela global, escrita por Benedito Ruy Barbosa lhe rendeu uma parceria de anos com o autor, a exemplo das
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personagens Ana do Véu (primeira versão da novela Sinhá Moça, 1986); Eliana (Renascer, 1993) e a boia-fria Luana (Rei do Gado, 1996). Em A Favorita:
O nome de Patrícia surgiu como alternativa natural na busca da protagonista de uma novela que tinha como grande lance da primeira fase a ocultação da verdadeira identidade de Flora. A atriz tem uma imagem impecável junto ao público. Tanto pelos papéis que desempenhou ao longo da carreira quanto por sua vida pessoal. (Marthe & Rogar, 1999, para. 5)
A composição das personagens foi uma tarefa árdua, pois a ambiguidade era algo que seria construído e assim que alicerçado seria desconstruído de imediato. “Criei um grande problema para elas. A Cláudia precisava conquistar o espectador mesmo fazendo coisas politicamente incorretas e a Patrícia Pillar teve que bancar a mocinha, dando margem para se transformar em uma vilã” (Bessa, 2008, para. 5), disse o autor durante uma coletiva de imprensa. Para dar ênfase as personagens, foi feito um trabalho laboral extenso onde as atrizes contaram com a ajuda de demais profissionais.
No caso de Donatela, a atriz Claudia Raia teve de despir-se muito de si mesma para encontrar o eixo mais propício da personagem. Claudia, com seus 1,80m de altura, é formada em balé clássico e sempre interpretou papéis que enaltecia seu charme e elegância, sendo apontada enumeras vezes como um referencial de moda e estilo:
Não pude oferecer nada meu para a Donatela porque nada se encaixa. Tive que despir a Cláudia Raia, tirar o andar da bailarina, da mulher alta, estilosa, para buscar a brutalidade, andar de pernas abertas e com a bunda para dentro. (Rodrigues, 2008, para. 1)
Apesar de ser muito bonita a caracterização de Donatela teve de contar com alguns artifícios que de alguma forma instigassem no público a certeza de que ela era a vilã. O andar masculinizado, a entonação de uma voz mais arredia e o excesso de joias extravagantes foram alguns dos artifícios que contribuíram para a caracterização da personagem.
Claudia Raia contou com a ajuda do ator Cacá Carvalho e da atriz e instrutora de dramaturgia Rosana Garcia (a primeira Narizinho do Sítio do Pica-pau Amarelo) para dar corpo a Donatela, uma das poucas personagens dramáticas que fez na TV. (Memória Globo, 2018)
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Mesmo sendo uma perua nata, que tinha verdadeira idolatria pelas coisas materiais ostentando a todo o tempo tudo o que o dinheiro podia financiar, a personagem residia em um rancho, uma espécie de fazenda localizada à margem da metrópole. Muitos de seus trajes fazem referência ao estilo country, como botas e calça jeans, estabelecendo uma conexão entre o presente e o passado de Donatela, já que ela por muitos anos foi cantora desse estilo musical.
À medida que a caracterização de Donatela era desconstruída, já que a personagem passa pelo processo de condenação, prisão e suposta morte, Flora experimenta o contrário. Num primeiro momento, assim que sai da prisão, Flora se veste com roupas muito simples. O vestuário não passa de uma calça jeans, uma saia jeans na altura dos joelhos, camisetas em tons claros e tênis e um ou dois casacos finos. Além disso, a loira dos olhos azuis impactantes faz pouco uso de maquiagem, sua postura corporal também influência a posição que ela ocupa que é a de vítima. Também tinha voz suave e um discurso de lamentação e justiça. As modificações estéticas da personagem estão diretamente ligadas à maneira em que ela age na trama. À medida que Flora ganha espaço na novela, convencendo a todos sobre seu discurso camuflado de verdade, seu visual também é alterado.
Para viver sua personagem, Patrícia Pillar visitou o presídio feminino Talavera Bruce, em Bangu (zona oeste do Rio), para conhecer a realidade das detentas. Também contou com a colaboração da instrutora de dramaturgia Paloma Riani e da psicanalista Kátia Achcar, que a ajudaram na construção da subjetividade de Flora. (Memória Globo, 2018)
Ambas as personagens passaram por modificações ao longo da trama; num segundo momento, ao subverter novamente os papéis Donatela veste-se com roupas mais simplórias e Flora caracteriza-se de uma nova rica, com direito a roupas de grife, joias e demais artigos de luxo. Contudo, modifica-se também a postura e a própria entonação de voz das personagens. Donatela passa a ser uma mulher acuada que, com medo de viver para sempre a sombra de Diva Palhares, detenta que forjou a própria morte para Donatela ser beneficiada com a soltura da cadeia. Já Flora mantem-se na pose de uma mulher elegante, ousada e destemida, conquistando tudo o que ela sempre quis, que é o universo de Donatela.
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De acordo com Maffesoli (2004):
Faz parte da consciência humana negociar com ele. Há uma distinção, que encontramos no pensamento grego, que nos pode ajudar neste sentido. De um lado o pecado, sobre o qual podemos agir, que podemos evitar de diversas maneiras. Do outro, a “poluição”, que é automática, tão impiedosa, quanto o micróbio desta ou daquela doença, e, com o tal, tragicamente incontornável. Eu diria que “temos de aguentar”. (Maffesoli, 2004, p. 39)