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3. ways Forward

Cena 1: a cena inicial no rio Tibre

Figura 25: Cena do rio Tibre

O filme começa e termina às margens do rio Tibre nas imediações do bairro Magliana nos arredores de Roma.

No início, numa tarde ensolarada, Cabíria passeia com Giorgio, seu namorado recente. Eles brincam, sorriem, abraçam-se... Mas, ao chegarem às

margens do Tibre, o homem atira-a nas águas do rio e foge com sua bolsa. Ela é salva por alguns garotos e, ao chegar em casa, um casebre erguido em um terreno baldio e que possui, além de poucos móveis, um passarinho, uma flor e um espelho, pergunta à colega Wanda se esta viu Giorgio. “Qual Giorgio?”, indaga-lhe Wanda. “O meu Giorgio”, responde-lhe Cabíria. A protagonista inicia então, nesse momento, um longo diálogo consigo sobre o amor.

Cena 2: o diálogo com Wanda

Figura 26: Diálogo com Wanda

Já em casa, logo depois de seu parceiro ter tentado assassiná-la, Cabíria conversa com Wanda, e esse primeiro diálogo entre elas é um pouco tenso. Para Wanda, “uma prostituta é quase sempre de um homem mas nunca tem um homem que seja verdadeiramente seu”. Cabíria, porém, não se conforma com essa realidade amarga e não quer admitir que Giorgio tentou matá-la por 40 mil liras. Realista, Wanda responde à amiga: “Certas pessoas fazem isso por 5 mil liras hoje em dia”.

Cena 3: o encontro com o ator de cinema

Figura 27: Cabíria dançando mambo

Atraída pela música da boate Kit-Kat, Cabíria dança sozinha na calçada. A loira Jessy (Dorian Gray) sai do local, acompanhada pelo ator Alberto Lazzi de um jantar, e com a gravata guardada no bolso do paletó. Eles haviam bebido e estão brigando. Depois de uma troca de tapas, a mulher afasta-se. O ator entra em seu carro esporte branco, vê Cabíria e convida-a para um passeio de automóvel. Ela aceita o convite dele, e, depois de percorrerem algumas ruas, Alberto para seu carro diante da boate Picadilly. Os dois entram no clube e sentam-se no bar, onde o ator é recebido como um cliente habitual.

A atmosfera do local é fúnebre e abstrata, como a daqueles estabelecimentos que aparecem em A doce vida, com singulares presenças femininas. A orquestra toca um mambo e novamente Cabíria dá um show de alegria e desprendimento. Alberto, muito mal humorado, resolve ir embora e diz a Cabíria que vai levá-la para a casa dele. Sem conseguir acreditar na própria sorte, Cabíria caçoa das “belas mulheres” da via Veneto: “Dureza, hein?”.

Já em sua casa, o ator ouve, extasiado, uma música de Beethoven e reparte sua emoção com Cabíria, que também se comove com a melodia.

Enquanto o mordomo entra solenemente na sala, trazendo um carrinho com o jantar (caviar, lagosta e champanhe), Alberto pergunta a Cabíria como ela vive e onde mora. Ela se gaba da própria casa e de suas coisas. O astro desliga o rádio e convida-a a comer alguma coisa. Encorajada, Cabíria confessa que é sua admiradora.

Quando brindam com champanhe, ela toca o artista, como para ter certeza de que ele é de “carne e osso”, e tenta beijar-lhe a mão. Convencida de que ninguém

irá acreditar em sua história, começa a chorar e pede-lhe uma foto, na qual ele deveria autografar “Cabíria esteve aqui”. Nesse momento, ouve-se o som de uma campainha, e o mordomo anuncia que Jessy está subindo. Apressadamente o astro esconde Cabíria no banheiro. Pelo buraco da fechadura com um cachorrinho na mão, ela assiste ao beijo de reconciliação entre Alberto e Jessy.

Às cinco da madrugada, na ponta dos pés, Alberto faz Cabíria sair do esconderijo. Passando pelo quarto, ela mal tem tempo de lançar um olhar para a bela adormecida Jessy. No vidro da porta de saída pode-se ver, então, o reflexo do astro insistindo em colocar dinheiro na mão de Cabíria.

Cena 4: a peregrinação à capela do Divino Amor

Figura 28: Cabíria na mata

Oh, Virgem Maria. Faça com que eu mude de vida. Me concede esta graça. (Cabíria)

À espera de um milagre em favor de um manco, as mulheres resolvem participar de uma peregrinação à capela de Nossa Senhora do Divino Amor. Mas Cabíria está perplexa: “Tenho tudo... O que posso pedir a Nossa Senhora?”.

Sagrado e profano mesclam-se na capela: juntam-se ali peregrinos, doentes e vendedores, numa confusão que lembra uma feira. O manco oferece velas de graça a todas as mulheres, para que elas o ajudem a implorar o milagre. Cabíria, enquanto isso, decidiu que também quer uma graça, mas não sabe o que pedir.

No interior da igreja, onde os fiéis pedem o milagre, multiplicam-se os gritos de “Viva Maria” e entrecruzam-se cantos e invocações. O coração de Cabíria bate

forte, como se realmente algo estivesse para acontecer. Nenhum milagre ocorre, e, ao contrário, o manco cai ao chão.

Cabíria prossegue na capela, falando com Nossa Senhora sobre a importância do amor como um espaço de consagração, e, com uma atitude de reverência e concentração, tenta fazer contato com o sobrenatural, como um modo de ultrapassar limites internos e sociais. Ela pede para que Nossa Senhora lhe dê autoestima e confiança para o desenvolvimento de suas qualidades pessoais e de sua fé. No entanto, ao mesmo tempo que defende esses sentimentos, parece dizer que não se trata apenas de confiar em Deus ou no mundo, mas, antes, de descobrir sua própria força a partir desses encontros.

Ao redor da capela, as pessoas tocam instrumentos musicais, dançam e jogam futebol, num ambiente deteriorado. Cabíria está triste e chora: “Nós não mudamos nada”. Ela percebe que, entre os fiéis e suas companheiras de trabalho, não lhe é possível um encontro com o Divino, de caráter singular. Nesse momento, tomada pela fúria, Cabíria acredita que deve responder pela própria experiência de liberdade, ou seja, que a pessoa precisa poder ter a possibilidade de ser o que é diante do misterioso. No entanto, do ponto de vista social, ela tende a se sentir obrigada a se adaptar às formas religiosas instituídas, apesar de se revoltar contra elas.

Reiterando seu propósito de ir embora, Cabíria sai da capela tomada por uma dúvida que a faz questionar o imobilismo e acomodação das pessoas.

Cena 5: o teatro de variedades

Em uma noite, Cabíria entra num cinema da periferia, onde está se realizando um espetáculo de variedades. Um velho mágico, para mostrar seu número, chama Cabíria e alguns outros jovens ao palco, para que participem de um jogo baseado na hipnose. Retendo Cabíria no palco, o ilusionista tira a cartola e chifres de diabo surgem em sua testa. Cabíria ressalta a semelhança de sua experiência amorosa com a experiência do ilusionista, o qual afirma entrar em transe toda vez que acredita em algo. Essa experiência também acontece comumente com Cabíria, mas, segundo ela, frequentemente não é reconhecida pelas pessoas que não acreditam em seus sonhos de amor.

Cena 6: a cena final no rio Tibre

Depois da sessão do ilusionista, Cabíria conhece Oscar, um homem tímido, sério e trabalhador. Os dois começam a encontrar-se, até que Oscar, dizendo-se apaixonado, propõe-lhe que se casem. Acreditando que o encontro do homem de sua vida acontecera por causa de suas preces, Cabíria aceita a proposta de casamento, vende sua casa, desfaz-se de suas coisas, despede-se de sua melhor amiga e vai embora com o marido. Os planos de Oscar são, porém, aos poucos, revelados.

Com o pretexto de ver o pôr do sol, ele a leva, através de uma floresta deserta, até à beira de um precipício. Cabíria logo percebe a intenção do marido. Novamente enganada e humilhada, ela se desespera e pede-lhe que a jogue do precipício, pois, assim, acabaria com tudo de uma vez. Mas Oscar fraqueja, faltando- lhe coragem para executar seu plano. Desajeitadamente, ele então apenas se apossa da bolsa de Cabíria e foge.

Figura 30: Oscar e Cabíria na margem do rio

Assustada pela brutalidade calculista do amante, o sentimento de Cabíria é, a princípio, de que o mundo caminha sem sua presença, ausente. Quando anoitece, ela levanta-se, atravessa o bosque e chega à estrada. Alguns jovens, uns a pé, outros de moto, dirigem-se para o lugarejo mais próximo. Tocando e cantando, eles dançam ao redor dela, como para lhe fazer festa, e uma das moças diz-lhe “Boa noite”. Cabíria olha para um lado e para o outro, olha também em direção à câmera e consegue sorrir: a vida, absurdamente, continua. Uma abertura se instaura diante da música e da falta de sentidos. Nesse momento, como elo e sentido expressivo de comunicação com a vida e com o amor, restam-lhe apenas a música e o sorriso dos músicos com expressões de palhaços.

4.1.4. A que será que se destina: existir como um palhaço ou ser-aí