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1. Framework for analysis

Figura 23: Giulietta Masina em Noites de Cabíria

O pior é que não sei como não ir, o apelo é para que eu vá para o amor, e na verdade profundamente eu quero ir, o apelo é para que eu vá, é o encontro meu com meu destino esse encontro temerário com a flor. (Lispector, 1993)

A personagem Maria Cabíria Ceccarelli nasceu das conversas sobre o amor que Fellini, durante as filmagens de A trapaça, mantivera com Wanda, uma prostituta que trabalhava nas favelas do Aqueduto de Roma. Na ocasião, ele impressionou-se com as histórias de vida das prostitutas romanas. Wanda, que tentara suicídio três vezes por amor, acreditava que o sentimento do amor era a condição primordial e vital para a vida: “Se você não ama e não gosta dos outros, está tudo acabado”.

As experiências de (des)amor de Wanda serviram de inspiração e motivação para a criação de Cabíria. Nesse enredo, o amor é mencionado várias vezes por Fellini como “um lugar essencial, que devemos estabelecer elos em todas as situações de nossas vidas, embora seja, um lugar que os homens não costumam frequentar” (FELLINI, 2012, p. 12).

Um dos problemas que constituem uma parte do tema de todos os meus filmes é a terrível dificuldade que as pessoas têm de falar umas com as outras, ou de afetos, o velho problema da comunicação humana, a desesperada angústia de estar com alguém, de amar alguém, o desejo de ter uma relação real, autêntica com outra pessoa e não conseguir se expressar. Pode ser que eu venha a mudar, mas no momento continuo completamente absorvido por esse problema, talvez porque não o tenha ainda solucionado em minha vida. (Ibid., p. 59)

Figura 24: Cabíria em casa, pensando no episódio do rio

Para Fellini, o amor tinha algo de inatingível: “a imagem que envolve o amor é de um nevoeiro”. Nas cenas de Amarcord, Fellini retrata fielmente essa imagem.

Dependendo do tema que iria abordar, ele buscava relacionar um determinado traço da personalidade ou uma experiência emocional/afetiva dos seus personagens

a uma imagem poética ou mítica. Cabíria, por exemplo, era considerada pelo cineasta uma flor e um palhaço. Fellini costumava dizer que Cabíria era uma personagem pura e que tinha dentro de si “aquilo que permaneceu intacto do amor no meio das erosões provocadas pelo ato de viver” (FELLINI, 1972, p. 34).

Cabíria é humana e ao mesmo tempo reconhecível como uma flor. Firmemos o entendimento: ela continua sempre como a personificação de um estado de espírito. Ou seja, uma criatura que ama e queria ser amada, e viver numa relação de intensa simplicidade com os outros. (FELLINI, 2011, p. 94)

Cabíria revela-se “uma flor, uma rosa, e um clown, diante do crônico infantilismo, da covardia e da arrogância do homem” (FELLINI, 1972, p. 56).

A imagem poética, como pode ser apreendida na atitude fenomenológica, deixa de lado o saber prévio e considera a percepção e o significado da vivência imaginativa de cada indivíduo. No entender fenomenológico existencial, podemos dizer que há vários modos de perceber a imagem poética ou mítica.

Até o século passado, acreditava-se que o mito seria um momento primário, um momento infantil, a ser superado pela razão. Assim, ao superá-lo, entrar-se-ia na idade da razão, no momento maduro, da paciência, de autonomia, de lucidez,o mundo da consciência manifesta: essa foi a concepção que prevaleceu até o fim do século passado. Depois das contribuições feitas pela antropologia, pela psicanálise, uma nova valorização do mito e das imagens se processou no século XX.

Inspirada pela imagem de Fellini sobre Cabíria e com o objetivo apenas de ilustrar a percepção do cineasta, fui buscar o significado e a representação mítica de uma rosa em Clóris, deusa grega das flores:

De acordo com a mitologia grega, a rosa foi criada por Clóris, a deusa grega das flores. Ao encontrar, num bosque, o corpo sem vida de uma ninfa, Clóris pede a ajuda de Afrodite, a deusa do amor, que deu à flor a beleza; Dionísio, o deus do vinho, ofereceu néctar para proporcionar-lhe um perfume doce; e as três Graças lhe deram encanto, esplendor e alegria. Depois Zéfiro, o vento oeste, afastou as nuvens com seu sopro para que Apolo, o deus-sol, pudesse brilhar e fazer a planta florescer. E, dessa forma, a rosa nasceu e foi logo coroada Rainha das Flores. As ninfas na mitologia grega eram consideradas fadas sem asas: leves, delicadas, criativas, e responsáveis por levar alegria, felicidade e amor. Em grego, a palavra ninfa (nimphe) possui vários significados, entre eles “botão de rosa”, e a rosa é a flor do amor. (PIKLES, 1990, p. 12)

Extrapolando brevemente o mito, poder-se-ia dizer que a rosa é o sublime escondido no trivial, inspirando momentos fascinantes e sentimentos maiores, como a generosidade e o amor. E, tal como uma rosa, Cabíria emana, segundo Fellini (1972, p. 45), “[...] generosidade, graça e amor, assim como um palhaço. Em Cabíria, o amor surge entre o espetáculo circense das relações humanas”.

No filme, como ocorre no circo, as cenas da vida de Cabíria possuem uma estrutura episódica. Já desde o início do filme, temos a impressão de que não encontraremos necessariamente uma sequência temporal lógica entre os fatos e os acontecimentos da vida da personagem. Dar perspectiva a experiências em relacionamentos significa tentar situar o amor no contexto de uma compreensão mais ampla.

Seguindo essa trilha, na pesquisa, a história de Cabíria foi dividida em seis cenas, a meu ver, que revelam passagens significativas sobre as vivências do amor em Cabíria.