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Pompéia (2010, p. 32) comenta que os sonhos de amor chegam a nos assustar e por isso nós os guardamos em segredo. Isso se deve ao fato de serem sonhos que não se limitam a um sonho isolado, uma vez que entram em quase todos os sonhos. De acordo com o autor, tendemos a encontrar nos sonhos de amor o melhor de nós mesmos, pois temos uma predisposição para nos sentir realizados dentro do próprio sonho.

Entretanto, esses sonhos também se apresentam como os mais frágeis, pois é preciso que o outro nos ame e aprove para que possamos continuar sonhando. Diante dessa condição, ainda segundo Pompéia (ibid.), podemos ter a sensação de que precisamos guardar tais sonhos em segredo, pois, “se o outro não nos entender, se o outro ficar longe do meu sonho, este pode se desmoronar”. Assim, o que pode

se apresentar como fonte de prazer, realização e entusiasmo pode também resultar em sofrimento.

Os sonhos seriam uma coisa frágil, ilusória dentro de um mundo forte, a que chamamos “realidade”, e, portanto, perigoso. Uma vez realizados, não se nos apresentariam tão potentes quanto o real: “o sonho me fazia ficar enorme dentro dele e pequeno na realidade”. (Ibid., p. 34)

É nesse ponto que Cabíria questiona por que os sonhos morrem ou por que os deixamos morrer. Uma vez realizados, podemos nos sentir frustrados e começamos a conviver com a sensação de que um sonho realizado não é tão potente quanto o sonhado, porque a realidade pode esvaziar, diminuir aquilo que nossa imaginação nos permite ver.

O autor ainda avalia que os sonhos morrem também porque desacreditamos das histórias que criamos a partir deles e nos sentimos solitários, assim como porque convivemos com pessoas que por desacreditarem de seus próprios sonhos nos intimidam com suas racionalidades. Segundo o autor, são pessoas que carregam “cadáveres” de seus sonhos mortos pela vida afora: “Isto as deixam rancorosas, céticas. Elas tinham raiva dos meus sonhos e de terem, elas mesmas, também sonhado” (POMPÉIA, 2010, p. 32).

Já em Cabíria, a busca por sonhos e por se (re)erguer de uma vida miserável é uma constante. Voltar à vida em seu pequeno mundo como se estivesse sempre a espera de um milagre, ou seja, no fundo, ela deseja o milagre. Mas ela também quer ser aceita socialmente, ter uma vida normal e estabilizada, um trabalho, uma casa e um marido (um amor), ser, enfim e simplesmente, uma pessoa igual às outras, com identidade e personalidade próprias.

Só que, diferentemente do mundo convencional, cheio de racionalidade, age por impulso e acaba se enganando novamente por acreditar que sua vida é, de fato, como conta e sonha, “[...] colorindo-a com ingênuas fantasias sentimentais”, crença esta que, segundo Fellini (2011, p. 105), é fruto de “uma garota azarada que visa, ao final, conseguir realizar os seus sonhos de amor”. Mas a “realidade” é feita de muitas outras pequenas realidades, as quais às vezes se encontram e se encaixam, mas noutras vezes se chocam.

Mesmo com o coração partido, Cabíria deixaria de ser uma mulher sonhadora, ingênua, amorosa? Dificilmente. Afinal, ela é uma figura generosa, afável

e justa, e também uma personagem ingênua, que deseja e sonha mais do que planeja. Diferentemente das pessoas raivosas ou esquecidas, segue tentando preservar seus sonhos, entre modos de ser banais e épicos, lúdicos e emocionais, disponíveis e risíveis, como um palhaço.

Ainda que arrancada de seu sonho de amor, do desejo do encontro com o outro, ela segue insistindo em acreditar nesse encontro com o amor e numa sociedade sem preconceitos, na qual ela, como prostituta, e os marginalizados que moram ao seu redor exibiriam suas diferenças sem prejuízo para ninguém diante do amor.

A preocupação fundamental do palhaço enquanto trabalho é, assim, de agradar, mesmo triste e desamparado. [...] é uma emoção que se quer para fora de si. (SAMPAIO, 1993, p. 94)

Essa fabulação de procura e desencontro nasce como um ponto de referência em sua vida. Para ela, o caminho da esperança no amor talvez seja aquele em que os indivíduos não tragam para a vida limites e, na vida a dois, uma máscara dissimuladora, escondida ao amor. Também aqui o palhaço pode ser visto como um exemplo de seu duplo. O que interessa não é o que o palhaço esconde, mas o que ele instaura e inaugura. O mundo que ele traz para a vida que faz sentido, assim como Cabíria.

Cabíria segue aceitando a vida no que ela tem de imprevisível e dolorosa. Nesse momento de desamparo e dor, e de busca de uma continuidade para sua vida, faz referência a sua casa: “Eu tenho uma casa, um teto, por isto não sou como qualquer uma”. A casa é vista por ela como símbolo da intimidade de sua interioridade, de ser-com algo. O sentido do espaço reverbera sua forma externa de “habitar” o amor, sua forma de amar.

De um ponto de vista simbólico, a casa representa o próprio ser da pessoa, que compõe o sentimento de que tudo está em ordem da forma como deveria estar e como se desejaria que estivesse.

Esse “habitar” é dado em especial pela condição de ser-no-mundo, pois é nesse fenômeno que o Dasein pode ser junto às coisas e ser-com os outros. Nas palavras de Heidegger (2006, p. 26), os “mortais são, isto significa, em habitando tem sobre si espaços em razão de sua demora junto às coisas e aos lugares”, ou

seja, os homens permanecem em uma condição de ser entre as coisas e os lugares. Ser junto às coisas é onde o homem habita.

“Habitar” o amor, como poder pertencer a sua própria casa, não possui, para Cabíria, um sentido passivo, de conservação, mas de uma construção ativa que transforma as realidades por si só medíocres e insignificantes do amor em espaços fascinantes da vida.

Ainda que não possua uma consciência de sua “entrega” desarrazoada, ela convive com a nítida sensação de que algo escapa de si mesmo diante das vivências no amor. E desse modo, sempre houve mais pasmos espantos do que resposta sobre o amor. Ocorre que ela tem poucas opções para saber quem é, e o que deseja.

Entrega-se à uma intuição de uma realidade transcendente do amor para escapar à impotência do seus isolamento e solidão ou uma tentativa de ludibriar pretensas fronteiras do tempo e espaço, que se instalam com naturalidade surpreendente na vida de um ser que nasce, cresce, às vezes se reproduz, e depois morre, inevitavelmente. Fronteiras estas que são estabelecidas com base em um tempo cronológico e espaço calculado. Esse tempo é também um dos alicerces de uma vida contada em anos. Diferente da história de um palhaço, e de Cabíria, que se conta à medida que vai vivendo.

É isso que tentaremos compreender nas cenas a seguir.