Segundo Prabhu (1992, p.230), a sala de aula é uma “arena de interação humana”. A dinâmica da sala de aula é um tipo de gênero social, com suas próprias regras e rituais. A sala de aula é um encontro social com experiências compartilhadas, que exige do professor uma constante ação corretiva ou protetora, principalmente quando os alunos são crianças.
Fazer a análise de um material didático apenas com base no que os professores pensam sobre ele nos pareceu pouco apesar da riqueza das contribuições das vozes de cada professor. Para uma análise mais completa, percebemos que fazer observações das aulas de inglês seria de grande valia para a compreensão do que de fato acontece quando o material está em uso.
Ao observarmos as aulas de inglês, vimos que nem sempre a realidade consegue alcançar aquilo que os autores de livros propõem. Não porque os professores não desejam alcançá-lo, mas sim porque há várias variáveis90 envolvidas no processo desde a elaboração do livro didático, a produção do mesmo, a compreensão do professor da proposta do material, do próprio preparo do professor até o uso do material em sala de aula. Se pensarmos bem, esse é um longo processo e é preciso entendê-lo melhor para não sermos injustos na análise de um material.
Como amostra das aulas de inglês do ensino fundamental da Rede Municipal, assistimos 20 (vinte) aulas com duração de 45 (quarenta e cinco) minutos em 7 (sete) escolas municipais diferentes. Como foi dito no capítulo anterior (Item 4.3.2), durante as aulas foram observadas a interação entre professor e aluno, a interação entre os alunos na língua-alvo e principalmente a utilização do material didático “Time for English” e sua relação com esta interação que ocorria em sala de aula.
Os procedimentos de todas as 20 aulas foram descritas e anotadas em caderno de campo. Para mostrar um pouco do que acontece em sala, foram escolhidas quatro aulas para servirem de exemplos da amostra as quais estão descritas no ANEXO 6 desta pesquisa. Não incluímos todas as vinte aulas devido à falta de tempo e à dimensão que esta pesquisa estava tomando, mas as aulas descritas no anexo representam bem as 20 aulas observadas e aparentemente representam as aulas de inglês do município como um todo.
90 Alguns exemplos dessas variáveis são: grande quantidade de alunos por sala; falta de material básico como
lápis de cor, papel, etc.; despreparo do professor devido à inexperiência ou má formação do curso de Pedagogia ou Letras; falta de um bom planejamento de aula; cansaço do professor devido ao grande número de horas trabalhadas; entre outras.
Percebemos que alguns professores entenderam bem a proposta do material “Time for English” e o seu papel na sala de aula. Como geralmente é abordado nas reuniões com os professores, os livros não devem ser o centro da aula e nem sequer tomar muito tempo da mesma. Os livros foram feitos para promoção de interação através de diálogos geralmente proporcionados pelos personagens (Tony e Ana) do livro e para fixação de um conteúdo que deve ser apresentado de maneira criativa e dinâmica pelo próprio professor. Assim, poderíamos dizer que os livros têm mais um caráter de ‘apostila’ do que de ‘livro didático’.
Os procedimentos das aulas de nº2 e de nº3 (apresentados no ANEXO 6) são excelentes exemplos de uso do material “Time for English”. O professor preparou aulas dinâmicas com material de suporte criado por ele mesmo com base no conteúdo do livro de inglês. O professor apenas abriu o livro “Time for English” para fixação do conteúdo através da prática de diálogos e exercícios de estrutura e vocabulário. Foram aulas que nos pareceu de qualidade, pois os alunos pareciam aprender bem o que o professor planejou de forma que estavam empolgados com o novo conhecimento. Além disso, ambas as aulas não tiveram o livro como o cerne, como único instrumento de aprendizagem. O livro foi utilizado apenas como orientador de conteúdos que poderiam ser ensinados nas aulas, com atividades para fixação dos mesmos. Ficou claro para nós que este professor compreendeu a forma de utilizá- lo e como tornar a aula de inglês interessante para os alunos partindo das idéias que o livro oferece. Dessa forma, os livros “Time for English” pareceram adequados ao contexto em que se insere, o conteúdo é contextualizado e adequado à idade. Os livros aparentemente ofereceram oportunidades para trabalhar as diferentes habilidades quando o professor entende como fazê-lo.
Já os procedimentos da aula de nº9 (Ver ANEXO 6) nos demonstrou um professor totalmente dependente do livro de inglês e sem muita idéia do que fazer com ele. O professor basicamente apresentava o conteúdo de maneira formal no quadro e pedia para os alunos abrirem o livro e fazer os exercícios. Dessa forma, o livro “Time for English” nos pareceu monótono, difícil e totalmente inexplorado, apesar de ser utilizado praticamente o tempo todo em sala de aula. Temos aqui um caso de um professor que ‘não adota’ o livro didático, ele ‘é adotado’ pelo livro didático. Esse fato nos fez pensar o seguinte: uma aula de qualidade depende principalmente de um professor consciente, que possua um entendimento docente dos princípios de uma prática pedagógica sólida. Essa experiência nos mostra que o material didático deveria ter um papel secundário.
Mesmo que o material “Time for English” esteja em sua primeira fase para testes, ou seja, para verificar aquilo que funciona ou não com esse público alvo, os livros parecem oferecer conteúdos interessantes para os alunos. Mas é preciso que o professor saiba
apresentá-los. Podemos observar que os exercícios são mais para a fixação dos conteúdos do que para a apresentação dos mesmos. Os diálogos incluídos nos livros parecem servir de modelos para aquilo que os alunos poderiam praticar oralmente na sala de aula, por isso a importância deles se identificarem com os personagens.
Não queremos aqui tirar o importante papel que o livro didático tem em sala de aula e colocar toda a responsabilidade de uma boa aula no professor. Na verdade, uma boa aula e, conseqüentemente, um bom ensino são resultantes de muitos fatores que estejam funcionando bem ao mesmo tempo. Como dissemos anteriormente, há muitas variáveis envolvidas no processo de ensino. Porém, muitas dessas variáveis podem ser contornadas quando o professor tem experiência ou consciência do modo como as crianças aprendem e no autoconhecimento que resulta da condição de professor reflexivo, exercitado para compreender por que as coisas acontecem em sala de aula e como é possível resolver quaisquer problemas que surgirem.
Mas como nosso foco é o material didático, podemos perceber a falta que o manual do professor faz principalmente para aqueles professores que ainda são tão dependentes do material, ou mesmo para os professores de forma geral compreender qual é a proposta do livro didático e como os autores conceberam sua utilização em sala de aula na sua elaboração. Talvez se houvesse essas informações por escrito, claramente explicadas, acompanhadas de sugestões ou idéias para o ensino e prática dos conteúdos, o professor da aula de nº9 poderia ter utilizado o material “Time for English” de uma maneira mais adequada ou interessante para os alunos.
Isso nos faz refletir sobre o fato de que talvez o material deva ser o mais completo possível. Talvez devêssemos entregar de ‘bandeja pronta’ tudo o que o professor precisa para o bom desenvolvimento da sua aula. Mas isso nos leva a pensar sobre o lado negativo disso: um material completo, porém fechado e inflexível, no qual o professor não tem oportunidade de fazer aquilo que ele acha que deve ser feito em sala de aula, porque o material não permite.
Enfim, não é fácil achar o equilíbrio do que o material deve oferecer e do que o professor deve ter. Mesmo encontrando esse equilíbrio em teoria, não é fácil colocá-lo em prática, porque não depende só dos autores, ou só dos professores ou diretores, etc. Talvez por isso nunca exista um material perfeito para qualquer situação. Todo e qualquer material deve tentar alcançar o que se considera ideal para um determinado público com base em resultados de uma pesquisa como esta ou a partir da própria experiência pedagógica do professor que está atuando em sala de aula no contexto em questão. E o professor deve ser capaz de adaptá- lo conforme as variáveis que influenciam a sua prática.