3.2 Five centuries of confrontations for knowledge and identity
3.2.1 Evangelize the “Indios”
O PELIC no município em questão tem sido uma luta constante, pois o programa ainda está em processo de construção. Estruturalmente, o programa está sendo constituído aos poucos com os acertos e erros do que acontece no dia-a-dia. Isso porque é difícil encontrar pesquisas que descrevam experiências parecidas, que descrevam programas desse tipo que deram certo em outras cidades, que poderia nos ajudar na elaboração de um projeto com objetivos muito bem definidos e com propostas atestadas do que funciona para alcançar tais objetivos. Na verdade, estamos lidando com uma situação nova, pioneira, pelo menos em Goiás57. Devido a isso, desde os primeiros encontros para acompanhamento pedagógico até os dias atuais, muita coisa já aconteceu, muita coisa já mudou e, a nosso ver, tem mudado para melhor devido às experiências que vem se adquirindo.
Nos relatos dos primeiros encontros pedagógicos gravados em áudio58 os professores reclamavam da falta de apoio nas escolas por parte dos diretores e professores regentes, como se eles não levassem o PELIC a sério, como se fosse algo passageiro, que não daria certo e que eles não precisariam se mobilizar por algo que ‘acabaria em breve’59. Por causa de alguns depoimentos desse tipo, resolvemos apresentar um seminário com duração de uma hora e meia para os diretores em vigência e os candidatos à diretoria em 2007 para informar sobre a importância do ensino de inglês, para esclarecer sobre as funções do
56 Os funcionários a que nos referimos são aqueles da Divisão do Ensino da Secretaria de Educação responsáveis
por todas as decisões tomadas em relação ao PELIC. São eles que contratam os professores de inglês, acompanham o trabalho deles (folha de ponto, vale transporte, atestados, horários e escolas que lecionam, cópias de provas e trabalhos, resultados das avaliações dos alunos, etc.), marcam as reuniões quinzenais para orientação pedagógica com esta pesquisadora e com o Leandro Rodrigues, decidem sobre a produção e lançamento do material didático, etc.
57 O ensino de língua inglesa para crianças já ocorre em algumas cidades do interior de São Paulo, conforme
demonstra Rocha (2006). Colegas de mestrado nos disseram que em 2 cidades do interior de Goiás, esse ensino já existe, mas não conseguimos encontrar nenhuma publicação relatando o ensino de inglês para crianças nos municípios do Estado de Goiás ou em outros Estados além de São Paulo.
58 Não colocamos as transcrições dos encontros para acompanhamento pedagógico aqui na pesquisa, porque em
2007 tivemos vinte encontros com duração de 3 horas cada. Cerca de nove encontros foram gravados. Não quisemos incluir as gravações como instrumento de pesquisa, pois seria um trabalho sem fim e com pouca ênfase à análise do material em si, pois as reuniões tratam do PELIC como um todo e não apenas do material didático. Vimos que os instrumentos selecionados para esta pesquisa (notas de campo, observação de aulas e questionário) seriam mais eficientes para fazer a análise do material “Time for English”.
professor de inglês, para mostrar a seriedade da Secretaria de Educação em relação ao PELIC, para demonstrar esforços de toda uma equipe para que o programa se efetivasse com a vontade de nunca mais acabar. Os resultados parecem ter sido positivos segundo os relatos dos professores de inglês nos encontros seguintes.
Vários foram os problemas citados pelos professores no decorrer desses encontros. Alguns foram fáceis de resolver apenas com uma orientação. Outros problemas mais sérios já envolviam diretores e pais de alunos. Porém, um dos problemas existentes que temos tentado sancionar, inclusive com esta pesquisa, é a elaboração de um material apropriado para o ensino de língua inglesa para as crianças do município.
Quando entramos (esta autora-pesquisadora e o colega Leandro Rodrigues) no PELIC como orientadores pedagógicos, o material que era utilizado foi ‘montado’60 por uma equipe de alunos do Curso de Letras de uma faculdade local para dar um suporte no ensino de inglês de um programa (chamado de Projeto “Time for English”) que tinha acabado de ser lançado sem objetivos explícitos e sem um material didático definido. Então esses alunos de Letras se juntaram e rapidamente montaram um livro didático para dar início ao ensino com algum tipo de material. O problema é que havia apenas um livro para os 3º, 4º e 5º anos e com vários tipos de erros lingüísticos e problemas que vão desde a falta de coerência do conteúdo até a falta de integração entre os componentes. Mas o livro era colorido e atraente e serviu para, pelo menos, começar o programa de ensino de inglês da Secretaria.
O primeiro material obteve uma boa receptividade, mas logo vieram as reclamações por parte dos professores de inglês. Segundo os relatos dos professores nos encontros pedagógicos, os conteúdos do primeiro livro estavam sendo ensinados de forma solta, fora de contexto e sem um seguimento, ou seja, sem uma integração entre os conteúdos. Não havia nenhuma relação entre as unidades e revisão do que havia sido ensinado.
Por isso a Secretaria de Educação queria que outro material fosse elaborado, o mais breve possível, para ser utilizado em 2007. Então os livros didáticos “Time for English” 1 e 2 surgiram no 2º bimestre do 1º semestre de 2007. Porém, como autores do material, sabíamos que seria praticamente impossível fazer um material de qualidade em apenas um mês. Então nos pediram para elaborar um material mais simples, em preto-e-branco, que fosse testado no decorrer de um ou dois anos.
Os livros didáticos “Time for English” 1 e 2 foram elaborados e recebidos com entusiasmo. Segundo os relatos dos professores nos encontros pedagógicos realizados no 1º semestre de 2007, os alunos se interessaram muito pelos novos livros. Os conteúdos agora
60 Utilizamos o termo ‘montado’, porque o material não foi elaborado e sim montado a partir de figuras de outros
estavam mais organizados e relacionados ao contexto dos alunos. Os professores disseram que ficou mais fácil utilizá-lo, pois havia uma lição elaborada para uma aula de 45 minutos, então eles sabiam o conteúdo que poderia ser trabalhado em cada aula. Comentaram que o ensino nas escolas ficou mais unificado, pois possuem o mesmo direcionamento para as aulas em diferentes escolas. Os professores elogiaram os personagens. Disseram que os alunos de forma geral se identificaram com o Tony, a Ana e outros personagens e queriam imitá-los constantemente em sala de aula. Elogiaram o fato de haver datas comemorativas diversas, incluindo as festividades locais. Gostaram dos desenhos e da apresentação do material. Sentiram-se mais seguros devido ao fato do livro “Time for English” 1 ter uma continuidade no livro “Time for English” 2, o qual revisava o conteúdo do livro 1 nas primeiras unidades. Gostaram das oportunidades que o livro oferecia para avaliar os alunos, o que era muito difícil fazer no primeiro livro feito em 2006.
Por outro lado, houve críticas também. Primeiramente, os professores reclamaram do fato do livro não ser colorido apesar de alguns dizerem que as crianças estavam adorando colorir seu livro de inglês. Sentiram falta de um guia para o professor com idéias para as aulas, com a tradução das instruções, com as respostas das atividades e com um glossário completo do vocabulário do material. Alguns disseram que os livros estavam funcionando muito bem na maioria das escolas, mas que havia um grau de dificuldade nas escolas com crianças mais carentes. Reclamaram de não haver três livros ao invés de dois livros (um para cada ano). Alegaram que o livro 1 estava com um grau de dificuldade alto para as crianças do 3º ano.