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Kakiwin Tutunaku: The hill with three hearts

4.1 Bonds with the land

4.1.1 Kakiwin Tutunaku: The hill with three hearts

Localizado a cerca de 9 km a sudeste de São Vicente, a ilha de Santa Luzia foi descoberta por volta do ano de 1462, pelo navegador português Diogo Afonso, em conjunto com os seus ilhéus e as outras ilhas vizinhas (na parte norte do arquipélago). Contudo, segundo alguns relatos, é provável que as ilhas do Arquipélago de Cabo Verde, e Santa Luzia em particular, tenham sido avistadas e mesmo visitadas, anteriormente, por alguns navegadores islâmicos, provenientes sobretudo do Senegal, sem contudo efectuar nenhum registo escrito dessa ocorrência.

Apesar de todas as adversidades naturais, no seculo XVIII e XIX, Santa Luzia chegou a ter uma população de cerca de vinte pessoas, que se dedicavam essencialmente a actividades como a pesca, agricultura, pecuária e extracção da urzela (um líquen a partir do qual se obtinha uma tinta violeta, muito valorizada na época). A grande procura de produtos, como a carne, peixe, couro, produtos lácteos e cavalos, considerados de boa qualidade, e o comércio da urzela são razões que fizeram da ilha um ponto de reconhecida importância na economia do arquipélago, sendo mesmo, algumas vezes, alvo de contratos de arrendamentos.

Entretanto, todas as tentativas de povoamento desta ilha falharam devido, essencialmente, ao clima árido e à falta de água, que conduziram a sucessivos períodos

de seca e de fome, um pouco por todo o arquipélago. Perante essas dificuldades encontradas, várias iniciativas foram levadas a cabo, no sentido de incrementar a implementação de projectos relacionados com o desenvolvimento da pesca, pecuária, e agricultura de sequeiro, sendo todas infrutíferas, pois as condições naturais desta região não possibilitaram a sua realização. Por outro lado, também se chegou a considerar a possibilidade de transformar a ilha de Santa Luzia num centro prisional de alta segurança, da colónia portuguesa, destinado a delinquentes e criminosos, especialmente aos presos condenados por crimes políticos contra o regime colonial e fascista. Porém, este projecto não foi levado adiante, sendo mais tarde concretizado com a construção do estabelecimento prisional, campo de concentração, do Tarrafal, na ilha de Santiago, de má memória para muitas famílias.

Segundo Almeida (2004) a seca que afectou o arquipélago, entre 1831 e 1833, provocou uma grande vaga de fome, em todas as ilhas, e contribuiu para o afastamento da população, pois com o desaparecimento de praticamente todo o gado, a frágil economia da ilha ficou completamente destruída. Desde então, Santa Luzia tornou-se num território desértico e num estado de abandono permanente, explorada por algumas famílias de pastores, pescadores e sazonalmente por alguns proprietários não residentes.

Relativamente às investigações científicas e representações cartográficas não há muitas informações sobre este território. Contudo, existem alguns relatos de estudos antigos, nomeadamente os de Friedlaender (1913), que na sua viagem/visita de investigação ao Arquipélago de Cabo Verde, em 1912, desenvolveu alguns estudos relacionados com as linhas hidrográficas e apresentou um esboço topográfico (Figura 3.1), corrigindo alguns aspectos do esboço que existia anteriormente. As investigações de Friedlaender também apresentam uma breve descrição da geologia do arquipélago, com referência a pelo menos três formações vulcânicas, três formações sedimentares e alguns acidentes tectónicos. No entanto o trabalho das diferentes missões de investigação no arquipélago continuaram, nomeadamente a Comissão Cartográfica de Cabo Verde que, ao longo de décadas publicou vários modelos cartográficos representando o território das ilhas, sendo a Figura 3.2 um dos exemplos para a ilha de Santa Luzia.

Do ponto de vista geológico, muito pouca coisa se fez, desde então, sendo a publicação mais relevante “A Geologia do Arquipélago de Cabo Verde”, por Bebiano (1932), membro da Missão Geográfica de Cabo Verde, que aproveitando os dados dos levantamentos topográficos, disponibilizados nas cartas topográficas, publicadas pela Missão Cartográfica, aprofundou as suas investigações na área da geologia e apresentou as informações de forma mais ou menos coerente, de acordo com as normas científicas da época. Esta publicação contém um esboço geológico, a preto e

branco, de difícil leitura e interpretação que, mesmo assim, durante muito tempo serviu como guia para a realização de todos os estudos relacionados com a geologia de Cabo Verde e da ilha de Santa Luzia em particular.

Figura 3.1: Esboço cartográfico da ilha de Santa Luzia e dos ilhéus (1/100 000) (Friedlaender, 1913)

Figura 3.2: Esboço Cartográfico de Santa Luzia e dos ilhéus Branco e Raso (1/80 000) - Comissão de cartografia de cabo verde, 1916

Figura 3.3: Carta agrícola da ilha de Santa Luzia (Teixeira e Barbosa, 1958)

Com base nas cartas topográficas, Teixeira e Barbosa (1958) elaboraram as cartas agrícolas das ilhas (Figura 3.3), indicando suas potencialidades e limitações,

nomeadamente as zonas mais apropriadas para a agricultura de sequeiro, regadio, pastagens, matas, dunas e salgados. Este trabalho revela algum conhecimento da constituição litológica da ilha de Santa Luzia, fazendo também referência às sub- regiões climáticas, com predomínio essencialmente da sub-região árida, onde a fertilidade natural do solo é fortemente condicionada pela fraca precipitação que ocorre neste território.

A partir da década de 60 do século XX, a Junta de Investigação do Ultramar, através das diferentes missões científicas, realizou investigações em várias áreas, que culminou com a publicação de muitos artigos e cartas que, em conjunto, constituíram um instrumento importantíssimo no planeamento, gestão dos recursos, monitorização e ocupação dos territórios, em função dos diferentes objectivos determinados. Contudo, relativamente à ilha de Santa Luzia, a elaboração de muitos desses estudos foi considerada desnecessária e insustentável, devido ao facto desta ser uma ilha desértica onde a aridez do clima constitui um sério constrangimento à fixação da população.

Actualmente esta ilha pertence à região administrativa do município de São Vicente. No ano de 1990, Santa Luzia foi declarada pelo Governo de Cabo Verde como património público, sendo considerada uma reserva natural do arquipélago. Trata-se da única ilha desabitada, constituindo, juntamente com os ilhéus Branco e Raso, uma reserva natural integral de Cabo Verde, onde podemos encontrar, para além do espaço geofísico, uma biodiversidade muito rica, nomeadamente uma importante população de aves, tartarugas marinhas e répteis endémicos, que devem ser protegidos, de acordo com a legislação em vigor.

Actualmente, a ilha é frequentemente visitada por turistas, investigadores e sobretudo por pescadores, provenientes das ilhas vizinhas de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau, que exploram os diferentes recursos existentes na ilha, principalmente os recursos marinhos, como forma de subsistência.