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Ao longo da história, antes de ser objeto dos novos Estudos Sociais da Infância, houver outros interlocutores que abordaram o assunto, que podem ser tidos como pré- sociológicos. Grande parte do pensamento pré-sociológico sobre crianças e infância deriva do trabalho teórico da socialização, processo pelo qual as crianças se adaptam e internalizam a sociedade, tendo como foco principal a socialização inicial na família (CORSARO, 2011).

Jenks (2002), destaca a importância da Teoria de Socialização proposta por Parsons (1951) e da Teoria do Desenvolvimento proposta por Piaget, que conforme ele, trata-se de trabalhos profundos e claros e que, mais importante que isso, exerceram enorme influência no domínio nas teorias de socialização e desenvolvimento no que tange às Ciências Sociais.

Corsaro (2011) destaca que Talcott Parsons foi porta-voz de uma das mais populares abordagens sobre a socialização nas décadas de 1950 e 1960, denominada como “funcionalista”, de modo geral, esse tipo de abordagem descrevia aspectos da socialização pautados principalmente na internalização da educação dada pelos pais e na garantia do sucesso da mesma.

O foco dado às crianças por esse modelo de socialização estava na busca incessante da subversão e da reestruturação da diferença potencialmente perigosa e destrutiva da criança. Do ponto de vista de Parsons, a criança é vista como uma ameaça à sociedade que deve ser apropriada e moldada para se adaptar (CORSARO,

2011), ou conforme o próprio Parsons (1951, p. 207 apud JENKS, 2002, p. 198):

[...] habitualmente, o termo socialização diz respeito ao processo de desenvolvimento da criança [...]. Existe, contudo, uma outra razão para destacar a socialização da criança. Temos razões para crer que as variáveis estruturais são, em certos aspectos, os elementos adquiridos pela personalidade mais estáveis e duradouro, e há muitas provas de que eles são assentes durante a infância e de que não estão sujeitos a alterações drásticas na vida adulta.

[...] constrói uma magnifica estrutura da organização social, integrando as dimensões da ação e do constrangimento [que] operam nos níveis econômico, político, cultural, interacional e pessoal [com o] objetivo de tanto permear como saturar as expressões da experiência e coletiva. Baseado neste conceito de socialização Parsons comete uma violência teórica, particularmente contra a criança, ao tentar converter o mundo dos conteúdos para mundos de forma (p. 198).

Já Psicologia do Desenvolvimento, teoria que teve enorme relevância no estudo das crianças, constitui uma área do conhecimento da Psicologia cujas hipóteses centrais se apoiam no esforço de compreender o homem em todos os aspectos, englobando fases desde o nascimento até o mais completo grau de maturidade e estabilidade. Jean Piaget (1896-1980) foi um dos maiores representantes desse tipo de abordagem, e seus trabalhos se tornaram uma das mais importantes diretrizes no campo da Educação Infantil nos Estados Unidos, Europa e Brasil.

O método psicogenético de Piaget, segundo Coll e Gillièron (1987, p. 30) tem como objetivo “compreender como o sujeito se constitui enquanto sujeito cognitivo, elaborador de conhecimentos válidos”.

Considerando insuficiente o objetivismo e o subjetivismo para explicar o processo evolutivo da filogenia humana, Piaget introduz a linha interacionista e formula o conceito de epigênese, argumentando que “o conhecimento não procede nem da experiência única dos objetos nem de uma programação inata preformada no sujeito, mas de construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas” (PIAGET, 1976 apud FREITAS, 2000, p. 64).

Piaget sustenta que a gênese do conhecimento está no próprio sujeito, ou seja, o pensamento lógico não é inato nem tampouco externo ao organismo, mas fundamentalmente construído na interação homem-objeto. Na ótica de Piaget, o homem é possuidor de uma estrutura biológica que lhe possibilita desenvolver-se mentalmente, no entanto, esse fato por si não garante que isso vá ocorrer, pois isso só acontecerá a partir da interação do sujeito com o objeto a conhecer.

O conceito de equilibração cunhado por Piaget é fundamental em sua teoria, pois representa o fundamento que explica todo o processo do desenvolvimento humano. Trata-se de um fenômeno que tem, em essência, caráter universal, já que é de igual ocorrência para todos os indivíduos da espécie humana, mas que pode sofrer variações em função de conteúdos culturais do meio em que o indivíduo está inserido.

A busca do organismo por equilíbrio acompanhará o ser humano durante toda a vida, uma vez que no processo de interação podem ocorrer desajustes do meio ambiente que rompem com o estado de equilíbrio do organismo, e o organismo fará esforços para que a equilibração se restabeleça por novas formas de adaptação. Esse processo envolve dois mecanismos, que, apesar de distintos, são indissociáveis e se complementam: a assimilação e a acomodação.

O processo de assimilação é representado por uma tentativa de integração de aspectos experienciais aos esquemas previamente estruturados visando sempre restabelecer o equilíbrio do organismo. A acomodação representa uma nova experiência assimilada a uma estrutura de ideias já existentes (esquemas); ao provocar transformação nesses esquemas, o organismo gera um processo de acomodação. Os processos de assimilação e acomodação são complementares e acham-se presentes durante toda a vida do indivíduo, permitindo um estado de adaptação intelectual.

Outro ponto fundamental na teoria de Piaget está no que ele denomina “esquemas de ação”, mecanismos que podem ser entendidos como motor do conhecimento. São eles:

 1º período – sensório-motor (0 a 2 anos);  2º período – pré-operatório (2 a 7 anos);

 3º período – operações concretas (7 a 11 ou 12 anos);  4º período – operações formais (11 ou 12 anos em diante).

Cada uma dessas fases é caracterizada por formas diferentes de organização mental que possibilitam as diferentes maneiras de o indivíduo relacionar-se com a realidade que o rodeia.

Um quesito de extrema importância a ser levado em conta quando se fala sobre a teoria psicogenética de Piaget é que ela não tinha como objetivo propor uma teoria de aprendizagem (LA TAILLE, 1992; RAPPAPORT, 1981; FURTADO; BOCK; TEIXEIRA, 1999; COLL, 1992). A respeito, Coll (1992, p. 172) faz a seguinte observação: “[...] ao que se sabe, ele [Piaget] nunca participou diretamente nem coordenou uma pesquisa com objetivos pedagógicos”. Não obstante, de forma contraditória aos interesses previstos, o modelo piagetiano, curiosamente, veio a se tornar uma das mais importantes diretrizes no campo da aprendizagem escolar, quer, por exemplo, nos EUA, na Europa e no Brasil inclusive.

[...] a noção piagetiana de estágios é importante para a sociologia das crianças porque nos lembra que elas percebem e organizam seus mundos de maneira qualitativamente diferente dos adultos [e em consonância com a teoria de Piaget, ele afirma] [...] que qualquer teoria sociológica das crianças e da infância que tente explicar a compreensão e o uso que elas fazem das informações provenientes do mundo adulto, bem como sua participação e a organização de seus mundos com os pares, deve considerar o nível de desenvolvimento cognitivo da criança (CORSARO, 2011, p. 23).

Apesar de entender que os trabalhos desenvolvidos por Piaget tenham orientado as pesquisas na Psicologia na direção correta, Corsaro (2011, p. 29) argumenta que:

[...] seu foco principal continua a ser o desenvolvimento individual. Podemos ver isso nas repetidas referências à atividade da criança, ao desenvolvimento da criança, ao processo da criança de tornar-se um adulto. Na teoria de Piaget, o foco é o domínio do mundo por uma criança isolada em seus próprios termos. O construtivismo oferece uma visão ativa, mas solitária, das crianças. Mesmo quando os outros (pais, colegas e professores) são levados em conta, o foco permanece sobre os efeitos das diferentes experiências interpessoais no desenvolvimento individual. Há pouca, ou nenhuma, consideração sobre como as relações interpessoais são refletidas em sistemas culturais, ou como as crianças, por meio de sua participação em eventos comunicativos, tornam-se parte dessas relações interpessoais e padrões culturais e como os reproduzem coletivamente. Outra limitação da psicologia do desenvolvimento construtivista é a preocupação exagerada com o ponto de chegada do desenvolvimento, ou o percurso da criança, da imaturidade à competência adulta. Além disso, alguns psicólogos estudam como é ser ou ter um amigo em mundos sociais infantis, ou como desenvolver concepções de amizade está incorporado às interações da criança na cultura de pares.

Jenks (2002, 208) afirma ainda que os estágios propostos por Piaget remetem a um “pensamento infantil ‘figurativo’ e de baixo estatuto à inteligência adulta, operativa e de alto estatuto”, e por assim dizer:

[...] criam-se assim as condições para o estabelecimento de uma narrativa no discurso de crescimento cognitivo, atualmente dominantes. O pensamento “figurativo” da condição infantil caracteriza-se pela atividade particularista, por uma concentração no aqui e agora e, consequentemente, por uma incapacidade de transferir a experiências ou o treino de uma situação para outra. Para Piaget, a criança dedica-se a réplica repetitiva e muito concreta dos estados objetais, encontrando-se dominada por estruturas objetivas e habitando um universo material. Para além disto, o pensamento figurativo não reconhece nem o distanciamento nem a reflexão, organizando-se através de respostas afetivas a contextos específicos. Parece que temos aqui uma receita para a infantilidade.

Em outras palavras, por considerar a fase operativa o estágio onde se encontra o adulto, como o ápice do desenvolvimento, e que nesse sentido representa o objetivo

a ser alcançado, tido como o modelo ideal, mantém-se de forma racional e indiscutível o domínio adultez.

Apesar das críticas direcionadas à Psicologia do Desenvolvimento, não se pode deixar de enfatizar que essa ciência teve papel fundamental para as diversas mudanças nas práticas educativas, principalmente nos processos que tangem à Educação Infantil.