4 Observations and Review
4.4 Wind Loads
A partir dos novos olhares direcionados à criança e infância, cujo pano de fundo eram os estudos realizados por Philippe Ariès na década de 1960, que compreediam a infância como uma construção social, foram lançadas novas propostas de entendimento e criação de novas teorias que valorizassem esse grupo, tido como disfavorecido e subalterno, até então subjulgado ao domínio adultocêntrico.
James e Prout (1997, p. 8), entendendo a infância como uma “construção social”, propõem algumas condições para a criação do novo paradigma para os estudos da infância destacados a seguir:
1. A infância é entendida como uma construção social. Como tal, indica um quadro interpretativo para a contextualização dos primeiros anos da vida humana. A infância, sendo distinta da imaturidade biológica, não é uma forma natural nem universal dos grupos humanos, mas aparece como um componente estrutural e cultural específico de muitas sociedades.
2. A infância é uma variável da análise social. Não pode ser inteiramente isolada de outras variáveis tais como classe, gênero, etnia. Estudos empíricos comparados revelam uma variedade de infâncias e não uma infância como fenômeno simples e universal.
3. As relações sociais das crianças e suas culturas devem ser objeto de estudo em si mesmas, independentemente da perspectiva e das preocupações dos adultos.
4. Crianças são e devem ser vistas como ativas na construção e determinação de sua própria vida social, da vida dos que as rodeiam e das sociedades em que vivem. Crianças não são sujeitos passivos de estruturas e processos sociais.
5. A etnografia é uma metodologia particularmente adequada para os estudos da infância. Ela permite dar às crianças mais voz e uma participação direta na produção de dados do que é usualmente possível com os métodos de pesquisa convencionais (experimentais e surveys).
6. A infância é um fenômeno em relação ao qual a dupla hermenêutica das ciências sociais (teoria/prática – Giddens) está dramaticamente presente. Isso significa que proclamar um novo paradigma de sociologia da infância implica engajar-se no processo de reconstrução da infância real na sociedade.
Segundo Muñoz (2006), os esforços da nova sociologia da infância se têm voltado mais aos estudos práticos que teóricos, porém, sem deixar de lado a intenção de sistematizar teorias que sustentem as práticas que estão sendo realizadas. Desse modo, com base no referencial teórico principal e do tipo de método aplicado na investigação, começaram a surgir enfoques predominantes nos estudo da infância, que para Mayall (2002, apud Muñoz, 2006) e Alanen (2003, apud MUÑOZ, 2006, p. 14), são os seguintes:
1 Sociologia das crianças: toma como ponto de partida a ideia de que as crianças devem ser estudada por si mesmos e por suas perspectivas próprias. As crianças são atores social nos mundos sociais em que elas participam e as pesquisas devem concentrar-se diretamente sobre elas e suas condições de vida , atividades, relacionamentos, conhecimentos e experiências. A criança é vista como um agente participante na construção de conhecimento e experiência diária e é dada importancia especial a visão das crianças. A questão fundamental é a valorização da experiências das crianças no mundo social em que ela vivem, especialmente suas relações com outras crianças e com adultos.
2 Sociologia desconstrutivista da infância: é baseada nas metodologias dos pós-positivistas e suas implicações (construcionista) de Pesquisa Social, sendo Foucault, sua principal fonte de inspiração. Noções sobre a criança , crianças ou infância são tratados como formações discursivas socialmente construídas, através das quais, as idéias, imagens e conhecimento das crianças e da infância são interligadas na vida social. Na perspectiva desconstrutiva se considera necessário descontruir o poder discursivo da idéias de infância na vida social. Incorporando contribuições de modelos ação social e as práticas culturais mais amplas, fornecendo discursos e razões fundamentais para atuação em crianças e também para agir crianças . Nessa perspectiva também se ve as crianças como agentes sociais ativos que influenciam as estruturas e processos sociais que ocorrem ao seu redor. 3 Sociologia Estrutural da infância: a infância é vista como um elemento permanente e como uma parte da estrutura social nas sociedades modernas; também como uma “estrutura” em si, comparável e de modo semelhante, por exemplo, a classe ou gênero. Como uma categoria social permanente na sociedade, seus membros mudam, mas as crianças e suas relações com o grupo social marjoritario (adulto) continuam, sendo este um componente essencial a ordem social. A vida das crianças aparecem nesta abordagem englobada como uma categoria definida como infância. O objetivo da pesquisa é de vincular qualquer fato relevante observado na vida das crianças (nível socioeconômico, estatuto político ou sentimento de identidade) com contextos de nível macro e explicar esse fato com referência às estruturas sociais e mecanismos que atuam no macro-contexto e gerar efeitos sobre o nível de grupo infantil.
Com a intenção de se aprofundar nos fundamentos teóricos, Muñoz (2006) realiza uma análise comparativa entre os principais enfoques das teorias da infância, facilitando assim o entendimento dos pontos convergentes, confluentes e temas de
principal interesse nos enfoques estrutural, construtivista e relacional, observados nos quadros abaixo.
Quadro 1 – Temas de interesse principal
Estrutural Construcionista Relacional
Sociografia da infância Atividades das crianças Justiça distributiva Economia da Infância Estatutos legais das crianças
Crítica a visões convencionais Inserção da Sociologia da Infância no debate geral das ciências sociais O corpo da criança
Tempo e transição na infância Agência e estrutura
Geração como processo e conceito relacional
História
Feminismo e infância, relação entre gênero e geração As crianças na divisão do trabalho
O ponto de vista das crianças Fonte: MUÑOZ(2006, p. 19).
Quadro 2 – Abordagens principais dos enfoques da nova sociologia da infância
Estrutural Construcionista Relacional
Infância 1. A infância é uma forma particular e distinta da estrutura social.
2. É uma estrutura social permanente. 3. É uma categoria variável histórica e cultural. 4. Parte integral da sociedade e da divisão do trabalho. 5. Exposta às mesmas forças que a adultez, mas de modo distinto.
6. É uma minoria sujeita a tendências de
marginalização e paternalização.
1. A infância é uma construção social.
2. A infância é uma variável de análise social.
3. Definir a infância como fenômeno é também um processo de construção. 1. A infância é um processo relacional.
Crianças 1. São coconstrutores da infância e da sociedade. 2. A dependência das crianças repercute em sua invisibilidade. 1. As relações sociais e culturais das crianças devem ser estudadas em suas próprias dimensões. 2. As crianças são ativas na construção de suas vidas sociais.
1. Deve ter-se em conta como as crianças experimentam suas vidas e relações sociais. 2. É preciso desenvolver o ponto de vista das crianças. 3. O conhecimento baseado na experiência das crianças é fundamental para o
reconhecimento de seus direitos.
Sociedade 1. A ideologia da família constitui uma barreira para os interesses e o bem-estar das crianças.
Sociologia 1. A etnografia é uma metodologia
particularmente útil para o estudo da infância.
1. A geração é um conceito- chave para entender as relações crianças/adultos, seja no nível individual, seja coletivo.
Quadro 3 – Temas e conceitos chaves
Estrutural Construcionista Relacional
Termos Estrutura social Geração Grupo minoritário Justiça distributiva Construção Social
Relações sociais e culturais das crianças Visões e representação das crianças
Geração Gênero
Relação das crianças Grupo minoritário Conceitos Infância Ator Social Criança Agency Crianças Agentes
Fonte: MUÑOZ(2006, p. 18)
Quadro 4 – Metodologia preferida
Estrutural Construcionista Relacional
Especialmente quantitativa: coletada por meio de fontes secundárias, exploração específica de dados estatísticos comuns, demanda de dados específicos sobre as crianças, estatísticas correntes
Enfoque etnográfico ou antropológico, com as
ferramentas correspondentes, em especial a observação participante. Conexão com estudos culturais
Especialmente qualitativa, entrevistas individuais ou grupais com crianças, assim como com mães e
profissionais, e no próprio entorno onde se desenvolve a vida cotidiana
Fonte: MUÑOZ(2006, p. 20).
Outra categoria fundamental observada nos novos estudos da Infância é a geracional, segundo Muñoz (2006), o conceito geração é um ponto-chave para o estudo sociológico da infância, assim, será feita aqui uma breve apresentação desse conceito e da forma como se encontra presente nas diferentes abordagens dos novos estudos da infância.
Segundo Muñoz (2006), recentemente se tem notado a necessidade de aprofundar-se no significado de geração e sua utilidade prática, tanto para avançar no caminho da teorização da infância, como para analisar as relações que se produzem entre pessoas que formam o grupo, ou um distinto grupo, pois estão surgindo debates com diferentes noções de geração: por um lado recuperando as propostas de Mannheim dentro da mesma perspectiva (os problemas geracionais), por outro focalizando a geração como um sistema relacionado a adultos e crianças.
Para Sarmento (2005), a reentrada do conceito de geração nas análises sociológicas impõe a reconceptualização, pois ele está fortemente ligado à obra de Mannheim. O conceito de Mannheim atribui à geração identidade histórica, por exemplo, a geração pós-guerra, ou, numa perspectiva mais cultural, quando se refere aos grupos de rock brasileiros da “geração de 80”, ou para diferenciar dois grupos, como a geração de Prata (vôlei anos 80) ou geração de ouro (vôlei dos anos 90), onde se afirma a diferença entre ambos atribuindo o conceito de geração.
Qvortrup(1991, 2000 apud SARMENTO 2005) se apropria do conceito geração como uma categoria social estruturante da infância, retirando de Mannheim fundamentalmente a dimensão estrutural de sua definição, ou seja, “des-historiza” o conceito e acentua nele os aspectos predominantemente estruturais. Geração assim é concebida como uma variável independente e trans-histórica, estando ligada aos aspectos demográficos e econômicos da sociedade (SARMENTO, 2005).
Ou seja, a geração infância é o que permanece como categoria estrutural, desprendendo assim da criança, sendo estas atores sociais sempre a preenchê-la e esvaziá-la; enquanto a criança desaparece, nesse sentido, da infância, a infância em si mesma não desaparece, mas permanece como estrutura social (QVORTRUP,
2010c).
Porém, a geração infância está em processo contínuo de mudanças, sendo ela, além de tensa, internamente contraditória, atualizada pelas interações sociais entre crianças e adultos, variações demográficas, relações econômicas, dispositivos simbólicos entre outros, sendo que, além disso, essas variações são assíncronas, isto é, não decorrem sempre no mesmo sentido, sendo diferente, em cada momento, ocorrendo conforme o peso de cada uma das variáveis presentes.
Assim, Sarmento(2005) alerta para a importância do resgate da historicização do conceito, realizado por Leena Alanen (2001), que não abandona as questões estruturais, mas as cruza com as relações internas à geração e seus respectivos processos de simbolização do real.
Alanen (2001) assim tematiza a geração como variável dependente e independente, interna e externa, em que as crianças são atores que participam em um momento histórico concreto da categoria geracional infância, sendo influenciadas tanto pelas questões estruturais da sociedade, como também pelas questões interacionais que envolvem os atores integrantes desta categoria.
Assim, a categoria geracional não é estática, assim como não é o campo social, ela muda tanto pelas questões externas da sociedade e que incidem em modificações na constituição, como também internamente pela interação dos atores: “A noção de um sistema de gerações sugere que as crianças também são ‘sabedoras’, isto é, elas ganham saber prático daquilo que é ser ‘criança’ no tipo de sociedade em que estão posicionadas como ‘crianças’” (ALANEN, 2001, p. 84)
[...] ser possível a reconstrução do conceito de geração, considerando para além das suas dimensões externas e internas e de variável independente ou dependente, os elementos sincrônicos e diacrônicos presentes na respectiva construção social. O objetivo é “historicizar o conceito de geração, sem perder de vista as dimensões estruturais e interacionais”.
Em suma, o conceito de geração não só permite distinguir o que separa e que une as crianças dos adultos, no plano estrutural e simbólico, mas também como as variações dinâmicas nas relações entre as próprias crianças e entre crianças e adultos vão sendo historicamente construídas e elaboradas, pois no plano sincrônico e diacrônico é sabido que, mesmo uma geração de idade, se vai transformando em cada período histórico concreto.
O conceito de geração está presente nos principais enfoques da sociologia da infância, no enfoque estrutural, geração serve para identificar na macroestrutura social a existência de uma ordem geracional que distingue as crianças como um grupo populacional diferente de outros grupos e para constituí-los como categoria social particular, pois isso ajuda na realização de estudos comparativos das condições sociais em que vivem cada grupo (MUÑOZ 2006).
No enfoque construcionista, os termos geração e geracional servem como mera noção descritivas, sem ter papel analítico particular no desenho da investigação. No caso de sua utilização, ele pode servir para descrever objetos sociais contextualizados, hitorizados e relativizados (MUÑOZ, 2006).
No enfoque relacional a interação entre gerações é fundamental. Partindo da concepção de estrutura social como um sistema de relações entre posições sociais, exploram-se aqui as relações geracionais tanto em nível pessoal como social. Nesse enfoque, também se pode considerar possível uma conceituação das estruturas geracionais, enfocando conexões internas nas relações das crianças com o mundo social, sendo que neste caso a noção de estrutura geracional se refere ao complexo conjunto de processos sociais relacionados através do qual pessoas vê a ser crianças e outras vê a ser adultos (MUÑOZ, 2006).
No NEGRI adotamos uma perspectiva analítica própria, muito aproximada do enfoque estrutural, no entanto utilizamos a categoria idade como conceito chave em nossas pesquisas, pois acreditamos que as relações de idade constituem uma categoria analítica útil para compreender a produção e reprodução de desigualdades sociais contemporâneas.
Para Rosemberg (2014), a delimitação ou demarcação das idades se torna mais complexa quando focalizamos os cortes etários para as diferentes instituições, conforme se pode perceber a partir das informações sistematizadas no (Quadro 5).
Quadro 5 – Idade mínima em anos ou maioridade para ter direitos reconhecidos por dimensão da vida social (Brasil, 2013)
Idade em anos Dimensão da vida
4 Início da escolaridade obrigatória 10 Sentar-se na frente do veículo 11 Sentar-se na garupa da moto
Dez/18 Viajar desacompanhado com autorização 14
Trabalhar como aprendiz
Casar para igreja católica (Mulher) Relações sexuais consentidas
16
Votar
Casar com autorização no âmbito civil Submeter-se a cirurgia bariátrica Casar na igreja católica (homem) Trabalhar com certas restrições 17 Alistamento Militar
Fim da escolaridade obrigatória
18
Maioridade civil Maioridade Penal
Trabalho Noturno insalubre Prostituição, pornografia Habilitação para dirigir veículos Comprar e ingerir bebidas alcoólicas Fumar
Abrir conta em banco Adotar crianças Viajar sem autorização Candidatar-se a vereador
21 Candidatar-se a deputado estadual, federal, prefeito, vice-prefeito, juiz de paz 30 Candidatar-se a governador e vice-governador
35 Candidatar-se a presidente, vice-presidente e senador 60 Atendimento prioritário em serviços
Aposentadoria para mulher 65 Aposentadoria para homem
70 Homem e Mulher – direito ao benefício LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social Homem e Mulher – aposentadoria compulsória