2. Material and methods
2.2. Experimental set-up
2.2.2. Water quality parameter preparation
As pesquisas sobre as Escolas de Aprendizes marinheiros concentraram‐se, até agora, no período imperial e, portanto, são poucas as informações sobre elas na primeira década do século XX. Mas, no final do XIX, sabe‐se que eram instituições nada atraentes. Os pais relutavam em entregar seus filhos àquele regime de internato e com frequência os meninos eram capturados e alistados à força pelas autoridades sem a autorização de seus responsáveis legais. Em Aracaju mesmo, em 1893, um pai furioso foi à imprensa para denunciar o assédio do juiz de órfãos ao seu rapaz. Acusado de algum delito, o menor de 12 anos fora “capturado” e corria risco de acabar alistado na então Companhia
de Aprendizes Marinheiros (JORNAL DO ARACAJU, 1883 apud LIMA, 2013, p. 83).13 A reclamação na imprensa sugere, no entanto, que havia probabilidade de a prática da captura de meninos por parte das autoridades causar desaprovação pública.
Não era à toa que a captura ou o aliciamento desagradavam os pais: as condições das instituições eram muito precárias e cabe duvidar se ofereciam verdadeira formação profissional para o ofício de marinheiro. Na Companhia de Aprendizes do Paraná, localizada na cidade portuária de Paranaguá, na década de 1880, o edifício principal ameaçava desabar e a enfermaria era “anti‐higiênica em todas as condições”, segundo o próprio capitão do porto, responsável pela Companhia. Vários aprendizes morreram no surto de malária que acometeu a cidade no final do século (MARQUES; PANDINI, 2004, p. 86). O médico que visitou a escola de Aracaju em 1916 também achou importante apontar as más condições de saúde dos rapazes. Na mesma escola, pouco antes da inauguração do novo edifício em 1906, faltava dinheiro para terminar a reforma. O prédio parece ter ficado sem o forro do teto da enfermaria, sem o calçamento entre os edifícios e sem pintura externa (LIMA, 2013, p. 148‐149). A ausência de infraestrutura mínima para a instrução naval era também um problema sério das escolas: a unidade de Paranaguá funcionou por 23 anos sem qualquer embarcação em que pudesse treinar os aprendizes (MARQUES; PANDINI, 2004, p. 1; p. 95).
É que a função de preparar quadros para o corpo da Armada não era a única desempenhada pelas Companhias – e, talvez, por muito tempo, não fosse sequer a principal. Desde a fundação da primeira, na Corte, em 1840, passando pela época de Astolpho, essa função concorria com outras duas: assistência e controle social. Ambas se relacionavam intrinsecamente na cabeça do presidente da província de Sergipe quando rogou ao ministro da marinha do Império, em 1864 ou 1865, a criação de uma Companhia na sua capital:
V. Ex.ª pode ficar bem certo de que uma quantidade imensa de crianças, já por falta de seus pais, já por falta de meios, vagam ociosas pelas nossas praias e povoados deixando de frequentar as escolas bem como a igreja por não terem vestuário, nem a necessária alimentação, e neste abandono vivem embrutecidas, até que um dia, quando escaparão da morte, [...] ou vem a ser soldados, [...] ou então, não tendo tido correção a sua perversa índole, entregam‐se ao crime, e terminam seus dias numa prisão.
Esse futuro desastroso do órfão desamparado desaparecerá desde que se essa Província tiver uma escola em que possa colocá‐los, onde, recebendo educação apropriada, se tornem úteis a seu país e nenhuma delas é mais apropriada do que a de Aprendizes Marinheiros (LIMA, 2013, p. 79).
O presidente de Sergipe deixa claro com qual grupo social essas escolas preenchiam as suas fileiras na segunda metade do século XIX. E a situação perdurou sem mudanças substanciais até os últimos anos do Império. O autor de um artigo publicado na revista da Marinha em 1882 lamenta‐se de que as companhias de aprendizes pareciam mais “asilos de menores desvalidos do que escolas de ensino profissional da arte de marinheiro” (LINS, 2012, p. 60). Mas se, por um lado, elas serviam para “assistir meninos abandonados ou expostos” (MARQUES; PANDINI, 2004, p. 102), por outro, as Escolas de Aprendizes também serviam como quartéis para guardar e disciplinar jovens que não se queria que andassem soltos pelas ruas – jovens perigosos. Diante dessas funções, torná‐los úteis à nação como marinheiros pode ter sido encarado até como mero bônus – por grande parte da elite política, embora não para os chefes da Armada –, e a inexistência de um barco qualquer em uma escola de instrução naval, um problema muito pequeno.
A face complementar da posição social dos rapazes recrutados para aprendizes (pobres, vadios e/ou perigosos) era a perspectiva muito modesta de futuro que aquelas escolas ofereciam. Uma vez “formados” eles se tornavam marinheiros, isto é, passavam a servir a Armada nos patamares mais baixos (o nível de “praça”), compartilhando a sorte dos “voluntários” empregados tanto na Marinha quanto no Exército:
[...] [assim chamados,] a maioria dos praças provinha das fileiras de desempregados. Alguns se alistavam espontaneamente, interessados em comida e teto, mas muitos outros, talvez até a maioria, eram pegos pela polícia em batidas, as chamadas “canoas”, e despachados para os quartéis sob escolta (McCANN, 2007, p. 111).
O recrutamento forçado era comum às duas forças, pois no Império, e mesmo até a primeira década do século XX, “o serviço militar era parte do sistema penitenciário” (idem, p. 29). As surras continuavam sendo forma corrente de punição e de disciplinamento dos praças, embora tivessem sido oficialmente abolidas desde a Constituição do Império de 1824 (idem, p. 111‐112; p. 157). Entretanto, parece que na Marinha a disciplina era ainda mais dura do que no Exército.
Estacionado na baía de Guanabara, ficava a “presiganga” (do inglês press‐gang, o mesmo que “canoa”), velho navio avariado que servia como prisão e campo de trabalhos forçados para os marinheiros indisciplinados (FONSECA in CASTRO; IZECKSOHN; KRAAY, 2004). Frank McCann descreve como “abominável” a disciplina vigente na Marinha mesmo no início do século XX, destacando a aberração que era alguns dos navios mais modernos do mundo serem comandados “com disciplina do século XVIII” (McCANN, 2007, p. 157‐158). E sequer deve ser necessário comentar que um dos motivos centrais da revolta dos marinheiros de 1910, ou Revolta da Chibata, que estourou nesses modernos navios, foram os castigos aplicados pelos oficiais nos praças.
Em boa medida, o aspecto degradante da posição profissional dos marinheiros devia‐se à enorme distância social que os separava dos oficiais. Quanto ao oficialato do Exército, no início do século XX, “a burguesia branca via com horror a vida de caserna” (idem, p. 110), mas “a oportunidade de educação gratuita atraía jovens para o corpo de oficiais” porque, “para os que não tinham recursos, o Exército oferecia a possibilidade de ascensão social” (idem, p. 120). Se o oficialato do Exército, “burguês e branco” em boa medida, já era socialmente distante dos praças, o da Marinha, muito mais aristocrático, o era ainda mais. Basta lembrar que o marechal Deodoro da Fonseca era o que McCann chamou “um homem do povo”, produto de um processo de relativa popularização do acesso ao topo do oficialato do Exército que se deveu, em medida importante, à Guerra do Paraguai. O oficialato da Marinha não passou por processo equivalente até, pelo menos, a década de 1930.
Abaixo dos oficiais da Armada, o contingente de praças era recrutado entre os pobres, desocupados, jovens desvalidos e criminosos – em suma, os que não tinham padrinhos influentes e que estavam à mercê das autoridades –, a maioria deles negros (idem, p. 112). Não é difícil ilustrar como a distância social, associada à disciplina dura, tornava a posição dos praças degradante. Pouco antes de estourar a revolta de 1910, um coitado havia sido castigado com 250 golpes, apesar de ter caído inconsciente em meio ao castigo. Sob a vigência da disciplina da chibata, “vívidas imagens de senhores e escravos emergem quando consideramos que a maioria dos oficiais era branca, e dos marinheiros, negra” (idem, p. 157‐158). Os próprios marinheiros associavam naquela época o emprego da chibata com a sujeição escravista, ainda tão pouco distante no tempo.
As possibilidades de carreira dos praças eram limitadas de forma muito concreta pela segmentação do efetivo: via de regra, não se podiam tornar oficiais porque não possuíam a formação necessária nas escolas militares. Estas, por sua vez, barravam (mesmo que em medida variável, dependendo do momento e da escola) os indivíduos provenientes dos grupos em que eram recrutados os praças: ora por pura discriminação – e não raro racial –, ora de forma indireta, pelas credenciais educacionais exigidas ou em virtude da folgada condição econômica necessária para que uma família pudesse manter seu filho já crescido em uma dessas escolas.
A posição da família de Astolpho possibilitou‐lhe entrar na Marinha de Guerra por um canal que oferecia chances de futuro muito modestas; mas que ainda assim eram chances. Ele recebeu alguma instrução formal gratuita e logo se empregou em uma instituição de caráter e alcance nacionais. Assim que se tornou efetivamente marinheiro, foi embora de Sergipe e instalou‐se na Capital da República. A condição de ex‐aprendiz colocava‐o, também, em situação pouco melhor do que a dos demais praças, pois os aprendizes podiam receber algumas promoções ainda nas escolas e mantê‐las, o que lhes permitia desfrutar de algum prestígio extra enquanto “pratas da casa”.
A assimetria existente entre as Forças Armadas – representadas pelas elites do governo e pelos corpos de oficiais – e os grupos subalternos em que recrutavam os seus praças pode ser considerada um fator estrutural, da ordem das relações de poder consolidadas, que determinou o início da trajetória do menino Astolpho na Marinha.
1.3 Mudanças no recrutamento de aprendizes e processo de transformação da