3. Results
3.2. Acute experiments
3.3.2. ROS formation H 2 DCFDA
Negro do Arsenal de Marinha, entre 1817 e 1829, Debret e o Brasil – Obra completa
Astolpho Dias dos Santos nasceu em 27 de junho de 1893, em Sergipe, provavelmente na localidade de Maruim. O município, muito próximo de Aracaju, chegara a ser importante centro econômico da província ao longo do século XIX. Maruim e Laranjeiras, as maiores e mais ricas cidades da região do Rio Cotinguiba, que se espalha a Noroeste da capital, concentravam a produção açucareira que sustentava a província de Sergipe. Isso em uma época em que já tinham ficado longe no passado os tempos áureos do açúcar (AVELINO, 2010, p. 27‐8). Depois de 1850 tornara‐se muito mais difícil adquirir escravos, em razão da restrição ao tráfico, e a modesta economia local não podia bancar maiores afluxos desde outras regiões, ainda que a Cotinguiba fosse a região que mais dispusesse de escravos em toda a província. As migrações internas de cativos, bem como o tráfico ilegal, direcionavam‐se para a pujante agricultura cafeeira mais ao sul.
Assim como a Bahia, província de que se emancipou em 1820, Sergipe tinha uma grande população livre quando ocorreu a Abolição. Em 1872, eram escravos somente 12,8% dos habitantes e a tendência é que a razão tenha diminuído conforme se aproximava o fim do escravismo, talvez chegando a menos de uma décima parte.11 No
11 A proporção de escravos na população não era tão grande, de acordo com o Censo de 1872. No total,
para o Império, era de 15,2%. Um pouco maior do que em Sergipe, portanto. Chegava a quase 40% na província do Rio de Janeiro, excluída a Corte (onde era de 17,8%), a 27,6% no Espírito Santo e cerca de 18% em São Paulo e em Minas Gerais. Fora do eixo cafeeiro do Sudeste, apenas Maranhão (20,9%) e Rio Grande do Sul (15,6%) tinham proporção de escravos na população maior do que a média do Império.
mesmo ano, a população compunha‐se de 51,4% de pardos e 18,6% de pretos.12 A economia agrária já vinha se reorganizando para prescindir, ao menos em boa medida, do trabalho escravo, e a Abolição encontrou Sergipe com abundante mão de obra livre, grande parte dela negra ou mestiça. É muito provável, portanto, que os proprietários de engenhos do Cotinguiba não lhe tenham apresentado oposição vigorosa, sua reação alinhando‐se à dos proprietários de Bahia, Pernambuco e outras províncias do Nordeste, que se achavam em situação semelhante (GUIMARÃES, 2011b, p. 23).
A reação dos senhores de engenho refletiu uma acomodação gradual à nova ordem econômica. Historiadores já apontaram a possibilidade de ter existido, ainda no interior do sistema escravista, uma “brecha camponesa”, ou seja, uma margem de autonomia, inclusive econômica, para que os escravos desenvolvessem atividades que escapavam ao sistema de plantation, frequentemente cultivando lotes de terras cedidos para seu uso (CARDOSO, 1987, p. 54). Na Bahia, nos séculos XVIII e XIX (isto é, quando o território de Sergipe ainda lhe pertencia), o sistema era comum, sendo “muitos [...] os engenhos que usavam o sistema dos lotes de terra dados aos escravos com o tempo para cultivá‐los e a possibilidade de dispor livremente dos excedentes produzidos” (idem, p. 95). A Abolição de 1888 surpreendeu, assim, em algumas regiões, um sistema produtivo que associava exploração de engenho em grande propriedade e vida camponesa a orbitar em torno dela. Presumivelmente, não seriam necessárias grandes rupturas na transição à ordem do trabalho livre: já vinha de longe a formação de um contingente de trabalhadores negros ou mestiços, escravos com certo grau de autonomia material, alforriados e, mais tarde, libertos. Mais ou menos livres, o certo é que se mantinham sujeitados ao poder econômico dos proprietários.
Cândida Dias Pinna, mãe de Astolpho, era muito provavelmente parda ou preta, talvez ex‐escrava ou descendente de escravos, e fazia parte desse contingente de trabalhadores pobres que emergia da Abolição de 1888 em condição apenas pouco melhor do que a dos recém‐libertos. Pode ser que Cândida tenha ficado viúva de um homem de sobrenome Santos, pai de Astolpho, quando este ainda era criança; ou pode ser que ela fosse “mãe solteira”, pois não levava o sobrenome “Santos” que devia ser o
12 Os dados são do Censo de 1872, disponibilizado no portal do Núcleo de Pesquisa em História Econômica
do pai de seu filho. O certo é que o pequeno não vivia com o pai, apenas com a mãe e irmãos, estes em número que desconheço.
Nascido menos de cinco anos após a proclamação da República, o pequeno Astolpho era parte da população que o novo regime teria que transformar em “povo”. Mas a cidadania, implícita nessa transformação, não se produziu imediatamente e de forma irrestrita. Ao menos três fraturas sociais já existentes se traduziram, entre a última década do século XIX e as primeiras do XX, no estabelecimento do que Lilia Schwarcz chamou “critérios diferenciados de cidadania” (SCHWARCZ, 1993, p. 18). O primeiro critério, de que trata a obra da própria autora, pode ser sintetizado pela adaptação das doutrinas do “racismo científico” à realidade brasileira. Os outros dois critérios podem ser extraídos da natureza dos principais conflitos dos primeiros anos da República: “estranharam‐se” (GUIMARÃES, 2012b, p. 17) o povo e a elite, como na Revolta da Vacina (1904) e na Revolta dos Marinheiros (ou da Chibata); mas também as populações citadinas do litoral com os bárbaros – ou, na expressão da época, “fanáticos” – dos sertões, como nas guerras de Canudos (1896‐1897) e do Contestado (1912‐1916).
A história de Astolpho é, em grande medida, a história de como ele encontrou um lugar para si na ordem social que se formava com base numa cidadania assim condicionada. Saiu de casa para engrossar as fileiras das forças armadas, que estiveram por trás da proclamação da República e foram o grande esteio de sua consolidação. Com 13 anos incompletos, em maio de 1906, Astolpho foi alistado pela mãe na Escola de Aprendizes Marinheiros localizada na capital de Sergipe. Assim como ele, boa parte dos meninos alistados na Escola haviam crescido em Aracaju ou nas redondezas e tinham entre 13 e 16 anos, de acordo com o que se pode depreender das observações de um médico que inspecionou os internos em 1916 (BENCHIMOL; SÁ, 2007, p. 355‐360).
Das anotações daquele médico, é possível também concluir que apenas uma parte dos meninos havia sido alistada com a idade mínima exigida – 13 anos –, o que oferece uma primeira pista sobre as condições de ingresso de Astolpho na instituição: entrou assim que pôde. Soma‐se outra informação para compor esse quadro. Em sua pasta pessoal no Arquivo da Marinha, na parte das informações dedicada à filiação, consta apenas o nome da mãe; não há qualquer menção ao pai. Observando o regulamento vigente então para as Escolas de Aprendizes, descobre‐se que o alistamento dos menores deveria ser feito pelo pai ou pelo tutor. Havia apenas um caso em que era permitido à mãe apresentá‐lo: quando o filho fosse ilegítimo. Mas não se pode saber se
era mesmo esse o caso, pois o regulamento é omisso quanto a todas as demais situações possíveis de ausência do pai.
Relatos posteriores dos descendentes de Astolpho dão a conhecer que a entrada dele para a Escola de Aprendizes foi, de certa forma, forçada, tendo sido “laçado junto com outros meninos” (TRAJETÓRIAS, 2002, p. 731). Mais à frente veremos que a situação é muito plausível, embora cada vez menos comum conforme se adentrava no século XX. Tenha a mãe apresentado o menino Astolpho à Escola, tenha ela simplesmente se conformado com o seu alistamento, a condição de vida da família só poderia ser bastante precária. Por um lado, à mãe não era possível lançar mão de nada melhor do que a modesta perspectiva de fazer do filho aprendiz de marinheiro. Por outro, não tinha condições de contestar o alistamento forçado do filho, se foi esse o caso, mesmo sendo a prática proscrita para a obtenção de aprendizes desde 1885. Assim, a falta de recursos materiais ou culturais perpassa as duas possibilidades. Uma terceira possibilidade é que dona Cândida tenha se conformado a posteriori, quando descobriu que seu menino fora “laçado”, ao antever para ele alguma oportunidade naquele destino. Embora sejam poucas as pistas dessa história já remota, a posição social da família do menino Astolpho deve se revestir de maior significado conforme se caracterize, a seguir, que tipo de instituição eram as Escolas de Aprendizes marinheiros.
1.2 O recrutamento para as Forças Armadas e as Escolas de Aprendizes