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Antes de se iniciar o epílogo de bênçãos e maldições, temos em 26,16-19 um texto chave que explica a natureza do documento. Além do mais, aqui temos a ligação do prólogo e das estipulações com o epílogo. O vocabulário desse pequeno texto acaba, pois, por unir todo o seper: “prescrições”, “decretos”, “mandamentos”, “ouvir a voz”, “povo-propriedade” e “povo santo” são expressões recorrentes em todo o conjunto.

26,16-19 apresentam o acordo de ambos os lados do contrato: Yhvh é deus do povo e, portanto, esse último deve cumprir as exigências do tratado (v.17). Em contrapartida, Yhvh toma o povo para si e o distingue dos outros povos (v.18). Trata-se de um acordo bilateral. De todo modo, é óbvio que ainda assim não há equidade na relação contratual: sempre o povo é que deverá “guardar os mandamentos”.

Só após essas declarações mútuas é que podemos passar para as bênçãos e maldições. São duas opções frente ao cumprimento do acordo realizado. Isso está muito evidentemente proposto nas introduções de ambos:

ve-hayah ‟im xamo„a tixema„ be-qol yhvh (28,1) ve-hayah ‟im-lo‟ tixema„ be-qol yhvh (28,15)

O ato de escutar ou não a voz de Yhvh articula as bênçãos-maldições, no geral, ao conjunto do documento contratual e, no específico, à 26,17 e sua suave transição entre

especificações e epílogo. Essa transição é justa, se pensarmos, sobretudo, no modelo hitita. Talvez esse seja o modelo propagandeado na síria-palestina, ou será mero acaso nosso seper e os tratados de Sefire conterem bênçãos, além de maldições? Como já vimos, os tratados neo- assírios abdicam das bênçãos por razões ideológicas. Mas no mundo periférico ao império, as bênçãos são usadas e, ainda mais, invertidas em relação às maldições. Não sei se um dia saberemos os motivos concretos para tal postura frente ao formulário. O que me importa é perceber – com os testemunhos de Sefire – que era perfeitamente possível um uso esquisito do formulário hitita em pleno I milênio. Assim fazem 28,1-36.

Particularmente, acredito que os v.47-67 são tardios. Não me refiro precisamente ao conteúdo que menciona destruição e deportação. A rigor, esse elemento também cabe dentro das práticas assírias. Basta verificar os já tão citados tratados de vassalagem de Assarhaddon: “que teus filhos não tenham a possessão de tua casa, mas que algum inimigo estrangeiro reparta teus bens.”377 Esse motivo pode ser, pois, pré-exílico e, por isso mesmo, mantenho

28,32-28. Se excluo os v.46-67 são por motivos estilísticos já aclarados no capítulo anterior da tese.

Temos dois conjuntos modelares: v.1-13+v.15-46.378 Certo que há certa assimetria, mas isso pode ser resultado da divulgação tratativa neo-assíria de maldições. A mesma assimetria está presente na documentação aramaica de Sefire. Vejam, então, que na avaliação de bênçãos-maldições, insisto na comparação com os tratados e não com os códigos vétero- orientais. A razão é simples: bênçãos-maldições se referem às relações estabelecidas no contrato (26,16-19) e não à preservação do documento, como é comum nos epílogos dos códigos.379 De todo modo, como veremos, a comparação das maldições deuteronômicas e neo-assírias revela dados surpreendentes demais para serem mera casualidade.

A bênção é determinada pela lealdade ao contrato. A principal bênção se refere ao cumprimento da declaração de Yhvh em 26,18-19. A expressão é basicamente a mesma: “Yhvh te colocará no alto sobre todos os povos” (26,19 e 28,1). Esse é o acordo básico do contrato: o povo cumpre as estipulações e, então, Yhvh os enaltecerá. 28,3-13 simplesmente esclarecem o sentido desse ato de „colocar no alto‟.

377 Tratados e juramentos no Antigo Oriente Próximo, p.89-90.

378 Lembre-se que o v.14 é uma parênese articuladora das bênçãos e maldições. Veja capítulo anterior da tese. 379 Confira os epílogos dos códigos de Lipit-Ishtar e Hammurabi. Veja Dennis McCarthy, Treaty and Covenant,

A dinâmica das bênçãos se aproxima do coração das estipulações. Afirmei que 20,1-9 possuem um movimento centrípeto e centrífugo em relação à terra. Seu lugar estratégico no código deve postular aquilo que é mais essencial para a vida social em torno do contrato: manter a terra (vida produtiva) e conquistar mais terra (guerra). Em minha perspectiva, as bênçãos correspondem perfeitamente a essa dinâmica com sua centralidade no v.9. Todas as bênçãos circulam em torno desse centro que repete a bilateralidade do acordo: Yhvh jura (xb„ nifal) que seu povo é santo („am qadox) desde que (ki!) observem os mandamentos. Disso dependem bênçãos centrípetas e centrífugas, por assim dizer:

v.3-6 (centrípeta) v.10 (centrífuga) v.7 (centrífuga) v.9 v.11-12 (centrípeta)

v.8 (centrípeta) v.13 (centrífuga)

O seper prega, pois, o pleno sucesso do povo de Israel. Haverá condições favoráveis para a manutenção da terra, bem como para a conquista de mais terra. No mais, o problema central passa a ser a terra. A relação com o centro do código não me parece coincidência. A guerra (20,1-2) e a vida produtiva (20,5-7)380, o que eu chamo de movimentos centrífugo e centrípeto, respectivamente, são exatamente as áreas a serem abençoadas por Yhvh.

Diferente disso é a seção de maldição. Bem verdade que os v.15-19 apresentam a negativa idêntica dos v.1-6. Mas o resto do texto não pode ser organizado tal como fiz com as bênçãos. Temos cá uma lógica diferente que, em parte, não pode ser explicada internamente. Moshe Weinfeld é um dos que demonstram a dependência direta das maldições deuteronômicas dos tratados de vassalagem de Assarhaddon.381 Essa comparação é eficaz em 28,23.26-35.

O „céu de bronze‟ e a „terra de ferro‟ do v.23 encontram paralelo nesses tratados neo- assírios: “que eles tornem teu solo como o ferro para que nada possa nele germinar! Assim como a chuva não cai de um céu de bronze...”382 Contudo, isso ainda não é suficiente para

demonstrar reais dependências. Esses podem ser simplesmente temas comuns que circulavam

380 A vida produtiva não parece excluir a cidade. As perguntas dos oficiais em 20,5-7 cabem perfeitamente no

contexto citadino e, especialmente, 28,3 esclarece a questão ao falar em bênçãos tanto para „ir “cidade” quanto

para sadeh “campo”. Confira também a maldição para ambos em 28,15.

381“Traces of Assyrian Treaty Formulae in Deuteronomy”, em Biblica, Roma, Pontifício Instituto Bíblico, v.46,

1965, p.417-427. Confira também Dennis McCarthy, Treaty and Covenant, p.173-176.

na literatura de maldições do Antigo Oriente. Mas como explicar a exata hierarquia dos v.27- 29 e os tratados de Assarhaddon? Rezam esses últimos:

“Que Sin, esplendor do céu e da terra, te revista de lepra (...) Que Shmash, luz dos céus e da terra, não te julgue com justiça. Que te retire a visão. Gires em círculos na escuridão!”383

Weinfeld argumenta que não há outra explicação para a ordenação do texto bíblico que não esteja na hierarquia do panteão assírio:

“a peculiar associação das maldições de lepra e cegueira judicial em 28,27-29 não pode ser satisfatoriamente explicada a menos que assumamos que o emparelhamento desses conceitos – que é compreensível apenas à luz da religião mesopotâmica – tenha sido literalmente transcrito de uma cópia tratativa mesopotâmica para o livro do Deuteronômio.”384

Além disso, ainda que não siga a ordem precisa, estão muito próximas no Deuteronômio as maldições do cadáver como alimento para animais (v.26) e da pilhagem, violação de mulheres e escravização de crianças (v.30-33), o que reflete as maldições de Ninurta e Vênus nos tratados de Assarhaddon.385 Essas duas maldições seguem, nos textos assírios, as maldições emparelhadas de Sin e Shamash. Por fim, os v.34-35 fecham quiasticamente o conjunto, ao retomar de modo invertido, as maldições de cegueira-lepra.

Portanto, o conjunto de 28,26-35 não pode ser explicado independentemente do cotejamento com as maldições de Assarhaddon. A proximidade e, mesmo a hierarquia das maldições, encontram resposta apenas nesses tratados do I milênio. Esse é um aspecto fundamental para corroborar os indícios até aqui levantados para a datação e a localização da retórica imperial. Se as maldições assírias funcionam como uma espécie de Vorlage para o que vemos agora no Deuteronômio386, devemos supor que quem as escreveu conhecia bem a tradição de maldição dos tratados do império. Isso mais uma vez, nos encaminha não só para um vago I milênio, mas para o período em que o império assírio exerceu influência decisiva na Palestina: séculos VIII-VII.

É possível pensar em termos mais concretos nesse “alguém que conhecia” os textos neo-assírios? Ora, a prática assíria era de instalar placas de tratados nos templos vassálicos. Portanto, é de se esperar que o escritor dos v.26-35 tivesse acesso a algum templo contendo um tratado para que pudesse ter a inspiração da cópia. Estamos, pois, diante de mãos

383 Tratados e juramentos do Antigo Oriente Próximo, p.89. 384 “Traces of Assyrian Treaty...”, p.422-423.

385 Tratados e juramentos do Antigo Oriente Próximo, p.89-90.

386 Verifique essa tese já em R. Frankena, “The Vassal-Treaties of Esarhaddon and the Dating of Deuteronomy”,

burocratas do complexo templário-palaciano. Particularmente, acho muito difícil que nosso seper, com toda sua roupagem retórico-tratativa, tenha sido redigido em algum lugar fora dali.

E o restante das maldições? São também fruto de inteligentes copistas? A meu ver, são mais um desenvolvimento desse núcleo neo-assírio central (cf. v.21-25.41.36-37), bem como uma inversão das bênçãos anteriores (v.16-20.43-44). O restante das maldições (v.38-40.42) possuem um sabor local – como deixam entrever os produtos típicos da Síria-Palestina – e refletem uma tradição não muito distante daquela encontra em Sefire:

“E que, por sete anos, toda sorte de insetos devore!

E que, por sete anos, passe a traça por toda a superfície do país! E que a erva não brote,

de sorte que não se veja verdura e que sua vegetação não prolifere!”387

Devemos admitir, portanto, o profundo conhecimento tratativo seja de quem for a responsabilidade pela seção de bênção-maldição. O uso de uma fonte assíria não impediu adaptações locais que, a meu ver, servem bem para propósitos retóricos. Ouvir bênção e maldição com sabor da terra deveria causar muito mais impacto na audiência. E aqui começam suspeitas mais profundas: por mais que a fonte seja assíria, a propaganda não é desse império. A adaptação sugere nova localização: nem Sin, nem Shamash, nem Ninurta, nem Vênus. Sim, apenas Yhvh amaldiçoa!

Como se nota, começamos a nos endereçar à retórica imperial inscrita em nosso seper. Podemos suspeitar, desde a forma, que 4,44-26+28 é um contrato que deseja inculcar valores de obediência nos sujeitos que o recebem. Nada muito diferente da técnica neo-assíria. Vejamos se a suspeita é plausível, em especial, ao avaliar as razões desse processo de reinscrição do ethos imperial.