1 INTRODUCTION
6.6 W EALTH TAX POLICY AND FIRM ENTRY AND EXIT
Construído o objeto de estudo dessa pesquisa, a etapa seguinte exigia a delimitação de uma proposta metodológica capaz de responder aos objetivos postos. Tinha como norte a pesquisa qualitativa, que possibilitaria a minha aproximação com os/as egressos/as — pois meu interesse estava mais na elaboração e nas experiências dos percursos iniciados por eles/as do que apenas nos indicativos quantitativos de permanências e saídas das
juventudes no campo —, pois concordo que, “Na pesquisa qualitativa a preocupação do pesquisador não é com a representatividade numérica do grupo pesquisado, mas com o aprofundamento da compreensão de um grupo social, de uma organização, de uma instituição, de uma trajetória etc.” (GOLDENBERG, 2004, p.14).
A necessidade de aprofundar minha compreensão sobre os percursos que as juventudes iniciaram e a forma como construíram tais percursos, além do desafio da Educação do Campo em formar jovens em seus assentamentos, com uma proposta educativa diferenciada, definiram o caminho e “[...] só se escolhe o caminho quando se sabe aonde se quer chegar” (GOLDENBERG, 2004, p.14).
Quis chegar às juventudes, às suas experiências de vida no campo, na cidade, na escola, na comunidade, em sociedade. Ao me aproximar dos seus percursos e conhecer seus projetos de vida, trabalhei com “[...] o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes” (MINAYO, 2015, p.21) dos/as jovens, “fenômenos humanos” que caracterizam a pesquisa qualitativa nas Ciências Sociais, por revelarem uma realidade que não pode ser quantificada (MINAYO, 2015). Estava compreensível, desde a elaboração do objeto de estudo e dos objetivos, que minhas indagações, minhas motivações para realizar a pesquisa, só seriam alcançadas por meio da pesquisa qualitativa. Essa compreensão ganhou forma com o trabalho de campo, que me encaminhou à possibilidade de realizar uma etnografia.
A partir de um convite que recebi para participar do Curso Técnico em Agroecologia e Extensão Rural24 do Programa Residência Agrária, na UFC, a metodologia foi-se constituindo. O curso é formado por 50 jovens (estudantes do ensino médio e egressos/as) das quatro escolas de ensino médio do campo25, com uma proposta de duração de 22 meses, com dois tempos formativos: o tempo escola e o tempo comunidade. O tempo escola é realizado nas escolas do campo e na UFC, caracterizando-se como o momento em que os/as jovens constroem o conhecimento na sala de aula; e o tempo comunidade é o retorno para os assentamentos e para as escolas, onde as atividades são desenvolvidas e dialogam com a realidade.
A oportunidade de participar do Curso Técnico em Agroecologia e Extensão Rural
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O convite foi feito pela coordenadora do curso, a Profa. Dra. Celecina de Maria Veras Sales. O curso tem como objetivo geral “Formar jovens estudantes das áreas de Reforma Agrária que estão cursando o ensino médio para uma compreensão crítica da realidade do campo com base nos princípios da agroecologia e enfoque no
desenvolvimento sustentável do campo” (UFC, 2015). O curso encerrará em outubro de 2016. 25
Escolas do campo que participam do curso: EEM João dos Santos de Oliveira (Madalena, Assentamento 25 de Maio), EEM Maria Nazaré Flor (Itapipoca, Assentamento Maceió), EEM Francisco Araújo Barros (Itarema, Assentamento Lagoa do Mineiro) e EEM Florestan Fernandes (Monsenhor Tabosa, Assentamento Santana).
proporcionou-me o contato com as juventudes de quatro assentamentos. A princípio, não sabia quem seriam os/as jovens que fariam parte da pesquisa, o que tinha de informação é que no curso encontraria egressos/as das escolas do campo. Com a inserção no curso — e por dele fazerem parte jovens concludentes do ensino médio das escolas dos assentamentos, sujeitos indicados em minha proposta de pesquisa —, comecei a realizar uma pesquisa exploratória, constituindo-se posteriormente também parte do meu trabalho de campo. O estudo exploratório pode permitir ao/à pesquisador/a uma maior experiência e aproximação com o problema determinado ou também a possibilidade de delimitar os instrumentos necessários para a pesquisa (TRIVIÑOS, 2013).
Com essa possibilidade de ter uma imersão durante os tempos escolares do curso, adotei a etnografia como orientação metodológica e estratégia de pesquisa. Assim seria possível melhor compreender como as juventudes egressas iniciaram seus percursos após a conclusão do ensino médio e como a Educação do Campo repercutia neles.
Na primeira etapa do curso26 (uma das dez etapas propostas), desde o início, observei e anotei informações durante a apresentação dos/as jovens e de suas expectativas em relação ao curso. Para mim, foi um momento de surpresas e encontros. Surpresa por reencontrar dois jovens que haviam participado da pesquisa que realizei em 2013 e que até então fariam parte desse curso. Trago as minhas primeiras impressões registradas sobre esse encontro:
Ontem, quando pensava na minha ida ao assentamento em 2013 para fazer a pesquisa, lembrei-me de alguns jovens que gostaria de reencontrar, pra saber quais seus caminhos depois do último contato que tive com eles/as. Entre eles/as gostaria muito de reencontrar o Vicente. Ele é um jovem do Assentamento 25 de Maio que no grupo de discussão que realizei naquele ano fez algumas colocações sobre a sua presença na escola (falava de estar na escola simplesmente à toa, dizia não querer uma vida de ilusão, na letra de música em estilo hip-hop que construiu no grupo de discussão). Meu interesse em saber dele é porque imaginava que já não estivesse mais no assentamento, talvez porque em alguns momentos ele demonstrasse não querer permanecer no campo. É possível que eu tenha me precipitado, pois hoje o encontrei no curso. Na verdade ele e Rosa, outra jovem que participou do mesmo grupo de discussão (Trecho do Diário de Campo, 30/03/2015).
O reencontro com Vicente e Rosa27 proporcionou duas reflexões importantes: 1) o curso poderia ser o ponto de partida para a realização do trabalho de campo, pois, ao mesmo
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O Curso Técnico em Agroecologia e Extensão Rural é formado por quatro eixos: Educação do Campo, Sujeitos do Campo, Extensão Rural em Bases Agroecológicas e Tecnologias Sociais Apropriadas às Condições do Semiárido. Nos tempos escolas, as juventudes realizavam leituras, participavam de seminários, debatiam as temáticas definidas para cada etapa e produziam materiais escritos, digitais ou artísticos para refletirem suas realidades.
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tempo em que tinha jovens egressos/as da escola João dos Santos de Oliveira, alguns desses/as eram jovens com quem outrora tive contato; e 2) eu havia construído em meu imaginário possibilidades de percursos para as juventudes da escola e, para compreender melhor os caminhos iniciados por eles/as, eu precisaria me abster das minhas próprias expectativas quanto ao que estariam fazendo após a conclusão do ensino médio na escola do campo.
Tomar essa postura reflexiva sobre minhas próprias expectativas em relação à pesquisa e aos/às jovens contribuiu para que, durante o trabalho de campo, eu pudesse ampliar o olhar, o ouvir, permitindo que os conflitos, as contradições e as inconstâncias nos discursos das juventudes pudessem emergir:
Após algumas apresentações — sobre a proposta do curso — chegou a vez deles/as se apresentarem e dizerem o que os/as motivava a participar desse curso. As falas se encontravam. Os motivos eram similares, como: acreditavam em uma agricultura menos capitalista e sustentável; pela identidade/identificação com a agricultura; para produzir produtos saudáveis; para um jovem que não mora no assentamento, mas que estudou na escola, seu interesse pela discussão do MST e sua crença que o movimento renova os ideais de sociedade foi o mote para a sua participação; para não sair do campo, assim não abandonar a família; para ajudar os pais na agricultura; para ter mais conhecimento com práticas agroecológicas; por acreditar em uma agricultura alternativa; por ter conhecimento no campo, pois trabalha com o pai, e assim poder aprender mais; levar conhecimento para a comunidade; combater o agronegócio; porque a juventude pode mudar a realidade rural; mudar a visão que a sociedade tem do campo; para aprender o manejo da terra e dos animais; por ter identificação com a área; para ter novas práticas de convivência com o semiárido. Depois das apresentações tivemos um intervalo e voltamos com a mística e a apresentação dos Cursos do Centro de Ciências Agrárias, encerrando as atividades da manhã para o almoço no Restaurante Universitário. Não consegui almoçar com os/as jovens, só na saída do restaurante consegui acompanhar um grupo de jovens mulheres do assentamento de Itapipoca. Eram Amélia, Jasmim, Tulipa e Hortência28, todas diziam ter menos de 18 anos. Enquanto íamos andando até o auditório aproveitamos para nos apresentar e conversar. Entre as conversas, uma falou que sonhava em estudar na UFC, aproveitei a oportunidade pra perguntar em qual curso, e aí elas todas começaram a falar. Jasmim quer ser pediatra, outra quer ser fisioterapeuta, apareceu também enfermagem, só uma que parecia querer realmente seguir algo na área das agrárias. Mas, durante a apresentação pela manhã, todas falaram da vontade de contribuir com o assentamento através da agroecologia, como quem deixa entender que gostariam de trabalhar na agricultura familiar (Trecho do Diário de Campo, 30/03/2015).
A aproximação com as jovens, fora dos espaços oficiais do curso, favoreceu para que os outros sonhos, desejos e expectativas fossem revelados. Nesse instante entendi que minha aproximação com eles/as não poderia se resumir apenas aos tempos escolares do curso, pois eu correria o risco de captar discursos norteados por esses momentos. Outro
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Amélia, Jasmim, Tulipa e Hortência são nomes fictícios escolhidos para garantir o anonimato das jovens que fazem parte do Curso Técnico em Agroecologia e Extensão Rural.
entendimento que tive durante os primeiros contatos com os/as egressos/as é que eu não poderia compreender suas falas, escolhas, percursos como excludentes de outras possibilidades, ou seja, querer contribuir com o assentamento ou se interessar em aprender mais sobre a agroecologia não significa que as juventudes queiram ser todos/as agricultores/as familiares ou que não sonhem com outras profissões. O fato de quererem ser pediatra, fisioterapeuta, enfermeira ou exercer qualquer outra profissão não significa que rejeitem o campo ou que não tenham interesse em saber mais sobre ele. Esse jogo de oposições, escolhas e exclusão, “ou isto ou aquilo”, poderia me levar a uma compreensão limitada sobre como as juventudes constroem seus percursos, podendo até “escorregar” em julgamentos e excluir as possibilidades que são tecidas pelos/as jovens.
Percebo que um desafio que tenho é o de não idealizar essas juventudes e suas relações com o assentamento, nem com a Educação do Campo. Essa postura é algo a que preciso estar atenta, para não cair no risco de também pensar os percursos das juventudes sempre na dicotomia ficar/sair, mas tentar encontrar o que existe nesse movimento e se há algo de novo proporcionado pela Educação do Campo (Trecho do Diário de Campo, 30/03/2015).
As questões ora iniciadas representam o esforço travado durante as etapas da pesquisa para pensar o meu papel de pesquisadora, reconhecer os fatores que me levaram à definição do objeto, ou seja, reconhecer minha subjetividade, para que então pudesse objetivá- la. Para Laville e Dionne (1999, p.39), a objetividade está “[...] relacionada mais ao sujeito pesquisador e seu procedimento do que ao objeto de pesquisa” e “[...] a objetividade repousa sobre a objetivação da subjetividade” (LAVILLE; DIONNE, 1999, p.44). Considerando esses fatores, passei então a estar no curso mais atenta às múltiplas linguagens das juventudes, para entender a partir delas como é a vida no campo e então captar algumas pistas sobre como os percursos dos/as jovens são elaborados.
Durante as etapas, passei a observar e registrar as pistas que surgiam sobre os percursos de alguns/mas jovens:
Outro jovem contribuiu com a sua experiência. Falou que após 3 anos de conclusão do ensino médio surgiram duas oportunidades, trabalhar em uma fábrica e o curso. Ele optou por esse curso. Comentou também que com dois canteiros era possível tirar uma renda boa, pois ele mesmo conseguiu fazer no seu canteiro uma produção que rendeu R$ 600,00 em um mês. Outras experiências também foram colocadas, como a de uma jovem que faz bolsas no seu assentamento e um grupo de jovens mulheres que se organizaram no mesmo assentamento para trabalhar com artesanato. Uma terceira jovem falou que estava trabalhando em um supermercado em Itarema, mas soube do curso pelos pais e decidiu aproveitar a oportunidade para sair do emprego, pois o que ganhava era o mínimo pra se manter na cidade (Trecho do Diário de Campo, 30/03/2015).
Esses relatos registrados no diário de campo correspondem às minhas primeiras tentativas de coletar informações sobre os percursos dos/as egressos/as que estão no curso. Lüdke e André (1986, p.15) destacam que, na etapa inicial da pesquisa (exploração), “[...] estão incluídas as primeiras observações, com a finalidade de adquirir maior conhecimento sobre o fenômeno e possibilitar a seleção de aspectos que serão mais sistematicamente investigados”. A partir das falas dessas juventudes, selecionei alguns aspectos que considerei importantes de serem aprofundados no decorrer do trabalho de campo, como: a relação com a cidade, as oportunidades de obtenção de renda e o trabalho no assentamento.
Acompanhei quatro etapas do curso, das quais uma foi realizada na Escola de Ensino Médio Francisco Araújo Barros, no Assentamento Lagoa do Mineiro, no município de Itarema; as demais foram realizadas na UFC e no Centro de Formação, Capacitação e Pesquisa Frei Humberto, ambos em Fortaleza. Cada etapa durava de quatro dias a uma semana, e minha inserção se dava no acompanhamento de todas as atividades, inclusive durante as noites, pois optei por dormir nos mesmos espaços que os/as jovens.
Convivi com os/as egressos/as (e também com os/as educandos/as do ensino médio) durante as atividades do curso, mas também nas horas de refeição e lazer. Os horários livres eram marcados por momentos de conversa, aproximação e aceitação da minha presença. Conversamos sobre coisas do dia a dia, sem roteiros, os assuntos fluíam e de alguma forma me proporcionaram conhecer mais sobre a vida deles/as. Uma das características da etnografia é esse contato próximo do/a pesquisador/a com o grupo, que o/a habilitará a conhecer de forma mais íntima e ampla o grupo (CHIZZOTTI, 2014).
O curso favoreceu o meu encontro com os percursos e as narrativas dos caminhos seguidos pelos/as egressos/as das escolas do campo, mas também me confrontou com um primeiro desafio: o de ter uma quantidade grande de jovens egressos/as no curso. Nessa etapa da inserção, precisei revisitar meus objetivos e elaborar os critérios que me guiariam na definição dos sujeitos da pesquisa.
Como minha ideia inicial era retornar ao Assentamento 25 de Maio e procurar os/as egressos/as que concluíram o ensino médio na escola, defini que a pesquisa seria realizada com os seis egressos da Escola João Sem Terra presentes no curso. Entretanto, com a saída de duas jovens egressas — entre elas Rosa que deixou o curso por ter casado —, outros jovens foram preenchendo as vagas, e a quantidade de jovens rapazes tornava-se maior que a quantidade de jovens mulheres. Como o meu interesse era manter uma equivalência entre ambos os sexos, novamente precisei redefinir os critérios.
Compreendi, nesse exercício de elaboração, que eu poderia ampliar minha busca para além do curso e procurar aqueles percursos juvenis iniciados em condições outras, com inserções diferentes. Estabeleci, então, que continuaria no curso acompanhando os/as egressos/as da Escola João Sem Terra, esses quatro fariam parte da pesquisa por atenderem aos outros critérios (que serão expostos no próximo tópico) que elaborei, e eles/elas seriam também os informantes dos percursos dos/as outros/as jovens que estudaram na mesma escola. Mas eu também voltaria à escola para buscar informações sobre os/as concludentes.
O curso foi um espaço de constante reflexão dos/as jovens sobre suas próprias condições de existência, possibilitando que eu conhecesse as problemáticas comuns e as particularidades de cada assentamento, nas formas de organização ou nas dificuldades enfrentadas pelos/as assentados/as. Algumas das temáticas expostas durante o curso serão abordadas nos próximos capítulos.
Essa etapa, que chamo de pesquisa exploratória, contribuiu para que os procedimentos metodológicos fossem construídos e foi importante para a delimitação do trabalho de campo e a escolha dos sujeitos deste estudo. A pesquisa exploratória é entendida por Minayo (2015) como um tempo que merece dedicação, empenho e investimento, pois é o momento de preparação dos procedimentos que são necessários antes de entrar em campo.