1 INTRODUCTION
6.9 S UGGESTIONS FOR FURTHER RESEARCH
O desejo de ter uma visão mais ampla sobre os percursos que os/as egressos/as da escola do campo iniciaram após a conclusão do ensino médio me levou a retornar à escola e, a partir dela, coletar informações sobre os/as concludentes. Para retornar à escola, entrei em contato com a direção da Escola de Ensino Médio João dos Santos de Oliveira. Falei sobre a pesquisa e os objetivos e aproveitei para comunicar que gostaria de obter algumas informações com a secretaria da escola. Fui prontamente respondida, e minhas solicitações, autorizadas. Em seguida marquei minha ida.
Durante a viagem para o assentamento, aproximando-se do município vizinho, Canindé, comecei a observar a vegetação. Embora desanimada por ver tanta seca, plantas sem folhas, açudes sem água, fiquei ao mesmo tempo maravilhada com a resistência de algumas árvores e plantas que permaneciam verdes entre uma paisagem tão acinzentada. Muito interessante como algumas árvores estavam bem verdes, não falo das que estão próximas às casas — pois vi muitas assim nas redondezas das comunidades —, mas das plantas que, apesar de estarem em quantidade bem menor (em relação à vegetação seca), estão
sobrevivendo no meio da “mata”. Ver essas plantas me fez logo pensar nos/as assentados/as e principalmente nas juventudes, que persistem em viver no campo apesar de um cenário tão desalentador.
Chegando ao município de Madalena, meu primo já me esperava com sua moto. Durante o caminho conversamos um pouco (entre poeira e vento no rosto). Ele me falou das dificuldades de água em Madalena, Boa Viagem e que o açude da Ingá29 secou (e como isso lhe causava tristeza). Durante as estradas carroçais, eu ia observando alguns assentados trabalhando. O horário entre 10h/11h da manhã, o sol quente, poucas árvores que faziam sombra. Um vento ora frio, ora quente. Observei os/as assentados/as que encontrei no caminho, levando o cavalo para beber água em um açude quase seco, outros mexendo com coisas da casa ou carregando água. Uma vida tão difícil que naquele momento pensei: como essas pessoas conseguem viver com tanta dificuldade? Como continuar no assentamento? O que os mobiliza a resistir às dificuldades e a permanecer no campo?
Chegando à escola notei algumas diferenças, desde a decoração até a mudança de alguns/mas colaboradores/as e educadores/as. Alguns/mas colaboradores/as foram demitidos/as com o “corte”30 do Governo do Estado do Ceará. A decoração também mudou, observei uma arte feita com pedaços de madeira com frases de grandes teóricos e outras sobre a Educação do Campo.
Fui recebida por Amanda e Dávida31, secretárias da escola (as conheci em 2013), pois a diretora não estava na escola por questões familiares. Nesse dia, as aulas na escola terminaram às 15h por conta do falecimento de uma ex-aluna (jovem de 25 anos). Apesar de a diretora não estar na escola, solicitei as informações que buscava sobre os/as egressos/as com as secretárias. Elas aceitaram sem objeção e repassaram os dados sobre o número de matrículas, de concludentes e a participação e resultados no Enem.
Com acesso à lista dos/as concludentes, busquei identificar algumas informações sobre eles/elas, tais como: a comunidade em que moram e se permanecem no assentamento, tentando saber alguma informação sobre os percursos dos/as egressos/as.
Escolhi trabalhar inicialmente com os anos de 2013 e 2014: 2013 porque foi o primeiro ano em que visitei a escola e conheci alguns/mas jovens, e 2014 porque a escola já
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Comunidade onde moram alguns dos meus familiares e que pertence à cidade de Madalena, no Ceará.
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Com a crise econômica desencadeada no Brasil durante o ano de 2015, alguns governos estaduais optaram por contingenciar o orçamento governamental. No Ceará, as pastas de educação e saúde tiveram, em janeiro de 2015, 20% de seus recursos de custeio contingenciados. Para maiores detalhes sobre a notícia, verificar as fontes G1 CE (2015) e CEARÁ EM REVISTA (2015).
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Nomes fictícios utilizados para garantir o anonimato das funcionárias da Escola Estadual de Ensino Médio João dos Santos de Oliveira.
teria, nesse período, quatro anos de funcionamento, ou seja, os/as egressos/as desse ano cursaram, provavelmente, todo o ensino médio na escola do campo. Também considerei que os componentes curriculares que representam a base diversificada e que são as disciplinas que dialogam essencialmente com a realidade do campo foram implantados na escola no segundo semestre de 2012, ou seja, os/as concludentes de 2013 e 2014 teriam sido contemplados/as com essa formação.
Abri a lista no computador e escrevi em uma folha o ano e o primeiro nome de cada ex-educando/a. Depois li em voz alta nome por nome, e as duas secretárias foram informando a comunidade de origem dos/as egressos/as e o que sabiam sobre eles/as. Ao falar o nome de alguns/mas alunos/as, as secretárias respondiam: “Esse/a não faz nada”. Então eu perguntava: “Não trabalha na agricultura?”; e elas respondiam: “É, trabalha na agricultura” ou “Ajuda o pai na agricultura” (em relação a alguns/mas jovens). Pela forma como falaram, entendi que, aparentemente, trataram a agricultura como um “não trabalho” ou um “não fazer nada”.
Após construir uma lista sobre os/as egressos/as, fiquei pensando como faria para escolher com quais jovens aprofundaria a pesquisa. Pela quantidade de concludentes e pela metodologia seria inviável alcançar todos/as que terminaram o ensino médio nos anos de 2013 e 2014 — em 2013, 56 educandos/as concluíram o ensino médio, e, em 2014, 38 educandos/as.
Sobre os percursos, algumas pistas foram anunciadas. Pela fala das secretárias, muitos/as egressos/as continuavam no campo. A partir dos comentários que iam fazendo, identifiquei que: algumas jovens mulheres casaram, outras também são mães e não “fazem nada”, “ficam somente em casa”. Havia alguns casos de jovens que saíram para São Paulo, Fortaleza, Quixeramobim; de jovens homens que estão no assentamento, “mas não fazem nada”; e alguns poucos casos de jovens que estão no ensino superior: uma cursando Fisioterapia; duas, Letras pela UAB/UFC Virtual32 no polo de Quixeramobim; uma, Engenharia de Meio Ambiente; um, Técnico em Engenharia de Alimentos; um, Técnico em Agronegócio; um, Educação Física; e uma, Pedagogia. Em relação ao ingresso no mercado de trabalho ou outra atividade, foram listadas: agricultura; fábrica de calçados; um como motorista de carro; um jovem no projeto Mais Educação; uma artesã; e os/as seis jovens que
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A Universidade Federal do Ceará (UFC) é uma das instituições de ensino superior vinculadas à Universidade Aberta do Brasil (UAB), que oferta cursos de graduação e pós-graduação na modalidade de Educação a Distância (EaD), através do Instituto UFC Virtual: “O Instituto Universidade Virtual foi criado para potencializar o acesso ao ensino de qualidade, sendo uma via aberta para a democratização do saber. Representa um programa nacional que propicia ganhos não só em termos de regiões geográficas, mas também de quantidade e velocidade de aprendizagem” (UFC VIRTUAL, s/d).
estão participando do Curso Técnico em Agroecologia e Extensão Rural.
Enquanto estava na secretaria, vi na escola dois jovens egressos que participam do curso. Estavam realizando alguma atividade. No fim da tarde, Vicente me procurou para saber do site da graduação em Agroecologia, da Universidade Federal de Campina Grande. Eu havia comentado com ele, na II etapa do curso, que existe uma graduação sobre o tema. Como ele estava muito animado com o módulo do curso sobre agroecologia, falei sobre essa graduação e o fato de ter sobrado vagas no Enem para lá. Ele pareceu bem interessado.
Naquele dia, Vicente falou que não iria participar da IV etapa do tempo escola, porque no mesmo período estaria no curso prolongado de formação de militância do MST, em Russas, e que o mesmo tem duração de dois meses. Ele falou que já deveria ter ido, mas não foi porque faria o Enem naquele final de semana e viajaria após o exame. Percebi que Vicente estava engajado na militância desde o acampamento da juventude, que ocorreu em janeiro de 2015 na escola. Em uma visita ao seu Facebook, encontrei fotos em que ele aparece em atividades e encontros com o MST.
Sobre o Enem, perguntei às secretárias se os/as egressos/as participavam do exame. Elas acreditavam que não, porque, quando algum deles/as tem interesse, procuram a escola para poder utilizar o transporte dos/as alunos/as no dia da prova. Acrescentaram que poucos vieram à escola, em comparação com o ano anterior (2014).
Fiquei aguardando Lourdinha (uma das jovens egressas que participa do curso e que se dispôs a me acompanhar na busca dos/as outros/as egressos/as), mas ela não apareceu.
Meu retorno ao assentamento possibilitou construir um breve panorama sobre os percursos iniciados pelos/as concludentes do ensino médio. Foi possível identificar quais ainda estavam presentes no assentamento e quais construíam seus percursos fora do campo ou nas idas e vindas entre campo e cidade.