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Nos anos 60 do século XX, Teixeira (1969, p. 157) já esboçava sua preocupação com os impactos das tecnologias na educação brasileira. E alertava: “[...] com as tecnologias recentes ligadas ao próprio ato de pensar do homem [...] não o atingem apenas em seu organismo, mas alteram também toda sua vida institucional e social”.

Na referida publicação, Teixeira (1969) ainda descrevia o processo de inovação tecnológica, relembrando o computador Eniac, criado em 1946, sua dimensão, pois ocupava enorme espaço físico e pesava mais de 30 toneladas, e a necessidade de potente sistema de ar condicionado para dissipar o calor gerado pelos seus componentes.

Ainda com destaque para a visão futurista de Anísio Teixeira, ressalta-se sua percepção sobre a incapacidade geral de lidar com o progresso tecnológico.

O que marca o nosso tempo é essa aceleração do progresso tecnológico

sem a correspondente aceleração no pensamento teórico. Não temos

uma teoria da educação, como não temos uma teoria social, mas estamos equipados com uma assustadora tecnologia (TEIXEIRA, 1969, p. 157-159, grifos do autor).

Hoje, pouco mais de 60 anos depois do Eniac, surgem, em uma velocidade vertiginosa, dispositivos cada vez menores, mais avançados nas suas funcionalidades, que permitem aos seus usuários se conectarem, interagirem e até mesmo serem transportados virtualmente a lugares diversos. Citam-se, nesse caso, os notebooks, os netbooks, os tablets, os ipads e os celulares, ferramentas que possibilitam o acesso à internet e, consequentemente, a uma infindável rede de informações.

Segundo Lemos (2004), a tecnologia desenvolveu-se a partir da eclosão do “imaginário social” e sua história caracterizou-se por três grandes fases: a fase da indiferença (até a Idade Média), a fase do conforto (Modernidade) e a fase da ubiquidade (Pós-modernidade):

 primeira fase (indiferença): caracterizou-se pelo misto de “arte, religião, ciência e mito. “A vida social é um todo coerente que gira em torno de um universo sagrado. [...] A técnica não é uma realidade em si [...]”.  segunda fase (conforto): “A natureza é dessacralizada, controlada, explorada e transformada. [...] A ciência substitui a religião no monopólio da verdade, e a tecnologia faz do homem um deus na administração racional do mundo”.

 terceira fase (ubiquidade): “A fase da simulação, a fase da cibercultura. As ideologias da modernidade perdem forças e são substituídas pela ênfase no presente, numa sociedade cada vez mais refrataria às falas futuristas, cada vez mais submergida em jogos de linguagem. Estamos no vácuo espaço-temporal [...].” (LEMOS, 2004, p. 52- 53).

Na atualidade, encontram-se diversos estudos que mapeiam a importância da evolução tecnológica e defendem seu uso na prática pedagógica por ser um “caminho sem volta”. Lemos (2004) adverte que a tecnologia é considerada um dos fatores essenciais na organização social da contemporaneidade e ressalta a intensidade relacional entre o homem e a tecnologia tendendo, inclusive, a uma “interface zero, a uma simbiose completa” (LEMOS, 2004, p. 113).

Na mesma direção, Ramos (2011) assinala que a internet favorece a comunicação entre indivíduos de diferentes lugares do mundo e a uma vasta gama de informações. E assim, ao inseri-la no ambiente escolar, é possível ultrapassar fronteiras e tornar o processo de ensino-aprendizagem mais proveitoso e aprazível. Corroborando esse pensamento, Behrens (2012) relembra a utilização do ciberespaço na possibilidade de acesso, por meio da internet, a bibliotecas de todo o

mundo, em que se podem consultar obras e visitar museus e laboratórios, tudo isso em uma jornada virtual.

Inúmeras mostras da inserção e da importância das TICs no universo acadêmico surgem a cada dia. Tosta (2014) aborda sobre realidades tecnicizadas e as conexões e as desconexões entre professores e alunos no emaranhado midiático nos quais os tempos e os espaços excedem a sala de aula, a escola, a universidade.

Hodiernamente o individuo vivencia temporalidades fragmentadas, rotinas céleres. Com o uso da tecnologia, foi permitido executar inúmeras atividades de forma simultânea, possibilitando assim, uma maior interação social (RAMOS, 2011).

Baseando-se nessas afirmativas nas quais se percebe a sociedade atual mergulhada em uma grande teia cibernética, buscou-se por autores que venham a descrever suas percepções sobre os aspectos positivos e negativos acerca do uso da tecnologia no meio acadêmico.

Como assevera Demo (2000) em seu artigo sobre as “Ambivalências da Sociedade da Informação”, há grande perigo das transmissões informacionais se tornarem fontes de desinformações, pois dependem do interesse e percepção dos sujeitos envolvidos no processo de comunicação. E conclui dizendo “[...] o mundo da informação é agitado, conturbado, porque é, ao mesmo tempo, intrinsecamente manipulado e impossível de ser totalmente manipulado” (DEMO, 2000, p. 41).

Moran (2012) propõe como “integrar as tecnologias de forma inovadora” e afirma que:

[...] aprendemos quando relacionamos, integramos. Uma parte importante da aprendizagem acontece quando conseguimos integrar todas as tecnologias, as temáticas, as audiovisuais, as textuais, as orais, musicais, lúdicas, corporais (MORAN, 2012, p. 32).

O autor ressalta que a sociedade ainda não aprendeu e nem explorou suficientemente todo o potencial resultante da rápida evolução “[...] do livro para a televisão e o vídeo e destes para o computador e a internet” (MORAN, 2012, p. 32). Concorda-se que há grandes lacunas entre essas fases e com isso, o não vivido cria obstáculos a análises menos aligeiradas sobre o tema. A inexistência da necessária sedimentação entre, durante e após as etapas, pela própria dinamicidade

tecnológica, dificulta o aprimoramento dos processos pedagógicos necessários ao planejamento, à prática e à avaliação segura dos resultados obtidos.

Corroborando o exposto anteriormente, Demo (2005, p.1) assevera que se habita em “[...] um cenário de mudanças [...], cada vez mais veloz, conturbado, complexo, não linear, imprevisível, estonteante”, e todos esses aspectos geram dificuldades de nortear, de maneira segura, práticas de ensino e de aprendizagem, utilizando os recentes aparatos tecnológicos.

No seu artigo “Cultura Digital, Educação Midiática e o Lugar da Escolarização”, Buckingham (2010) expõe sua perspectiva em contraponto a diversos autores defensores do uso da tecnologia no ambiente escolar. O autor questiona se as TICs (que ele chama de ICT) são realmente indispensáveis no ensino-aprendizagem ou apenas sua disseminação está intimamente ligada à mercantilização dos seus equipamentos, como hardwares e softwares e ao consequente apoio das politicas governamentais.

Diversos estudos nos Estados Unidos e no Reino Unido hoje estão contando histórias semelhantes: mostram que a maioria dos professores

são céticos em relação aos benefícios educacionais da tecnologia computacional e que o investimento em tecnologia nem sempre resulta em

formas novas e criativas de aprendizagem, nem mesmo em progressos nos resultados das provas (BUCKINGHAM, 2010, p. 40, grifos da autora).

O mesmo autor, no bojo do artigo citado, traz à tona exemplos de pesquisas recentes que desconstroem o paradigma de que as TICs são imprescindíveis no âmbito acadêmico:

Recente pesquisa, conduzida na minha universidade, concluiu de forma definitiva que não havia qualquer evidência de que os métodos não ICT de ensino e os recursos da mesma natureza fossem inferiores aos de uso das ICTs, e recomendou que os elaboradores de políticas contivessem quaisquer próximos investimentos na área até haver achados mais convincentes (EPPI Centre, 2004). Da mesma forma, um relatório recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) descobriu que o nível do uso de computadores no dia a dia das escolas foi decepcionante, com apenas uma minoria dos professores usando mesmo aplicações-padrão do computador (OECD, 2004); ao mesmo tempo, um relatório de inspeção do governo britânico mostrou que, apesar de a maioria dos professores gostarem de usar as ICTs no manejo e na administração de rotinas e no preparo dos materiais didáticos, poucos as usaram no auxílio do aprendizado do aluno na sala de aula (OFSTED, 2004 apud BUCKINGHAM, 2010, p.40).

Dando continuidade à linha de pensamento das TICs como parte de um problema vivenciado na contemporaneidade, busca-se Behrens (2012) para provocar reflexões acerca do comportamento humano diante do uso contínuo de tais tecnologias.

Os avanços tecnológicos, científicos e eletrônicos não estão trazendo a vida em plenitude para o homem. Ao contrário, vieram desafiá-lo e angustiá-lo, levando-o ao estresse, à competitividade exacerbada, a um pensamento isolado e fragmentado, impedindo-o de ver o todo e retirando a responsabilidade de atos isolados perante a sociedade (CARDOSO, 1995 apud BEHRENS, 2012, p.81).

Assim, se por um lado, a tecnologia é vista como um mecanismo de desagregação, por outro, propicia as abordagens pedagógicas “[...] a conjunção, a interconexão, o inter-relacionamento da teia” (BEHRENS, 2012, p. 88).

Ainda na tentativa de expor a ambiguidade de percepção sobre a influência das tecnologias no cotidiano educacional, Demo (2001) levanta o debate acerca da “telepistemologia: conhecimento reconstruído a distância, em particular no mundo virtual da internet” (DEMO, 2001, p. 55). E acrescenta que a denominada virtualização está a cada dia mais presente, habitual e cotidiana para muitos.

Se os muros das escolas já foram ultrapassados há muito, e os alunos agregam conhecimento de diversas formas, como lidar com essa realidade de difícil definição, pois, segundo Demo (2001), é menos palpável, mas cada vez mais presente.

As novas ferramentas tecnológicas favorecem o aprendizado on line, que, por sua vez, possibilita aos usuários a interação, o respeito aos seus próprios ritmos e limites, pois pode ser realizado a qualquer tempo e lugar. Por outro lado, essas facilidades promovem um sem número de ludíbrios, incertezas, abreviações (DEMO, 2005).

Segundo Moreira e Kramer (2007, p. 1048), “Para além do pessimismo ou do otimismo, o que parece mais perigoso é a renúncia ao reconhecimento de que há mudanças e novos aparatos tecnológicos que formam e informam uma geração”. Esse é um importante alerta aos adultos, sobretudo aos pais e aos docentes.

Como lembra Johnson (2001, p. 24), “[...] a interface já alterou o modo como usamos computadores e vai continuar a alterá-lo nos anos vindouros. Mas está fadada a mudar outros domínios da experiência contemporânea de maneiras mais

improváveis, mais imprevisíveis”. É o que se verifica em vários aspectos da vida cotidiana, especialmente na esfera da comunicação e da economia.

Ainda que se traga à tona a complexidade e a ambiguidade da questão, faz- se necessário um estudo de maior amplitude que possa favorecer uma melhor adaptação das instituições e da prática docente às novas formas de utilização das tecnologias ubíquas.

Adiante, serão abordadas as conexões e as interações entre os jovens na atualidade, proporcionadas pelo surgimento e pela disseminação dos dispositivos móveis ubíquos, em particular, o telefone celular, que se tornou, como se verá posteriormente, uma ferramenta tecnológica muito utilizada em sala de aula com propósitos acadêmicos ou não.