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Consideramos que a postura compreensiva em Jaspers (1913) demarca um avanço da ciência psicológica no sentido de acolher o outro sem os pressupostos, pré-juízos, pré-conceitos, tão caros à psicologia, e atingir ao outro de um modo empático, sensível, intuitivo e que vá de encontro ao que se mostra de fato à nossa consciência. É com esta postura que nos aproximamos da obra escrita deixada por Yokaanam.

Este nível do pensamento e práxis acaba sendo colocado em dúvida quando escapa da padronização explicativa e interpretativa, que permitiu à psicologia ascender-se como ciência. Neste sentido, vemos a necessidade de retorno à epistemologia desta ciência, examinando cuidadosamente o que foi deixado para trás e que mudou os rumos de sua práxis.

Do ponto de vista explicativo e interpretativo, temos Yokaanam como um homem que, após a queda de um avião que pilotava, teve um surto psicótico, desenvolvendo um modo de funcionamento paranóico. Este tipo de interpretação se fundamenta na própria psicopatologia Jasperiana, que prioriza a forma e o conteúdo do delírio. Assim, temos um homem profano se transformando em profeta, com muitas auto-referências e auto- intitulações, com mudanças de hábitos e aparência, com poderes espirituais de cura, ensimesmado, projetivo, com pensamentos persecutórios em torno daqueles que não o reconheceram como um ser especial. Poderíamos desenvolver um estudo nesta perspectiva e teríamos em seus escritos fundamentos para tais explicações. Mas questionamos a epistemologia deste modo de fazer ciência, a ética em se adotar tal postura, as consequências de tal postura na práxis clínica da saúde mental de pessoas que, como Yokaanam, apresentam discursos e manifestações de ordem religiosa e/ou espiritual.

Assim, revendo o que Jaspers nos deixou em seu pensamento, percebemos que suas perspectivas vão além deste modelo explicativo. Porém este foi o modelo adotado e que vigora de forma hegemônica no ocidente. Jaspers (op. cit) diz que os impulsos, os fatos somáticos, biológicos, os mecanismos extra conscientes específicos mostram-se incompreensíveis, no entanto, sob o aspecto do que se há de investigar causalmente, há explicações causais para estes fatos.

Sob o aspecto da existência, Jaspers (op. cit) diz que o incompreensível é a liberdade que se apresenta na decisão incondicionada, na apreensão do sentido absoluto; como se apresenta na experiência básica, quando a partir da situação empírica, se forma a situação marginal que desperta a existência para a autonomia. Vemos com o fenomenólogo, através da psicologia compreensiva, que a iluminação existencial toca esse mais do que compreensível, toca a própria realidade na possibilidade da autonomia, recordando, alertando e revelando.

Assim, Jaspers (op. cit) pensa que o doente mental não é simples realidade empírica; mas, sim, como tudo mais quanto é real, ele se vem a fazer significativo, embora sem possibilidade de verificação, numa contemplação metafísica. O autor ainda diz que à ciência psicopatológica cabe esclarecer os fatos que iluminam a experiência metafísica. Sendo assim, consideramos que

iluminar a experiência de Yokaanam implica em reconhecermos o aspecto metafísico contido na sua experiência empírica. Ou seja, há atitudes, pensamentos, modos de funcionamento que são inexprimíveis, incognoscíveis, inexplicáveis do ponto de vista da ciência positivista, mas isto não implica dizermos que estes não fazem parte da experiência. Há que se considerar que o imanente e o transcendente fazem parte da experiência humana, mas estes só se fazem presentes na sensibilidade, na intuição e na intencionalidade da consciência daquele que está em contato com experiências humanas.

Neste sentido, o autor ressalta que não é possível compreensão psicológica sem que se pense em conteúdos (imagens, formas, símbolos, idéias); sem que se veja expressão, sem que se co-vivenciem os fenômenos vivenciados. Do mesmo modo, não se pode falar nos conteúdos sem pensar na realidade psicológica para a qual existem; não se pode contemplar a expressão sem compreendê-la em seus motivos; e quase não se pode descrever coisa alguma sem ver, de imediato, as conexões compreensíveis. Assim, Jaspers (op. cit.) nos esclarece que o procedimento do psicólogo compreensivo significa partir de uma intuição compreensiva total, que se decompõe e são esclarecidos de um lado, expressão, conteúdos, fenômenos; e de outro lado, mecanismos extra conscientes; percebendo-se a possibilidade da existência como base suscetível de investigação empírica.

Com Yokaanam, nossa percepção foi de encontro àquilo que sua experiência significou para ele, considerando-se aí os efeitos de tal significância. Vimos assim um homem que deixou um legado para a humanidade, fundou sua doutrina, prestou assistência aos doentes e necessitados. Associar estes fatos a uma doença mental acaba sendo incompatível, já que esta se presta muito mais a destruir que construir destinos bem-sucedidos como este de Yokaanam.

Na psicopatologia, o fenomenólogo nos diz que a psicologia compreensiva só tem sentido se se fizer empiricamente visível, se se apoiar em observações, preenchendo-se, constantemente, com objetividades, de um lado, e com incompreensibilidades, de outro. Assim é que essa intermediariedade entre o compreensível e incompreensível esclarece a velha indagação do que é a alma, propriamente, entre espírito e corpo. O filósofo vê o espírito como sendo os conteúdos com que a alma se relaciona e que a movimentam, enquanto o corpo é visto como sendo a respectiva existência. Neste pensamento, a alma não pode ser entregue e pensada somente através da expressão corpórea, mas como dimensão do fenômeno que é, não se encerrando em si mesma, compreensível unicamente na conexão daquilo que não se transforma em expressão.

O autor ressalta que cada compreensão é modo de apreensão, e não método que faça acessível o homem em si e no todo. Daí estar sempre em aberto à psicologia compreensiva e de seu objeto ter peculiaridades inteiramente diversas do objeto das ciências naturais. Assim ele nos diz:

[...] a verdade da compreensão reside em critérios como a evidência, a conexão, a profundidade, a riqueza, mantendo-se na esfera do possível, sempre oferecendo-se como provisória, constituindo, a cada momento simples proposta na fria temperatura do saber compreensivo; objetivando ver a multiplicidade dos fenômenos, e não a estreiteza de uma teoria que vem a ser sempre falsa. (JASPERS, Karl, 1913, p.436)

Esta postura compreensiva, a partir do pensamento de Jaspers, coaduna com seu conceito de fé filosófica, que apresentamos nas próximas linhas. Vemos que esta é atingida pela verdade da transcendência. Entre esta transcendência e a existência, Jaspers desenvolveu a noção de cifras, em que, na existência, a partir do Dasein (ser em um mundo), teríamos as cifras objectivas, e na transcendência, a partir da própria existência teríamos as cifras subjectivas. Assim, as primeiras, segundo Jaspers (op. cit.), são denominadas linguagem da transcendência. São elas: a experiência da natureza, os mitos religiosos e as especulações filosóficas. As segundas cifras surgem na existência enquanto livre: no uso da liberdade a existência experimenta-se como não absoluta, e, portanto, como busca da transcendência.

O autor diz que essa busca da transcendência continua sempre para além da linguagem humana: inexprimível, incognoscível, impensável e inexperimentável; é a transcendência absoluta para além de tudo o que se pode pensar. Neste sentido, a transcendência seria a divindade inacessível, sem contudo, ser objecto de uma religião ou de uma filosofia. Estando para além da oposição sujeito-objecto, envolve no entanto, tudo: é o englobante, o Ser absoluto, apoio e complemento de tudo o que é, sem ser, no entanto, nem criador nem providencial.

Com relação à verdade, o filósofo diz que esta é “descobrir o englobante”. Aos diferentes níveis de englobante correspondem diferentes modalidades de verdade, que todas convergem para o englobante absoluto que é a transcendência. Desde a verdade do dasein, que é pragmática e rudimentar, passando pela verdade da consciência em geral, que é cientifica e evidente, Jaspers (op. cit.) chega à verdade da existência, que é convicta, e finalmente à verdade da transcendência, que é crente porque vive na fé filosófica.

Com Jaspers (op.cit), vemos que a fé filosófica quer aclarar-se a si mesma, não pode tornar-se um saber de validez universal, pois ela se faz presente pela autoconvicção. Deve ser

clara e posta cada vez mais pela consciência. Assim, vemos que Jaspers também contribuiu muito no campo das ciências ao introduzir este conceito de fé filosófica. O fenomenólogo diz que todo filosofar é uma obra da linguagem e não pode se apoiar em algo finito, objetivo do mundo. Sua substancia é histórica, partindo da origem e não se fixa no universal.

O filósofo (op.cit) considera que o mundo não é um objeto e sim uma ideia. Tudo que conhecemos está no mundo e nunca é o mundo. Somente transcendemos quando não nos tornamos mundo, mas podemos falar do ser no mundo. Transcendemos quando o mundo não existe por si. Assim, adquirimos consciência do nosso ser quando somos existência, produzimos linguagens, instrumentos. Neste sentido, somos consciência, de modo que tudo o que é pode ser conhecido nas formas da objetividade. Também somos espírito já que vida espiritual é vida de ideias, ideias práticas de missões, tarefas para nossa realização, ideias teóricas do mundo, da alma, da vida, o que nos conduz a modos de impulsos que temos em nós, para a totalidade de sentido que tem na coisa, como método sistemático de penetração, apropriação e de realização. Vale dizer que este ser que somos não aparece como objeto, mas como esquema e figura, atuando no presente e no próprio tempo como tarefas infinitas.

Para Jaspers (op.cit), esses modos em que somos no mundo, nos manifestamos empiricamente de modo adequado como objeto da investigação das ciências, seja biológicas, psicológicas, sociológicas ou do espírito, mas com isso não esgotamos nosso ser. Temos uma essência que segundo o autor, se manifesta na insuficiência que o homem experimenta em si, pois tem uma constante inadequação a sua existência, ao seu saber e ao mundo espiritual.

Assim é que ao pensarmos na experiência religiosa de Yokaanam, e ampliando nosso horizonte, na experiência humana de todos aqueles que nos chegam, temos como premissa este exercício de se considerar estes modos de existir no mundo. Consideramos que esta postura pode ter implicações decisivas no modo de se compreender, diagnosticar, lidar e tratar os mais diversos fenômenos no campo da saúde mental.

Vemos que a fé filosófica, de que aqui estamos tratando, tem o sentido de estar presente nessas polaridades da existência, e não se contenta pela imposição do entendimento, que estaria mais num nível explicativo de se conhecer algo. Esta fé, apresentando-se como intuitiva, como consciência em geral, como espírito, convicção, é dada pelo ato de existência em que se adquire consciência da transcendência em sua realidade. Ela não está firme em um finito absolutizado, já que tem o caráter flutuante, com sensível consciência contra a superstição e contra a crença no

objeto. Este tem que permanecer em movimento e evaporar-se. Com a fé filosófica, vemos que a história não passa a ser autoridade, já que ela se presta a várias interpretações e julgamentos a partir de onde ela se compromete.

Temos então que a fé filosófica não está baseada em nenhuma revelação ou crença, apresentando-se como uma exigência natural perante os fracassos que nos revelam não ser o mundo tudo, não estar fundado em si, permitindo-nos o apelo da transcendência, um risco e uma decisão pessoal. É com esta convicção e percepção que tivemos o empenho em descrever de modo fidedigno e genuíno os fenômenos religiosos experienciados por Yokaanam, distanciando- nos dos discursos explicativos, para não incorrermos no erro de julgarmos a realidade ontológica da transcendência, como dizia Vergote (1969).

A seguir, propomos aos psicólogos, juntamente com alguns autores do campo da psicologia e senso religioso, um modo de tratar experiências religiosas no território da saúde mental, que coaduna com a perspectiva da reforma psiquiátrica e com o modo psicossocial.