Relativamente a esta dimensão da análise, adoptaremos a categorização proposta por Dionísio (2000, p.189):
Quadro 3
No que concerne à categoria Identificação, esta operação de leitura diz respeito às solicitações que exigem ao aluno uma mera localização de informação que está explícita no texto. A resposta que o aluno deve dar pode ser uma mera reprodução da informação
Operações de leitura 1. Identificação 2. Inferência 3. Síntese 4. Juízo de valor 5. Justificação 6. Mobilização 7. Classificação
solicitada, não havendo da parte do aluno qualquer tarefa de reorganização da informação textual requerida. Relativamente a esta categoria, Dionísio (2000) salienta que “os alunos podem responder com palavras que podem, inclusivamente, não compreender” (p.186). A identificação poderá ocorrer em relação a informação explicitada no texto, exigindo meramente o “reconhecimento” da mesma, mas pode também exigir do aluno a “evocação” de informação que está na sua memória. A este propósito, citando Tollefson, Sousa define “reconhecimento” como “a localização ou identificação de informação explicitamente afirmada no texto”. Quanto à “evocação”, é definida como “a que se verifica nas situações em que o texto lido não se encontra presente, exigindo que o aluno se sirva da memória para responder.” (Sousa, 1993, p.71). Assim, a operação de leitura
identificação ocorrerá em questões como:
Quando ũa noute, estando descuidados Na cortadora proa vigiando,
Ũa nuvem que os ares escurece, Sobre nossas cabecas aparece (…) “Os Lusíadas”, canto V, est. 37
(EE) - Como se anuncia na atmosfera o aparecimento do Gigante? (TP) - As estâncias 19 e 20 referem dois acontecimentos simultâneos.
Identifica-os.
19
Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando;(…)
20
Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em consílio glorioso, Sobre as cousas futuras do Oriente. (…)
A operação Inferência exige ao aluno um maior esforço interpretativo, uma vez que
exige a descoberta dos significados ocultos no texto, ou seja, com base nas informações explícitas do texto, o aluno precisa de descobrir o que não é dito, mas é passível de ser inferido. Saliente-se a importância dos “conhecimentos prévios dos alunos na descoberta dos “não ditos” do texto.Sousa (1993), citando Schank e Lebowitz, refere que “…[inferir] é tirar uma conclusão sobre o estado do mundo, que é provável, mas não necessariamente verdadeira.” (p.72) Esta operação implica uma maior envolvência por parte do aluno na descoberta dos significados do texto, levando-o a impregnar “de sentido o que só parcialmente é dado pela superfície do texto.” (Dionísio, 2000, p.186). A questão como que abaixo se indica exemplifica bem este tipo de operação.
“Estava eu parado a olhar a montra quando notei que, a meu lado, um homem baixote e gordo me fazia sinais agitados: mais algum importuno a pedir um níquel ou um dime para o café. (…)”
José Rodrigues Miguéis, «O Anel de Contrabando»,
Gente da Terceira Classe, 4.ª ed., Lisboa, Estampa, 1984
(PA2003)
“Precisa de mostrar às pessoas que merece andar com fato-macaco de duas alças. Não é serralheiro de ferro-velho, como já o Evaristo Bacalhau lhe chamou a brincar. Um navio custa mais a fazer do que uma casa e o seu barco novo há-de espantar toda a gente…”
A Síntese diz respeito às tarefas de interpretação que exigem uma análise, escolha, generalização e organização de informação. Esta operação diz respeito a questões que impliquem a análise de fragmentos textuais “superiores à palavra e/ou às frases” (Dionísio, 2000, p.187). Com efeito, a síntese distingue-se da identificação essencialmente devido à extensão do texto necessário à interpretação requerida pela pergunta formulada. Assim, considerar-se-á a existência desta operação de leitura sempre que as questões formuladas abarcarem porções textuais de extensão significativa, como se verifica na seguinte questão:
Caracteriza psicologicamente a personagem Maria da Piedade, dando conta da evolução que sofre ao longo da narrativa. (TP)
No que diz respeito à operação de leitura Juízos de Valor, esta operação ocorre sempre que se pede ao aluno que emita opiniões sobre os textos (comparando-os, apreciando-os, etc.) e relacione os textos com os seus conhecimentos e vivências pessoais. A formulação de juízos de valor enquadra-se numa perspectiva de práticas de ensino- aprendizagem da leitura que reservam ao leitor/aluno uma participação mais activa na interpretação dos textos, o que favorecerá uma maior identificação e motivação do aluno em relação a este domínio da disciplina de Língua Portuguesa. Esta operação de leitura está presente em questões semelhantes à seguinte:
- A partir das razões que levaram à morte de D. Inês de Castro, dá a tua opinião acerca da decisão tomada por D. Afonso IV. (TP)
A Justificação ocorre sempre que for solicitado ao aluno que apresente as razões
sobre as quais assenta a sua resposta, ou seja, o aluno tem de tornar explícito o raciocínio que seguiu para a formular. A justificação pode ser pedida na mesma questão em que se formula uma pergunta ou pode constituir uma questão isolada que decorra de uma pergunta imediatamente anterior. Esta situação pode constatar-se nas seguintes perguntas:
Classifica o narrador quanto à presença e à posição. Justifica a tua resposta. (TP) 4. O Onzeneiro é uma personagem tipo.
A Mobilização está associada aos conhecimentos que o aluno possui sobre a língua,
a literatura e o mundo e aos quais recorre na interpretação dos textos. Na verdade, uma vez que se procura saber quais os conhecimentos adquiridos pelos alunos, muitas das questões formuladas não incidem exclusivamente sobre o texto em análise, pressupondo a aquisição prévia de outros conhecimentos a que o aluno deverá recorrer para formular a sua resposta. É nítida a mobilização de conhecimentos em questões como:
Relembra o que aprendeste sobre o tempo.
5.1. Identifica no texto uma alteração na ordem do discurso e diz em que consiste a mesma. (TP)
- Identifica, exemplificando, os tipos de cómico presentes nesta cena. (TP)
A análise de textos serve muitas vezes de pretexto para a avaliação de conhecimentos da disciplina de Língua Portuguesa que não estejam estritamente relacionados com a leitura e a interpretação dos sentidos do texto. Na verdade, é recorrente a formulação de questões que procuram avaliar a aquisição de conhecimentos relacionados com as categorias da narrativa (narrador, espaço, personagens, tempo, etc.) sem que se pretenda estabelecer qualquer ligação entre estes conteúdos e o significado do próprio texto. Este tipo de questões corresponde a “uma forma de entender os textos apenas como repositórios de conteúdos gramaticais e como pretextos para a consecução de outros objectivos da disciplina que não especificamente os da construção de sentidos.” (Dionísio, 2000, p.189). É nesta perspectiva que surge a operação de leitura Classificação, que ocorre sempre que se pede a explicitação de conceitos ou termos textuais, como se constata na questão:
- Classifica o narrador quanto à presença e posição. (TP)
Qualquer questão que não se integre nas operações de leitura descritas será incluída na categoria Outras.
Será importante salientar que determinadas questões exigem ao aluno a realização de mais de uma operação de leitura, pois, na verdade, correspondem a duas ou mais
questões distintas. Sempre que ocorrer esta situação, as operações serão consideradas nas respectivas categorias. A título de exemplo, atente-se na seguinte questão:
- Identifica duas figuras de estilo nele presentes. Justifica tua resposta. (TP)
Pode constatar-se que a resposta a esta questão exige a Identificação de informação, a Classificação da informação textual identificada e ainda a Justificação da resposta dada.
Ao efectuarmos a identificação das operações de leitura relativamente a provas oficiais do Ministério da Educação seguiremos de perto as indicações sobre os objectivos dos itens e critérios específicos de correcção elaborados pelo GAVE.