6 Utredning av aktuelle kontraktsformer
6.3 Kravbaserte kontrakter med varierende byggherrestyring
6.3.4 Vurdering av kravbaserte kontrakter med delvis byggherrestyring
Retornemos, agora, ao processo de doutoramento de Dermeval Saviani: É importante destacar que Saviani, assim como outros professores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que haviam se inscrito para o Doutorado nesta instituição, antes do Parecer nº 77/69, 54fizeram parte de uma turma de transição e obtiveram o título de doutor pelo “regime antigo”, nos moldes das universidades europeias e com as adequações necessárias para aquele momento de transição. Tais adequações, segundo Saviani (2005a), foram regulamentadas pela Portaria nº31/71, do então reitor da PUC-SP, Bandeira de Mello
54 Saviani se inscreveu no doutorado em fevereiro de 1968. O referido Parecer foi aprovado pelo Conselho
que, entre outros objetivos, pretendia formar, dentro da referida instituição, um quadro mínimo de doutores, que permitisse a instalação de Programas de Pós-Graduação – o que era uma das exigências do Parecer nº 77/69. Os requisitos da Portaria nº31/71 eram:
a) Elaboração de um projeto orientado por um professor doutor; b) realização de cursos relacionados diretamente com o objetivo da pesquisa (mínimo de três); c) redação e defesa de tese original no campo da especificidade do candidato e do orientador (NAGAMINE, 1997, p.128-129).
Quando a Portaria nº31/71 foi baixada, Dermeval Saviani já tinha apresentado seu projeto de pesquisa, o professor Joel Martins já era seu orientador e sua tese já estava na fase da escrita. Portanto, ele precisaria apenas se adequar ao segundo requisito, e, para isso tratou de cursar três disciplinas:
[...] para atender ao segundo requisito definido no programa especial de doutorado, cursei a disciplina lógica do conhecimento científico, ministrada pelo professor Leônidas Hegenberg, o “Seminário sobre Martin Buber” e o “Seminário sobre Emanuel Mounier”, ambos coordenados pelo professor doutor Newton Aquiles Von Zuben (SAVIANI, 2005a, p. 30).
Foi assim que, no período compreendido entre fevereiro de 1968 e novembro de 1971, o jovem Saviani, fez a revisão da literatura para a elaboração de sua tese e cumpriu as exigências institucionais para a obtenção do título de doutor e isso em meio a uma jornada imensa de trabalho, que exigia a correção de atividades de seus alunos e, sobretudo, a preparação das aulas, pois, como já apontamos, Saviani preparava, para as suas aulas no Ensino Superior, os seus próprios textos. Eis como ele descreve a disciplina necessária neste momento de sua vida:
De minha parte, apesar de sobrecarregado de aulas, pois, além da universidade, era também professor em escola de nível médio da rede pública estadual, me organizei de modo a poder dedicar um mínimo de horas semanais à elaboração da tese. Assim é que, quando fiz a revisão da literatura da tese, em 1970, eu ministrava 17 aulas semanais na universidade e 26 no colégio estadual. Estava em sala de aula todas as manhãs, todas as noites e, às sextas-feiras, também às tardes. Obriguei-me, então, a dedicar pelo menos dezesseis horas semanais à tese (de segunda a quinta-feira à tarde), comprometendo-me a repor, num fim de semana ou feriado, caso algum dia isso não fosse cumprido em função, por exemplo, de alguma reunião de professores convocada para o período da tarde. Transferi, também, para os fins de semana as preparações de aulas e a correção de trabalhos dos alunos. Cumpri à risca esse programa e, na primeira semana de setembro de 1971, entreguei ao orientador o texto da tese concluída, que, após sua apreciação, foi submetida à defesa pública no dia 18 de novembro desse mesmo ano. Fui um dos primeiros, senão o primeiro dentre os orientandos do professor Joel Martins a obter o título [...] (SAVIANI, 2005a, p. 28).
A disciplina e o trabalho sistemático exigidos de Saviani neste momento em que conciliava a docência e o doutorado, pode ser considerado como um dos legados dos tempos em que estudou em seminários, como ele mesmo afirmou: “Penso ainda, que a disciplina de estudos adquirida no seminário contribuiu instrumentalmente para a valorização da educação e para o meu progresso nos estudos” (SAVIANI, entrevista concedida em 15 de maio de 2009, In: VIDAL, 2011, p. 33). Na mesma esteira, Cunha (1994a), afirma sobre o período em que Saviani elaborou sua tese e sobre o legado de ter estudado em seminário:
[...] quando ele (Saviani) trabalhou na elaboração da revisão de literatura de sua tese de doutorado, em 1970, dava 43 aulas por semana, no 2º grau e no superior. E a tese saiu a despeito disso. Difícil encontrar outra razão fora da disciplina de trabalho intelectual, inculcada em oito anos de seminário católico (modelo de instituição total), em conjunção com a vontade pessoal formada numa família camponesa em transição para o mundo urbano-industrial. Aliás, no campo educacional, encontramos alguns casos parecidos (p. 42).
Neste ínterim, a intensidade de leituras feitas por Saviani, bem como a prática docente, por certo contribuíram para ampliar sua habilidade para escrever – habilidade que só se expandiu ao longo de sua trajetória acadêmica, o que pode ser atestado pela extensa obra publicada. Ele descreve, por exemplo, que logo no início de sua carreira, quando, a partir de 1968, já ministrava as duas disciplinas da área de Filosofia da Educação no curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que eram Fundamentos Filosóficos da Educação no segundo ano de Pedagogia e Filosofia da Educação no terceiro ano de Pedagogia, ele preparou uma série de textos:
Para a cadeira de fundamentos filosóficos da educação, preparei sete textos, respectivamente sobre idealismo, vitalismo, pragmatismo, historicismo, neopositivismo, fenomenologia e existencialismo, como base para o estudo das correntes filosóficas contemporâneas e suas implicações educacionais. [...] Na cadeira de filosofia da educação, propus-me a aplicar a reflexão filosófica à problemática educativa do homem brasileiro. Para tanto, elaborei, um texto-base chamado “Análise da estrutura do homem”, a partir do qual construí nove textos denominados “Elementos para a análise do homem brasileiro” [...] o curso completava-se com um texto que denominei “Esboço de formulação de uma ideologia educacional para o Brasil”, em que abordava o problema dos objetivos e meios da educação brasileira. Com exceção de “Análise da estrutura do homem”, que foi incorporado à minha tese de doutoramento [...] todos esses textos permaneceram inéditos (SAVIANI, 2011b, p. 211,212).
Um destes textos, datado em 16 de novembro de 1969, tem uma destacada relevância esta fase da trajetória de Saviani que nomeamos como “professor-doutorando” (1967-1971). Já nos referimos a este texto, neste trabalho, como sendo a sua primeira tentativa de construção de uma teoria dialética da educação. Acerca do referido texto Saviani afirmou
em entrevista55 a Diana Vidal que o mesmo, assim, como o ocorrido no Colégio Sion na manhã do sábado 22 de outubro de 1967 e a ocupação do prédio da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo entre junho e dezembro de 1968, é algo que está entre suas lembranças mais significativas. O texto datado de 16 de novembro de 1969, elaborado no contexto em que Saviani fazia a revisão de literatura de sua tese, recebeu o título de “Esboço de formulação de uma ideologia educacional para o Brasil” – Saviani (1994), esclarece que ideologia é entendida neste texto como “orientação explícita da ação” (tal conceituação se encontra no texto “A Filosofia na formação do educador”, publicado na obra “Educação: do senso comum à consciência filosófica”). O texto de novembro de 1969 foi preparado para a conclusão da programação da disciplina Filosofia da Educação, ministrada no terceiro ano do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Saviani (1994) afirma que nesta disciplina, ele partiu:
[...] de uma análise da estrutura do homem como balizamento para tentar colocar os problemas da educação e para fazer um exame filosófico destes problemas. Essa análise da estrutura do homem se desdobrava em três âmbitos: aquilo que se chama a situação humana, a liberdade humana e a consciência humana. Na situação se analisava aquilo que a gente chamaria de os a priori da existência humana [...] a
priori existenciais e não lógicos; a priori na medida em que são as condições necessárias e indispensáveis da existência do homem (p. 276).
A discussão dos a priori da existência humana é algo que está presente na tese de Saviani defendida em 18 de novembro de 1971 – tal discussão fundamenta filosoficamente a análise sobre a capacidade do homem em sistematizar para daí ser feita uma discussão sobre sistema educacional.
Voltando ao texto datado de 16 de novembro de 1969, Saviani (1994), afirma que o mesmo teve em torno de umas 30 e poucas páginas em espaço simples e foi datilografado “num fôlego só, diretamente nas folhas de estêncil” (SAVIANI, 2011b, p.212). As cópias deste texto foram rodadas em mimeógrafo e entregues aos alunos, para que no prazo de uma semana pudessem ler o texto e proceder à discussão na aula da semana seguinte. Este texto foi escrito nesta ordem de urgência, porque Saviani preocupou-se com o fato de que seus alunos, da disciplina Filosofia da Educação do terceiro ano de Pedagogia, poderiam concluir a disciplina e terem, como resultado das análises desenvolvidas, a falsa ideia de que não existe nenhuma possibilidade de saída para a educação brasileira. É interessante notar a sistemática da produção e distribuição dos textos, além é claro da metodologia aplicada pelo jovem professor Saviani. Eis como Saviani (1994) descreve a maneira como encaminhou as
discussões na referida disciplina, a partir do quadro teórico já apontado – os a priori da existência humana:
A partir desse quadro teórico era feita a análise da educação brasileira, através de textos que fui elaborando como “elementos para a análise do homem brasileiro” [...] Esses textos eram mimeografados. Eu os datilografava com minha maquininha portátil, direto no estêncil, e aos alunos pedia que me fornecessem o estêncil em branco e eu devolvia o estêncil com o texto; eles rodavam no mimeografo, distribuíam entre si, faziam a leitura com uma semana de antecedência e, no dia da aula, trabalhava-se a partir do texto lido previamente. Eu formava grupos e colocava as questões para discussão. Percorria os grupos, verificando o andamento das discussões e a forma como os alunos estavam aprendendo e formulando os principais conceitos. Em geral, os alunos tendiam a chegar sofridamente a uma resposta, a uma solução formulada a nível do senso comum. Eu questionava as questões apresentadas, problematizava as repostas dos alunos e passava para outro grupo. Qual era o meu objetivo com esse procedimento? [...] eu entendia que era preciso refletir sobre os problemas, mas refletir não de forma superficial; era preciso ir à raiz dos problemas, ter método (p. 277).
À medida que a disciplina Filosofia da Educação foi encaminhada a partir desse nível de exigência reflexiva e se aproximava o seu encerramento, Saviani se preocupou com o fato “[...] de que os alunos se sentissem caindo em um beco sem saída” (SAVIANI 2011b, p. 212) em relação à educação brasileira e que isso “[...] poderia ter consequências negativas na formação desses alunos” (SAVIANI, 1994, p. 278). Daí a urgência, que caracterizou o texto datado de 16 de novembro de 1969 – a primeira tentativa de construção de uma teoria dialética da educação. Alguns fragmentos deste texto estão publicados em Saviani (2011b), entre as páginas 212-217. Esse texto está atualmente publicado no livro
Dermeval Saviani: pesquisador, professor e educador, integrante da Coleção “Perfis da
Educação”, da Autêntica Editora com coedição com a Editora Autores Associados de organizado de Diana Vidal (2011) . Referindo-se à urgência da produção deste texto, Saviani (1994), afirma que
Então preparei um texto, que foi feito assim, num todo, e datilografado direto no estêncil, inclusive aproveitando os intervalos de aula. Eu levava a minha maquininha e, quanto tinha uma janela (horário livre de aula) lá na escola de 2º grau [...] eu ia produzindo o texto [...]. Encerrei o texto, fiz uma observação final de advertência aos alunos e datei: São Paulo, 16 do 11 de 1969 (p. 278).
Assim é que o texto datado de 16 de novembro de 1969, “Esboço de formulação de uma ideologia educacional para o Brasil”, respondia a esta problemática de tentativa de superação da sensação de “beco sem saída” e procurava indicar uma possibilidade aos alunos, pois:
[...] configurou-se como uma primeira tentativa de construção de uma teoria dialética da educação evidenciando-se, desde esse momento, a questão da passagem da síncrese à síntese pela mediação da análise, que veio a se afirmar como um
elemento central na formulação da pedagogia histórico-crítica (SAVIANI, 2011b, p.217).
O jovem professor-doutorando Dermeval Saviani, era mais uma vez confrontado com os dilemas da educação. Como já apontando, na manhã do dia 22 de outubro de 1967, no Colégio Sion, em uma classe de normalistas, ele se viu confrontado ante ao diretivismo da Pedagogia Tradicional e o não-diretivismo da Pedagogia Nova e tomou uma atitude pedagógica dialética: cumpriu o conteúdo e atendeu aos interesses das alunas. Mais uma vez, se via diante de uma sala de aula, agora de Ensino Superior, onde a crítica à educação brasileira se fizera presente, pendendo as discussões para o crítico-reprodutivismo e a sensação de “beco sem saída” da educação brasileira. Não pretendo que esse contorno se reforçasse e, muito menos querendo dar margem para idealismos quanto ao papel da educação na correção da marginalidade, Saviani, novamente recorre à dialética, e encontra a saída para o dilema que o confrontou e escreve um texto para tratar de tal problemática, esboçando, neste momento os fundamentos da Pedagogia Histórico-Crítica.
Esses momentos, por certo, foram de grande relevância na trajetória de Saviani, pois, estava ainda no início de sua carreira docente e em pleno processo de doutoramento, sendo confrontado pelos dilemas da educação e da prática docente, que exigiam estudo, reflexão e tomada de posição – exercícios dos quais ele não se esquivou e fez questão de pôr por escrito, tornando público o exercício de sua razão – elementos que caracterizam os intelectuais.
Ainda neste contexto Saviani deu sua contribuição no processo de implantação do Ciclo Básico de Ciências Humanas e Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o que mais uma vez indica sua parceria com o professor Casemiro dos Reis Filho, participando da disciplina “Introdução à Educação”, para a qual elaborou os textos “Dimensão filosófica da educação”, “Valores e objetivos na educação” e “Para uma pedagogia coerente e eficaz”. A participação nesta disciplina e a elaboração destes textos, datam de 1971 – foi exatamente, neste ano, no dia 18 de novembro que Dermeval Saviani defendeu sua tese de doutoramento (SAVIANI, 1992).
3.3 A tese de doutorado de Saviani: do tema proposto à elaboração do conceito de