A partir do final do século XIX e princípios do século XX, uma nova tendência formal dominou o cenário mundial, sobretudo na Europa e nas Américas: a art
nouveau. Em Portugal e no Brasil, ficou conhecido como Arte Nova; na Itália era
denominado Stile Floreale ou Liberty; na França, Art Nouveau; na Espanha,
Modernismo catalão; na Inglaterra, Flower Art ou Modern Style; e na Alemanha esta
vertente foi intitulada como Junqendstil. Este novo “conceito estilístico” foi predominatemente ornamental, inspirado especialmente na flora – elementos fitomorfos. Os movimentos dos ornamentos, das esculturas, dos esgrafitos murais das fachadas eram orgânicos, sinuosos, porém simétricos na sua representação. Não se identificam referências historicistas e a presença do motivo floral foi, portanto, sua principal característica. 41
As cidades que mais se destacaram por sua produção artística neste período foram Paris, Nancy e Bruxelas. Obviamente, toda a Europa e, posteriormente, as Américas absorveram este novo estilo. A “Belle Epoque” foi ainda muito divulgada por artistas e arquitetos no Reino Unido como Charles Rennie Mackintosh e William Morris.
Glasgow pode ser considerada como um museu aberto da arte nova onde observamos a presença de elementos deste movimento artístico espalhado pelos diversos edifícios que compõem a malha e a paisagem urbana da cidade. Ressaltamos a Igreja Queen’s Cross, a Escola de Arte de Glasgow42, residências como Hill House ou Windyhill, a Casa de Chá The Willow Tea Rooms, a galeria de arte Hunterian e principalmente a residência do próprio Rennie Mackintosh, atualmente transformado em museu. O gesso foi muito difundido na construção dos painéis decorativos em relevo que embelezam a maioria dos ambientes internos destas construções, geralmente criados pelas irmãs Frances Macdonald MacNair e Margaret Macdonald Mackintosh, esta última, esposa do renomado arquiteto. Alguns destes relevos em gesso policromado com incrustações de pedras ou pequenos fragmentos de vidro ou metal estão expostos no Museu Kelvingrove Art Gallery and Museum, na sala dedicada à história, criação e construção da arte nova na cidade a partir do final do século XIX onde podemos apreciar um conjunto de móveis, telas, projetos, objetos e painéis (FIGURA 20).
FIGURA 20: Paineis decorativos em alto relevo em gesso policromado elaborados pelas irmãs Frances Macdonald MacNair e Margaret Macdonald Mackintosh, Glasgow, IReino Unido.
a) Detalhe do painel The story of willowwood - Kelvingrove Art Gallery and Museum.
b) Painel em gesso e incrustacoes – Residência Charles Rennie e Margaret Macdonald Mackintosh.
c) Painel sem policromia, placas decorativas em alto relevo em gesso, The Willow Tea Rooms.
d) Projeto para painel decorativo – Buchanan Street Tearooms, 1896-1897.
Reprodução fotográfica por Alexandre Mascarenhas, 2012 do acervo Kelvingrove Art Gallery and Museum.
42 A Escola de Arte de Glasgow (The Glasgow Scholl os Art) possui uma coleção de moldagens de
gesso Greco-romanos, etruscos e medievais. Vale ressaltar a cópia da Vitoria de Samotracia na oficina de esculturas.
Na Bélgica, em Bruxelas, destacamos as inúmeras edificações projedas dentro do contexto da arte nova e, sobretudo da arte déco43. Entre os arquitetos que criaram um vasto grupo de obras, que atualmente fazem parte de circuitos de visitação turística ou para especialistas da área, mencionamos Henri Jacobs, Maurice Delcuve, Édouard Parys, Fernand Symons, Victor Horta e Paul Cauchie. A inspiração proveniente dos trabalhos dos Mackintosh e do pintor austríaco Gustav Klimt é facilmente percebida nos pormenores que compõem os elementos decorativos em gesso, ferro e madeira - mobiliário, portas e janelas, escadarias, maçanetas, painéis - destas construções, tombadas e consideradas patrimônio nacional. A maioria dos edifícios recebia em suas fachadas a ornamentação realizada por meio da técnica do esgrafiado, denominada em italiano como sgrafito. Essa técnica decorativa é executada por meio da sobreposição de argamassas pigmentadas em cal e gesso ou somente em gesso (ambientes internos), seguido da remoção, incisão ou raspagem parcial da ultima camada de acabamento criando painéis em relevo policromado, valorizados pelo jogo de texturas e cores. Os arquitetos da época contavam com a colaboração dos artistas do gesso – do sgrafito – tais como Privat Livemont, Henri Baes e Adolphe Crespin. A ornamentação mesclava elementos do reino vegetal, motivos zoomorfos, geralmente pássaros e faces e corpos de mulheres com longos cabelos e silhuetas esguias.
Victor Horta se consagrou como o maior representante da arte nova em Bruxelas, principalmente após o período em que viveu em Paris e quando finalizou seu curso na Academia de Belas Artes de Bruxelas com especialização em arquitetura. Horta se associa a aum grupo de burgueses e esta aproximação contribuiu para um vasto número de encomendas pela sociedade da classe alta local. Ressaltamos os projetos das residências Autrique e Aubeq, os hotéis Tassel e Solvay et Van Eetvelde, o centro comercial Magasins Waucquiez e seu próprio ateliê-residência, atualmente transformado e conhecido como Maison Horta. Horta elaborava praticamente todos os detalhes para seus projetos; desenhava e detalhava em pranchas, desenhos e aquarelas as portas, janelas, corrimãos das escadarias, degraus, mobiliário, vitrais,
43 A arte déco surge a partir dos anos 1920 e foi caracterizada pela redução da ornamentação que
apresentava linhas retas, criando frisos, molduras, cimalhas e cornijas além de elementos ornamentais geométricos e estilizados da padronagem vegetal. (MASCARENHAS, 2008, p41)
estruturas e decorações complexas em ferro forjado. Para seu ateliê-residencia, chegou a criar as maçanetas de cada porta e para isto desenvolveu moldes em gesso para servirem para a reprodução e fundição das peças (FIGURA 21). Estes moldes estão expostos em vitrines no porão do museu.
FIGURA 21: Maison Horta – Bruxelas, Bélgica
a) Maçaneta em ferro original da porta interna.
b) Moldes em gesso de maçanetas e outras ferragens. c) Molde de ornamentação de fachada.
Fotos: Alexandre Mascarenhas.
Outro expoente deste estilo em Bruxelas foi o arquiteto e decorador Paul Cauchie. Entre as dezenas de residências que idealizou e executou, apresentamos aquela que foi considerada sua obra maestra: o projeto de sua própria casa. Esta edificação, erguida a partir de 1905, apresenta todo o conjunto de elementos que representam a arte nova. A estética, a simetria, a verticalidade e a geometria estão presentes na sensualidade dos esgrafiados da fachada principal, no mobiliário interno das salas, quartos, hall e corredores, nos vitrais internos, nas aberturas de ventilação de ar e na própria composição e distribuição dos espaços em si. A residência está composta por três níveis e na década de 1970 quase foi demolida. Recentemente sofreu uma intervenção complexa e integral de conservação e restauração, principalmente os esgrafiados externos e internos. A ornamentação externa está contida no eixo central da fachada frontal representada por um grupo de figuras femininas esbeltas e esguias com cabelos compridos e pigmentados nos tons amarelo, ocre, ouro, marrom e branco. Os painéis internos apresentam inspiração japonesa e decoram a sala de estar (FIGURA 22).
FIGURA 22: Maison Cauchie – mobiliário e esgrafiados em relevo policromados em gesso, Bruxelas.
Fotos: Alexandre Mascarenhas, 2012.
Ainda neste período uma grande quantidade de artistas e escultores utilizaram o gesso e a terracota (barro cozido) para a modelagem de suas esculturas, entre estes apontamos os franceses Jean-Baptiste Carpeaux, Aimé-Jules Dalou, Jules Coutan, François Auguste Réne Rodin, Antoine Bourdelle e François Pompom. Encontramos estes modelos reduzidos expostos em instituições museológicas dispersas por toda a Europa como o Museu Britânico, Museu D’ Orsay, Museu Rodin, Casa-ateliê-museu Antoine Bourdelle, Museu Guimet, Museu do Louvre, Museu da Cidade de Dijon entre outros (FIGURA 23). O preconceito de expor modelos em gesso, em terracota ou em cera em uma mesma sala onde estão instaladas obras escultóricas originais em mármore ou madeira entalhada vem sendo dissipado nas últimas décadas do século XX, em razão da importância destes elementos em seu contexto processual dentro de uma oficina.
Países como Brasil, Uruguai e Argentina receberam grande influência e produziram uma variedade de projetos arquitetônicos e decorativos comerciais e residenciais que predominaram durante as primeiras décadas do século XX nos ambientes freqüentados pelas elites, apresentando valor de status social, político,
intelectual e econômico para estas sociedades. Muitas obras escultóricas, elementos decorativos em ferro forjado ou estruturas de metal art nouveau foram encomendados na Europa para adornar espaços internos de residências, jardins e ruas das cidades.
FIGURA 23: Gessos de Rodin (1880)
a) Modelo de gesso de Jean-Baptiste Carpeaux exposto no Museu D’ Orsay, Paris
b) Modelo em terracota do Monumento a Jean-Charles Alphand (32 X 55 X 31 cm) exposto no Petit Palais – Museu
des Beaux Arts de Paris, França.
c) Modelo em gesso, tamanho natural, de 1893 de Jules Coutan em exposição no Museu D’ Orsay em Paris. Modelo
que serviu como base para a fundição da peça em bronze em 1901 exposta no Museu de Historia Natural, França.
d) Modelo de conjunto e moldagem de cabeça em gesso de Auguste Rodin expostos no Museu Rodin, Paris. e) Modelo de figura feminina em gesso (41 X 15 cm) exposto no Museu François Pompom em Salieu, França. Fonte: FIGUEIREDO, 1992, p.158 | SIMIER, 2010, p.29; Foto: Alexandre Mascarenhas, 2012; FIGUEIREDO, 1992, p.240 | : DUBY & DAVAL, Vol. 2, p. 926; Dossier de L’Art nº19, 1994, p.12.
1.2. SURGIMENTO DE OUTROS MUSEUS E COLEÇÕES DE GESSO NA