2. Teori
2.1 Læringsteorier
2.1.1 Konstruktivistisk læringsteori
2.1.1.3 Von Glasersfeld og radikal konstruktivisme
Marcas de Referência Geram Maiores Audiências mas Menores Receitas
A crise do jornalismo no século XXI não é uma crise de audiências. É uma crise de sustentabilidade financeira.
Estudos desenvolvidos pela Escola de Jornalismo da Universidade da Carolina do Sul assinalam a longevidade das marcas jornalísticas de referência:
“Mesmo no universo dos novos media, os cidadãos tendem a confiar num número muito limitado de fontes, apresentadas por um número igualmente muito limitado de sítios de
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meios tradicionais (...) Os suspeitos do costume: New York Times68, Associated Press,
BBC, Reuters (...) Na prática, mesmo no século XXI, procuramos a autoridade em que podemos confiar, ainda que o universo da escolha se expanda diariamente” (Kovach e Rosenstiel, 2010: 152).
Na análise que fazem do jornalismo americano, Leonard Downie Jr. e Michael Schudson chegam à mesma conclusão:
“As marcas continuam a ter importância na Internet (...) os sites com maior tráfego estão associados às marcas de confiança que separam os factos da ficção (...) Por exemplo, a
Wikipedia, a enciclopédia da Internet escrita e editada pelos utilizadores, começou a restringir os seus critérios de edição quando alguns utilizadores começaram a postar informações falsas (...) Muitas das entradas estão agora pejadas de notas de rodapé a sugerirem verificações e a remeterem para sites de marcas de confiança” (2009: 55).
Charlie Beckett, mesmo reconhecendo aos blogs a possibilidade de, em determinadas situações, assumirem a função de watchdog dos jornalistas, admite que confia mais nas notícias dos meios tradicionais: “Eu vou à Reuters em vez de ir ao Little
Green Footballs69 para consultar notícias" (2008: 63).
Num tempo em que a tecnologia facilita o acesso a uma rede povoada de mensagens, o grau de confiança das marcas tradicionais impõe-se, sobretudo porque a produção de conteúdos jornalísticos originais não constitui matriz das novas vozes: "A maioria dos blogs” americanos, associados à emissão de notícias, vão buscá-las a “sítios de jornais ou a outros dedicados exclusivamente à reportagem” (Gitlin, 2011: 96).
Um estudo do Instituto Nielsen NetRatings feito em 2010 a duas centenas de sítios de informação, com origem nos Estados Unidos da América, prova que 67 por cento do tráfego é gerado pelos meios de comunicação tradicionais. Os restantes 33 por cento representam tráfego associado a agregadores de conteúdos, onde a maioria das fontes agregadas tem origem nos meios tradicionais. O estudo deteta ainda a troca de conteúdos informativos gerada nos blogs e redes sociais e conclui que 80 por cento dessa interação provém, igualmente, dos meios tradicionais (apud Ramonet, 2011: 14, 134).
A fiabilidade das marcas tradicionais não parece, por isso, ameaçada, como também não estão ameaçadas as audiências geradas pelos conteúdos produzidos por essas marcas; essa confiança serve pouco ao futuro do jornalismo de qualidade:
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O New York Times tira por dia 950 mil exemplares, mas é lido por 43,7 milhões de internautas (Ramonet, 2011: 14).
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O Little Green Football (LGF) é um “blog de direita com algumas obsessões politicas”. Ainda assim, apesar de
encaixar na linha editorial do sítio, em 2006 o LGF provou que a fotografia da autoria de um fotógrafo freelancer, denunciando um bombardeamento israelita sobre Beirute, durante o conflito com o Hezbolah, era, afinal, falsa (Beckett, 2008: 63).
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“A circulação de notícias originalmente produzidas pelos jornais (…) não contribuiu para manter postos de trabalho e de nada serve para garantir a viabilidade económica da imprensa de referência”. (Gitlin, 2011: 96 e 97).
Neste contexto, Ignacio Ramonet conclui que “o modelo económico clássico (do jornalismo) está a desintegrar-se” (2011: 11-12). O autor não resolve, todavia, o problema da sustentabilidade do jornalismo de referência, provocado por essa desintegração, antes recorre a uma alegoria para caracterizar o seu novo estado: "está na mesma situação de Gulliver quando chegou à ilha dos liliputianos, transportado por milhares de seres minúsculos” (2011: 22). O que essa miríade de sítios online transporta é, afinal, o jornalismo produzido pelos órgãos de comunicação social de referência.
Um estudo, publicado em 2007 pela World Association of Newspapers, dirigido aos hábitos de leitura dos mais jovens, vem reforçar o estatuto dos meios tradicionais. Apesar de, crescentemente, os mais jovens se dissociarem do contacto com esses meios, uma vez que acedem à informação, sobretudo, online, o grau de confiança da “geração das redes sociais” relativamente aos meios tradicionais é maior do que o que revelam pelos novos (apud Beckett, 2008: 72).
Nos Estados Unidos da América e nesta faixa etária, o jornal ocupa a última posição no ranking dos meios informativos70, mas este facto traz associado uma “injusta ironia”:
"Quando um jovem leitor navega na rede em busca de informação política, normalmente termina a navegação num agregador de conteúdos jornalísticos, que, originalmente, foram produzidos por jornais em papel, sem que tal contribua para salvar empregos ou aumentar as receitas das empresas proprietárias desses jornais” (Alterman, 2011: 5).
A Internet não veio roubar espaço aos meios tradicionais, antes o ampliou, mesmo num cenário em que a oferta se diversificou de forma explosiva:
"Quando somamos os números das velhas e das novas plataformas muitos meios tradicionais assistem ao crescimento das suas audiências. A crise criada na indústria das notícias pela tecnologia tem mais a ver com a receita” (Kovach e Rosenstiel, 2010: 23).
De facto, a distribuição de conteúdos grátis numa plataforma de potencial ilimitado, embora desaproveitado e revelando dificuldade em gerar receitas, teve como consequência imediata o reforço da fragilidade financeira dos jornais tradicionais.
70 De acordo com o estudo “Abandoning the News”, editado pela Carnegie Corporation, 39 por cento dos inquiridos
com menos de 35 anos utilizam a Internet para aceder a notícias, contra 8 por cento que afirmam confiar nos jornais (in Alterman, 2011: 5).
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Não diminuiu, portanto, o número de leitores; não diminuiu o número de ouvintes; não diminuiu o número de espectadores. A drástica diminuição das receitas está a inviabilizar a sustentação dos meios clássicos; e as plataformas digitais, associadas a esses meios clássicos, não geram encaixes financeiros passíveis de suportar os custos do jornalismo de qualidade: “Uma coisa é clara, seja qual for a leitura na Internet, ela não é rentável” (2011: 95). "Este meio, celebrado em todo o mundo como o futuro do momento, sabe fazer de tudo menos ganhar dinheiro" (Di Lorenzo, El País, 31 de outubro de 2010).
A Internet afastou os anúncios das notícias (Kovach e Rosenstiel, 2010: 7), porque os jornais deixaram de ser intermediários do mercado; os anunciantes passaram a chegar diretamente aos consumidores, cada vez mais em processo de migração do papel para o ambiente digital, onde podem ler notícias sem pagar (Starr, 2009: 4).
A crise dos meios informativos, que é, sobretudo, uma crise da qualidade do jornalismo por eles praticado, resume-se, afinal, a esta simples constatação: é uma crise de sustentabilidade. O digital teve, pois, especiais reflexos na dinâmica capitalista que servia de base ao jornalismo:
"O que foi o capitalismo jornalístico típico do século XX, estribado na venda de jornais, conquista de audiências e publicidade, está a ser submetido às contradições vindas das ondas de choque da emergente economia do conhecimento e do capitalismo informacional/digital" (Garcia, 2009: 29).
Menores Receitas, Menor Qualidade
Do jornalismo de qualidade, suportado por receitas publicitárias, vai resistindo apenasum eco, cada vez mais distante:
“O abundante investimento publicitário, durante as rentáveis décadas do século passado, deu aos tradicionalmente grandes grupos de jornalistas de muitos jornais urbanos uma oportunidade para, de forma significativa, melhorarem a quantidade e a qualidade das suas reportagens” (Starr, 2009: 6).
O problema do jornalismo atual reside, pois, na difícil identificação das marcas da qualidade no jornalismo. Os novos media informativos não estão a conseguir preencher o vazio jornalístico criado pela crise financeira que afeta os meios tradicionais (McChesney e Nichols, 2011: 104). Os resultados de um estudo feito em 2009 pelo Pew Reserch Center ao mapa mediático de Baltimore demonstram isso mesmo:
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“A maioria das notícias disponibilizadas na rede não contém reportagem original. Oito em cada dez histórias publicadas apenas repetem ou agregam informação anteriormente publicada (...) Noventa e cinco por cento da informação original foi gerada pelos media tradicionais” (apud idem, ibidem).
A encruzilhada do jornalismo parece, assim, difícil de quebrar: os meios tradicionais, cada vez mais aprisionados pelas limitações impostas pelo mercado, estão a perder a capacidade de gerar histórias originais independentes; os novos meios agregam conteúdos produzidos pelos meios tradicionais. Como consequência, as receitas dos meios tradicionais descem, ao mesmo tempo que os novos meios não encontraram ainda forma de se tornarem rentáveis. Entre uns e outros parece subsistir uma linha divisória intransponível. A nova arquitetura dos meios deveria suscitar entrecruzamentos entre as diversas plataformas. Se a plataforma digital distribui conteúdos jornalísticos produzidos pelas plataformas clássicas, se através dessa distribuição as plataformas clássicas reforçam o contacto com públicos dispersos, e os conteúdos produzidos geram processos comunicacionais que, sem essa distribuição, ao mesmo tempo planetária e específica (dirigida a públicos singulares), não seriam gerados, é porque uns e outros se complementam. Ora, é nessa complementaridade simbólica que devemos buscar o futuro do jornalismo. Ultrapassar as barreiras entre plataformas é, desde logo, o maior problema. Quando a complementaridade for, claramente, assumida deixará de haver razão para que a distribuição online, que expande audiências, não contribua para a sustentabilidade do jornalismo. Ainda que as receitas geradas pela Internet sejam, como vimos, limitadas, háagregadores e motores de busca que, cada vez mais, contrariam essa limitação associada à nova plataforma. Ao longo deste capítulo analisaremos outras possibilidades de tornar rentável a plataforma de destino dos consumidores de notícias.
Peter Anderson apresenta-nos a legenda explicativa dos reais efeitos da tecnologia na qualidade do jornalismo que ameaça complexificar, ainda mais, a equação do problema. A fragmentação da audiência, potenciada pelos novos meios, acentua a dificuldade de recuperação do setor comercial: “audiências limitadas significam, por definição, recursos limitados para a produção de um jornalismo de qualidade” (2007: 56).
Charlie Beckett e Todd Gitlin apontam para as consequências da quebra de receitas na qualidade do jornalismo. Beckett, aprisionado pelos novos meios, alerta-nos para o “abandono do jornalismo” e, no caso britânico, destaca a aposta nas reportagens sociais nos jornais, como forma de agregar audiências dispersas (2008: 27). Já Todd
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Gitlin fixa-se na dependência que os meios digitais continuam a demonstrar, relativamente aos tradicionais:
“Nem sequer os inúmeros sítios online propriedade de organizações não lucrativas, suportadas por fundações de interesse público, conseguem suportar os custos de enviar um repórter, quando estão em causa deslocações que impliquem viagens aéreas” (2011: 97).
Surpreendentemente, no tempo em que a cobertura do mundo é concretizada por uma multiplicidade de vozes, que se instalam em todos os lugares, mesmo nos mais recônditos, alarga-se a dimensão dos buracos da rede jornalística, no sentido em que nos falava Gaye Tuchman (1972: 170). Como não geram receitas, “os novos media não estão ainda preparados para, diariamente, cobrirem os temas sociais, culturais, políticos nas cidades, nos estados, nas nações” (Simon, 2011: 50). Nesta ótica, a democracia e o reforço da cidadania são especialmente afetados pela fragilidade que reveste o jornalismo produzido especificamente para os meios digitais:
"Não tem demonstrado (...) capacidade ou interesse em fazer o tipo de investimentos vultosos em atividades de investigação e análise que fazem os meios de comunicação social convencionais, especialmente os jornais, e que são indispensáveis à democracia"
(Schudson, 2008: 37).
A salvaguarda da autonomia financeira do jornalismo independente acaba por ficar nas mãos de um conjunto cada vez menos representativo de cidadãos, osque compram jornais em papel:
“É uma injustiça quando obrigamos o leitor do jornal em papel, que o compra diariamente, a subvencionar o leitor online, que lê o mesmo jornal na edição digital, mais rica e mais variada” (Ramonet, 2011: 107).
Mesmo que as receitas publicitárias na Internet já estejam a crescer, como aliás constata Ignacio Ramonet, é o próprio autor que conclui que esse aumento está ainda longe de compensar, sequer, os investimentos que os empresários fizeram na web (idem,
ibidem: 109).
Clay Shirky observa que o lastro da Internet está a deixar uma espécie de vazio, onde a simples reformulação do modelo anterior, de facto, não funciona. “Nada funciona”. No caso especifico dos jornais, Shirky considera não existir um modelo geral que substitua aquele que a Internet destruiu: “Com a velha economia destruída, as velhas formas organizacionais associadas à produção industrial têm de ser substituídas por outras, adaptadas ao digital” (2011: 40).
A chave do jornalismo de qualidade na era digital reside agora na descodificação plena desse processo de adaptação. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, vão
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despontando sinais positivos que poderão forçar a releitura do presente numa perspetiva mais otimista. Estaremos atentos a esses sinais no final deste capítulo.
A consciência de que a receita para a manutenção do jornalismo de qualidade na era digital é uma missão complexa impõe um maior envolvimento de todos os agentes - profissionais, empresários, cidadãos , mas também da universidade.
Como detalharemos à frente, as opções são diversas: a intervenção do Estado, através de apoios diretos ou indiretos; o financiamento de fundações sem fins lucrativos, ou através de outros apoios filantrópicos; o envolvimento de jornalistas
freelance,organizados em pequenos núcleos produtores de notícias; a promoção do
autoemprego, como forma de combate direto à precariedade e à falta de oportunidades, sobretudo junto dos jovens aspirantes a jornalistas; o maior envolvimento dos jornalistas com a comunidade; a aposta em projetos locais ou mesmo híper locais, nas comunidades de maior dimensão; uma maior atenção à investigação jornalística; o reforço de parcerias entre meios tradicionais e novos; a assunção, pelas empresas, de um maior grau de responsabilidade na investigação de novas soluções, etc. O processo de reconstrução do jornalismo parece estar em marcha, e a universidade deve assumir o papel que lhe está destinado: laboratório onde as experiências devem ser testadas e discutidas. A este propósito cremos que uma das linhas programáticas mais complexas e a requerer maior envolvimento da academia é, exatamente, a integração da componente digital nos planos de estudo. O impacto que a nova plataforma cria no jornalismo determina a sua integração transversal nos programas, evitando criar unidades curriculares tecnológicas autónomas ou mesmo áreas específicas de jornalismo digital, como se o novo meio impusesse a existência de um jornalismo esvaziado da essência.
A Identidade da Internet
A questão do financiamento do jornalismo na era da Internet surge, então, como uma marca que se sobrepõe na análise do presente do jornalismo.
Sem a imposição dos efeitos das quebras que a Internet veio provocar no financiamento do jornalismo, os meios de informação clássicos acabariam por reencontrar o seu lugar no mapa dos meios, sobrevivendo à Internet. Importa, porém, salientar que o advento da Internet está a provocar alterações profundas na lógica de funcionamento dos meios clássicos e, consequentemente, no próprio jornalismo. Aliás, ao ampliar o potencial de interação comunicativa (criando "novas possibilidades
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linguísticas” – “hipertextualidade, multimedialidade e interatividade" (Salaverría, 2006: 131)), a Internet acaba por ter reflexos na sociedade como um todo:
“Mais do que um protocolo informativo, a Internet transformou-se num espaço social e cultural que permite estabelecer a comunicação entre distintos tipos de rede. Constitui a base material da vida e das formas de relação com a produção, o trabalho, a educação, a
política, a ciência, a informação e a comunicação” (Del Bianco, 2004: 4).
A rede é, assim, um lugar onde a acessibilidade da técnica facilita a interação comunicativa e o que dela resulta:
“Maior simplicidade, uma vez que não requer uma concessão administrativa, o menor custo, a ausência de fronteiras e a existência de um mercado amplo e com potencial de crescimento” (Damas, 2006: 86).
Stig Hjarvard valoriza as mesmas características realçando que o alcance global deixa de ser um problema técnico, o contacto global é instantâneo. As fronteiras diluem- se, diminuindo, de forma acentuada, os custos habitualmente associados à transnacionalização de base tecnológica a partir da televisão, por exemplo (distribuição via satélite). O acesso quase ilimitado a um número indeterminado de informações situa, igualmente, a escolha do consumidor "mais no patamar do conhecimento do que no patamar da tecnologia ou dos custos de distribuição”, o que transforma o problema do alcance global numa questão de linguagem e de conteúdo (2009: 682 e 683). O acesso do consumidor aos conteúdos, que integram a sua lista de prioridades, passa a depender também dele próprio e da sua capacidade para descodificar (ultrapassando as barreiras linguísticas e do conhecimento) os conteúdos a que deseja aceder.
Stig Hjarvard reconhece, porém, que esse acesso instantâneo a qualquer informação publicada na rede é, ainda, assimetricamente desigual, quer geográfica quer socialmente. Ainda que numa escala diferente, sobrepõe-se, de novo, a limitação tecnológica e a incapacidade financeira de alguns países para a suprirem.
Como constata Ignacio Ramonet, a “revolução” posta em marcha pela Internet não é uma revolução universal:
“Não podemos esquecer que o mundo é profundamente assimétrico, existindo um fosso digital acentuado entre os países do norte e os do sul, um fosso que separa ricos e pobres,
info-ricos e info-pobres”71 (2011: 12).
Ainda assim, a constatação de Ramonet não terá as proporções que, em 1996, Manuel Castells antecipou. O pensador espanhol acentuava, então, que esse desequilíbrio norte-sul - entre info-ricos e info-pobres – ameaçava traduzir-se na criação
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Ignacio Ramonet cita um estudo da União Internacional das Telecomunicações (UIT) segundo o qual o acesso à Internet em 2010 ainda esteve vedado a dois em cada três habitantes do planeta (2011: 139).
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perene de “buracos negros da miséria humana na economia global”: as massas iletradas dos países pobres que haveriam de permanecer “territórios irrelevantes” (1996: 2, 358, 360). Ultrapassada a euforia da explosão da rede, e da disseminação do acesso, será possível concluir que a própria economia global limitou a dimensão dos buracos
negros. Os tentáculos da rede absorvem parcelas de consumidores que, há uma década e
meia, não seria possível incluir no mapeamento. O alargamento do mercado do consumo a territórios que em 1996 teriam de permanecer excluídos (China rural, regimes ditatoriais do Médio Oriente e Norte de África) está a contribuir para romper o cerco dessas realidades política e socialmente fechadas.
Mesmo subsistindo territórios não cobertos, o acesso à informação está hoje muito mais facilitado à escala global. Novos e velhos media podem usufruir dessa facilidade de distribuição de conteúdos, possibilitada pelos avanços tecnológicos registados.
A distribuição hertziana dos sinais televisivo e radiofónico ficará obsoleta no curto prazo:
“Na era digital, a ideia de que os governos despenderão recursos a silenciar emissões
pirata é um absurdo (…) Hoje é possível lançar um sítio na rede com alguns clicks no rato do computador (...) Os obstáculos criados ao lançamento e crescimento (de um projeto na rede) são hoje muito mais reduzidos” (Beckett,2008: 48).
Essa facilidade de base tecnológica não é condição determinante de sucesso. No final do século passado, a chamada bolha da Internet rebentou, exatamente pelas falsas ilusões criadas nesse capítulo:
“O estouro da bolha Internetascendeu ao posto de divisor de águas entre a euforia de um novo media (...) e a realidade de que o processo de absorção e implementação de novas tecnologias é muito mais profundo do que a injeção de capital e aquisição de equipamentos” (Corrêa, 2006: 50).