2. Teori
2.2 Språk og kommunikasjon i matematikkundervisningen
No século XX, os meios de comunicação social tradicionais promoveram a receita da unidirecionalidade. Um público maioritariamente passivo sujeitava-se a desempenhar com rigor o papel de mero recetor. Como assinala James Carey“construímos um jornalismo que assume servir o público, mas onde o público não desempenha qualquer papel, é apenas uma audiência” (1997: 247). Os destinatários do jornalismo, de facto, existem, mas são esse corpo sem rosto de que falava Adriano Duarte Rodrigues (s.d.: 36) ou a "entidade abstrata", na interpretação de Bill Kovach e Tom Rosenstiel (2007: 23). Nesta lógica, o jornalismo, querendo chegar a todos, não chega verdadeiramente a ninguém.
As cartas ao diretor nos jornais eram publicadas por decisão unilateral dos periódicos; as reclamações, os protestos, as críticas construtivas quando chegavam às caixas de correio das rádios e das televisões seguiam diretas para o arquivo morto; raras vezes essas sugestões eram tidas em conta em próximas emissões. Os leitores, os ouvintes e os espectadores que escreviam, faziam-no apesar do pressentido silêncio que tais missivas haveriam de despertar junto dos responsáveis dos diversos órgãos de comunicação social. Existia, pois, um grupo restrito que não se rendia à passividade que lhe era imposta. Para esses, a uniderecionalidade era insustentável.
Dan Gillmor, um dos primeiros jornalistas-académicos a estudar os efeitos da Internet no Jornalismo, antecipou, em 2004, o que julgava ser o futuro (ou o fim) do jornalismo: "A violenta colisão da tecnologia com o jornalismo (...) é a maior
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oportunidade, em muitas décadas, para conseguirmos fazer um jornalismo melhor” (2004: XII, 111).
Gillmor aplaude, sem reservas, o primado da tecnologia, assumindo que ela nos dotou com um “instrumento de comunicação" que permite, a cada um de nós, "tornar-se jornalista sem custos financeiros associados e com capacidade de cobrirmos o mundo inteiro”, de uma forma que “nunca antes fora remotamente possível” (idem, ibidem: XII).
Ao mesmo tempo que enaltece os novos meios, criados a partir da Internet, Gillmor ataca sem freio os clássicos, assinalando que a implosão da unidirecionalidade, proporcionada pela tecnologia, implodiu, igualmente, a “arrogância” dos meios de comunicação social tradicionais para quem as notícias "eram uma lição”. A decisão sobre a seleção das notícias pertencia-lhes inteiramente. Com o advento da Internet, na ótica do autor, o cenário começa a mudar de forma quase imediata:
“A reportagem e a produção jornalística tendem a ser cada vez mais uma conversa ou um seminário. As linhas de separação entre produtores e consumidores desaparecerão e os papéis, que ambos representam, sofrerão mudanças” (idem, ibidem: XIII).
O pensamento de Dan Gillmor está, de alguma forma, aprisionado pelos efeitos da tecnologia e à forma como esta se impôs ao jornalismo. Nessa associação, o autor apenas consegue antever momentos de glória para o jornalismo, se a cartilha da interatividade de base tecnológica for convenientemente aplicada. As teses de Gillmor, que criaram uma legião de seguidores na academia e no mercado, serão aprofundadas ao longo deste capítulo, numa tentativa de reposicionamento da tecnologia no lugar de instrumento, ou seja, esvaziando o balão insuflado onde os evangelistas da Internet pretenderam colocá-la.
Gillmor parece detetar o âmago da questão quando destaca o potencial interativo dos novos meios, sobretudo quando, a partir desse potencial, outros agentes podem participar no processo de produção da notícia, mas ameaça afastar-se do centro do problema quando não classifica, claramente, a relevância e os efeitos dos conteúdos jornalísticos gerados pelos repórteres cidadãos, a base social indiferenciada da pirâmide. Ao atribuir a jornalistas profissionais e amadores o mesmo estatuto, ou mesmo admitindo a secundarização dos primeiros face aos segundos (idem, ibidem: XIV),percecionando que a “fácil coexistência” entre ambos, acabará, “rapidamente”, por se “tornar natural” (idem, ibidem: 129), Gillmor enaltece, de novo, o papel da tecnologia e, como consequência, torna irrelevante a técnica profissional
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(competências), a ética, os compromissos deontológicos, ou seja, as marcas distintivas do jornalista.
A maior contradição de Dan Gillmor reside, pois, na tentativa que o autor ensaia em manter vivos os princípios do jornalismo, apesar de incluir no processo produtivo uma multiplicidade de vozes e de interesses, a que atribui, como referimos, estatuto idêntico ao do jornalista profissional: “os nossos valores de base, incluindo a precisão e a imparcialidade continuarão a ser importantes” (idem, ibidem: XIV).
Rosental Alves (2006) e Charlie Beckett (2008), expondo um rumo de análise muito próximo do de Dan Gillmor, ao enaltecerem essa equiparação de papéis entre jornalista e público, acabam por incorrer na mesma contradição. Alves sustenta que, apesar da “cacofonia”, continuará a haver lugar para o jornalismo; será, todavia, "um novo jornalismo":
"Que conserve os elementos fundamentais do jornalismo tão bem descritos no livro Os
Elementos do Jornalismo de Bill Kovach e Tom Rosenstiel, mas que, ao mesmo tempo, desenvolva uma nova linguagem, um novo código comunicacional adequado às características multimedia da web, e das outras plataformas digitais que existem ou venham a ser criadas” (101 e 102).
Charlie Beckett, por seu lado, acredita, igualmente, que um jornalismo feito a diversas vozes e “definido pelo ato” e não pelo estatuto, “um ato que qualquer um pode desempenhar”, será um “jornalismo mais forte e mais válido do que tem sido o jornalismo produto de um sacerdócio profissional” (IX, VIII). O autor britânico caminha entre avanços e recuos. Ao mesmo tempo que promove uma equiparação de papéis entre jornalista e público, faz algumas concessões: a nova “parceria” entre jornalista e público permite que o jornalista tenha mais tempo para “fazer mais”, para “acrescentar valor” em “análise e reportagem”, para “falar com mais fontes”. A parceria, reconhece Beckett, permite ao jornalismo “regressar aos valores fundamentais” (2008: 150 e 151). Este edifício ameaça, contudo, desabar, quando o professor britânico exorta os jornalistas de investigação a irem “partilhando” com o público os resultados das investigações que estiverem a concretizar (idem, ibidem: 151). A conclusão do autor mergulha a análise no terreno ambíguo da contradição que assinalámos: “No jornalismo em rede não interessa se o exercício da reportagem, da análise, do comentário, é desenvolvido pelo amador ou pelo jornalista profissional” (idem, ibidem, 153).
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Os Efeitos Sociais da Nova Tecnologia (Uma Orientação para o Diálogo)
O potencial tecnológico associado à Internet, que torna possível o envolvimento do público no processo produtivo da notícia, tem reflexos profundos no campo da ação jornalística; mas a defesa absoluta da orientação para o diálogo determina que questionemos as condições desse diálogo, mas também os interesses que nele participam. Assumir, pois, como Gillmor, Beckett, Alves e outros, que a crescente integração das vozes dos cidadãos é a (única) salvação do jornalismo, poderá constituir- se numa abordagem excessivamente redutora.
Estas visões mais extremadas respondem a uma necessidade absoluta e urgente de encontrar solução para a crise de valores do jornalismo. A internet foi vista como a tábua de salvação; e essa visão idealista permitiu que fosse criado um ambiente de "euforia comunicacional" (Mesquita, 2000: 64), que, de alguma forma, cegou os eufóricos.
Bill Kovach e Tom Rosenstiel refletem, igualmente, sobre os efeitos da tecnologia no jornalismo, assumindo uma posição que indicía a absorção dos elementos positivos da tecnologia e a sua integração no processo produtivo, mas que rejeita a equiparação de papéis entre jornalista e consumidor e, com maior ênfase ainda, a secundarização do primeiro pelos segundos, como Gillmor chega a preconizar. Até porque, como assinalam os autores, no processo produtivo, ambos, consumidores e jornalistas profissionais, ocupam diferentes papéis.
Para os autores, a mais-valia da tecnologia reside na promoção de uma alteração do papel do cidadão consumidor de notícias: “de consumidores passivos de notícias, feitas por profissionais”, a tecnologia abre-lhes a possibilidade de se tornarem “participantes ativos":
"Estamos a assistir ao nascimento de uma nova cidadania, mais ativa, assumindo novas responsabilidades (...) O jornalismo do século XXI deve reconhecer isso e participar no processo de formação do público, fornecendo-lhe as ferramentas necessárias para desempenhar essa forma mais ativa de cidadania" (2007:19 e 20).
"O público deixa de ser mero recetor passivo da informação para assumir um papel de interlocutor ativo". Os jornalistas são desafiados a "responder às exigências de um novo público, muito mais participativo e exigente" (Salaverría, 2006: 136 e 135).
Se a unidirecionalidade impunha a criação, nas margens do processo comunicacional intermediado pelos media, de bolsas de resistência, integrando todos os que não aceitavam a passividade, este novo potencial tecnológico, que abre a
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possibilidade à interação comunicativa, para se tornar efetivo carece de um público empenhado nessa participação. O jornalismo tem aqui o papel decisivo de formar um público cidadão, que, de facto, assuma um papel no processo de produção da notícia que, sendo diferente do papel do jornalista, porque o estatuto de ambos também é diferente, não deixa de ser, igualmente, relevante. Um público empenhado acrescenta valor ao processo produtivo da notícia, alarga o campo dos factos, estabelece novas cadeias de inter-relação entre eles, em suma, cria novas notícias; mas, essa participação construtiva do público requer um jornalismo mais vigilante, disponível para integrar os novos factos no processo produtivo, sujeitando-os à aferição dos valores que moldam a profissão.
Rosental Alves, como Dan Gillmor, carateriza o novo consumidor enfatizando o potencial tecnológico que permite essa alteração de perfil; assim, a mudança de estatuto, de uma posição passiva para uma atitude ativa, traduz-se na mera possibilidade de dominar, inteiramente, a partir do computador, os conteúdos a que quer aceder, o momento e o formato que lhe for mais oportuno. Alves conclui que a comunicação se torna “eu-cêntrica” (2006: 96 e 97). Um novo consumidor caracterizado desta forma não altera, propriamente, o estatuto de base, apenas assume maiores possibilidades de escolha e conquista maior autonomia no processo de receção. Ainda que a "atitude ativa" desse "novo consumidor" possa significar que a tecnologia lhe permite participar no processo produtivo da notícia, não está definida a base dessa participação nem, sequer, a forma como o jornalismo deve interagir com esse recetor.
Rupert Murdoch esforça-se por satisfazer os interesses desse consumidor tecnológico de Alves: “os dias em que um escasso número de editores decidia a informação a que deveríamos ter acesso não voltam (...) hoje os consumidores exigem notícias à medida, continuamente atualizadas” (apud Alterman 2011: 6).
Ignacio Ramonet adota a expressão de Alves e conclui que essa comunicação
eu-cêntrica provoca nova alteração na paisagem mediática:
"Passámos da era dos meios de massa para a era da massa de meios. Antes, os meios-sol, no centro do sistema, determinando a gravitação universal da comunicação à sua volta. Agora, os meios-poeira, dispersos no sistema, mas com capacidade de se aglutinarem, podendo constituir super plataformas mediáticas” (2011: 21).
A Internet conserva, de facto, um potencial facilitador de interação social, abrindo espaço a um "vasto universo de novas e complexas teias de relações sociais", onde "o apelo (necessidade) aos próprios participantes para formarem as suas opiniões é
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muito maior" do que o gerado pelos meios clássicos (Esteves, 2003: 193, 199), destinados, por ação dos diversos agentes envolvidos na produção, emissão e embalagem das opiniões, à promoção da passividade. Das diversas redes sociais, aos fóruns de discussão, organizados por áreas de interesse, grupos profissionais, causas comuns, etc., passando pelas conversas online em tempo real ou pelo clássico correio eletrónico, uma vasta gama de dispositivos de interação rompeu o grilhão da unidirecionalidade, demonstrando a existência de um impulso participativo por desbravar.
O Novo Público
A possibilidade técnica de uma ação social direta, o diálogo, reconfigura o jornalismo. Ao questionar a unidirecionalidade, a tecnologia transforma-se na alavanca de um novo jornalismo orientado para o diálogo. A introdução do público no processo produtivo da notícia atribuiu estatuto aos destinatários, mas dotou-os, igualmente, de um grau de responsabilidade antes impensável e dispensável.
A tecnologia está, no fundo, a permitir que o jornalismo vá ao encontro das suas raízes: estabelecendo um compromisso exclusivo com o público. Jay Rosen, um académico/jornalista comprometido com o público, demonstra, através do pensamento de James Carey, que o maior compromisso que o jornalismo deve assumir é com o público:
"Quantos jornalistas consideram que a sua missão é informar o público? Penso que a maioria. Carey discorda: as pessoas informam-se a si próprias (...) as notícias permitem que a conversa entre elas prossiga (...) No mundo de Carey (...) o jornalismo tem raízes no público. O principal mandamento do jornalismo (...) é o público. O fundamento do jornalismo é o público" (Rosen, 2004).
Mark Deuze, prosseguindo o trilho interpretativo do pensamento de Carey, assume que esse regresso às origens do jornalismo, esse enaltecimento do papel do público, já está a promover “uma ténue e lenta mudança no conceito de serviço público”. O autor considera que a orientação para o diálogo afasta o jornalismo do princípio clássico – “dar às pessoas o que elas precisam de saber” – e aproxima-o do ideal de James Carey – “a amplificação do diálogo que a sociedade tem com ela própria”. Mesmo permanecendo enquadrado pelo primado da narrativa, o jornalismo vai, “de forma cautelosa, respondendo aos desejos e necessidades da audiência” (2005: 455 e 456).
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Impõe-se, pois, um jornalismo com características especiais, onde a orientação para o diálogo entra na sua corrente sanguínea; não lhe altera a essência, mas determina adaptações na ação quotidiana.
A integração da tecnologia no processo permite, finalmente, acertar o foco: o jornalismo é consequência de existir um público ávido de notícias para poder interagir/comunicar; o jornalismo promove essa comunicação.
Como assinala Mark Deuze, a integração do público no processo produtivo determina a reconfiguração da própria identidade profissional do jornalista: a forma como o jornalista integra a participação do público influenciará, de forma decisiva, a identidade de cada jornalista (2006: 27). O jornalismo da era da Internet depende, pois, cada vez mais, da “crescente interatividade” e do “esbatimento das relações hierárquicasentre produtores e consumidores de notícias” (idem, 2005: 454 e 455). Um jornalismo que coloque o foco no público, promovendo a comunicação que lhe permitirá agir, formar opinião, conquistar autonomia é um jornalismo onde o jornalista deve posicionar-se entre o público, ouvi-lo, refletir com ele, aceitar a sua participação no processo produtivo da notícia, exercendo sobre ela um compromisso jornalístico, de forma a que os novos factos possam ser integrados, acrescentando valor à informação. Sem que exista confusão de papéis ou, sequer, equiparação de estatutos entre produtor e consumidor, a inclusão dos destinatários no processo produtivo reforçaa vigilância crítica, podendo, em teoria, reforçar a transparência da notícia e o grau de fiabilidade da mesma. Como reconhece Barbie Zelizer, a verificação é, exatamente, uma das práticas jornalísticas que promove essa "dimensão colaborativa" do jornalismo, impondo-lhe uma marca distintiva que não tinha expressão no jornalismo tradicional (2004: 42).
A integração sustentada da mudança em curso requer, todavia, como assinalam Kovach e Rosenstiel, a adoção de um conjunto de práticas que assuma, como prioritária, a tarefa de “armar o público com os instrumentos necessários para que possa assumir essa forma mais ativa de cidadania” (2007: 19). Charlie Beckett sublinha, exatamente, a necessidade de ser introduzido no processo produtivo o conceito de "media literacia": "Não existe esperança para o jornalismo em rede se os jornalistas e o público não estiverem equipados para a tarefa" (2008: 8). Desenvolveremos à frente o conceito de
media literacia.
O novo estatuto do consumidor de notícias, armado com as ferramentas que o transformam num cidadão participante no processo presta-se, assim, à atribuição de um
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novo quadro concetual. É um “pro-consumidor82(...) um híbrido de consumidor e produtor”(Kovach, Rosenstiel: 2007: 19-20). Esbatidas as relações hierárquicas entre produtor e recetor da notícia, o pro-consumidor torna-se ator do processo, e a criação profissional coexiste com a criação amadora. O novo perfil transforma-o num pro-am (profissional-amador)” – é um amador mas que desenvolve uma atividade seguindo “padrões profissionais” (Ramonet: 2011: 19-20). Formar o público significa, pois, tornar transparente o processo de produção da notícia, forçando a imersão (pública e permanente) dos valores que moldam a profissão. O pro-am conhece os valores do jornalismo e, embora não assuma com eles o mesmo grau de compromisso do jornalista, tem recursos para vigiar o cumprimento desse compromisso, reforçando a transparência do processo e aumentando o grau de rigor do trabalho do jornalista; o pro-am não acede aos mesmos lugares da notícia a que o jornalista, pelo estatuto diferenciado, acede, mas, cada vez mais, recorrendo às novas tecnologias, se aproxima deles (e muitas vezes, sobretudo em situações limite, só ele lá está); o pro-am não precisa ter da notícia a visão global, mas pode enriquecê-lacom o conhecimento especializado promotor da sua participação.
Jay Rosen assume que os conteúdos que circulam na rede, gerados por esse cidadão comprometido com os métodos de trabalho profissionais, são, regra geral, “pobres ou banais”, mas isso não é razão para que sejam desprezados. Para Rosen, se um por cento desses conteúdos for de elevada qualidade, e outros 10 por cento de qualidade aceitável, essa já será razão para que sejam incorporados no processo produtivo (apud Beckett, 2008: 53). O trabalho mais complexo do jornalista será o de filtrar essa informação. Mesmo que o jornalismo tenha por missão despertar nas pessoas esse interesse pelapartilha, acreditamos que o processo comunicacional, inevitavelmente, se restrinja à esfera dos cidadãos produtores de informação fiável e credível. A maioria, por vontade própria, utilizará o potencial tecnológico numa perspetiva mais emocional do que racional, que é, aliás, o que ainda hoje acontece.
Sobressai, pois, a necessidade de um grau de responsabilidade efetivo por parte do público. O futuro do jornalismo depende “de cidadãos fortalecidos (pelo poder da informação) capazes de criarem as suas próprias comunidades de discussão, a partir de informação verificada” (Kovach, Rosenstiel, 2007: 20).
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Um Novo Jornalismo, um Novo Jornalista, um Novo Público
Kovach e Rosenstiel, mesmo considerando que os cidadãos conquistam um papel de destaque no processo produtivo, insistem na fronteira clara entre jornalistas profissionais e amadores. O novo jornalista é um “construtor de contexto” que “verifica” a origem da informação, atribuindo-lhe um selo de “confiança”, e que depois a “ordena” para que o público possa “descodificá-la de forma eficiente”. O jornalista é, assim, o “líder de um amplo fórum, ou mediador, ao invés de ser simplesmente um professor ou um conferencista” (idem, ibidem: 19, 20). O jornalista assume, na ótica dos autores, a função de "facilitador da discussão" do amplo fórum que lidera (2010: 175).
A orientação para o diálogo e a integração do público no processo produtivo pressupõe um “novo tipo de jornalismo”, exclusivamente direcionado para servir o público. Kovach e Rosenstiel entendem que esse novo jornalismo, associado à tecnologia, exige dos jornalistas “mais capacidade e maior responsabilidade”. Cumprindo determinadas funções, a tecnologia pode produzir “um jornalismo melhor”, “mais comprometido com o público” e com potencial para “cavar mais fundo” (idem,
ibidem: 182). Nas raízes do “jornalismo do futuro” deve estar, pois, a preocupação com
a forma como o público “usa as notícias” e a antecipação daquilo que o público espera dos jornalistas com vista à plena satisfação dessas necessidades (idem, ibidem 175).
O jornalismo para um público ativo, participativo e mais exigente será, necessariamente, um jornalismo mais completo, gerador de contexto. Elizabeth Saad Corrêa antevê, por isso, uma prática mais ousada:
"Será necessário reaprender a construir e a disponibilizar o contexto, a sair da fragmentação noticiosa e a rumar para uma condução da audiência na busca de mais e mais informações correlacionadas" (2006: 60).
Ao mesmo tempo que Saad Corrêa considera que a ação jornalística ideal, focalizada no primado do público, pressupõe a rutura com a fragmentação noticiosa, construindo novos contextos, essa ação satisfaz as necessidades de um público mais exigente mas, cada vez mais, fragmentado. As notícias são partilhadas entre membros de públicos específicos, organizados em comunidades de interesse:
"Os consumidores estão (...) a trazer a corrente dos media para dentro do seu campo de controlo para interagir com outros utilizadores. Lutam pelo direito de agir, de uma forma mais completa, na definição dos conteúdos dos media, abrindo espaço à rejeição dos conteúdos massificados do mercado" (Jenkins, 2004: 37).
A Internet, promovendo a reconstrução da ideia de comunidade, valorizando a criação de uma miríade de comunidades de interesse, promotoras de discussão e de
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troca de argumentos entre os membros, participando, afinal, na recuperação, como veremos à frente, da ideia de um espaço público de debate gerador de um verdadeiro consenso, ainda assim, não escapa à crítica lançada, em 1996, por Doris Graber. A professora da Universidade de Chicago alertou para os efeitos da "diversificação