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A credibilidade na qual o telejornalismo se sustenta está diretamente relacionada à credibilidade do próprio meio, que, pela lógica de Marcondes Filho (1988), se coloca na vida das pessoas e as retira do mundo, as envolvendo com a magia provocada pela linguagem televisual.

A magia do aparelho como veículo de modernidade, de moda, de imputação de prestígio, de “informação”, soma-se à magia dos dominadores do código. Já se viu que a TV é ritual. É ligada sempre à mesma hora, não exatamente para se assistir a algum programa especial, mas simplesmente porque “tem que se ligar a televisão”. Ela também se impõe às pessoas enquanto aparelho. O teórico canadense Marshall McLuhan possuía para isso uma frase famosa: “O meio é a mensagem” (MARCONDES FILHO, 1988, p. 112).

Os manuais de telejornalismo reforçam a ideia de que a televisão encanta os telespectadores e, assim, provoca um alto teor de confiança junto ao público. Confiança essa provocada pela imagem e pelo texto televisuais.

As imagens pesam mais do que as palavras, daí a conquista de público da televisão, o veículo mágico do século XX. Mas é bom não esquecer que no noticiário uma não pode se contrapor à outra, sob pena de confundir o espectador e abalar a credibilidade da televisão e do seu noticiário (BARBEIRO & LIMA, 2002, p. 19).

A imagem cumpre papel central na linguagem televisual e possui diversas funções, dentre elas, segundo Charadeau (2006), destacam-se três: designação, figuração e visualização. Na concepção deste autor, a designação supõe mostrar o mundo diretamente, “[...] em sua realidade perceptiva como um ‘estar-aí’ presente, convertendo-se num ‘objeto mostrado’ [...] essa função põe em cena efeitos de autenticidade” (2006, p. 225). Esta autenticidade dá à imagem um estatuto de verdade, a imagem se torna uma prova do fato, como afirma Paternostro, “a TV mostra e o telespectador vê” (1999, p. 64).

Grande parte da imagem de confiança que os telejornais possuem junto à população se dá com base nos conteúdos noticiados e na relevância dos mesmos. “Essa confiança supõe a possibilidade de conhecimento verdadeiro e a capacidade de julgamento de relevância dos fatos e supõe também a credibilidade dos jornalistas e das organizações jornalísticas.” (GOMES, 2006, p. 4). Mas vale salientar que os critérios de relevância aos quais a sociedade está acostumada também são construídos socialmente e reforçados pela própria mídia cotidianamente. O tom imputado aos assuntos tratados no telejornal também reafirma a questão da seriedade e da sobriedade.

[...] o tom principal, expectativa de um subgênero como o telejornal, é o de seriedade, pois ele confere efeitos de sentido de verdade, confiabilidade, credibilidade ao que está sendo noticiado. A esse tom principal, agregam-se tons complementares, tais como formalidade, neutralidade, contração, profundidade etc (DUARTE & CURVELLO, 2009, p. 65).

Marcondes Filho (1988, p. 59) concorda com a importância do tom sério do telejornal como fator essencial para que o público reconheça naquele produto a sobriedade. “O telespectador se deixa convencer pela forma ‘séria’ da apresentação, pelo tom oficial e rígido dos apresentadores, pela própria falta de dados e informações anteriores e pela dramaturgia

standard de seus profissionais” (MARCONDES FILHO, 1988, p. 59). O papel dos

apresentadores na concepção e encarnação dessa tonalidade é central, já que é a partir dos mesmos que parte da comunicação se efetiva, através de suas expressões, voz, entonações, vestimentas e gesticulações.

Com o papel que o apresentador de telejornal vem paulatinamente conquistando, o de comentarista dos fatos, a criação de novas estratégias que ajudem com a permanência da credibilidade do jornalista se mostra essencial. Segundo Fechine (2002), esse novo papel assumido pelo apresentador é capaz de produzir uma espécie de “contrato de veridicção” entre o profissional à frente do telejornal e o telespectador, explicando que uma imagem sisuda, de textos objetivos e curtos, sem personificação ou adjetivação por parte do jornalista signifique necessariamente inverdade ou falta de credibilidade.

O tipo de credibilidade que se atribui aqui ao âncora não impede uma postura interpretativa declarada do enunciador frente aos fatos noticiados. Pois, o atributo de “verdade” que se confere ao discurso ou o “efeito de verdade” produzido pelo discurso é, agora, proporcional à credibilidade que o espectador deposita no telejornal (FECHINE, 2002, p. 13).

Dados no Governo Federal colaboram com a reflexão sobre o papel do apresentador na credibilidade de um produto televisual. Em pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), em 2008, quando questionados sobre os apresentadores que consideravam mais confiáveis, os entrevistados destacaram a dupla de apresentadores do Jornal Nacional, da Rede Globo. De acordo com o levantamento, William Bonner tinha 33,7% da confiança dos entrevistados e Fátima Bernardes, 18,1%. Em terceiro lugar estava Boris Casoy, com 4% das indicações. Em seguida, apareciam Alexandre Garcia (2,4%), Arnaldo Jabor (2%), Jô Soares (1,8%), Joelmir Betting (1,1%), Ricardo Boechat (0,9%) e Miriam Leitão (0,6%). Ainda segundo este relatório, Bonner também foi destacado como comunicador que auxilia na decisão de opinião ou mudanças de ideia (12%). Nesse caso, 85,2% responderam negativamente à questão e não indicaram um comunicador específico como influenciador.91

O figurino também ocupa importante papel na imagem de credibilidade do jornalista de televisão. Na pesquisa de especialização que realizamos, levantamos dados que apontaram que os indivíduos impõem juízo de valor à imagem daquelas figuras que aparecem no vídeo, relacionando diretamente o que elas dizem à maneira física como elas se apresentam (AQUINO, 2009). Roupas, cores, texturas, modelagens, assessórios, cabelo e maquiagem são capazes de colaborar com a composição do personagem ator-apresentador, unindo-se às outras estratégias que reforçam o discurso telejornalístico.

Dessa forma, para corresponder ao regime de crença proposto, a veridicção, os telejornais cercam-se de estratégias discursivas e mecanismos expressivos

91 Disponível em: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/06/rede-globo-e-emissora-preferida-aponta-pesquisa-

que garantam os efeitos de sentido de verdade, autenticidade, credibilidade de que carecem (DUARTE & CURVELLO, 2009, p. 70).

Os autores explicam ainda que a seriedade, no caso dos apresentadores, tem como formas de expressão a aparência física, a postura corporal, o penteado, o vestuário, o comportamento contido, a voz pausada, o uso impecável da linguagem verbal etc., e que ela se estende a todos os profissionais que ocupam a função de apresentadores de telejornal. Eles não estão isolados, como já dissemos antes. Trabalham em conjunto com os mecanismos expressivos que corroboram na manutenção desses tons de seriedade, formalidade, neutralidade, colados ao que é dito ou mostrado.

Esses mecanismos dão-se a ver na seqüência das emissões, não só pela repetição ancorada na reiteração dos cenários, do número de blocos, da forma de estruturação desses blocos, dos bordões de abertura e de passagem de um bloco a outro, e de fechamento etc. – como pela presença e comportamento reiterado dos apresentadores, dia após dia, ano após ano (DUARTE & CURVELLO, 2009, p. 71).

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