A imagem cumpre papel central nos produtos audiovisuais. No caso desse estudo, em especial, a imagem televisual é compreendida juntamente com suas possibilidades técnicas, seus padrões e suas significações. O enquadramento, a edição das imagens, a montagem do programa, a edição de som e a iluminação, por exemplo, são elementos que não podem passar despercebidos para compreensão do fenômeno estético do telejornalismo. “A imagem é o
principal critério da notícia. Se não há uma imagem impactante, dificilmente o fato merecerá um bom tempo no telejornal” (BUCCI, 1997, p. 29).
A imagem é definida por um plano, um enquadramento. Segundo Baggaley e Duck (apud SANTOS & AYRES, 2009, p. 5), “a unidade básica da imagem visual é o plano, dentro do qual se dá informação”. Numa definição simplificada do que é plano, podemos dizer que é a menor unidade básica do audiovisual, ou em outras palavras, a imagem entre dois cortes. O plano ou quadro, como alguns autores preferem chamar, é resultado do enquadramento, através do qual se opta por mostrar determinada coisa ao mesmo tempo em que também se excluem outras. Esse recorte ou plano é o que delimita a imagem. Herança direta de outros produtos, os planos e enquadramentos adotados na televisão e, por conseguinte, no telejornalismo, seguem a conceituação que vem do cinema, que por sua vez se originou na fotografia e que tiveram na sua origem os conceitos estéticos herdados da pintura e das artes visuais.
De maneira geral, porém não consensual, nos produtos audiovisuais o plano engloba o cenário, a iluminação, a ação dos atores, o movimento de câmera, entre outros elementos. Yorke (1998, p. 107) define os planos em quatro: Plano Geral que mostra toda a figura humana e dá noção de amplitude; o Plano Médio que mostra da cintura para cima; o Meio Plano, do peito para cima; e o close-up que mostra a cabeça e os ombros. Este trabalho levará em conta as conceituações desse autor, acrescentando a elas o chamado Plano Americano, que mostra da metade da coxa para cima.78
O enquadramento também é composto pelo ângulo da câmera, que quer dizer a posição ou angulação em que o personagem ou elemento registrado está em relação à câmera. Ele pode ser utilizado de três formas: na altura do objeto filmado, inferior ao objeto filmado – conhecido como contra-plongée, ou acima do objeto filmado – o chamado plongée. Pode ainda se posicionar na lateral do objeto: mais pra esquerda ou mais pra direita do plano (SOUZA, 2010). Outro elemento importante nesse contexto é a iluminação.
Assim como definir o ângulo, controlar e escolher a melhor iluminação são tarefas importantes já que muita luz ou pouca luminosidade comprometem a visualização das imagens. Quanto a esse item, podemos classificá-la em natural, fria e quente, dependendo da intensidade e das cores e recursos utilizados. A iluminação natural é a da luz do Sol, a fria geralmente, tende para os tons de verde e azul e a iluminação quente utiliza cores mais fortes, como o laranja e de preferência, o vermelho (SOUZA, 2010, p. 11).
78 O Plano Americano tem origem nos filmes Western e é batizado com esse nome porque era utilizado para
Um telejornal convencional não costuma mudar muito de planos, de ângulos ou de enquadramentos. Ele possui uma dinâmica mais ou menos padrão que tem por objetivo facilitar a compreensão do telespectador sobre aquilo que está sendo transmitido: diferentes tipos de enquadramento são utilizados em diferentes tipos de notícias. Os principais planos identificados no JN, por exemplo, são o Plano Médio, o Meio Plano e o close-up que mostra a cabeça e os ombros. O Plano Aberto, enquadrando os dois apresentadores e a bancada quase em sua totalidade, também tem aparecido com grande frequência, em contradição ao que ocorria alguns anos atrás quando, segundo Cardoso (2008), a maior parte do JN era mostrada em enquadramentos que centralizavam apenas um apresentador por vez. Isso se dá à tentativa recente de tornar o telejornal mais conversado e menos formal. A abertura do enquadramento para mostrar os dois apresentadores simultaneamente facilita o processo de diálogo e trocas entre os dois, mesmo que elas sejam tímidas e limitadas ao gestual. Mas mesmo com essa mudança, o Plano Médio continua sendo o mais comum na apresentação das notícias.
É importante observar este “recorte”, pois escolher um plano implica sempre destacar uma coisa e deixar algo fora. A escolha do plano não é casual, cada plano possui uma significação, e o Plano Médio no caso do telejornalismo representa a suposta distância pessoal entre o âncora e o telespectador (SANTOS & AYRES, 2009, p. 5).
Figura 39 – Plano Aberto com os dois apresentadores aparecendo79
Figura 40 – Plano médio80
Figura 41 – Meio Plano81 Figura 42 – Close-up82
79 Telejornal exibido em 09 de abril de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XLTL. 80 Telejornal exibido em 09 de abril de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XLTL. 81 Telejornal exibido em 09 de abril de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XLTL.
Figura 43 – Plano médio com apresentador centralizado 83
Figura 44 – Plano médio com apresentador centralizado 84
Figura 45 – Plano médio com apresentador na lateral e selo ao fundo 85
Figura 46 – Plano médio com apresentadora na lateral e selo ao fundo 86
Figura 47 – Plano médio com apresentadora na lateral para inserção de arte 87
Figura 48 – Plano médio com apresentador na lateral para inserção de arte 88
O close-up é o plano mais comum na escalada do telejornal, a parte inicial do programa, quando os apresentadores aparecem informando as principais manchetes do dia, em ritmo acelerado, passando de um apresentador para o outro, com frases curtas e com algumas ilustrações de reportagens que possam causar impacto ou chamar a atenção do telespectador para o conteúdo. A escalada é como a primeira página de um jornal impresso, serve para “vender” o telejornal, tentar garantir que o telespectador fique assistindo ao programa até o final. Na edição, é feito um corte de uma câmera para outra, uma espécie de passagem da
82 Telejornal exibido em 09 de abril de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XLTL. 83 Telejornal exibido em 09 de março de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XLYQ. 84 Telejornal exibido em 09 de março de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XLYQ. 85 Telejornal exibido em 10 de maio de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XLZK. 86 Telejornal exibido em 17 de maio de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XM0b. 87 Telejornal exibido em 21 de maio de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XM1O. 88 Telejornal exibido em 21 de maio de 2010. Disponível em: http://migre.me/3XM2F.
imagem de um apresentador para o outro. No JN, logo após a escalada vem a vinheta de abertura. Ela se dá mediante o deslocamento da imagem do fundo da redação até a bancada dos apresentadores através de um movimento de grua ininterrupto, ou seja, sem cortes.
Ela começa com um plano fechado na logomarca presente na plataforma digital e vai abrindo até formar um Plano Geral que mostra toda a redação e simultaneamente vai subindo até fechar nos dois apresentadores. Ressaltamos ainda com relação à abertura, que a redação está parcialmente escura para que se sobressaia a iluminação da plataforma digital ao fundo onde aparece a logo do telejornal e que neste movimento da grua, podemos perceber uma angulação tipo plongée, pois mostra a redação de uma posição superior, já que esta fica localizada embaixo de onde fica posicionada a bancada e a própria câmera (SOUZA, 2010, p. 13-14).
Nesse momento, comumente, o Plano Médio fica aberto com os dois apresentadores chamando uma reportagem. Em geral quando esse enquadramento se dá, a cabeça do VT é dividida, lida uma parte por um, outra pelo outro, separadas apenas por uma pontuação no texto. Outras vezes o programa começa com o enquadramento mais utilizado no telejornalismo brasileiro, o Plano Médio com apenas um apresentador. Vale salientar aqui que o nome do apresentador nos caracteres, no roda-pé da imagem, só aparece no primeiro momento em que há o enquadramento em Plano Médio, de preferência com o apresentador centralizado. Enquanto os dois apresentadores estiverem simultaneamente no vídeo os créditos não aparecem.
A angulação do Plano Médio também se modifica algumas vezes, para a direita ou para a esquerda, com a intencionalidade de inserir elementos gráficos na lateral do apresentador ou no telão ao fundo. Na apresentação das notícias, por sua vez, predominam, pelo menos, quatro tipos de planos: um Plano Médio que mostra da bancada para cima, ora enquadrando apenas um apresentador, ora um pouco mais aberto, enquadrando parte da bancada e os dois âncoras; um Meio Plano, do busto pra cima, para enquadrar apenas um apresentador e um Plano Geral que mostra toda a bancada e inclusive, as logomarcas flutuantes que compõe o cenário. O Meio Plano é mais utilizado nas voltas das reportagens, para dar informações complementares ao ler uma nota-pé89, nas passagens de bloco ou início de bloco. É um plano um pouco mais intimista do que o Plano Médio, já que promove uma maior aproximação entre o apresentador e a câmera. Vale destacar ainda que em algumas voltas ou início de blocos os apresentadores estão enquadrados em Plano Aberto. Ainda sobre os movimentos de câmera no telejornalismo, Souza (2010, p. 11) explica:
89 O mesmo que nota pelada, só que utilizada em um contexto específico: dar uma informação complementar ao
Entre os principais movimentos de câmera estão: a panorâmica, que pode ser horizontal (de um lado para o outro) ou vertical (de cima para baixo ou de baixo para cima); o tilt ou panorâmica vertical, que através de um tripé gira em torno de si mesma no sentido vertical; o travelling que é um equipamento que permite uma sensação suave ao movimento de se deslocar da câmera sob uma plataforma ou trilhos, por exemplo. Ele pode ser lateral ou frontal. Neste último caso, teríamos o travelling in (de aproximação) e o travelling out (de recuo). Temos ainda o dolly, que por sua vez, seria um movimento da câmera sobre um tripé ou uma espécie de carrinho; a grua, ou seja, um aparelho metálico através do qual o cameraman fica suspenso e consegue captar imagens aéreas, entre outros. Quanto aos movimentos de lente, esses se resumem apenas ao zoom, movimento de aproximação (Zoom In) ou de afastamento (Zoom Out), o qual pode ainda desfocar a imagem.
No Jornal Nacional, em geral, as três câmeras permanecem paradas sobre o mesmo eixo, sem se deslocar pelo estúdio, o que dá a sensação de movimento é o corte de uma pra outra. Quanto ao tipo de iluminação e de cores utilizadas no estúdio, podemos dizer que ela é produzida de forma pontual e intencional: ora quente nas matérias de polícia e violência ora fria para as matérias mais leves. A esse respeito Bonner (2009, p. 139) descreve que “[...] se o selo é o do Papa – e não o de violência, a luz que colorirá os fundos do cenário, atrás da Fátima, será azul – e não vermelha. O operador de luzes tem de ser informado”. É a manipulação estratégica dos elementos televisuais para compor significações, sentidos e causar diferentes reações e sentimentos no telespectador.
Os planos, ângulos e enquadramentos, assim como as cores e recursos de iluminação, conferem sentidos às imagens captadas in loco, da mesma forma que a ordenação das cenas e seqüências re-significam a história contada (SANTOS & AYRES, 2009, p. 9-10).
A edição dos planos e os cortes utilizados servem para dar ordem e colaborar na construção da narrativa do telejornal. A edição, chamada no cinema de montagem, é feita a partir do corte de câmeras e da combinação de imagem e som em uma sequência previamente definida e intencionalizada. No jornalismo de televisão os cortes costumam ser mais secos, sem efeitos de edição, que se usados em excesso deixam transparecer mais do que o desejável a realidade modificada do telejornal. Mas em alguns momentos também podem ser utilizados recursos como fade in e fade out para clarear ou escurecer gradualmente a imagem na tela. A edição seria, então, o movimento de junção da imagem, do som e do texto.
Na TV, ao falarmos em edição, remetemo-nos a idéia de que isso só foi possível graças às tecnologias que permearam toda a história desse meio de comunicação, entre elas o videotape e que no telejornalismo, existem dois tipos de editores: os de texto, responsáveis pela correção e melhor organização do texto do repórter para que o produto final seja mais claro e fácil de entender, já que na TV o texto é feito para ser ouvido apenas uma vez; e os de imagem, que selecionam as imagens que melhor casam com o texto para
cobri-lo, juntando assim som e imagem. É ele quem faz a “costura” e dá o toque final a edição, através do uso de recursos e efeitos especiais (SOUZA, 2010, p. 12).
O áudio, ou som, não pode ser deixado de lado nesse levantamento, a partir do princípio de que se trata de um produto audiovisual, o telejornal. “A TV joga pesado no momento em que ela combina a utilização simultânea de dois sentidos do ser humano: a visão e a audição, com imediatismo e alcance. É com essa estrutura armada que a TV envolve a telespectador, carregando-o para ‘dentro’ da notícia” (PATERNOSTRO, 1999, p. 35).
A título de análise, podemos separar o áudio para telejornalismo em dois tipos: os sons naturais que correspondem aos sons ambientes e as falas dos personagens; e os efeitos sonoros, resultados do processo de sonorização artificial, onde podem ser inseridos uma trilha musical ou outros sons. Apesar de que, como afirma Paternostro, “só se faz TV com imagem” (1999, p. 72), no telejornalismo os recursos sonoros são fundamentais na reconstrução da realidade. Diferentemente dos VTs publicitários, onde muitas vezes se opta pela total retirada do som ambiente das imagens capturadas para inserir só sonorização artificial, no telejornalismo o mesmo som natural funciona como uma espécie de identidade, de digital, capaz de imputar veracidade sobre aquilo que está sendo mostrado. As imagens são centrais, mas na maioria dos casos, por si só não bastam. O som desempenha uma função essencial no telejornalismo, pois ele é um elemento de organização e contextualização.
Cada um dos recursos sonoros possui uma função específica: o som ambiente possibilita a reconstrução do contexto, do background. Uma entrevista feita na rua não é o mesmo que uma entrevista feita numa escola, ou num escritório, e poder mostrar estas diferenças é fundamental para que o telejornalismo reconstrua a realidade (SANTOS & AYRES, 2009, p. 6).
A música em geral é utilizada em situações específicas, como por exemplo, as principais jogadas de uma partida de futebol ou em uma reportagem típica do “boa noite” ou do fechamento do jornal, com conteúdos leves e/ou divertidos. A música dá dinamismo e ritmo às matérias e, em alguns casos, também pode ser utilizada para gerar emoções no telespectador, criando uma relação afetiva com o público.