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K return @ Heel, evolution in time

Como no homem tudo cria signo, a sobrancelha mais ou menos levantada, o sorriso franco ou afetado, o olhar direto ou de soslaio, a inclinação da cabeça e o gesto da mão constituem notas comportamentais de uma música gestual que

os parceiros executam como sinfonias relacionais infinitas (CYRULNIK, 1995, p. 38).

Concordando com o entendimento de Cyrulnik (1995) a respeito da significação do gestual, partimos do princípio que o mesmo acontece com os telejornalistas. O corpo dos apresentadores de telejornal, aliado às suas expressões de gestos e voz, são pontos essenciais na formação do profissional de telejornalismo como também na padronização do gênero ou no oposto a isso: a criação de estilos próprios ou personalizados de apresentação. Desde 1975 a Rede Globo, ainda no tempo em que seus principais apresentadores mantinham o tom de locução de rádio, adotou a postura de tentar padronizar a gesticulação, a voz e a postura de seus apresentadores, com criação de cursos e contratação de profissionais especializados na tarefa de capacitar os profissionais a exercerem esse papel (MEMÓRIA GLOBO, 2004). Para Cardoso (2008), o processo de compreensão da mensagem televisual não pode deixar de lado a observação desses aspectos, já que eles são significantes para o processo de afirmação da sobriedade telejornalística.

Podemos perceber que os outros elementos cenográficos, como o figurino, o penteado, os gestos dos apresentadores, também procuram diferentemente dos outros programas do gênero, como os matinais e esportivos, que são mais descontraídos, essa sobriedade. E, indo um pouco além, as outras matrizes da linguagem, propostas por Santaella (o verbal, na oralidade dos apresentadores; e o sonoro, em seus tons de vozes), também buscam reforçar ainda mais esse caráter formal do telejornal (CARDOSO, 2008, p. 63).

A fonoaudióloga Cotes (2008) fez sua pesquisa de mestrado questionando o fato do corpo permanecer imóvel algumas vezes durante o telejornal. Durante as observações, ela percebeu que, muitas vezes, as mudanças corporais eram incompatíveis com as mudanças dos enquadramentos das câmeras. Analisou gestos, expressões faciais, postura, meneios de cabeça e mudanças vocais em oito apresentadores de telejornal, de diferentes emissoras. O posicionamento rígido e inexpressivo dos apresentadores corresponde a uma maneira antiga de compreender a dinâmica corporal no telejornalismo, herança ainda da transição dos tempos do rádio para o novo veículo e para a falta de compreensão do papel do corpo no processo comunicativo.

[...] no início do telejornalismo, [os apresentadores] tinham mais a função de locutores, agindo como ventríloquos (Verón, 1983) do discurso da emissora. Ainda que eles comentem os assuntos um com o outro (como ocorre no Jornal Hoje, em que Sandra Annenberg e Evaristo Costa fazem breves comentários sobre os VTs, mas não buscam um aprofundamento das notícias), eles o fazem num momento específico após a exibição da matéria (SILVA, 2006, p. 11).

Para Cotes (2008), essa rigidez acabou se transformando em uma característica marcante dos telejornais. Apresentadores e repórteres intensificam a sobriedade tanto na voz quanto no corpo, tanto para tentarem passar a ideia de sobriedade e credibilidade, quanto para causar a impressão de distanciamento do público e da forma de falar cotidiana. “No entanto, a narração dos jornalistas de televisão criou um distanciamento em relação à fala conversacional. Podemos afirmar que a fala nos telejornais, ao longo dos anos, desenvolveu seu estilo próprio, que caracteriza uma classe profissional” (COTES, 2008, p.13). A fala, como processo dinâmico e cultural, alia a ela diferentes significações.

A variância na interpretação das vogais e consoantes expressa diferentes sentimentos, cria um simbolismo sonoro, e pode ser explorada pelo orador, da mesma forma que a escolha do vocabulário, que não é resultado somente de opções sociais. Refere-se a um estilo de fala conversacional (OHALA apud COTES, 2008, p. 14).

Numa observação sobre o papel dos apresentadores do Jornal Nacional e seu discurso de “invisibilidade” ou não-presença de um “eu” individual, Fechine (2002) explica que os tons de voz e as expressões faciais neutras dos apresentadores do Jornal Nacional cumprem a função de apresentá-los como simples mediadores:

Nos telejornais de formato mais convencional, como o emblemático “Jornal Nacional”, o apresentador funciona basicamente como um “operador de passagens” que, mesmo dirigindo-se diretamente à audiência (faz isso olhando para a câmera), não se assume perante esta como um narrador propriamente dito, pois não se apropria do discurso como sendo seu e, pelo contrário, esforça-se para não demonstrar qualquer envolvimento com os acontecimentos narrados. Suas intervenções verbais são, geralmente, construídas em terceira pessoa e são poucas as circunstâncias nas quais se permite demonstrar uma valoração pessoal através de outros sistemas semióticos (tom da voz, expressão facial, gestos etc.). Como delegado mais imediato de um sujeito da enunciação coletivo, o apresentador de telejornal não costuma atuar em nome de si mesmo (enquanto indivíduo singular) (FECHINE, 2002, p. 4).

Cada assunto de telejornal deveria despertar uma atitude em quem fala e em quem ouve, e também deveria desencadear uma emoção (COTES, 2008). A fala por si só deve despertar emoção, mas segundo Machado (2000), ainda hoje algumas narrações de telejornal não cumprem o seu papel. Diz o autor que talvez não exista na televisão um gênero tão rigidamente codificado como o telejornal – que se constrói sempre da mesma maneira e que fala sempre no mesmo tom de voz.

Observo que nas narrações, ouvimos melodias repetitivas, como se houvesse uma “padronização”, mudança de assunto com a mesma entonação; falas muito aceleradas ou lentas demais; falas sem marcações e pausas; alterações de freqüência de voz descontextualizadas, que não combinam com a imagem. Enfim, há um certo distanciamento entre a narração, a fala conversacional e a

imagem transmitida. Há expressões faciais neutras e corpos rígidos, contrários à expressividade natural. Para os profissionais da comunicação (lingüistas e fonoaudiólogos), estas percepções são mais evidentes e muitas vezes, incomodam; para o telespectador, por sua vez, a falta de expressividade causa a falta de interesse e a não memorização sobre o conteúdo dito (COTES, 2008, p. 15). 90

Mas para Silva (2006) as gesticulações e expressões faciais dos apresentadores do Jornal Nacional não são tão estáticas assim e estão carregadas de sentido, cumprindo muitas vezes um papel intencional por trás da notícia que, por não ser tão explícito quanto o texto narrado, seja percebido de maneira menos evidente pelo telespectador, tentando talvez, assim, não imputar a eles a falta da imparcialidade proposta pelo telejornal.

Apesar de não usar a opinião, ou avaliação direta dos mediadores, o Jornal Nacional parece muito parcial por conta das expressões faciais dos apresentadores. Assim, a piscadela de Fátima Bernardes, o olhar de reprovação de Bonner, as expressões de dúvidas, o tom da voz, tudo isso ajuda a construir um sentido acerca da opinião do telejornal sobre os eventos. Os olhares de reprovação não estão associados aos apresentadores exatamente, mas à instituição – o Jornal Nacional – que eles representam (SILVA, 2006, p. 11).