O espaço público urbano configura-se de múltiplas formas e tamanhos que incluem lugares destinados ao uso cotidiano, como as praças. Ao se qualificar o espaço como público presume-se que seja franqueado o acesso a todos que intencionem frequentá-lo. As ruas com seus traçados estruturam e vinculam a disposição das construções no espaço urbano, permitindo uma interligação entre os vários espaços localizados na cidade; representam o que se pode chamar de “espaços de fluxos” (FRÚGOLI JÚNIOR, 1995, p. 67). São destinas à circulação; diferente das praças, que denotam espaços voltados para a experiência de interações, relações sociais e sociabilidades.
A praça reúne elementos históricos e formais que a tornam um dos mais importantes espaços da cidade. De acordo com Colchete Filho (2008, p. 32) ela é
[...] um espaço diferenciado, ausente de construções, dentro da estrutura urbana quase sempre bastante adensada; e histórico, porque, ao possuir características que permitem a concentração de pessoas, atrai atividades importantes para o seu próprio espaço e para o entorno, atuando como um cenário importante dos fatos sociais.
Conceber a praça como um cenário importante dos fatos sociais, implica em entendê-la como local onde os atores sociais – indivíduos e grupos – exercitam interações. Em tal espaço basicamente urbano é possível estar, apresentar-se e reunir-se a outros, pois sua destinação social faculta essas probabilidades de usos. Observa Alex (2008, p. 10) que
[...] a praça, em sua origem latina, caracteriza-se como espaço de encontro e convívio, urbano por natureza. Espaço este que se conforma por várias aberturas no tecido urbano que direcionam naturalmente os mais diversos fluxos em busca dos, também, mais diversos usos, que imprimem a esse espaço o caráter de lugar e ponto central de manifestação da vida pública. É, em sentido amplo, o espaço para a troca.
Acentua Saldanha (2005, p. 13) que a praça é um espaço amplo e sem construções, “que se abre, na estrutura interna das cidades, como uma confluência de ruas, ou de qualquer sorte uma interrupção nos blocos edificados. Um espaço onde, em geral, encontram-se árvores, bancos, eventualmente monumentos, em alguns casos, pequenos lagos artificiais”. Para ele (SALDANHA, 2005), a praça compõe organicamente o conjunto formado pela cidade.
Ao comentar que Saldanha justapõe a praça aos jardins, Colchete Filho (2008, p. 33) ressalta que “nas praças, as finalidades são mais genéricas, ligam-se ao espaço comum, comunitário. [...] o espaço da praça é mais complexo, pois é um desdobramento da produção econômica, da ordem política e da criação cultural”. Para Saldanha (2005), o conceito de praça indica o espaço público, comum, comunitário, ligado a amplas finalidades da vida social, como fins políticos, econômicos, religiosos ou militares. Observa ele que
[...] poderia lembrar as praças sagradas dos astecas ou os terraços votivos dos incas; a ágora grega, arqui-exemplar, e sua continuação, o fórum romano – ambos, mistura de mercado e local de encontros, inclusive para meetings políticos. A óbvia extensão espacial da praça não é apenas extensão espacial: ela corresponde a um significado social, correlato do próprio espírito da cidade onde se insere. (SALDANHA, 2005, p.15).
Destaca Saldanha, assim, o significado social do espaço da praça. À dimensão física está associada a dimensão sociorrelacional. Adverte ele, então, para o alcance público do que se venha a fazer na praça. Na visão do autor,
[...] a praça, caracterizada em todas as civilizações como espaço „público‟, não tira seu significado do mero fato da convergência de vias „públicas‟ Ela pode ser anterior às ruas, ao menos logicamente (ou estruturalmente) anterior. A rua, por sua vez, possui a mesma essência da praça, posto que todo o traçado urbano, que na praça se concentra, é algo público. A consagração histórica do fenômeno urbano significa, no fundo, a consagração ou consolidação da vida pública. (SALDANHA, 2005, p.44).
Colchete Filho realça a importância social do espaço da praça no conjunto da cidade, em razão da reunião de atividades no entorno, com as quais podem deparar seus frequentadores. Por conseguinte, entre as consequências dessa aglomeração está a atração de pessoas para seus limites. Relata ele que,
[...] ao longo da história, verificamos que é na praça que costuma se dar a presença do comércio mais intenso, das cerimônias públicas importantes, o que acaba por vincular um conteúdo simbólico forte às praças em geral. Por isso, as atividades de natureza comercial e cultural, preferencialmente em tempo integral, aliadas ao uso residencial, são tão características no entorno das praças, pois ampliam o potencial de uso coletivo que já possuem. (COLCHETE FILHO, 2008, p. 34).
A praça representa a expressão cultural urbana. Do ponto de vista de Alex (2008, p. 23) “a praça não é apenas um espaço físico aberto, mas também um centro social integrado ao tecido urbano”; além do valor histórico, permite a participação contínua na vida da cidade, como lugar de convívio social. Alex avalia a importância social da praça, nos usos e na linguagem; assinala ele que,
[...] mesmo sem o rigor urbanístico das plazas ou a herança arquitetônica das piazzas, a praça brasileira é igualmente enraizada nos hábitos de uso e da linguagem de seu povo. Fazem-se declarações à praça para tornar público um comunicado ou um aviso de perda de documentos. Preserva-se o bom nome na praça. Identifica-se praça com mercado para difundir produtos ou delimitar a aceitação de cheques. E, apesar das raras „plazas de armas‟ em nossas cidades, nossos soldados são treinados como „praças‟. (ALEX, 2008, p. 25).
DaMatta (1997, p. 44), em perspectiva histórico-antropológica, considerando as cidades ibéricas e brasileiras, explica que “a praça abre um território especial, uma região teoricamente do „povo‟. Uma espécie de sala de visitas coletiva, onde se situam em nichos especiais o poder de Deus, cristalizado na igreja matriz [...], e o poder do Estado, manifesto no palácio do governo”. Ao conferir especificidade de significado e origem às praças brasileiras,
Murillo Marx (apud ALEX, 2008, p. 24) destaca o caráter público e multifuncional desses espaços, ressaltando a origem religiosa, que, como praça de igreja grande e cuidada,
[...] transcenderia o papel de adro para tornar-se um fórum brasileiro [...], a praça como tal, para reunião de gente e para exercício de um sem-número de atividades diferentes, surgiu entre nós, de maneira marcante e típica, diante de capelas ou igrejas, de conventos ou irmandades religiosas. Destacava, aqui e ali, na paisagem urbana estes estabelecimentos de prestígio social. Realçava os edifícios; acolhia os seus frequentadores.
Opõe Marx (apud ALEX, 2008, p. 24) o desenho irregular da maioria dos espaços públicos brasileiros, em contraste com a regularidade do traçado das cidades da América espanhola, nas quais se instalavam ao redor da praça não apenas a igreja matriz, mas também os principais edifícios públicos. Além disso, enfatiza ele a ausência do poder civil demarcando esses espaços públicos, pois
[...] as praças cívicas, diante de edifícios públicos importantes, são raras entre nós. São exceções [...] E, quando o esforço comum erguia uma construção para este fim, era pouco provável que se situasse num ponto condigno como uma praça que acolhesse os cidadãos, valorizasse o significado do prédio ou tirasse partido de seu projeto arquitetônico mais elaborado [...] Uma desordem, enfim, que esconde o poder público, que não revela a sua efetiva existência, que não clarifica sua responsabilidade social, que não dignifica o viver republicano. (MARX apud ALEX, 2008, p. 24).
Representa a praça, portanto, a expressão cultural urbana. Como lugar de convívio social, possibilita a participação na vida da cidade. O espaço deve ser considerado em função da constituição de sistemas de interação. Ações e relações são ali empreendidas pelos atores sociais, que conduzem usos de acordo com padrões sociais em contextos que caracterizam a ordem legítima. Assim, as negociações para os usos sociais do espaço das praças se dão com base em padrões de comportamentos grupais que interferem nas ações individuais. Mas, para haver sociabilidade, os comportamentos de indivíduos e grupos devem convergir com determinada intencionalidade correspondida, que possibilite e sustente o processo de trocas sociais.
Podem ser notadas redes de interdependência em grupos que usam as praças. Estas teias de interdependência ou configurações dos mais diversos tipos autorizam refletir sobre as relações estabelecidas por indivíduos e grupos no ambiente das praças. A configuração
evidencia comportamentos enredados, formando estruturas entrelaçadas. No entanto, a utilização de redes sociais (networks), como suporte organizacional propiciada pelos avanços na tecnologia da informação e da comunicação, podem representar limitação para o uso social das praças. Pode-se estar fisicamente na praça, mas virtualmente conectado a outro lugar por meio da web.
Nas praças públicas prevalece a presença mútua em que pessoas em pontos diferentes podem observar outras pessoas e por elas também serem observadas, são os ajuntamentos. A situação é o ambiente espacial completo em que ao o adentrar uma pessoa se torna um membro do ajuntamento que já está presente ou que se constitui. Conceito também relevante é ocasião social, enquanto um acontecimento ou evento social mais amplo, limitado no espaço e no tempo; fornece o contexto social estruturante em que as situações e ajuntamentos transcorrem, e um padrão de conduta tende a ser reconhecido como apropriado. Interações nas praças podem ser explicadas como ocasiões sociais. A noção de ordem pública é pensada quando pessoas estão conscientes da presença de outras e podem estabelecer padrões comunicativos.
Quando são analisadas relações sociais nas praças o termo pedaço pode ser mencionado para tratar de um tipo particular de sociabilidade, uso e apropriação do espaço urbano. Podem as interações sociais estar situadas no pedaço, o qual se compõe do espaço e das redes de relações sociais estabelecidas. Ou ainda, ditos de outra forma, esses limites são definidos, ajustados e revisados por meio de regras e padrões que se repetem em cenários de negócios cotidianos organizados. Todavia, conforme o momento histórico, estar ou não nas praças pode ser sinal de distinção ou de reputação (boa ou má). A exposição pública pode não acarretar necessariamente o reconhecimento social por ventura desejado.
Deve-se destacar também que, ao se qualificar o espaço como público, presume-se que seja franqueado o acesso a todos que intencionem frequentá-lo. As dimensões do espaço em público e privado permitem pensar ainda as diferenças de comportamentos de indivíduos que vivem e moram nas ruas e nas praças, apropriando-se de forma particular de um espaço público. Cabe indagar se mantêm uma vida privada populações que fazem da praça sua casa. Neste sentido, o público e o privado estão relacionados com as desigualdades sociais.
Os usos e apropriações sociais das praças de São Luís têm variado conforme o momento histórico. Se hoje existe uma configuração socioespacial que permite sua utilização,
a trajetória para a construção desse acervo foi lentamente processada. Considerar as transformações urbanas no tempo e os recursos acionados socialmente possibilita perceber como foram sendo criadas as condições sociais objetivas para os usos atualmente conferidos pelos citadinos a esses espaços públicos.