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As praças públicas são lugares destinados na cidade às interações e sociabilidades. Os usos e apropriações sociais desses espaços por citadinos, individualmente considerados ou em grupos, conferem a esses locais a possibilidade de sua continuidade sócio-histórica, enquanto ambientes onde são produzidas e reproduzidas determinadas práticas, cultivadas civilidades e estabelecidos laços na vida social. Preliminarmente, um requisito que precisa ser referido como básico para assegurar o uso e apropriação social de um espaço é a permissão de acesso a ele, sem o qual não admite uso, muito menos apropriação. Ao levar em conta este aspecto, Carr (apud ALEX, 2008, p. 25) em sua obra Public space elabora uma classificação de tipos de acesso ao espaço público como físico, visual e simbólico ou social. Esquematiza ele que

[...] acesso físico refere-se à ausência de barreiras espaciais ou arquitetônicas (construções, plantas, água, etc.) para entrar e sair de um lugar. [...] Acesso visual, ou visibilidade, define a qualidade do primeiro contato, mesmo a distância, do usuário com o lugar. [...] Acesso simbólico ou social refere-se à presença de sinais, sutis ou ostensivos, que sugerem quem é e quem não é bem-vindo ao lugar. (CARR apud ALEX, 2008, p. 25).

Ao se analisar os usos e as apropriações sociais do espaço público nas praças de São Luís, com base nessa tipologia, buscam-se apurar determinadas condições que devem ser levadas em conta para estabelecer e manter situações sociais de interação. O estudo prestigia e está direcionado ao acesso no sentido simbólico ou social, que pode ser determinado pela presença de atores que podem ou não dificultar, embaraçar, inibir e impedir o acesso, atraindo ou repelindo frequentadores.

Por conseguinte, são expressas por indivíduos e grupos, de modo ostensivo ou velado, a aceitação e a rejeição da copresença no espaço das praças, e são negociados cotidianamente os ingressos, as permanências e mantidas as posições sociais. Essas circunstâncias expressam, então, “aquilo que acontece na rua, nas praças, nos vazios, aquilo

que aí se diz” (LEFEBVRE, 2009, p. 70); mas também a “língua da cidade: as particularidades próprias a tal cidade [ou praça] e que são expressas nas conversas, nos gestos, nas roupas, nas palavras e nos empregos das palavras pelos habitantes”, observando o que diz Lefebvre (2009, p. 70). Park considera que os usos fazem a cidade viva. Pontua ele que

[...] muito do que normalmente consideramos como a cidade – seu estatuto, organização formal, edifícios, trilhos de rua, e assim por diante – é, ou parece ser, mero artefato. Mas essas coisas em si mesmas são utilidades, dispositivos adventícios que somente se tornam parte da cidade viva quando, e enquanto, se interligam através do uso e costume, como uma ferramenta na mão do homem, com as forças vitais residentes nos indivíduos e na comunidade. (PARK, 1979, p. 27).

Assim, os usos e apropriações sociais do espaço público sofrem condicionantes de diversos fatores, que podem ser de ordem natural ou social. Interessa aqui apreender os fatores sociais que interferem com as possibilidades de acesso, uso e apropriação do espaço das praças, as quais podem ser aproveitadas como arenas ou palcos para as mais variadas atividades diárias. Como as interações, ações e relações sociais entre indivíduos e grupos ocorrem em determinados espaços, o senso de territorialidade deve ser apurado. O social é também espacializado.

Assim, na vida cotidiana, as relações sociais entre os citadinos transcorrem em certo espaço, com cenário e território delimitado, que pode ser concebido tal como um palco ou arena onde ocorrem os engajamentos e interações. A noção de territorialidade está associada a um espaço físico determinado, reservado à copresença de alguns atores que nele têm acesso para ingressos e saídas. A permissão para o trânsito, a chegada e a permanência é garantida com o emprego de estratégias que visem demonstrar o quanto algum pretendente à admissão nesse espaço é bem-vindo ou é considerado indesejado e percebido como intruso.

As ações sociais dos atores ocorrem, assim, em um território. Mais do que espaço apenas, ele é qualificado pela divisão, demarcação e delimitação social enquanto terreno de alguns grupos de frequentadores e usuários. Neste sentido, afirma Park (1979, p. 29) que

[...] a cidade está enraizada nos hábitos e costumes das pessoas que a habitam. A consequência é que a cidade possui uma organização moral bem como uma organização física e estas duas interagem mutuamente de modos característicos para se moldarem e modificarem uma a outra.

Não apenas individualmente considerados na qualidade de atores, mas, sobretudo, enquanto grupos, os agentes sociais selecionam determinadas frações do território em que tendem a se fixar. Dentro desses limites apropriados decidem usos particulares, próprios às suas condições objetivas. Os conflitos se intensificam quando esses perímetros não estão claramente demarcados ou são extrapolados. Por conseguinte, pode-se conceber o espaço das praças como vários territórios definidos idealmente (vendedores ambulantes, flanelinhas – por exemplo) e sobrepostos uns aos outros, disputados eventualmente por diversos atores sociais. Respeitar e acatar as determinações simbólicas desses limites representa sustentar as condições de copresença nesses espaços.

Mostra Park (1979, p. 27) que “existem forças atuando dentro dos limites da comunidade urbana – na verdade, dentro dos limites de qualquer área de habitação humana – forças que tendem a ocasionar um agrupamento típico e ordenado de sua população e instituições”. Essa perspectiva essencialmente espacial de Park

[...] auxiliou a desenvolver um sentido de lugar, mas com uma margem de ambiguidade, pois se a cidade constitui um fenômeno territorial, é sempre um desafio avaliar a extensão antropológica do mesmo, devido à significativa mobilidade espacial dos atores sociais (FRÚGOLI JR., 2007, p. 22).

Pode-se verificar nas idas às praças, a formação desses contornos territoriais. Para fazer referência a essa dimensão das relações sociais, Magnani (2003) sugere o uso do conceito “pedaço”. No espaço físico encontra-se uma determinada rede de relações sociais que atrai para o local determinados indivíduos com atributos semelhantes ou compartilhados, que conferem a ele a qualidade de ponto de encontro obrigatório. No pedaço é desenvolvida uma sociabilidade básica e estável, na qual prevalecem relações sociais informais.

Por conseguinte, o pedaço representa o espaço no qual está inserida determinada rede de relações sociais. Essas relações ocorrem fisicamente em um determinado ambiente, no qual são estabelecidos limites de copresença. Essa territorialidade contribui para a definição de fronteiras, mesmo que não demarcadas com claros limites dotados de marcos físicos, mas delimitadas por fronteiras simbólicas. O sentimento de pertencer a um grupo envolve a frequência a alguns espaços, que ratificam afetos e identidades individuais, personalíssimas e sociais. A construção social da rede de relações sociais é marcada pela conservação e

sustentação das situações de interação, o que implica o cumprimento de determinadas regras de lealdade, baseadas em atitudes como cumplicidade e conivência respeitosa. As redes combinam laços de parentesco, vizinhança e procedência, que permitem a seus integrantes reconhecerem-se em qualquer circunstância. A ação de escolha dos pedaços em todas as praças parece estar ligada ao ator social que se apropria e ao tipo de uso, o qual expressa as utilidades e funcionalidades buscadas naquele contexto socioespacial.

Na Praça Gonçalves Dias indivíduos e grupos estão de forma mais distribuída pelo território. Existem pontos de encontro ou pedaços onde determinados ajuntamentos se congregam e permanecem interagindo, mas todos os cantos são usados pelos atores sociais. Os estudantes da área da saúde da Universidade Federal do Maranhão preferem ficar em frente ao prédio, pois a proximidade possibilita acessos mais rápidos de retorno às dependências do edifício. Quem aguarda a missa na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios senta-se em bancos nas imediações, para onde se deslocam vendedores ambulantes desejosos de vender pipoca ou sorvete. Os skatistas preferem a parte central, sobretudo quando suspendem momentaneamente suas atividades desportivas, mas, como o piso é o mesmo em toda a Praça, exercitam sua prática e estão em todos os espaços.

De maneira um pouco diversa, na Praça da Ressurreição os territórios apropriados mais intensamente pelos atores sociais estão nas bordas e franjas, nas esquinas. O centro da Praça, com amplos degraus, praticamente não costuma ser usado, apenas em ocasiões extraordinárias como grandes eventos – festejos religiosos ou parques de diversão instalados por temporada. Na calçada ao largo da rua ficam as lanchonetes, onde se reúnem os jovens e demais frequentadores. Existe uma articulação, que se evidencia em expectativas, dos que estão conversando ou lanchando com os que transitam pela via pública, que muitas vezes aguardam para se sentarem às mesas ou serem convidados a participar das conversas. Nessas situações sociais, além da convergência de interesses, são recursos importantes que lançam mão os atores para obter prestígio em suas interações: ter o necessário para pagar seu lanche e o de algum convidado, bem como deixar entrever ou exibir um automóvel ou motocicleta em que se deslocaram até a Praça.

Na Praça do Conjunto dos Ipês os territórios e usuários estão mais dispersos, não se podendo identificar um espaçamento socioterritorial específico. Existe o pedaço para o qual convergem certas ações, como é o caso do abrigo no ponto final do ponto de ônibus, que é

apropriado por usuários do transporte coletivo e rodoviários. Por ser local de concentração de pessoas, instala-se vendedor ambulante para a oferta de pequenos lanches e doces. Ao redor do supermercado localizado na Praça estão as vagas de estacionamento destinadas aos fregueses do estabelecimento comercial, os quais ao posicionarem seus carros de maneira desordenada, por vezes obstruem o fluxo de pessoas e automóveis no local. A Associação de Moradores do Conjunto dos Ipês (ASCOPE), entidade comunitária que zela pela Praça, tem escritório nela instalado, onde funciona a administração, ocorrem reuniões e são cumpridas algumas obrigações dos associados. Ali seria o pedaço institucional da Associação de Moradores, a partir do qual se pretende zelar pela Praça e pelo Conjunto.

As praças apresentam, por conseguinte, suas particularidades. Limites socioespaciais, territórios, pedaços e redes de relações sociais são noções que permitem refletir as diferenciadas configurações socioespaciais. Os partícipes, ao interagirem individual ou coletivamente, produzem socialmente os espaços nos quais podem suceder os usos e apropriações. Indivíduos e grupos concorrem para a construção e atribuição de significados ao território. Singularidade e coletividade integram-se, com o exercício das intervenções sociais. Quando se busca compreender aspectos individuais e coletivos que influenciam a produção social de espaços, pretende-se empreender uma “interpretação mais clara e mais realista da estrutura das conexões humanas, particularmente dos padrões sociais de conflito que nelas se fundamentam” (ELIAS, 2008, p. 26).

Nas praças predominam ações sociais com orientações em redes que permitem compartilhar o espaço. O espaço é produzido e reproduzido cotidianamente pelas ações reiteradas nas diversas manifestações dos atores atuantes nos engajamentos. Nisto consiste a eficácia das ações coletivas, como recursos de pressão que resultam na imposição de certos usos e apropriações dos espaços, pois facilitam a percepção das fronteiras sociosimbólicas em razão do número de participantes, permitindo verificar quem são os indivíduos bem-vindos ou indesejados.

Nesse processo os atores reconhecem-se ou mantêm um maior distanciamento. Ser aceito como partícipe de um grupo requer uma série de atributos simbólicos, que conferem condições para o estabelecimento e a continuidade de engajamentos. Mesmo as relações sociais incidindo em um território no qual existe a proximidade física dos atores atuantes, o distanciamento simbólico pode permanecer. Se este for mantido, as oposições conflituosas

latentes tendem a se manifestar. Nesse momento, indivíduos e grupos declaram reconhecerem- se como rivais ou inimigos, relacionando-se a partir de então de acordo com esta orientação. Para Elias (1998, p. 17), as ameaças de conflitos “tem raízes nas relações dos grupos de pessoas, em suas atitudes e em seus sentimentos recíprocos”.

Os grupos tendem a não aceitar facilmente a presença de outros que concorrem para os usos dos espaços sociais das praças. Sejam integrantes de grupos de jovens ou expressando-se na categoria de skatistas, por vezes ocorrem conflitos decorrentes desse distanciamento social. Os antagonismos verificados estão relacionados a divergentes perspectivas do que é justo e legítimo nas condutas individuais e coletivas de acordo com os valores e sentimentos dos grupos. Os anseios de identidade e participação são reforçados pela reprodução de códigos de identificação, como linguajar partilhado, opiniões comuns sobre os outros e pontos de vista semelhantes que possibilitam a integração entre os membros dos ajuntamentos. As disputas podem ser graduadas, com manifestações que vão, desde uma demonstração de ansiedade em comportamentos intranquilos com gesticulações excessivas, apenas notadas em uma observação mais atenta, até embates que causam uma desordem pública.

A autorrepresentação de pessoas e coletividades, “característica de seu envolvimento cognitivo e narcisista, é com frequência uniformemente boa, enquanto rivais ou inimigos tendem, segundo sua ótica, a não ter nenhum mérito, sendo completamente maus” (ELIAS, 1998, p. 20). Sobre esses estereótipos, alguns agrupamentos expressam forte sentimento de nós e de pertencimento. Entre estes está o grupo voltado a prática de atividades esportivas e de lazer. Apesar de diversificados em suas procedências socioespaciais, em decorrência do propósito utilitarista de usar e apropriar-se do espaço da Praça Gonçalves Dias, apresentam sentimentos mais intensos de solidariedade entre si, reagindo com atitudes de indiferença a episódios extragrupais. Muitos se exercitam no skate, mas não há um grupo apenas e cada um deles tem suas barreiras de acesso.

Outra situação é percebida na Praça da Ressurreição. Tanto jovens quanto indivíduos mais velhos reconhecem facilmente, em razão de relações de vizinhança, a presença de estranhos recém chegados, o que pode despertar reações díspares, que vão desde bem receber com curiosidade até eventualmente caçoar dos que são considerados distantes ou diferentes.

Na Praça do Conjunto dos Ipês em que também predominam relações sociais entre conhecidos que se reconhecem como vizinhos, os estranhos advindos podem ser observados, mas são consentidos e aceitos. As atividades comerciais desenvolvidas no entorno da Praça necessitam de consumidores dos bens e serviços ali ofertados.

Aquele que se aproxima pode não ter sua condição de indivíduo destacada, mas ser visto como estranho com certas características. É possível, então, empregar essas noções para compreender as relações sociais nas quais estão envolvidos aspectos como proximidade e distanciamento. Conhecimento e percepções recíprocas sobre quem é tido como desconhecido ou familiar. Pode-se pensar que, ao identificar um indivíduo como estranho ou forasteiro, generalizam-se peculiaridades negativas, com as quais ele é tido como esquisito, extravagante, exótico, gerando desconfianças fundadas ou infundadas sobre quem se aproxima dos ajuntamentos. Elementos de um grupo não aceitam os de outro porque “eles não gostam da gente” ou “nós não gostamos deles”, com as mais diversas justificativas carregadas de percepções estereotipadas.

Circulam nas praças conhecidos e desconhecidos pela vizinhança, desejados ou indesejados. Com as noções de locais ou estranhos é possível perceber como os frequentadores identificam, lidam e tratam aqueles com quem não têm relações de familiaridade. Certamente, o que se achega é objeto circunstancial de curiosidade. Em caso de aceitação do recém chegado, inicia-se um processo de assimilação no qual o admitido procura ser acolhido, reproduzindo os modos do ajuntamento. Não existindo a boa recepção do forasteiro, a aproximação pode gerar dúvidas, incertezas, suspeitas, insegurança e medo.

Os usos e apropriações sociais do espaço público das praças comportam assim uma análise quanto ao fato de seus usuários, frequentadores ou transeuntes serem percebidos como estranhos, desconhecidos dos que estão presentes ali repetidamente. As relações sociais estabelecidas com estranhos e desconhecidos tendem a se desenvolver de maneiras diferenciadas em comparação com aquelas que são entabuladas por atores locais.

Pode-se caracterizar e delinear os diversos tipos sociais que usam alguns espaços da cidade. Trajes diferentes dos padrões determinados para aqueles espaços sociais frustrariam expectativas quanto ao que se quer ver e mostrar. Não observar esses modelos de vestir e portar-se, poderia confirmar o fato de não estar habilitado a se engajar em algumas interações sociais. Nas praças investigadas pode-se notar nos usos, vestimentas e adereços de indivíduos

e grupos o pertencimento ou não aos ajuntamentos locais. Por mais que se anuncie um tipo comum de traje da sociedade global, as especificidades são mantidas. Podem ser então percebidas as diferenças entre os grupos nos trajes, identificando-se com facilidade skatistas, guardadores de veículos, estudantes uniformizados, policiais militares.

Em diversos momentos o estranhamento provoca sentimentos socialmente estruturados de ansiedade, espanto e medo em decorrência da sensação de insegurança provocada pelo não reconhecimento do provável parceiro de interação. O receio de arriscar-se em uma aproximação com indivíduo desconhecido, muitas vezes ocasiona evitar contatos e interações, sendo o indivíduo ignorado pelos demais presentes, deixado à parte dos processos de trocas sociais. No entanto, como afirmado, é possível também pensar o local e o estranho segundo o pertencimento ao “pedaço”, segundo define Magnani (2003). O fato de indivíduos estarem situados em redes específicas de relações sociais com liames de parentesco ou de vizinhança, tendo familiaridade entre si, permite ser reconhecido em qualquer ocasião.

A discussão referente ao ser local, conhecido, familiar ou ser estranho, desconhecido, não familiar está ligada à diversidade de procedência dos frequentadores do espaço social das praças de uma cidade com grandes dimensões como São Luís. Essas diferenças podem trazer insegurança e até medo ou receio no contexto das relações sociais nesse espaço público, privando, assim, em determinadas casos, os atores das expectativas de interações.

Quando transcorrem os momentos de copresença, as atitudes variam de acordo com o maior ou o menor envolvimento dos participantes, em interações focadas ou desfocadas, como diz Goffman (2010). Para estabelecer interações e preservar situações sociais determinados recursos práticos – aparências, atitudes, expressões, expectativas, perspectivas, linguagem verbal e corporal, convenções normativas, par de adjacência10 – são empregados e controlados. Desse modo, para interpretar as ações sociais devem ser considerados os contextos nos quais elas se desenvolvem e os referenciais a partir dos quais os atores aí presentes pautam suas condutas.

10 “Esse conceito [par de adjacência ou par-adjacência] incorpora a observação de que certos tipos de atividades são convencionalmente organizados como pares tais que a produção de um primeiro membro do par tanto projeta quanto requer que uma segunda ação, complementar, seja produzida „em seguida‟ pelo receptor da primeira. [...] O posicionamento adjacente proporciona a contínua atualização das compreensões intersubjetivas” (HERITAGE, 1999, p. 372).

No anseio de manter uma situação que favoreça a interação e o estabelecimento de relações sociais, os indivíduos procuram certas maneiras para instituírem contatos e permitir a comunicação. Tentam sustentar um controle ao mesmo tempo de suas atitudes, aparências, linguagens fonéticas e corporais. Assim sendo, considera-se determinado conjunto de componentes sociais que reunidos concorrem para os usos e apropriações das praças.

Nesse contexto de copresença, são observados os ritmos e comportamentos. Diariamente, são produzidas ações de usos e apropriações do espaço social das praças, com seus significados locais percebidos, interpretados e sustentados no cotidiano da cidade. A vida citadina pode ser pensada como organizada conforme dois registros,

1. Os comportamentos, cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia (saudações, palavras „amistosas‟, pedidos de „notícias‟), o ritmo do andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de „se portar‟ no espaço do bairro: o bom comportamento „compensa‟, mas o que traz de bom? A análise tem aqui enorme complexidade: não depende tanto da descrição, mas, sobretudo, da interpretação. Esses benefícios deitam suas raízes na tradição cultural do usuário, não se acham jamais totalmente presentes à sua consciência. Aparecem de maneira parcial, fragmentada, no modo como caminha, ou, de maneira mais geral, através do