A escola em questão é uma instituição de ensino municipal, situa-se num bairro popular da cidade de Uberlândia, em Minas Gerais. Tal escola funciona em dois turnos manhã e tarde e atende no total de 900 estudantes, 82 professores e 34 funcionários contando com uma diretora e duas vice-diretoras. No quadro 3, detalhamos a quantidades de estudantes no turno da tarde da escola Criança Feliz:
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QUADRO 3 - Quantidade de turmas do Ensino Fundamental da Escola Crianças Felizes no turno da tarde no ano de 2013
Anos de escolarização do
Ensino Fundamental Número de Turmas Número de estudantes
Primeiro ano 4 100
Segundo ano 3 81
Terceiro ano 7 167
Quarto ano 3 96
TOTAL 17 444
Fonte: Secretaria da escola Crianças Felizes-2013
A escola atende não apenas crianças do bairro em que está localizada, mas também à crianças de nove bairros populares adjacentes. O espaço físico total da escola é grande, são 18 salas de aula, um quiosque, uma quadra coberta, uma área aberta gramada, uma área com pés de mexerica, pés de limão e laranja, um pátio coberto com um palco de cimento, uma sala de informática, uma sala de projetos, uma cantina, sala dos professores, sala da diretora, sala das supervisoras pedagógicas, secretaria, banheiro masculino e feminino das crianças e banheiros masculino e feminino dos professores da escola, almoxarifado, biblioteca, área aberta dentro da escola usada como estacionamento e uma sala reservada para guardar materiais escolares, com uso restrito à diretora, vice-diretora e supervisoras.
As aulas das crianças do turno da tarde são divididas da seguinte forma:
QUADRO 4- Distribuição de horários das aulas das crianças do turno da tarde da escola Crianças Felizes no ano de 2013 Horários Tempo 1º Horário 13:00 às 13:50 2º Horário 13:50 às 14:40 3º Horário 14:40 às 15:45 4º Horário 15:45 às 16:35 5º Horário 16:35 às 17:25
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As salas de aula são espaços relativamente grandes, porém pouco ventiladas possuindo apenas janelas basculantes em um dos lados da sala, um ventilador de teto e uma porta que fica mais fechada para conter barulhos externos, uma vez que a escola foi construída com as portas das salas voltadas para um grande corredor, com isso, qualquer barulho percorre o corredor e acaba atrapalhando as aulas. A seguir, nas fotografias 4 e 5, podemos perceber melhor o espaço e o mobiliário da sala de aula em questão:
FOTOGRAFIA 4 - Interior da sala de aula da turma Crianças Maravilhosas da Escola Crianças Felizes. 24/03/2013. Fonte: Arquivo da pesquisa.
FOTOGRAFIA 5 - Interior da sala de aula da turma Crianças Maravilhosas da Escola Crianças Felizes. 24/03/2013. Fonte: Arquivo da pesquisa.
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Na fotografia 6, apresentada na sequência, podemos visualizar o grande corredor em torno do qual se articula todo o espaço da escola, inclusive das salas de aula.
FOTOGRAFIA 6 - Grande corredor da escola Crianças Felizes, o qual interliga todas as salas de aula. 24/03/2013. Fonte: Arquivo da pesquisa.
Os dois banheiros das crianças, sendo um feminino e outro masculino, foram reformados em julho de 2013; ambos possuem o mesmo acabamento, as mesmas cores e o mesmo tamanho total, tal como apresentado na fotografia 7 abaixo:
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O bebedouro coletivo da escola, - desde 2011, ano em que conhecemos a escola e começamos a desenvolver atividades com as crianças de outras turmas - necessitava ser instalado em outro espaço, pois originalmente localizava-se defronte aos banheiros feminino e masculino. Abaixo, na fotografia 8, apresentamos o bebedouro antes de ser desmanchado no final do ano de 2013:
FOTOGRAFIA 8 - Antigo bebedouro da escola Crianças Felizes. 24/03/2013. Fonte: Arquivo da pesquisa.
Em outubro de 2013, a escola Crianças Felizes conseguiu obter com a Secretaria Municipal de Educação, um bebedouro de metal com água gelada e a construção de um novo que foi construído ao lado da cantina; segundo a vice-diretora do turno da tarde o antigo bebedouro será demolido por não seguir as regras de higiene e a localização adequada. Essa
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conquista se deve as diversas reclamações dos professores, funcionários da escola e pesquisadores, os quais perceberam a necessidade de um novo bebedouro que fosse longe dos banheiros. As fotografias 9 e 10 apresentam os novos bebedouros, primeiramente o de água gelada e a segunda retrata o bebedouro comum, reconstruído próximo a cantina e distante dos banheiros:
FOTOGRAFIA 9 - Bebedouro com água gelada. 11/11/2013. Fonte: Arquivo da pesquisa.
FOTOGRAFIA 10 - Novo bebedouro reconstruído ao lado da cantina da escola Crianças Felizes. Fonte: Arquivo da pesquisa.
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A cantina tem um tamanho adequado que comporta os seus 444 estudantes durante as refeições. O pátio é coberto e tem um tamanho médio, entretanto, fica pequeno de acordo com a quantidade de crianças que ali está, por isso a escola realiza 3 recreios durante o turno escolar da tarde que são divididos da seguinte forma:
QUADRO 5- Quadro de horário dos recreios do turno da tarde da escola Crianças Felizes no ano de 2013
Horário Tempo Turmas/salas
1º Recreio 14h40min às 14h55min
1ºs anos salas 01, 02, 03 e 04 2ºs anos salas 05 e 06
2º Recreio 15h00min às 15h15min
2º ano sala 07
3ºs anos salas 08, 09, 11, 12 e 13
3º Recreio 15h20min às 15h35min
3ºs anos salas 14 e 15 4ºs anos salas 17, 18 e 19
Fonte: Secretaria da escola Crianças Felizes-2013
FOTOGRAFIA 11 - O pátio coberto da escola Crianças Felizes onde fica o palco. 25/08/2013. Fonte: Acervo da pesquisa.
Ao lado do pátio coberto, tal como se vê na fotografia 11, e entre os banheiros das crianças, havia uma área descoberta que também servia como área de brincadeiras e conversas
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das crianças no recreio, porém estava descoberta e o calor do sol acabava por dificultar o uso daquele espaço. O professor de Artes da escola teve a belíssima ideia de cobrir e enfeitar aquele espaço com mídias de vinil e CDs. O resultado, podemos conferir a seguir na fotografia 12:
FOTOGRAFIA 12 - Área aberta que foi coberta com CDs pelo professor de artes da escola Crianças Felizes. 11/11/2013. Fonte: Acervo da pesquisa.
A sala dos professores tinha um computador, uma geladeira e um micro-ondas onde todos os aparelhos eletrônicos estavam em bom estado de conservação e ainda, uma mesa grande e umas cadeiras; a secretaria, a sala das supervisoras e da diretora e vice-diretora são muito pequenas; a biblioteca escolar é uma sala multiuso, ali são feitas reuniões, encontros, atividades com as crianças, é também a sala de vídeo. Na fotografia 13 a seguir, podemos observar parte da biblioteca da escola:
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FOTOGRAFIA 13 - Biblioteca da escola Crianças Felizes que também serve como sala de reuniões, sala de vídeo e outros encontros. 25/08/2013. Fonte: Acervo da pesquisa.
Nas áreas laterais da escola podemos encontrar uma área grande, gramada, que fica ao lado do estacionamento dos carros de funcionários e professores da escola. Havia sombra de uma única árvore neste espaço, como podemos ver abaixo, na fotografia 14; entretanto, tal espaço livre foi muito utilizado em atividades com as crianças na presente investigação:
FOTOGRAFIA 14 - Área externa da escola Crianças Felizes utilizada para as atividades com as crianças. 25/08/2013. Fonte: Acervo da pesquisa.
Na fotografia 15 podemos visualizar que a escola também possui um quiosque e um espaço lateral a essa edificação para o cultivo de horta, a qual se encontrava desativada no momento da presente pesquisa. O espaço do quiosque tornou-se um espaço muito importante
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para a pesquisa, pois diante da superlotação da escola apresentou-se como local em que podíamos realizar atividades com as crianças de maneira mais tranquila e arejada.
FOTOGRAFIA 15 - Quiosque da escola Crianças Felizes com área destinada á horta na sua esquerda. 25/08/2013. Fonte: Acervo da pesquisa.
FOTOGRAFIA 16 - Quadra de esportes coberta da escola Crianças Felizes. 25/08/2013. Fonte: Acervo da pesquisa.
A Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996 que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no tocante dos Princípios e Fins da Educação apresenta as seguintes considerações:
Art. 3º. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
59 II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o
pensamento, a arte e o saber;
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância;
V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII - valorização do profissional da educação escolar;
VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino;
IX - garantia de padrão de qualidade;
X - valorização da experiência extraescolar;
XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. (Brasil, 1996, p. 2, grifos nossos).
Tal como se observa acima, a lei prevê e estabelece igualdade de condições para o acesso e permanência e a garantia de padrão de qualidade na escola, a valorização de experiências da vida e a vinculação da escola com o trabalho e com as práticas sociais; princípios dentre outros que sublinham a necessidade de que todas as escolas deveriam ser compostas de espaços de qualidade vinculados às necessidades e possibilidades de seus sujeitos e ao tipo de trabalho realizado. Para Soares (2008, p. 71), a escola colabora para a preservação do não cumprimento da lei, das discriminações econômicas e sociais, legitimando o poder da classe dominante e negando à classe dominada condições de sucesso. A lei não é feita para as pessoas, cumpre apenas o papel de existir.
Além da parte física da escola, há também pessoas que frequentam esse espaço e nele trabalham ou estudam; é o caso dos estudantes, funcionário, as famílias dos estudantes e outras pessoas que por ali circulam. Organizamos essas pessoas em grupos para melhor caracterizá-las de acordo com suas funções e apresentá-las.
Funcionárias da limpeza e da cozinha
Eram aproximadamente 8 profissionais no turno da tarde, todas as mulheres com idades entre 27 a 50 anos, elas ficavam responsáveis por limpar a escola, por fazer a merenda das crianças e revezavam para supervisionar as crianças durante o recreio. Pelo tamanho da escola, e pela quantidade de salas de aula e demais espaços, por exemplo, quiosque, quadra, pátio, área externa, e os outros espaços, o trabalho acaba sendo maior do que o número de funcionários, sobrecarregando o serviço. A carga horária exaustiva, o excesso de trabalho, falta de treinamento adequado e o baixo salário são fatores que pesam nos relacionamentos com os outros, principalmente com as crianças que eram as mais prejudicadas. Percebemos na
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convivência com essas profissionais uma necessidade de capacitação dessas para estarem com as crianças.
Secretárias da escola
A escola Crianças Felizes tinham duas secretárias do sexo feminino que trabalhavam na secretaria no turno da tarde. Tais funcionárias tinham as seguintes funções: atendimento de pais e da população dos bairros, atender telefonemas, ligar para os pais quando havia necessidades, matrículas passar notas dos diários das turmas para o sistema, tirar xerox para as professoras, entre outras tarefas.
Supervisoras pedagógicas
No período da tarde, a escola Crianças Felizes dispunha de duas supervisoras pedagógicas do sexo feminino, uma responsável pelas turmas dos primeiros e segundos anos e a outra responsável pelas turmas dos terceiros e quartos anos. Buscavam dialogar com as professoras, as crianças e demais pessoas; resolver problemas cotidianos da escola como brigas entre as crianças e curativos em pequenos ferimentos, atender e conversar com os pais, além de organizar com as professoras o trabalho pedagógico na escola.
Diretora e vice-diretoras
Em cada turno de funcionamento da escola havia uma vice-diretora diferente, sendo a uma mesma diretora para os dois turnos da escola. A diretora, juntamente com a vice-diretora do turno da tarde, no qual realizamos a presente pesquisa, trabalhavam para resolver conflitos, escutar as crianças, tentar compreender o lado humano das relações entre as crianças com seus pares e os adultos e dialogar com todos. Além de cuidarem da parte administrativa da escola, a diretora e a vice-diretora do turno da tarde, sempre nos recebiam com muita simpatia, propiciavam uma abertura para expormos os problemas que enfrentávamos alguns questionamentos e algumas sugestões sobre encaminhamentos da pesquisa.
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A vice-diretora tinha um contato mais direto com as crianças durante o recreio e no cotidiano da escola. Já a diretora cuidava da parte administrativa e de problemas pontuais dos estudantes e seus familiares. Também ficava responsável por definir parcerias em projetos, estágios e outros programas, além de estabelecer ligações da escola com a Secretaria Municipal de Educação.
De maneira geral, a escola Crianças Felizes tinha 34 funcionárias nos dois turnos, todas do sexo feminino, com idades entre 25 a 45 anos e formação que variava do ensino fundamental completo ao ensino superior. No quadro 6 abaixo, representamos o grupo geral de funcionários da escola Crianças Felizes no turno da tarde:
QUADRO 6 - Caracterização geral de profissionais da escola Crianças Felizes no turno da tarde Cargo ocupado na escola Nº de Funcionários efetivos Nº de Funcionários
contratados Assistente de Serviço Geral
(A.S.G) 5 3 Bibliotecária 1 0 Secretária escolar 2 0 Supervisora 2 0 Diretora 1 0 Vice-diretora 1 0 TOTAL 12 2
Fonte: Secretaria da escola Crianças Felizes-2013
De maneira geral, podemos dizer que a escola em questão, assim como outras instituições escolares, continua a tentar moldar e disciplinar as crianças tanto em termos do currículo trabalhado, quanto nas relações cotidianas. Kincheloe (2004) compreende que a escola precisa ser reestruturada tanto curricular quanto conceitualmente:
[...] Não achamos exagerado arguir que à luz dessas mudanças culturais as escolas tem que ser reformuladas desde os fundamentos. Geralmente o currículo escolar é organizado como uma sequência contínua de experiências desenvolvidas como se as crianças aprendessem sobre o mundo na escola, num desenvolvimento progressivo. Esforços conservadores para proteger organizações escolares antiquadas e as noções tradicionais de infância que as acompanham são de alguma forma incompreensíveis e cada vez mais predestinadas ao fracasso. Não podemos proteger nossas crianças do
62 conhecimento do mundo que a hiper-realidade lhes torna acessível. (KINCHELOE, 2004, p.34)
Que a escola precisa mudar é fato, mas o que tem sido feito para que essa mudança aconteça de fato? Moreira (2003) vem nos dizer que a escola está sendo chamada a lidar com a pluralidade das culturas, inclusive acadêmicas:
O que caracteriza o universo escolar é a relação entre as culturas, relação essa atravessada por tensões e conflitos. Isso se acentua quando as culturas crítica, acadêmica, social e institucional, profundamente articuladas, tornam- se hegemônicas e tendem a ser absolutizadas em detrimento da cultura experiencial, que, por sua vez, possui profundas raízes socioculturais. Em vez de preservar uma tradição monocultural, a escola está sendo chamada a lidar com a pluralidade de culturas, reconhecer os diferentes sujeitos socioculturais presentes em seu contexto, abrir espaços para a manifestação e valorização das diferenças. É essa, a nosso ver, a questão hoje posta. A escola sempre teve dificuldade em lidar com a pluralidade e a diferença. Tende a silenciá-las e neutralizá-las. Sente-se mais confortável com a homogeneização e a padronização. No entanto, abrir espaços para a diversidade, a diferença, e para o cruzamento de culturas constitui o grande desafio que está chamado a enfrentar (MOREIRA, 2003, p. 161).
Abrir espaços para as diversas culturas tem sido um grande desafio para a escola, como bem coloca o Moreira (2003).
As Professoras regentes da turma Crianças Maravilhosas
Uma pessoa importante no trabalho com as crianças foi à professora regente da turma do 3º ano que compartilhou o desenvolvimento desta pesquisa no primeiro semestre e nos últimos meses de 2013. As crianças do 3º ano turma Crianças Maravilhosas e outras turmas passaram por trocas de professores no meio do ano letivo por determinação da Secretaria Municipal de Educação, na qual, por sua vez, cumpria a determinação do Ministério Público de Uberlândia que ordenou a contratação e posse dos professores aprovados no último concurso público.Os estudantes do 3º ano da turma Crianças Maravilhosas ficaram sem a professora regente de Junho até o final do mês de Agosto de 2013. Neste período, as crianças passaram por duas professoras contratadas na espera da chegada da tão esperada professora efetiva, o que não aconteceu. A professora regente foi recontratada pela prefeitura a pedido da diretora
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da escola Crianças Felizes por ter considerado que o rendimento e a aprendizagem das crianças da turma Crianças Maravilhosas foi prejudicado com o afastamento da mesma.
Até o final de 2013, nessa turma Crianças Maravilhosas, passaram quatro professoras diferentes contando com a professora regente do primeiro semestre. A seguir descreveremos primeiramente a professora regente que esteve com as crianças no primeiro semestre e final do segundo semestre de 2013, em seguida, apresentaremos as duas outras professoras dessa turma.
A Professora Bela
A professora Bela9 tem 32 anos, solteira, tem Especialização em Inspeção Escolar (2008), formada em Pedagogia (2005) e trabalha com ensino fundamental há 8 anos. Na sala de aula da turma Crianças Maravilhosas o comportamento da professora Bela se revelava na exigência quanto ao comportamento das crianças no desempenho das atividades em sala, na participação das crianças na correção dos exercícios. Às vezes ríspida, gritava e ofendia as crianças com palavras do tipo: "Vocês não são capazes!"; "Já mandei calar a boca!"; "Vocês não sabem de nada!"; "Isso é muito fácil, vocês já tinham que saber!"; "Senta na carteira"; "Não vou me preocupar tanto com vocês".
Gestos de delicadeza, carinho, respeito com as crianças aconteciam com menos frequência se comparar às vezes de agressividade e rispidez. A professora participou de algumas atividades da pesquisa com as crianças, mas fazia muitas intervenções durante as ações, gritava com as crianças querendo nos auxiliar, mas desautorizava o nosso acordo de com elas de respeitar o outro. Estabelecíamos os consentimentos com as crianças antes de começar as atividades. Apesar do pouco cuidado no trato com as crianças, elas gostavam da professora Bela, tinham respeito por ela mesmo sendo desigual essa relação de carinho. Muitas vezes presenciamos abraços e beijos das crianças na professora, até cartinhas amorosas ela recebia.
Nas observações do trabalho de sala de aula que realizamos no início da pesquisa tivemos a oportunidade de estar na sala com as crianças e conhecer a professora de religião e literatura. Depois dessa experiência marcante, percebemos o porquê das crianças gostarem da
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professora regente, mesmo sendo pouco afetiva Bela ainda foi mais aceitadora e respeitosa com as crianças do que as outras duas professoras que a sucederam.
A afetividade dos estudantes com a professora revelava-se em diversos momentos em que estávamos presentes na sala de aula. As crianças do 3º ano Crianças Felizes tinham fartura de carinhos e cuidados com os adultos da escola. Sabemos que essas relações afetivas são muito importantes no processo ensinar-aprender. Sobre isso, Tassoni (2000) explica que:
A relação que caracteriza o ensinar e o aprender transcorre a partir de vínculos entre as pessoas. É a partir da relação com o outro, através do vínculo afetivo que a criança vai tendo acesso ao mundo simbólico e, assim, conquistando avanços significativos no âmbito cognitivo. No decorrer do desenvolvimento, os vínculos afetivos vão ampliando-se e a figura do professor surge com grande importância na relação de ensino e aprendizagem, na época escolar. “Para aprender, necessitam-se dois personagens (ensinante e aprendente) e um vínculo que se estabelece entre ambos. (...) Não aprendemos de qualquer um, aprendemos daquele a quem outorgamos confiança e direito de ensinar” (TASSONI, 2000, p. 2 e 3).
Percebemos que a professora Bela se preocupava com o aprendizado das crianças, estava atenta àquelas que não faziam as atividades e buscava entender os porquês disso acontecer. Corrigia todas as atividades no quadro, mas rotulava explicitamente as crianças: "Você é a melhor estudante da sala!"; "Você nunca faz nada e desse jeito não vai passar de ano"; "Você não é capaz de entender nada, eu desisto de você!".
De fevereiro a abril de 2013, fiquei na sala de aula da turma Crianças Maravilhosas das 13h00min ás 17h25min; obervando as crianças, propondo uma vez por semana atividades sobre o brincar, o brinquedo e para conhecê-las melhor; levando a sacolinha de gibis e a caixinha de materiais escolares como lápis, borrachas, réguas, lápis de cor, lápis de cera, canetinhas, apontadores para as crianças. Neste período, a professora Bela não colaborou com o empréstimo de materiais escolares às crianças, brigando com elas, impedindo que levantassem das carteiras para escolher os materiais, chegou ao ponto de me proibir de trazer a caixinha com os materiais escolares para as crianças. Os gibis nos primeiros dias também foram de difícil aceitação por parte da professora Bela que reclamava que as crianças deixavam de fazer as atividades para ver os gibis. Porém, depois de algumas semanas, acabou cedendo e passou a questionar bem menos sobre as revistinhas para as crianças.