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In document Forskningsbarometeret 2012 (sider 79-89)

“Maria Mandioca”910, desvelada pela velha senhora de modo a distanciar-se afectiva, familiar,

etária e socioeconomicamente da rapariga que se opunha à venda d’«os santinhos»911:

“A rapariga era muito mulata, muito nova, e tinha gestos quase selvagens que me chocavam. Estava mal penteada, vestida sem cuidado. Só pela familiaridade com que tratava a outra se via não poder ser uma criada. O que devia era fazer trabalhos de criada, e ter vivido afastada do que se chama a sociedade, ou vida mundana. Além disso, e ao contrário da outra, não estava preparada para aparecer.”912

E, realmente, o anexim composto “Maria Mandioca” indica etimologicamente a humilde condição socioeconómica desta personagem, conforme já analisado num momento anterior. Assim, este designador vai servir de base a esta personagem que, com tal condição, é constantemente repudiada, quer fisicamente, quer pelo seu carácter, sendo até uma única vez referencializada como “estafermo”913.

Além disso, acaba por ser predominantemente apresentada e referencializada como “a afilhada”914 da velha senhora, de modo a apenas se justificar, através de um compromisso

sociorreligioso, a sua presença e trato familiar, e a menosprezar-se algum laço afectivo ou de empatia. Na verdade, o seu verdadeiro nome — “Maria Felícia”915 — acaba por ser

desvalorizado916, tal como a personagem que o fundamenta. Assim, a etimologia que o

sustenta917 — a da felicidade e da sorte — deixa-se ocultar pela infelicidade, pelo infortúnio,

pois que no isolamento, no afastamento afectivo e no repúdio social.

Em “Marina e a Camélia”, o designador “Marina” assegura, na sua etimologia918, uma

personagem vivaz e enérgica (não obstante os vários obstáculos representados nas suas debilidades físicas, económicas e familiares):

“Diante de mim, vai saltitando no passeio a Marina. Saltitando e manquejando, (uma coisa não lhe impede a outra) porque tem um pé meio entrapado, do qual só pousa no chão o calcanhar. Seis anos? Sete anos? As pernitas nuas e roxas. Qualquer pano como uma pequena saia travada lhe fica por cima da dobra do joelho, amarrado à cinta sobre um aproveitamento de camisola surrada que lhe cerca o busto raquítico. Leva uma garrafa vazia na mão inchada de frieiras,  vai, decerto, a um recado…

908 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 227. 909 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 228. 910 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 230. 911 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 228. 912 Cf. José Régio, Ibidem.

913 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 231. 914 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 229 e 234. 915 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 230.

916 Apenas uma única vez é apresentado o nome composto “Maria Felícia”, de modo a identificar a

personagem que porta o anexim de “Maria Mandioca” (Cf. José Régio, Op. Cit., p. 230).

917 A palavra “Felícia” tem, na sua base etimológica, o adjectivo felix, icis (Cf. José Pedro Machado, Op.

Cit., vol. II, p. 630), cujos significados dizem respeito a, entre muitos, ‘fértil; feliz; com sorte,

favorecido pelos deuses; de bom augúrio; salutar’ (Cf. F. Gaffiot, Op. Cit., p. 658 e AAVV, Dicionário de

Latim Português, pp. 479-480).

918 O vocábulo “Marina” deriva etimologicamente do adjectivo marinus, a, um (Cf. José Pedro Machado,

Op. Cit., vol. II, p. 949), cujos significados dizem respeito a ‘marinho, de mar’ (Cf. F. Gaffiot, Op. Cit,

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Cortaram-lhe o cabelo, que ainda conheci todo aos caracóis de oiro; cortaram-lho rente, como o dum rapaz da casa de correcção. Teve, talvez, alguma doença na cabeça! Ou talvez bichos de mais. Vou atrás dela, encolhido na minha gabardina, e ponho-me a reparar em todos estes pormenores com uma atenção porventura um pouco mórbida. Este gelado e soturno Janeiro ataca-me os nervos…”919

Tal como o mar e a vida nele presente, há nesta personagem uma constante de carácter: a da vitalidade. Existe, ainda, uma particularidade a salvaguardar no designador desta personagem: a musicalidade do mesmo que conota a alegria e a inocência de uma personagem infantil que não estava consciente da infelicidade que vingara no seu passado, povoava o presente e pairava sobre o seu futuro:

“Mas a Marina vai saltitando e cantarolando; apesar do frio, do pé entrapado e das frieiras. Não parece infeliz! Talvez se sinta contente,  a infância dispõe de infinitos recursos. Teria tido, na verdade, qualquer doença na cabeça? Ou cortaram-lhe os caracóis pela tal conveniência, de modo que mais parece um rapazito com um trapo à cinta? A mãe de Marina, que também era minha vizinha, morreu há dois anos. A respeito do pai de Marina, temos conversado! Nunca se soube nada. Creio que, na vizinhança, toda a agente sempre mais ou menos admitiu sem dificuldade que a Marina tivesse nascido sem pai. Nascem vários garotos assim num certo meio. Quem tomou conta dela, depois da morte da mãe, foi uma prima também pobre, que mora mais abaixo, e, além de pobre, é velha e asmática.”920

Dulce, personagem secundária de “Sorriso Triste”, representa uma jovem rapariga por quem o narrador-protagonista se apaixonara também na sua juventude. Inicialmente apresentada num cenário eminentemente socioeconómico e mundano abastado, é acrescentado ao designador prenome que a referencializa, o axiónimo abreviado de origem estrangeira “M.elle”. Conquanto haja, assim, uma tentativa de integrar esta personagem num ambiente social distinto, esta extingue-se rapidamente, pois que “M.elle Dulce”921 não é

contemplada com um apelido (que se desconhece ou o qual não é distinto e/ou sonoro) e denota-se mesmo pertencer a diferente estrato social:

“Mas não conhecia três raparigas a quem a dona da casa então me apresentou: M.elle

Vera Paiva, pianista reputada, além de muito distinta pintora de cravos, rosas e crisântemos; M.elle Maria Helena Campos, fascinante beleza loura que ainda só de longe admirara; e M.elle

Dulce… Dulce qualquer coisa sobre quem me não deram informação alguma sublinhado nosso. Compreendi que a sua própria apresentação não fora motivada senão por uma rudimentar amabilidade: Estava, nesse momento, junto das outras. Quanto ao seu apelido de família, tão

rápido ou confuso fora pronunciado que eu nem chegara a distingui-lo sublinhado nosso. Até nas

casas mais distintas são recebidas, não é verdade?, uma que outra vez, visitas cuja mediocridade não lustra em demasia o gosto da casa ou as exigências da dona.”922

919 Cf. José Régio, Obra Completa: Contos e Novelas, p. 382. 920 Cf. José Régio, Ibidem.

921 Cf. José Régio, Obras Completas: Histórias de Mulheres — Conto e Novela, p. 95. 922 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 95.

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