individuais, genuínos, que se opõem à conduta social meramente colectiva.
Neste âmbito, destacamos assim: Roberto do Diabo, em “Os Três Vingadores ou Nova História de Roberto do Diabo” (Há Mais Mundos); Silvestre, em “O Fundo do Espelho” (Há Mais Mundos); Maria Felícia, em “As Historietas dum Coleccionador de Antiguidades” (Há Mais Mundos); Marina, em “Marina e a Camélia” (Contos Dispersos); Dulce, em “Sorriso Triste” (Histórias de Mulheres) e Maria Eugénia, em “O Vestido Cor de Fogo” (Histórias de Mulheres). Roberto do Diabo representa, assim, o usurpador de um trono que os legítimos herdeiros da coroa procuram apartar, em função de cumprir uma promessa a seu pai, o rei deposto moribundo. Assim se justifica o designador/prenome acompanhado de aposto que primeiramente lhe é aplicado: “Roberto, o usurpador”881.
Aliado ao prenome que assegura a referencialização identificativa desta personagem — “Roberto” —, está o facto de este, etimologicamente, derivar do germânico hord ‘glória’ e berht ‘brilhante, ilustre’882. Na verdade, e conforme o narrador manifesta, este designador
denuncia a promessa de sucesso e excepcionalidade, que acabaria por se concretizar na sua subida, embora ilegítima, ao trono. Todavia, para se ser grande, há que pagar um preço maior, e esta notabilidade portaria consigo, também, outras feições de carácter funesto, obscuro, misterioso:
“Grandes manifestações de júbilo precederam e acompanharam o nascimento do menino. Era um menino, que foi baptizado com o nome de Roberto. Estranhos horóscopos (se dizia depois) haviam pesado sobre a sua cabecinha infantil. Estranhos: mas sinistros, ou gloriosos? Gloriosos ou sinistros? Ninguém chegara a desvendá-lo.”883
Por isso, ao designador/prenome “Roberto” que acompanha esta personagem desde jovem, é-lhe adicionado o designador/alcunha “do Diabo”, que traduz um traço que com ele amadurece: a maldade maquiavélica e o carácter sombrio e sinistro.
Entretanto, ao longo da acção, a RI predominante desta personagem varia entre “Roberto”, o homem excepcional, “o rei Roberto”, um soberano tirano, e “Roberto do Diabo”, o homem vil com contornos de carácter obscuro que recorre a todos os meios para atingir os seus fins. Porém, a certa altura, há uma correspondência do homem e do soberano à criatura má com contornos diabólicos. Na verdade, a ameaça que pairava sobre si e o seu trono, promovida por personagens misteriosas de carácter enigmático, sobrenatural e obscuro (o “Cavaleiro da Máscara”, o “Monge Negro” e “alguém”), geram nele um terror indizível pois que se equiparam ao que ele realmente é, um Ser sinistro:
“De sorte que já não só o Cavaleiro da Máscara povoava de pesadelos as noites do rei
Roberto; de Roberto do Diabo sublinhado nosso. Também, tal como lha descreviam e a fantasiavam, essa delgada figura do Monge Negro se lhe apresentava em sonhos não menos
881 Cf. José Régio, Obras Completas: Há Mais Mundos, p. 19.
882 Cf. José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial
Confluência, 1984, vol. III, p. 1266.
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terríficos, e lhe atirava ao pescoço a corda com que cingia o hábito à cinta. Por vezes se lhe misturavam no mesmo pesadelo os seus dois perseguidores. E então o rei Roberto mandava perseguir, mandava encarcerar, mandava torturar, mandava matar a torto e a direito, só porque nenhum dos seus homens era capaz de lhe trazer, vivo ou morto, nem um nem outro dos seus implacáveis inimigos. Haverá fera pior do que um tirano perverso e apavorado?”884
Silvestre, o protagonista de “Os Alicerces da Realidade”, é referencializado constantemente com o mesmo designador — o prenome — que, todavia, sofre distintas nuances significativas, consoante o determinante que o acompanha. Mais uma vez, este prenome tem uma origem etimológica que se revê inequivocamente no carácter e conduta desta personagem.
Assim, derivado do latim silvestris cujo significado se concretiza em ‘de floresta, silvestre, coberto de florestas, arborizado’885, “Silvestre” serve de referencialização a uma
personagem que se revela psicologicamente densa, complexa, inexplorável e insondável. Além disso, não se rende à sociedade e à respectiva vivência mundana; na verdade, é um Ser individual, solitário. Representa o isolamento, a pureza e a singeleza que encontramos na natureza e que se opõe ao artificialismo, à afectação e (con)vivência social e urbana:
“Recolhia a casa logo depois do café, entregava-se aos cuidados da sua colecção de selos, ou outras minudências com que se entretêm os solteirões. Porque Silvestre aposentara-se há uns meses, não era servido senão por uma velha criada de recados, e, desde que se aposentara, procurava encher a vida com uma série de pequenas ocupações calmas e simples.”886
Acontece que Silvestre, em dois episódios que marcam o início da diegese, manifesta traços de loucura, designadamente num passeio pedestre, afiguram-se-lhe imagens que espelham desenhos em que ele surge como personagem principal887 e, no jantar do ex-
-director, imagina-se rodeado de um cenário teatral interpretado por fantoches e não pessoas888, sendo que nele representava também um “mau actor Silvestre”889. Estas
vicissitudes marcam, assim, uma personagem privilegiada e alternadamente referencializada com os designadores “o nosso amigo Silvestre”890 ou apenas “Silvestre”891 e,
consequentemente, o portador de uma grande densidade psicológica.
Todavia, este estado de loucura não perdura nestes moldes; na verdade, no episódio do jantar com o ex-director, agrava-se. A complexidade que caracteriza este Ser ficcional atinge, então, patamares que se coadunam com um estado de loucura e de alienação excepcionais, pois que brota na mente alienada desta personagem a duplicidade de um/“o
884 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 30-31.
885 Cf. José Pedro Machado, Op. Cit., vol. III, p. 1349; F. Gaffiot, Dictionnaire Latin Français, 44ª ed.,
Paris, Hachette, 1990, p. 1442 e AAVV, Dicionário de Latim Português, «Dicionários Editora», Porto, Porto Editora, 1988, p. 1071.
886 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 195-196. 887 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 191-195. 888 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 201-203. 889 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 202. 890 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 191. 891 Cf. José Régio, Ibidem.