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In document Forskningsbarometeret 2012 (sider 60-67)

real”893.

Assim, subjugando-se ao lema e à vivência de que «A vida é um sonho»894, um eu

profundo imaginário — referencializado com os designadores “o actual nosso amigo Silvestre”895, “um Silvestre de hoje”896, ou simplesmente, “um Silvestre profundo”897 — surge

como uma força mental que estimula o pensamento e a criatividade de “um Silvestre de outrora”898, “um Silvestre superficial”899, gerando nele a ideia de que este último — o ainda

predominantemente referencializado como “o nosso amigo Silvestre” — estaria apenas a vivenciar um sonho e estimulando nele actos de loucura perante personagens e episódios que julga serem frutos oníricos900:

“Todavia, perfeitamente compreensíveis do ponto de vista de Silvestre: Para quem sabe que a realidade não passa de sonho, por certo se tornam duma petulância profundamente cómica  ou profundamente revoltante  os quadros-vivos da humanidade em que nos mexemos. Vê-los de muito perto, em pormenor, ou isolados, não pode senão agravar o caso.”901

“As maneiras, a linguagem, a conduta do nosso amigo Silvestre haviam evolucionado consideravelmente; o que não deve ser motivo de pasmo, dado que também os seus pensamentos eram agora outros. Sim, por que não obedecer aos impulsos, aos instintos, aos sentimentos, aos caprichos,  aliás, até, por vezes justiceiros  se tudo o que fazemos nos sonhos nada é, fica em nada, tudo é sonho…?”902

Densifica-se, assim, uma personagem que se revela profunda, inexplorada e inexplorável, como o próprio prenome que em todos os designadores se presentifica. Há, assim, nestas extensões vocabulares que se acrescentam ao designador simples que constitui o prenome, ramificações da sua complexidade que dificultam ainda mais a sua sondabilidade. Por fim, de modo a marcar o inequívoco destino de uma vivência num hospício, através da manifestação suprema do estado de loucura, da densidade inextrincável e da duplicidade desta personagem, acrescenta-se-lhe um outro designador resultante da visão de outro Silvestre, um aparente espectro que com ele se cruza:

“Uma tarde, ao chegar de fora depois dum dia esquisito (assim qualificava certos dias) Silvestre abriu a porta do seu quarto, deu dois passos, quando estacou súbito: Alguém estava deitado na sua cama. Era o lusco-fusco, por isso talvez Silvestre se não reconhecesse imediatamente. Logo no instante seguinte se reconheceu, e sem réstia de dúvida. Tanto mais que no quarto se fizera luz. Ora a luz tanto podia acender-se da cama, estendendo um pouco o braço,

892 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 202. 893 Cf. José Régio, Ibidem.

894 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 197. 895 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 204. 896 Cf. José Régio, Ibidem.

897 Cf. José Régio, Ibidem.

898 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 204-205. 899 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 205.

900 Como é o caso do vizinho mestre André alfaiate, a senhora Rosa Quitéria e seu marido polícia ou os

frequentadores do Café Central (Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 209-211).

901 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 211. 902 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 215.

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como à entrada do quarto. Silvestre não sabia qual dos dois a acendera. Tivera um choque violento e ficara com os olhos parados fixos em si mesmo que ali estava na cama, estirado, olhar por seu turno voltado para ele, isto é: para o Silvestre número dois sublinhado nosso que acabara de entrar. Assim frente a frente, os dois um só. Então, o Silvestre que estava de costas na cama soergueu-se um quase nada, e entreabriu os lábios como se quisesse falar; mas não teve senão um indício de sorriso… como direi?: pudibundo. Levantou a mão não sem custo, e, com o indicador, fez-lhe um pequenino sinal amigável, misterioso, como firmando um entendimento secreto. E mais nada, tinha desaparecido.”903

Na verdade, segundo “o nosso Silvestre”, representava este espectro “o primeiro Silvestre”904, ou seja, “o autêntico Silvestre”905 que criara no seu sonho um “Silvestre número

dois”906, que fora acirrado por um “Silvestre profundo”:

“E conhecer o outro Silvestre, o primeiro, o que estava dormindo e sonhando e assim gerava a aparência que, Silvestre número dois, ele era,  ia-se-lhe tornando uma verdadeira obsessão… Foi quando o milagre se deu! Silvestre viu-se; isto é, viu o primeiro Silvestre. Quero dizer que viu aquele autêntico Silvestre que o sonhava a ele, gerando a sua existência (aparência) só com estar dormindo e o estar sonhando; o qual autêntico Silvestre por sue turno não podia ter senão uma autenticidade relativa, uma flutuante realidade, pois também não dependia a sua existência senão do Grande Sonhador que sonhara ou sonhava tudo…”907

A referencialização desta personagem e respectivo percurso fazem, assim, jus à origem etimológica do prenome constante nos seus vários designadores que sugere a densidade, a inexplorabilidade de um Ser que, no seu estado de loucura, cria três outros densos e complicados Silvestres: o primeiro, o que sonha; o segundo, o produto onírico e o terceiro, a mente, a razão.

Em “As Historietas de um Coleccionador de Antiguidades”, destaca-se uma personagem referencializada de modo a promover o seu anonimato e um certo mistério à sua volta, no que concerne à sua identidade e à relação que mantém com a velha senhora que pretende vender umas imagens ao coleccionador, o narrador-protagonista. É apresentada, assim, inicialmente com o designador substantivo “rapariga” primeiramente antecedido pelo determinante artigo indefinido que torna a sua identificação um pouco vaga e depois pelo determinante artigo definido que a concretiza, sugerindo-se, então, que se foque a atenção nela e na sua jovem faixa etária. Além disso, indicia-se, com este designador, um certo carácter nesta personagem: o da pureza e da sinceridade que se opõe à hipocrisia que vai criando as suas raízes e desabrocha com a idade.

903 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 218. 904 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 217. 905 Cf. José Régio, Ibidem.

906 Cf. José Régio, Ibidem. 907 Cf. José Régio, Ibidem.

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