Em Santo António de Taná surgiu também uma garrafa com características especiais. Trata-se de uma cabaça, assim denominada na bibliografia nacional, que aparentemente é uma forma de influências otomanas, muito produzida em Portugal a partir do século XVI (Medici et al., 2009: 392). Normalmente, o vidro é depurado de forma perfeita, o que o torna translúcido e por vezes incolor.
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Fig. 25 – MH-8024 – Garrafa em forma de cabaça. Produção típica de contextos portugueses (INA).
Neste contexto, observamos apenas um exemplar. Trata-se de MH-8024 (Fig. 25), um fragmento de gargalo completo com uma altura de 7,4 cm, largura máxima de 2,9 cm e mínima de 2 cm, com um diâmetro total do bordo de 3,2 cm. O gargalo apresenta as características típicas das cabaças, com a forma oval do pescoço e o bordo horizontal. O vidro é esverdeado muito claro, e de boa qualidade, o que indica a sua referida boa depuração.
Este é um achado muito frequente em sítios arqueológicos terrestres em contexto nacional, e raras vezes observados em contextos de naufrágio. Surgiram por exemplo nas escavações de Santa-Clara-a-Velha em Coimbra, em contextos datados entre os séculos XV e XVIII (Ferreira, 2004: 554-555; Medici et al., 2009: 392), bem como na Rua da Judiaria em Almada, em níveis datados dos séculos XVII e XVIII (Medici, 2005: 559).
2.1.4. As ventosas
Neste naufrágio foram igualmente identificadas três ventosas, uma das quais se encontra inteira. MH-0163 (Fig. 26), em bom estado de conservação, apresenta coloração verde clara com pequenas bolhas e imperfeições, fruto do seu processo de fabrico. Com características semelhantes foi identificada a MH-0161.01, que embora sem o perfil completo, apresenta a mesma cor e as mesmas imperfeições, constituindo-se por cinco fragmentos que colam. MH- 6347 demonstra uma coloração mais azulada, as mesmas imperfeições e o vidro é de qualidade razoável.
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Fig. 26 – MH-0163 – Ventosa usada para cura de enfermos (INA).
Em relação ao exemplar MH-0163, este apresenta um diâmetro da base de 5,45 cm, uma altura máxima de 8,5 cm, e a espessura do vidro varia entre 0,1 e cerca de 0,5 cm. O diâmetro máximo é de aproximadamente 8,55 cm e o diâmetro do bordo de 4,8 cm.
Com semelhantes características são as ventosas encontradas nas escavações de Santa- Clara-a-Velha em Coimbra, associadas a questões de higiene e de saúde (Leal & Ferreira, 2006- 2007: 97).
2.1.5. As ampulhetas
Com uma importância crucial nos navios nesta época, as ampulhetas eram utilizadas para a navegação, tanto na medição dos tempos a bordo como nas medições da velocidade. Em Santo António de Taná as ampulhetas são um grupo considerável, visto que foram registadas seis metades inteiras deste tipo de artefacto (embora uma, MH-0010 (Fig. 27), tenha sido partida por um funcionário do museu durante o seu manuseamento), e 8 fragmentos de vidro classificados como deste tipo.
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Fig. 27 – MH-0010 – Ampulheta usada na medição dos tempos a bordo (INA).
O vidro das ampulhetas apresenta uma coloração azul-clara, com algumas pequenas bolhas e imperfeições e em bom estado de conservação. Do total do conjunto de materiais classificados como ampulhetas, apenas temos os dados morfológicos e espaciais de três, que como verificamos na tabela 8 (Tabela 8) são bastante limitados.
Observando o referido quadro, vê-se que as medidas, embora semelhantes, apresentam ligeiras diferenças. O diâmetro da base de MH-0010 é 1,4 cm maior que o de MH-0197 e a sua altura maior cerca de 0,8 cm que MH-1106, embora o diâmetro da base seja ligeiramente superior a estes dois, o que lhe poderia retirar alguma capacidade. Já em termos da espessura do vidro, esta é também pouco significativa, alterando-se de 0,1 cm em MH-0010, para 0,2 em MH.1106, sendo de 0,05 cm entre estes e MH-0197.
Com paralelos de outros casos sabemos que as ampulhetas oferecem várias dimensões, diretamente relacionadas com os tempos que contam, pelo que estas medidas podem indicar alguma correspondência no que respeita a este fator. Com base na descrição das ampulhetas do naufrágio do Invincible, naufragado em 1758, onde se estabelece uma relação altura/tempo, as ampulhetas de 14 segundos medem 11,2 cm, as de 28 segundos têm 12,7 cm de altura e as de 30 minutos apresentam uma altura de 15 cm (Bingeman, 1985). Um instrumento semelhante foi também identificado na escavação do navio medieval de Newport, recuando bastante no tempo a utilização destes aparelhos na vida a bordo (Nayling & Jones, 2014: 272).
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Sem dados como a capacidade, o peso ou as dimensões das restantes ampulhetas, que nos possibilitaria uma datação relativa do conjunto, não é possível realizar outros tipos de considerações.
ID Prov. Diâmetro da base Altura Espessura Diâmetro total Diâmetro boca Depressão do fundo
MH-0010 5.7 cm 10.25 cm 0.1 cm 8.9 cm 1.6 cm 1.9 cm MH-0161 21G
MH-0197 21I 4.3 cm 0.15 cm 1.1 cm
MH-1106 23H 5.5 cm 9.4 cm 0.2 cm 8.51 cm 1.4 cm 1.2 cm
Tabela 8 – Principais características das ampulhetas recolhidas de Santo António de Taná (Matthews, 1978).
Já quanto à sua posição, podemos dizer que uma grande parte das ampulhetas se encontrava a meia-nau (Fig. 28), o que nos pode revelar a posição em que se encontravam quando ocorreu o naufrágio, ainda que semelhante percentagem se encontre também na zona da popa, tal como se verifica com as garrafas de vinho. A realidade é que tanto uma como a outra posição fazem sentido. Por um lado, estes instrumentos poderiam estar a ser usados no convés principal do navio, zona com intensa atividade, mas por outro, poderiam também encontrar-se na zona da popa, coincidente com os camarotes dos oficiais.
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2.1.6. As vidraças
Em Santo António de Taná, os vidros identificados como vidraça de janela resumem-se apenas a quatro fragmentos (Tabela 9), embora como referido anteriormente, o seu número possa ser maior3.
Embora muito fragmentados e de pequenas dimensões, o vidro apresenta morfologia plana e transparente (Fig. 29), características típicas deste tipo de vidraças. Relativamente a medidas, apenas se observam as da sua espessura, visto que nenhum sobreviveu intacto ao acidente de naufrágio.
Fig. 29 – MH-1041 – Fragmento de vidro plano associado à utilização em janelas de bordo (INA).
Em contextos de naufrágio, as vidraças são um achado frequente, tendo surgido no HMS Swift, naufragado na Patagónia em 1770, (Elkin, 2007), assim como no naufrágio de Saint-Quay-
3 As condições de elaboração do presente trabalho, que foi feito com base no catálogo elaborado em 1981, não nos permitiu concluir com exatidão todos os vidros que podiam pertencer a esta classe, sendo de assinalar a possibilidade de ter sido excluída uma grande parte deles.
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Portrieux, de finais do século XVII e princípios do XVIII, com vários paralelos para este conjunto (Herry, 2004).
ID Proveniência Descrição
MH-1041 24I Fragmento angular de vidro MH-1053 Fragmento de vidro MH-3516 Fragmento de vidro MH-6073 Amostra de vidro de janela
Tabela 9 – Exemplares e descrição de vidros de janela recuperados de SAT (Matthews, 1978).
2.1.7. Outras garrafas
Além do conjunto apresentado, surgiu em SAT uma pequena colecção de garrafas com características que não se enquadram nas tipologias apresentadas anteriormente, mas que oferecem dados relativos à continuidade de utilização daquele espaço marítimo enquanto canal de navegação e de fundeadouro.
MH-0166 (Fig. 30) constitui um fragmento de gargalo em vidro verde-escuro com uma boca com 1,9 cm, sendo o diâmetro total do gargalo de 3,4 cm. Apresenta um ombro muito pronunciado acabando num açaime largo em forma cónica invertida com a parte superior da boca plana. É possível identificar semelhanças a garrafas inglesas com produções compreendidas entre 1750 e 1765 (Hume, 1961: 100-104).
Fig. 30 – MH-0166 – Gargalo de garrafa cilíndrica exumado de SAT (INA).
A garrafa cilíndrica MH-0795 (Fig. 31) caracteriza-se por ter sido produzida totalmente por processos industriais, demonstrando uma flexão da base reentrante em forma de cúpula (Jones & Sullivan, 1989). A sua coloração é verde escura, e apresenta como medidas principais uma
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largura total de 7,7 cm, largura da base de 6,7 cm, flexão da base de 2,6 cm e uma espessura do vidro de 0,8 cm; o perfil em direção ao ombro é ligeiramente côncavo, o que pode ser produto do seu arrefecimento brusco ao ser retirado do molde. Encontra paralelos em garrafas de vinho inglesas descobertas em contextos militares datados de entre 1790 e 1820, no Canadá (Jones & Smith, 1985: 18).
Fig. 31 – MH-0795 – Fundo de garrafa cilíndrica recolhida em Santo António de Taná (Tiago Silva sobre base INA).
MH-3939 (Fig. 32) apresenta uma deformação no pescoço, o que pode eventualmente ter sido provocado por algum sobreaquecimento do vidro nesta zona da garrafa. As medidas que nos foram possíveis tomar são de 2,8 cm de diâmetro máximo e de 2,6 de diâmetro interno do pescoço.
Fig. 32 – MH-3939 – Fragmento de gargalo de garrafa exumada de SAT (INA).
Por último, observa-se o exemplar de garrafa prismática MH-1802, da qual apenas temos uma pequena foto no catálogo dos materiais, que demonstra características de produções mais recentes, de entre finais do século XIX, princípio do século XX.
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2.1.8. Discussão
Com base nos dados disponíveis, pode afirmar-se que o conjunto exumado de Santo António de Taná corresponde a uma coleção coerente que representa a cultura material vítrea em uso nas embarcações de finais do século XVII e princípios do XVIII.
Já as garrafas cilíndricas, com características morfológicas próximas às atuais, deixam-nos reticências quanto à sua posição neste naufrágio. O início da sua produção em meados do século XVIII remete-nos para um possível contexto de fundeadouro nesta mesma zona. Da mesma forma, veremos de seguida que a intensa utilização do porto da Baía da Horta oferece um grande conjunto de materiais que, embora no seu contexto primário, não fazem parte do contexto em análise de BH-001.
Quanto à proveniência dos materiais apresentados, podemos observar que uma grande parte do conjunto aparenta ser oriunda de Inglaterra. A maioria das garrafas encontra paralelos em naufrágios coetâneos ingleses, sabendo-se da existência em Inglaterra de fábricas de produção de garrafas de vidro, como é o caso do contexto de produção estudado na obra John Baker’s late 17th-century glasshouse at Vauxhall (Tyler & Willmott, 2005), onde se descrevem as escavações dirigidas pelo Museu de Londres num forno de vidro inglês que produziu desde 1663 até 1704. Por outro lado, consultando a bibliografia, constatamos que o consumo destes recipientes nas colónias inglesas no Novo Mundo, atuais Estados Unidos da América, era muito elevado, e segundo Ivor Noël Hume, no final do século XVII, Bristol era um grande centro produtor de garrafas de vidro que exportava em grande quantidade para a Virgínia (Hume, 1961: 94). Além disso, sabe-se que durante o século XVIII e grande parte do XIX, o vidro consumido no Canadá era fabricado em Inglaterra ou em França, e que a produção de vidro aí apenas começa na segunda metade do século XIX (Jones, 1986: 4).
Quanto ao conjunto de recipientes de transporte, as garrafas de vinho e as garrafas de fundo quadrado, correspondem a produções muito comuns tanto em sítios de naufrágio como em sítios terrestres dos séculos XVII e XVIII, período em que se generaliza a utilização do vidro
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para o armazenamento e consumo de bebidas, substituindo as garrafas de cerâmica (Hume, 1961: 98).
As garrafas de vinho são, de facto, um achado bastante frequente em contextos de naufrágio tanto ingleses como portugueses e holandeses deste período4. Existe um grande
número de sítios arqueológicos onde surgiram garrafas de vinho. Neste período cronológico em concreto, balizando-nos aproximadamente entre o último quinquénio do século XVII e o primeiro do XVIII, identificamos semelhanças materiais no naufrágio do La Belle, de 1686, em cuja escavação arqueológica foram registadas várias onion bottles (Bruseth & Turner, 2005). Para a última década do século XVII, foram também observadas no Elisabeth and Mary, datado de 1690 (Bernier, 1997), no Dartmouth, naufragado ao largo da Escócia em 1690 com vários recipientes semelhantes e diversos gargalos que se podem associar a granadas de vidro (Holman, 1975), na da fragata britânica HMS Sapphire, afundada em 1696 em combate contra uma armada Francesa, onde foram identificados vários gargalos e fundos de onion bottles (Barber, 1977), e no naufrágio de Saint-Quay-Portrieux, que apresenta um conjunto de fragmentos de gargalos e fundos que se enquadram cronologicamente entre 1690 e 1740 (Herry, 2004).
Já no século XVIII, a sua utilização pode ser verificada no naufrágio do Marguerite, afundado em 1707 na Baía de Martinica, a norte da Península de Newfoudland, onde surgiram vários fragmentos de garrafas de vidro verde-escuro (Barber et al., 1981) e no do Queen Anne’s Revenge (1718), onde apareceram também exemplares inteiros de recipientes de vinho (Carnes- McNaughton & Wild-Ramsing, 2008).
Tal como as garrafas de vinho, as case bottles são um achado muito recorrente em naufrágios contemporâneos a Santo Antonio de Taná. Existem exemplares bem identificados nos naufrágios da VOC (Companhia Holandesa das Índias Orientais), de que é exemplo o navio Lastdrager, que naufragou em 1653 na ilha de Yell, em Shetland, no Reino Unido (Sténuit, 1974). São ainda de referir o Vergulde Draeck, com um notável conjunto de case bottles e tampas de estanho (Green, 1977), o Kronan, um navio da armada real sueca, naufragado em
4 É de referir que na sua produção de garrafas, os holandeses tendiam a reproduzir as formas inglesas, procedendo cada tendência estilística com uma diferença de cerca de 50 anos. Assim, as tipologias de “gargalos alongados” de cerca de 1660 continuavam a ser fabricadas na Holanda na década de 1740 (Hume, 1969: 70), e aparecem, como referimos, em naufrágios datados a partir de meados do século XVII, altura em que se presume o início da sua produção (Hume, 1961: 93).
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1676, que levava a bordo uma caixa de transporte destes recipientes (Einarsson, 1997), e o Dartmouth (1690), no qual foram identificadas diversas tipologias de recipientes de vidro, sendo mencionados exemplares de garrafas de secção quadrada (Holman, 1975). Para além destes, podem ainda ser enunciados os casos do HMS Sapphire (1696), em Newfoundland, no nordeste do Canadá, onde surgiram vários fragmentos de case bottles (Barber, 1977), o naufrágio ocorrido em cerca de 1700 na ilha de Jutholman, no arquipélago de Estocolmo na Suécia (Ingelman-Sundberg, 1976), e, por fim, o naufrágio de Saint-Quay-Portrieux, com um conjunto de fragmentos que se enquadram nas características e na cronologia do conjunto em estudo (Herry, 2004).
Finalmente, entre os sítios datados do século XVIII, refiram-se o Queen Anne's Revenge (1718), com uma colecção excepcional de vidros, que inclui garrafas globulares e de fundo quadrado (Carnes-McNaughton & Wild-Ramsing, 2008) e os naufrágios de La Natière dos quais foi também exumada uma série de garrafas de características similares a Santo António de Taná (L’Hour & Veyrat, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003).
Como já foi referido, também no que respeita aos outros materiais analisados desta coleção é possível encontrar paralelos em escavações datadas deste período, como é o caso das ampulhetas, que surgem em contextos de naufrágio por períodos bastante mais alargados que as próprias garrafas de vinho e as case bottles. Estas aparecem, aliás, já em contextos da Idade Média, como o naufrágio de Newport, em Inglaterra, datado do século XV, de onde foi recolhido um fragmento do gargalo de um destes instrumentos (Nayling & Jones, 2014). Mais tardios são os casos do naufrágio de Jutholmen, na Suécia, com uma datação de finais do século XVII ou princípios do XVIII (Ingelman-Sundberg, 1976), do Invincible (1758), com um conjunto bem preservado de ampulhetas (Bingeman, 1985), e do HMS Swift, naufragado na Patagónia, com um conjunto de quatro metades de ampulheta (Elkin, 2007).
Quanto à garrafa em forma de cabaça, tal como explanado anteriormente neste capítulo , esta surge frequentemente na bibliografia portuguesa, como são exemplos os trabalhos acerca de Santa-Clara-a-Velha de Coimbra ou da Rua da Judiaria em Almada (Medici, 2005: 559; Medici et al., 2009: 392), sendo um caso único em contextos subaquáticos
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As ventosas são também um achado pouco recorrente em contextos de naufrágio, mas aparecem frequentemente em depósitos terrestres datados deste período, tais como as já referidas escavações de Santa-Clara-a-Velha em Coimbra (Leal & Ferreira, 2006-2007: 97). A bibliografia consultada não permitiu obter dados relativos à identificação de ventosas noutros contextos com características semelhantes aos estudados, facto que se pode dever às características fragmentárias do vidro, ou à sua efectiva escassez a bordo dos navios.
Ao contrário das garrafas, que nos surgem em grandes quantidades provindas de Inglaterra e de contextos ingleses, a presença residual de ventosas e ampulhetas em sítios arqueológicos de naufrágio não nos permite aferir com exatidão a sua real zona de produção. Além das características geográficas onde Santo António de Taná depositou, a coleção de vidros documenta também os processos de formação do registo arqueológico.
Considere-se o trabalho de Keith Muckelroy, dos anos 70 do século XX, onde, através da análise de uma série de naufrágios históricos ocorridos na Inglaterra, definiu os extracting filters e scrambling devices como os processos de formação de sítios de naufrágio. Os primeiros consistem nas perdas de material do sítio, quer durante o naufrágio, quer durante o seu período de deposição, pelas operações de salvados e pela degradação natural dos materiais e das estruturas, condicionadas pelo ambiente de deposição. Os segundos, por seu turno, desencadeiam-se através do processo do naufrágio e dos processos de movimentação do leito marinho (Muckelroy, 1978: 165-181).
Em Santo António de Taná estão bem patentes os processos expostos. Numa micro escala de análise, verificamos que, em termos espaciais, os materiais se encontram todos na zona da popa, e a sua grande maioria a bombordo da embarcação. Esta organização poderá dever-se às características deposicionais que o navio conservou aquando do acidente, nomeadamente numa zona de recife, com uma inclinação na diagonal de cerca de 30 graus (Piercy, 1977), o que pode ter causado este deslocamento dos materiais (Fig. 34). Por outro lado, se observarmos as plantas da figura 33 (Fig. 33), verifica-se que a grande maioria dos vidros registados com posição se encontram fora do casco, depositados sobre o leito marinho, a bombordo da embarcação
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Fig. 33 – Distribuição dos achados vítreos no sítio arqueológico (Tiago Silva sobre base de Piercy, 1981).
Para estibordo da embarcação, verificam-se apenas dois fragmentos de case bottles, encontrando-se todos os restantes em posições a bombordo. Dentro do casco propriamente dito, embora os artefactos possam ter sofrido um deslocamento parcial, constatamos cinquenta indivíduos, isto é, aproximadamente 50%, um número considerável atendendo ao número total de materiais posicionados, que é de 117 itens.
Com base na posição das curvas d’alto no casco, observamos que a grande maioria se encontra para fora destes elementos de construção naval, e verifica-se uma curva de dispersão no sentido das suas posições, o que poderá indicar uma utilização ao nível das cobertas.
Esta dispersão indica também que os artefactos acompanharam a já referida inclinação da zona de deposição do navio, embora tenham ficado sempre numa zona próxima do seu local de utilização inicial.
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Fig. 34 – Secção do navio onde se percebe com nitidez a inclinação com que depositou (Piercy, 1977).
2.2 Os vidros de BH-001
Foram registadas 167 peças de vidro no contexto de escavação BH-001, das quais se destacam as garrafas de vinho, as case bottles e as garrafas cilíndricas e um copo (Fig. 35).
Do conjunto exumado durante os trabalhos de minimização de impactes deste sítio, foram também estudadas tanto a coleção de garrafas cilíndricas como os outros tipos de vidros, no sentido de se perceber com maior exatidão a formação do registo arqueológico.
Como vimos, o potencial arqueológico da Baía da Horta é muito elevado. A grande intensidade de tráfego marítimo, associado às fortes intempéries que a assolam e às próprias características deposicionais de sítios arqueológicos subaquáticos de zonas costeiras, que alteram significativamente os depósitos, podem complexificar a interpretação destes contextos. Por isso, o estudo de toda a colecção permite isolar os vários tipos de achados e tornar o estudo mais preciso ao nível classificativo e cronológico.
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Fig. 35 – Principais tipos de recipientes de vidro exumados da escavação do contexto BH-001.