1.3.1. A intervenção e o sítio arqueológico
BH-001 situa-se na Baía da Horta, na ilha do Faial no arquipélago dos Açores. Esta Baía encontra-se encaixada entre dois acidentes naturais, o Monte da Espalamaca a nordeste, e o Monte da Guia a sudoeste, tratando-se por isso de um fundeadouro abrigado e protegido, não obstante os ventos de nordeste e sul e a ondulação forte dos quadrantes norte e sudeste (Instituto Hidrográfico, 2000). Fica circunscrito a nordeste pelo porto da Horta e do lado oeste
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pela Avenida Marginal Diogo de Teive, a sul o antigo molhe do porto, ficando esta área limitada a noroeste pela foz da Ribeira dos Flamengos e pela praia da Conceição (Fig. 8) (Bettencourt, 2009b).
De acordo com o levantamento geofísico levado a cabo pela empresa GEOSUB Lda., a zona submarina tem uma espessura média de sedimentos de cerca de 3,51 m +/- 0,58 m (GEOSUB, 2007: XIV). Por observação directa durante a prospecção arqueológica, verificou-se que a área é maioritariamente arenosa com alterações granulométricas e da orientação de sedimentos das formas do fundo (Bettencourt, 2009b).
Fig. 8 – Localização do sítio BH-001 (José Bettencourt - CHAM).
O sítio foi identificado aquando da Avaliação de Impacte Ambiental (AIA), conduzida pela equipa de arqueologia do CHAM (Bettencourt et al., 2008), na sequência do projecto "ORDENAMENTO DO PORTO DA HORTA – 1.ª Fase – Requalificação da frente Marítima da Horta” e vem comprovar o potencial histórico-arqueológico desta escala para o conhecimento do
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comércio no Atlântico e para o conhecimento do arquipélago dos Açores. Neste trabalho foram efectuadas prospecções visuais e com detector de metais com o objectivo de perceber qual o potencial arqueológico e qual a afectação que as obras de construção e dragagem viriam a ter sobre o património.
No final dos trabalhos foi identificada uma série de materiais de elevado valor científico, tais como 4 canhões em ferro concrecionados e uma presa de elefante numa zona onde já se haviam localizado outras. Foram ainda registadas à superfície cerâmicas de várias épocas, chapas de forro exterior de navios, cavilhas em liga de cobre e uma possível bússola, entre outros materiais com menor interesse patrimonial (Bettencourt et al., 2008).
Após o estudo, foram preconizados como medidas de minimização o acompanhamento por arqueólogo com experiência em arqueologia náutica e subaquática, e sondagens por escavação na zona de dispersão dos materiais identificados (Bettencourt et al., 2008).
Os trabalhos de escavação decorreram entre 2009 e 2010 (Bettencourt 2009a, 2009b, 2009c, 2012), continuando ainda presentemente os trabalhos de monitorização e tratamento dos dados resultantes destas campanhas.
Em 2009, os trabalhos foram realizados em três fases distintas. Como veremos, após a primeira, que veio a demonstrar o forte potencial do sítio, foram feitas mais três campanhas, duas ainda neste ano e outra em 2010. O primeiro trabalho deste ano, realizado nos meses de Abril e Maio, consistiu na relocalização das evidências arqueológicas descobertas durante a prospecção de 2008. Após a relocalização, foram unidas no terreno por meio de cabos, de modo a permitir aos mergulhadores a fácil circulação entre estes pontos (Bettencourt, 2009b).
Depois, foram efectuadas sondagens nas imediações destes pontos a cerca de 10, 15 m de cada um. Com estes primeiros trabalhos, começou também a conhecer-se melhor as características do sítio, tais como estratigrafia, potência arqueológica e efectiva dispersão dos materiais.
Finalmente, foram unidos os dois pontos considerados mais importantes decorrentes da prospecção de 2008, BH-001 e a Ocorrência 8. No final desta fase de trabalho de campo, foram efectuadas 72 sondagens até se atingir o substrato duro. (Bettencourt, 2009b). Foi feita a
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georreferenciação de todas as sondagens a partir do seu ponto central e tratados os dados em software próprio, o SiteRecorder, adequado para tratamento de informação geográfica de sítios arqueológicos subaquáticos (Bettencourt, 2009b).
Destes trabalhos destacaram-se três áreas com elevado potencial científico. A área 1, conhecida desde 2008, revelou-se importante pelo surgimento de quatro canhões. Na área 2, foi localizada uma presa em marfim, uma colher de estanho, concreções e vários materiais em liga de cobre. Esta área foi considerada importante por se encontrar próxima de uma zona onde se haviam encontrado três presas de elefante, um fragmento de garrafa de vidro, e um almofariz e duas cavilhas todos em cobre (Bettencourt, 2009b). Finalmente, na área 3, que aparentemente não teria qualquer potencial, por ser uma zona de areia sem quaisquer vestígios à superfície, as sondagens S58, S66, S69, S70 e S71 vieram a revelar três presas de elefante em marfim, todas com a mesma marca do captor, semelhante à das outras presas encontradas anteriormente, bem como vários fragmentos de cachimbo em caulino e um sino em liga de cobre (Bettencourt, 2009b). Foi ainda descoberta nesta área uma peça compósita constituída por um eixo em ferro e uma roda em material lítico, localizada próximo da S53 (Bettencourt, 2009b).
Dadas as evidências arqueológicas demonstradas e começando a perceber-se o potencial arqueológico do sítio e as perdas patrimoniais afectas à obra, foram recomendadas como medidas de minimização de impactes a escavação em área em torno das sondagens S58, S66, S69 e S70, além do registo exaustivo dos materiais exumados nesses trabalhos, assim como a sua conservação (Bettencourt, 2009b).
A segunda fase do ano 2009 decorreu entre Junho e Julho, e contribuiu para o aumento do conhecimento sobre o sítio. Os trabalhos começaram pela aplicação das medidas preconizadas pela Direcção Regional dos assuntos Culturais (DRaC), entidade que tutela o património arqueológico no arquipélago dos Açores.
A primeira sondagem a ser alargada foi a S58 (Fig. 9), onde continuaram a sair materiais que podiam ser associados ao contexto. Seis presas de elefante, vários fragmentos de cachimbo em caulino uma moeda de prata, dois fragmentos de grés e uma arma portátil com elementos de ferro, madeira e liga de cobre foram os materiais exumados desta sondagem (Bettencourt, 2009c).
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Na S66, continuaram a aparecer presas de elefante (sete, concretamente),vários fragmentos de vidro e cerâmica e um recipiente em metal não identificado. Devido à densidade de materiais encontrados nesta sondagem, esta foi alargada, surgindo mais uma presa e várias cerâmicas (Bettencourt, 2009c). Em S71, foram registadas mais duas presas de elefante e um cachimbo em caulino.
Fez-se também a S73, que foi um alargamento da S58, no sentido de se perceber a continuidade do sítio. Nesta verificaram-se sete presas, outra arma portátil em madeira e ferro, um cachimbo completo (Fig. 10) e vários outros fragmentos, e dois fragmentos de botija (Bettencourt, 2009c).
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Fig. 10 – Aspecto da sondagem 73 (Bettencourt 2009b).
Após esta fase de trabalho, começou a compreender-se a importância efectiva deste contexto. O conhecimento empírico sobre o sítio tornou-se também considerável, tendo-se começado a alcançar conclusões preliminares sobre os materiais, e iniciado as primeiras associações a outros sítios com características semelhantes. Além disso, começou igualmente a definir-se a cronologia e a perceber-se a estratigrafia (Bettencourt, 2009c).
Depois dos resultados obtidos, os trabalhos pararam durante os meses de Julho e Agosto, reiniciando em Setembro e Outubro do mesmo ano. Nesta terceira jornada, os trabalhos incidiram sobre as áreas com maior potencial registadas nas fases anteriores, nomeadamente as sondagens S58 e S73. Para despiste da continuidade ou não dos depósitos abriu-se uma nova sondagem, a S74, que veio a revelar pouco potencial, tendo aqui surgido apenas uma presa e um fragmento de vidro, ambos relacionáveis com o naufrágio (Bettencourt, 2009c).
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Fig. 11 – Escavação em Setembro e Outubro de 2009 (Bettencourt, 2009c).
Depois deste trabalho inicial, uniram-se as sondagens que até então tinham proporcionado o maior conjunto de vestígios, a S58 com a S73, formando a S75 (Fig. 11). Como seria expectável, aqui surgiram os depósitos mais ricos da intervenção, nove presas de elefante, vários fragmentos de garrafas de vidro e um copo no mesmo material, diversos fragmentos de cachimbos em caulino – fornilhos e hastes –, um fragmento de porcelana chinesa, um instrumento em ferro indeterminado, uma peça de fundo de barrica e um fragmento de forro, ambos em madeira (Bettencourt, 2009c).
Com o intuito de se perceber a continuidade do sítio arqueológico, realizaram-se mais duas sondagens. A S76, a sul da S75, onde surgiu mais uma presa, vários fragmentos de cerâmica, cachimbos em caulino e vidros, um botão de punho em liga de cobre e uma peça em matéria orgânica não identificada. A norte da S75, somou-se a S77, na qual foram registadas cinco presas de marfim e vários fragmentos cerâmicos (Bettencourt, 2009c).
Dado o rico potencial arqueológico que o sítio continuava a demonstrar, preconizou-se o seguimento dos trabalhos. Na verdade, como se pode inferir pela descrição do processo de
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escavação, cada fase de trabalho permitia o aumento do conhecimento científico sobre o sítio. Novas dúvidas e questões começavam a surgir, e novas respostas começavam também a ser formuladas, o que tornou imperativa a continuidade dos trabalhos em 2010.
Esta fase ocorreu entre Abril e Julho, numa altura em que o processo de construção do molhe se encontrava numa etapa avançada, o que acabou por condicionar o trabalho e o registo de forma significativa. Após meses de dragagem e de consecutivo aterro para se ganhar terreno ao mar, a visibilidade encontrava-se bastante condicionada; a sedimentação no fundo estava também completamente alterada desde o começo da obra, o que associado às movimentações de mergulhadores e equipamentos no fundo, rapidamente colocava esse material em suspensão, tornando em algumas ocasiões a visibilidade praticamente nula.
Os timings afectos ao desenvolvimento do projecto, que viriam a limitar os trabalhos de minimização de impactes associados ao património arqueológico, levaram à duplicação do número de arqueólogos (Fig. 12), o que consequentemente proporcionou o aumento do volume de trabalho. Neste período fizeram-se 22 sondagens num total de 1248 m2 de área escavada (Bettencourt, 2012).
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Fig. 12 – Aspecto dos trabalhos à superfície (Bettencourt, 2012).
Esta campanha viria a revelar a continuidade dos depósitos com um aumento significativo do número de materiais associados a BH-001. Entre eles, contam-se vinte e seis presas de elefante em marfim, quarenta e oito fragmentos de cachimbo, quarenta e nove fragmentos de garrafas de vinho, nove fragmentos em grés, vários fragmentos de cerâmica delftware e potes, uma âncora em ferro além de um grande número de pequenos outros materiais que aparentemente fazem parte deste contexto (Bettencourt, 2012).
Desde o início dos trabalhos em 2009, a partir da identificação do sítio, foram efectuadas 101 sondagens, registados centenas de materiais entre os quais se encontram os vidros, tema central deste trabalho.
Finalizado o processo de escavação, em 2011 foi feito o inventário, tratamento e depósito dos materiais, o qual ficou a cargo do Museu da Horta. Os dados começaram agora a ser trabalhados com vista à produção e publicação de uma monografia sobre o sítio, o que irá concluir o processo de investigação arqueológica.
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No domínio técnico, foram produzidos quatro relatórios e várias informações dos achados entregues à DRaC. O sítio foi divulgado em várias reuniões científicas (Bettencourt, 2012, 2013; Bettencourt & Carvalho, 2010), apresentado nas escolas da cidade da Horta aos alunos do primeiro ciclo, integrando o contexto e os seus materiais uma exposição denominada “Histórias que vêm do mar” (Bettencourt et al., 2013), que numa parceria entre o CHAM e o Observatório do Mar do Açores, esteve patente inicialmente na Fábrica da Baleia de Porto Pim, na cidade da Horta. Posteriormente, esta exposição foi enriquecida com outros contextos açorianos, e tornou- se itinerante como forma de divulgação do património arqueológico subaquático do Arquipélago, circulando primeiro por várias ilhas dos Açores, e sendo depois exposta no Museu de Marinha em Lisboa no princípio de 2014.
1.3.2. A colecção
Esta colecção e todos os outros materiais exumados do contexto BH-001 foram estudados entre Outubro e Novembro de 2011. Para este trabalho foi improvisado um laboratório num dos armazéns da APTO, actual Portos dos Açores SA, dono de obra deste projecto (Fig. 13).
Uma vez inventariados, fotografados e registados, os materiais foram novamente imersos em água doce de modo a continuarem num ambiente estável. Em termos espaciais, os materiais de BH-001 não apresentam qualquer relação. As características do sítio arqueológico, disperso e sem indícios de embarcação, a juntar às próprias particularidades da Baía da Horta, não nos permitem tirar conclusões quanto à organização espacial enquanto contexto de naufrágio selado. As ligações que se podem estabelecer reportam-se à coerência material enquanto conjunto artefactual, e não numa relação enquanto naufrágio fechado.
Tal como em SAT, todos os materiais foram precedidos do acrónimo BH, que corresponde a Baía da Horta, seguido do número sequencial de cada artefacto.
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Fig. 13 – Trabalhos de inventariação da colecção de BH-001 (José Bettencourt - CHAM).
Por questões de tempo e de falta de financiamento, neste estudo não foi contemplada qualquer análise microscópica para a caracterização físico/química desta colecção, o que poderia permitir obter mais dados, nomeadamente relativos à composição, à proveniência dos materiais ou à área de recolha de matéria-prima. Atendendo a estas limitações, todo o estudo foi realizado macroscopicamente (métrico e fotografia) com base nos registos de campo e nos dados do inventário dos materiais.
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