7. VURDERING AV NATUR- OG KULTURVERDIER 1 Innledning
7.10 Vitenskapelig verdi .1 Vitenskapelig aktivitet
Uma noite, em um pequeno restaurante do Leblon, conheci Fernando Acosta, terapeuta de família e analista, um dos pioneiros do trabalho com grupos reflexivos de gênero. Ele era um homem de cerca de 50 anos, bastante sorridente e calmo, que se mostrava disposto a falar sobre seu trabalho. Essa não era a primeira vez que ele comentava sua trajetória. Acosta era uma referência no Brasil e só no ano de 2002 deu cerca de 600 entrevistas para emissoras de rádio, jornais e programas de televisão. Algumas semanas antes do nosso encontro, ele havia sido entrevistado por outros pesquisadores vinculados ao Instituto de Estudos da Religião (Iser) para falar da sua trajetória profissional e do trabalho que realizou junto com o instituto na cidade de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, implantando o serviço de responsabilização para homens “Ser H” (cf. SANTOS, 2013).
Acosta começou a trabalhar com homens “por questões pessoais”. Ele tinha um relacionamento conflituoso com seu pai, um militar que, embora não tenha apoiado a ditadura, não deixava de ser “autoritário”. Era o fim da década de 1970 quando ele estudava psicologia na Pontifícia Universidade Católica no Rio de Janeiro. Ali foi militante contra a ditadura como parte do movimento estudantil, no entanto, se recusava a ingressar em algum partido de esquerda por considerá-los igualmente autoritários. Acosta rejeitava a saída armada proposta por algumas organizações, achando contraditória essa alternativa política: não era possível reivindicar liberdades e igualdade de direitos dentro de uma organização “muito vertical que nem reconhecia a diversidade sexual”. Ele percebia que se fosse gay não o aceitariam nessas organizações. Só o movimento estudantil considerava importantes as “questões subjetivas [que] eram políticas”. Militando no movimento, Acosta desenvolveu seu interesse em trabalhar nas favelas, considerando que os psicólogos deveriam se afastar das instituições e reconhecer as demandas das comunidades. O encontro com a obra de Wilhelm Reich foi importante para enquadrar seu enfoque longe dos consultórios. Acosta ressaltava a importância deste autor não só para o tipo de terapia que realizava nos últimos anos, mas para compreender que, graças a ele, era possível conceber o que posteriormente se chamou de “perspectiva de gênero”.
Fernando Acosta comentava com entusiasmo que Reich era um discípulo de Sigmund Freud, que retomou seus estudos sobre sexualidade desenvolvendo uma abordagem psicoterapêutica com a linguagem corporal: os “grupos de higiene sexual”, descritos no livro O
combate sexual da juventude10. Este livro, dizia Acosta, permitiu a conformação de uma
plataforma política para a defesa do direito ao aborto e à liberdade da vida sexual para os homossexuais, ao mesmo tempo em que constituiu uma ameaça para a psicanálise, para o nazismo, em ascensão na época, e para o comunismo, razão pela qual ele foi expulso deste partido. A obra de Reich foi inspiradora para seu trabalho nas favelas, permitindo-lhe questionar os argumentos sobre o casamento indissolúvel e propor a educação sexual nas escolas da Rocinha, favela da Zona Sul do Rio, iniciado na década de 1980. Longe dos consultórios, Acosta organizou mais de 22 grupos sobre saúde sexual e reprodutiva com mulheres, as quais “sempre traziam o tema da violência doméstica”. “Eu não escolhi trabalhar com violência nem com masculinidades”, contudo, o tema o “pegou pelas costas”. Ele via que nos grupos “essa mulher se transforma e começa a ter outros recursos para lidar com os homens”, mas sabia que se não trabalhasse com os parceiros sentimentais, a mudança não seria completa. A grande preocupação do jovem psicólogo era como engajar os homens na discussão sobre saúde e sexualidade.
Fernando Acosta tentou formar o primeiro grupo com homens no início da década de 1980. Ele convidou alguns dos seus amigos, que não eram um “protótipo de masculinidade” – como ele mesmo, comentando entre risos – para conversar sobre sexualidade. O grupo contou com poucos participantes e não teve continuidade por diversas razões. De todo modo, apesar dos poucos encontros, ele notou como foi importante para alguns dos seus convidados. Um deles comentou, por exemplo, que era “veado”, e reconhecia que o grupo não era ameaçador, ele podia falar de maneira livre. As falas dos seus amigos lhe deram mais motivos para conformar um grupo no futuro.
A década de 1970 foi caracterizada por alguns interlocutores como de intensificação do autoritarismo da ditadura militar, e a de 1980 como de “reação” aos valores herdados desse período político no Rio de Janeiro, que implicavam uma “transformação” a partir de múltiplas reivindicações pela liberdade e os direitos civis. Em algumas das nossas conversas no café do Espaço Itaú em Botafogo, Marcos Nascimento comentava que nos anos 80 aconteciam variadas manifestações artísticas e “performances”, como recitais de poesia ou peças teatrais, apresentadas em largos, praças, bares ou universidades11. Nesse contexto, um grupo de homens de “classe média zona sul carioca”, interessado nos “encontros e desencontros entre o masculino e feminino”, começou a questionar sua masculinidade e as relações com as mulheres a partir da pergunta “o que é ser homem?”. Na sua dissertação de mestrado: Desaprendendo o
silêncio: uma experiência de trabalho com grupos de homens autores de violência contra a
11 Mariza Corrêa (2001) narra manifestações artísticas similares relativas ao desenvolvimento do movimento
mulher (NASCIMENTO, 2001), a primeira registrada sobre o tema dos grupos reflexivos de
gênero, Nascimento afirma que essas performances iniciais expressavam desejos, sonhos, projetos de vida, sexualidade e angústias, as questões subjetivas (que mencionava Acosta), mas sem o compromisso político do movimento estudantil. Para Nascimento, a inquietação de alguns homens em função de sua “condição masculina” chamava a atenção sobre aspetos da “vida emocional e afetiva” e dizia a respeito de um “ideal romântico” sobre possíveis relações mais igualitárias entre homens e mulheres.
Nascimento comentava que, durante seu tempo de estudante de engenharia civil, ele via cartazes sobre grupos de homens que ofereciam descobrir “seu verdadeiro homem”, virar um “novo homem”: sensível, afetuoso e emocionado, conectado com uma “energia masculina profunda” e “cúmplice” do universo feminino. Finalizando a década de 1980 e entrando na de 1990, a ideia de uma “crise da masculinidade” foi tema discutido por psicólogos, psicanalistas e escritores em encontros de diversos tipos, desde alguns informais até congressos de caráter acadêmico no Rio de Janeiro. Naquele momento, Nascimento começou trabalhar com homens de distintas características socioeconômicas em torno de “crenças e valores sobre o que é ser homem”, para entender o que seria “ser homem de verdade” e a “supervalorização da masculinidade”. Motivado por esta experiência, ele ingressou no curso de psicologia para “aliar a inquietude pessoal ... a um aprofundamento acadêmico e profissional” (NASCIMENTO, 2001, p. 1-2). Isto lhe permitiu conhecer “incertezas, angústias e frustrações na relação consigo mesmo” dos homens com os quais ele se relacionou.