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7. VURDERING AV NATUR- OG KULTURVERDIER 1 Innledning

7.3 Biologisk mangfold

7.3.2 Spesielle arter/bestander

No fim de 2013 iniciei meu percurso etnográfico na cidade do Rio de Janeiro, uma cidade que sempre quis conhecer quando criança, motivado principalmente pelo desenho de Zé Carioca, um papagaio da década de 1940 dos estúdios da Disney e que retrata o “típico malandro carioca” não só pelo figurino, mas também pelo seu “jeitinho”, que dava conta de uma brasilidade ao mesmo tempo sedutora, criativa e que podia usar vias “pouco convencionais” para resolver problemas, outorgando-lhe expertise. O Pato Donald, coprotagonista em Alô amigos (1942), representava o gringo ingênuo que descobria uma natureza exuberante na América do Sul junto com Zé, este outro moralmente diferente e que fazia o contraste necessário para mostrar uma “latinidade” mágica ao ritmo do samba Aquarela

do Brasil, de Ary Barroso.

Chegar ao Rio de Janeiro foi um contraste com minha experiência de alguns anos morando em Brasília, uma cidade plana, com um céu azul e infinito que outorgava a sensação de imensidade às linhas retas e à arquitetura modernista, que fazem da capital do Brasil um experimento do planejamento e da obsessão pelo poder político. Também com a vida controlada, tranquila e excessivamente monótona para um estudante de pós-graduação várias vezes classificado como “gringo” ou “latino” – talvez não tão ingênuo quanto o Pato Donald, ao menos nisto eu gostaria de acreditar – que não tinha carro para se locomover pela cidade, mas que desfrutava andar de bicicleta respirando o ar seco da cidade. Morando em Brasília, sempre ouvia como referência o Rio de Janeiro em termos de moda e produção cultural, também pelas alusões a políticos muito poderosos que dominavam o panorama político federal e pela produção acadêmica engajada com agendas de direitos humanos não só em termos de gênero e sexualidade, mas também de combate ao racismo e à intolerância religiosa.

Comentei que era um contraste porque, quando cheguei ao Rio de Janeiro, encontrei um ambiente excessivamente úmido e uma cidade “caótica”, se comparada com o cartesianismo brasiliense. Para mim foi marcante, e um pouco chocante, ver o contraste entre bairros com boa infraestrutura de serviços da Zona Sul, mas tendo como pano de fundo as famosas “favelas”. No entanto, o contraste não era só estético, era de organização, uso e concepção do espaço. Zona Sul versus Zona Norte e Oeste; asfalto versus favela; população majoritariamente branca

no sul e no asfalto versus negros e nordestinos nas favelas e no subúrbio. Durante o primeiro ano morando na cidade percebi um “ar aristocrático” na Zona Sul em contraste com uma “atitude servil” do negro e do nordestino, pelo menos no asfalto, nos seus papéis de faxineiros, porteiros, motoristas, entre outros ofícios.

Algumas pessoas comentavam que o carioca estava acostumado a “conviver na diferença”. Mas como se conformou e se legitimou essa diferença que ainda considero tão contrastante e chocante para minha sensibilidade “mais igualitária”? Aproveitando a licença poética dos parágrafos anteriores, e sem maiores pretensões analíticas, ainda hoje considero que essa diferença mostra o Rio de Janeiro como uma sociedade quase cortesã, na qual todo mundo tem seu lugar a partir da perspectiva da sua elite econômica e política. Percebo esta como uma das razões da existência de um forte ativismo e de uma produção acadêmica que visibilizam essa conformação da cidade e a experiência de cidadania das categorias sociais subordinadas, que contrasta com o ideal de democracia e igualdade e rejeita valores associados à ditadura, como veremos neste capítulo. A oposição faz explícitas as contradições políticas de

setores populacionais que aspiram à dignificação do seu modo de vida e às mesmas oportunidades em termos de qualidade de vida, em um contexto em que ainda se respira esse ar aristocrático do Império.

Estando no Rio de Janeiro, Marcos Nascimento foi fundamental para contatar pesquisadores, funcionários públicos e ativistas, com os quais tive um primeiro panorama do processo de “responzabilização de homens autores de violência doméstica contra a mulher” no marco da Lei Maria da Penha. Graças a ele, reconheci que existia um amplo grupo de professores, estudantes, consultores e servidores públicos que eram críticos dessa “convivência na diferença” na cidade, chamando-a de “segregação” e de “violência”. Eles consideravam problemático o racismo no Rio, as práticas de pacificação da polícia nas favelas e a violência de gênero, logrando identificar um amplo interesse pela pesquisa e a efetivação da Lei Maria da Penha. De fato, o primeiro juizado para esta lei surgiu no Rio de Janeiro, sendo a juíza Adriana Ramos de Mello uma das principais protagonistas na sua institucionalização e também na de outras leis, como a do feminicidio. Em seminários, workshops ou encontros entre profissionais, conheci parte do debate em torno da implantação da lei, nos quais os homens eram apresentados como sujeitos de tratamento psicológico ou punição (como mencionado no seminário de São Paulo), que compartilhavam junto com os operadores de justiça “representações de gênero” que não permitiam a percepção da vítima como sujeito de direitos humanos. Como na Colômbia, várias apresentações recorriam ao recurso da “cultura patriarcal” para explicar a existência dessas representações que se opunham ao dever filosófico da lei.

Nesses cenários a participação de homens era dada por ativistas, pesquisadores e alguns servidores públicos das equipes psicossociais dos juizados. O número desses homens era reduzido em relação à ampla representatividade das mulheres. Muitos deles estavam vinculados ao trabalho de prevenção da violência com jovens e adultos através de esquemas de reflexão sobre saúde e paternidade, e faziam questão de ressaltar a importância de ligar os homens com o caminho que as feministas haviam começado a trilhar décadas atrás, o de alcançar a equidade de gênero através do empoderamento feminino. Eles ressaltavam que “o trabalho com homens” era anterior à lei e que na atualidade muitas organizações pioneiras nesse trabalho estavam apoiando o Judiciário naquilo que eles qualificavam como um desafio: trabalhar com homens autores de violência contra a mulher.

No segundo semestre de 2014 soube de um seminário dedicado à participação dos homens na mobilização pela equidade de gênero nas instalações da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Marcos Nascimento era um dos palestrantes junto com Mauro Brigeiro, meu colega na Escola de Estudos de Gênero anos atrás, também psicólogo e na época doutorando

em antropologia. Além deles, o outro expositor era Luiz Costa, psicólogo e educador popular com trajetória de trabalho em comunidades da Zona Norte da cidade. Brigeiro apresentou um panorama do “campo das masculinidades” a partir da descrição do projeto de pesquisa e intervenção psicossocial “Homens, saúde e vida cotidiana”, considerado por ele “histórico”. Nascimento expôs as duas principais políticas para homens vigentes naquele momento: a própria Lei Maria da Penha e a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem9. Costa narrou sua trajetória como facilitador, na qual vinculava seu trabalho político ao profissional. Com menos ênfase na trajetória pessoal, Nascimento e Brigeiro ressaltaram que existiam “motivações anteriores ao trabalho com homens” que os levaram a se interessar pelo ativismo em favor da igualdade. Notei que o trabalho com homens, que conjugava interesses de pesquisa e de mobilização política, estava fundamentado em experiências pretéritas e na tensa relação de reconhecimento do masculino no contexto mais amplo das discussões com o ativismo feminista.

Propus-me a levantar a trajetória de alguns dos agentes interessados na conformação de grupos reflexivos de gênero, tendo como foco o perfil profissional e as motivações pessoais que os levaram a esse trabalho. Em algumas ocasiões, gravei apresentações e palestras públicas, em outras, realizei entrevistas. Na maioria dos casos, levantei informação sobre os dois tópicos, em outras, não recebi resposta acerca das motivações. No diálogo com meus interlocutores, tentei desenvolver uma conversa, evitando o formato de questionário ou mesmo de entrevista, considerando que um relato “mais livre ou espontâneo” me permitiria abordar temas “íntimos” sobre a trajetória pessoal. Antes de continuar com a descrição dos grupos reflexivos de gênero no marco da implantação da Lei Maria da Penha, objetivo dos capítulos 2 e 3, apresento uma história na qual é possível falar deles como um mecanismo de reconhecimento de uma outra masculinidade que contrasta com concepções do poder localizadas no passado e que dão conta da assimetria, da desigualdade, da arbitrariedade e da hierarquia como forma estética que não permite o reconhecimento da dignidade humana. Esta história retoma elementos da trajetória dos meus interlocutores para conformar uma crónica que se inicia na década de 1970 e culmina com a implantação da lei.

9 Essa política era coordenada pelo Ministério da Saúde e trabalhava com cinco eixos prioritários: acesso e

acolhimento, paternidade e cuidado, doenças prevalentes na população masculina (como o câncer de próstata), prevenção de violência e acidentes, e saúde sexual e reprodutiva. Ver em: http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/ connect/agencianoticias/site/home/noticias/2015/ms_poe_saude_do_homem_em_destaque.