O projeto “Homens, saúde e vida cotidiana” foi implantado em comunidades da Zona Norte de Rio de Janeiro. Não obstante, Fernando Acosta sempre recomendou que pelo menos um dos grupos fosse feito na Zona Sul, considerando que os “homens de classe média e alta também têm os mesmos problemas”. Acosta contatou um dos seus profesores do Instituto de Terapia de Família, Carlos Zuma, que era fundador do Instituto Noos, reconhecido no Rio de Janeiro pelo trabalho com violência na família. Antes mesmo da implantação do projeto em questão, Acosta e Zuma queriam conformar um grupo de homens, agora eles tinham a oportunidade, e o Instituto Noos virou um dos treze campos de que este projeto precisava.
Fernando Acosta, Luiz Costa e Willer Baungarten foram os facilitadores de um grupo de profissionais, quase todos psicólogos, que após terminada a pesquisa continuaram se reunindo e replicando a experiência com outros homens. O exercício era similar àquele feito por Acosta e Barker alguns anos atrás: falar de si e dos sentimentos experimentados na relação com homens e mulheres ao longo da vida. Para Costa, o grupo com homens da Zona Sul foi importante, pois lhe ensinou a “ouvir no outro, a partir da escuta do meu próprio coração, do meu sentimento de violência, sentimentos que são delicados, difíceis de serem trabalhados no quotidiano”.
“O que é ser homem?”. Esta era a pergunta com a qual os facilitadores iniciavam o processo reflexivo e que posteriormente permitiria vincular sentimento com trajetória pessoal. Para Carlos Zuma, esta era uma pergunta que desconcertava muitos homens, porque para ele “ser homem” era um dado, uma coisa certa que, quando questionada, possibilitava “parar para pensar e colocar em palavras o que é isso, [o que] gera uma dificuldade”. Esta era uma afirmação respaldada por Alan Bronz, psicólogo e terapeuta de família, que junto com Zuma participou desse grupo da Zona Sul e posteriormente facilitou grupos em projetos dentro do Instituto Noos e em outras organizações. Bronz definiu sua experiência no grupo como “forte e muito mobilizadora” e considerou que normalmente homens e mulheres achavam que ser homem era seguir “padrões de conduta” sem questioná-los. Dentro do grupo, Bronz também “parou para pensar de forma sistematizada sobre isso”.
Em entrevistas e apresentações públicas sobre seu trabalho com homens, Alan Bronz várias vezes narrou que “sempre [foi] crítico de um padrão de conduta tradicional”. Em algumas oportunidades mencionou a relação conflitiva que tinha com seu pai, que era “autoritário e pouco afetivo”. Como Fernando Acosta, ele se descrevia como um homem que viveu a abertura democrática, posicionando-se em oposição aos valores do governo militar, que de um modo ou
outro representava o seu pai: “patriarcal” e “autoritário”. Nesse primeiro grupo, Bronz conseguiu dar forma à pergunta “o que é ser um homem?”, transformá-la em uma questão ética para sua vida, para se posicionar como um “homem diferente” diante de seu pai e de outros homens.
Como narrado por alguns dos meus interlocutores, a relação com o pai era um tema importante, discutido em vários encontros dentro desse primeiro grupo de homens da Zona Sul. Este tema não era só uma questão coletiva, que foi modelada, definindo-se durante os encontros reflexivos. Conversando com Alan Bronz sobre as motivações que o levaram a trabalhar com homens, ele mencionou que o tema do seu pai era a “história latente”, como se referiam alguns psicanalistas aos significados flutuantes que não ficam claros a partir da “história manifesta”, que era contada em um sonho. Conversar sobre os conflitos de autoridade e a respeito das suas diferenças com seus pais permitia que os homens desse grupo entendessem “questões mais primitivas ou atávicas”, que ficavam manifestas e eram discutidas pela coletividade, o que “enriquecia a experiência dentro do grupo”. Após ter passado pelo grupo e trabalhado o tema com muitos homens ao longo da última década, para Bronz, a história com seu pai havia ficado “mais residual”, pela oportunidade de fazê-la explícita e compreendê-la, chegando a ter uma melhor relação com ele na atualidade.
Bronz também explicou que naquela época, no fim da década de 1990, a ideia de “desconstrução e reconstrução” – totalmente voluntária – do gênero era uma possibilidade a ser atingida. Essa possibilidade era tão clara para os facilitadores e os participantes do grupo que Bronz chegou a afirmar “não sou heterossexual, estou heterossexual”. Seguindo argumento de Judith Butler, filósofa que então inspirava as discussões grupais, Bronz chegou até a questionar sua “orientação sexual” na desconstrução da relação entre heterossexualidade compulsória, masculinidade hegemônica, autoritarismo e hierarquia. A partir das intensas discussões no grupo, compreendeu que era possível “me reconstruir e adotar outra orientação sexual”. Porém, ele percebeu que não era assim que funcionava “o desejo” e que a discussão sobre orientação sexual estava longe de terminar – comentou isto entre risos, fazendo um paralelo entre um passado otimista e um presente carregado de experiência que lhe permitia ser crítico dos supostos filosóficos desses primeiros grupos.
Carlos Zuma e Alan Bronz lembraram que todos os participantes ficaram muito entusiasmados com esse primeiro grupo de homens da Zona Sul e fundaram o Núcleo de Gênero e Cidadania do Instituto Noos. Fernando Acosta, Luiz Costa, Carlos Zuma, Alan Bronz, entre outros, continuaram estudando gênero e violência para aprimorar a experiência de trabalho em conflito familiar e pensar a “violência exercida pelos homens e por eles mesmos por serem
homens”, como afirmou Bronz. Os integrantes do núcleo leram textos da socióloga Heleieth Safioti (considerada um ícone do feminismo no Brasil por Fernando Acosta), que diziam respeito ao “gênero da violência” como masculino. Os textos da antropóloga Bárbara Mussumeci Mourão sobre “violência doméstica” também animaram longos debates.
Fernando Acosta comentava que no núcleo não chegavam à conclusão nenhuma, para eles não era fácil desvelar a relação entre violência e identidade masculina. Tanto Acosta quanto Bronz manifestaram que a partir dessa época “sentiam um incômodo” com a categoria de gênero, que estava muito associada à mulher e ao movimento feminista, o qual localizava no universo masculino a violência. Embora Mourão houvesse trabalhado o tema de masculinidades, Bronz lembrava que nesses primeiros textos sobre violência “não se procurava estudar os homens, compreender o lado deles, criar uma epistemologia masculina, digamos assim”. Para aprofundar a discussão, os integrantes do núcleo decidiram trabalhar diretamente com os “homens autores de violência”, a fim de reproduzir o que eles viveram no âmbito do projeto. Para Bronz, os integrantes do núcleo queriam que os homens autores de violência também tivessem a oportunidade de “parar para conversar sobre ser homem [e] de crescer pessoalmente”.