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Kapittel 3 Metode

3.1 Vitenskapelig forankring og metodevalg

A década de 1960 no Brasil, como se sabe, foi marcada por um florescimento de ideais de transformação, que começara bem antes, com os movimentos operários de décadas anteriores. No campo e na cidade buscavam-se melhorias nas condições de vida e de trabalho, por meio dos sindicatos e associações, que reivindicavam mais direitos. Cada vez mais motivados, estes movimentos pressionavam as ações governamentais e temas como a reforma agrária, por exemplo, ganharam importância. Parte da classe média urbana, nos grandes centros, impulsionada pelo movimento estudantil, bastante ativo, e também por intelectuais engajados, envolveu-se na discussão política do momento, desenvolvendo também uma intensa movimentação cultural e artística. A frase emblemática que resume esse período é de Roberto Schwarz: “O país estava irreconhecivelmente inteligente” (SCHWARTZ, 2001, p. 10). O ideal sustentado era a construção de uma cultura nacional, popular e democrática, sendo que, para esse fim, intelectuais e artistas deviam firmar-se a favor da revolução socialista, que permitiria dirimir a desigualdade social. Conforme explica Hollanda:

Um novo tipo de artista, “revolucionário e consequente”, ganhava forma. Empolgados pelos ventos da efervescência política, os CPCs defendiam a opção pela “arte revolucionária”, definida como instrumento a serviço da revolução social, que deveria abandonar a “ilusória liberdade abstratizada em telas e obras sem conteúdo”, para voltar-se coletiva e didaticamente ao povo, restituindo-lhe “a consciência de si mesmo” (HOLLANDA, 1982, p. 10).

Esse clima de intensa participação política e ideológica favoreceu o crescimento da esquerda e, consequentemente, o Partido Comunista (PCB), que influenciou de maneira decisiva os setores progressistas. Cresceu muito o apoio ao presidente Joao Goulart, que foi presidente entre 1961 e 1964, e que mantinha alguns contatos com Cuba, China e Rússia, países comunistas, aguçando o anticomunismo dos setores à direita. Esses aspectos, (aqui muito resumidos, pois são matéria para especialistas, que já constituíram

extensa bibliografia) criaram o cenário para a reação dos militares, que, em 1964, tomaram o poder em um golpe de Estado, instaurando uma ditadura, que duraria até 1985.

Com o golpe, a derrocada das ideias de emancipação política e de um novo projeto de nação tornou-se o grande questionamento para a intelectualidade da época, dividindo opiniões e gerando controvérsias. A hipótese da estudiosa é a de que o foco na luta contra o imperialismo americano, que efetivamente existia, fez com que não se levassem em conta as movimentações internas de uma burguesia crescente, interessada nos benefícios dos pactos comerciais proporcionados por um alinhamento com os Estados Unidos, o que auxiliaria na “modernização” da economia.

O desmoronamento do governo Goulart, devido ao golpe militar, revelou, segundo Heloísa Buarque, os novos rumos que o país estava tomando:

O golpe de 64 traz consigo a reordenação e o estreitamento dos laços de dependência, a intensificação do processo de modernização, a racionalização institucional e a regulação autoritária das relações entre as classes e grupos, colocando em vantagem os setores associados ao capital monopolista ou a eles vinculados (HOLLANDA, 1982, p. 20).

Toda a movimentação cultural acima mencionada respondia ao projeto militar de inserção do Brasil no capitalismo internacional, o que passou a afetar todos os setores da economia e da sociedade, obrigando a uma “reorientação” da relação entre esses aspectos.

Tânia Pellegrini (1996) explica que a transformação da cultura em uma verdadeira indústria consolidou-se durante o regime militar, auxiliada pelos incentivos governamentais e por um poderoso instrumento, a censura. Ela afirma que a censura, durante todo o tempo de sua vigência (1968-1979), foi instrumento de separação ideológica entre a produção cultural de esquerda e de direita. A primeira era duramente censurada, enquanto a outra pregava livremente Deus, Pátria, moral e bons costumes, valores fundamentais para a direita. Nesse contexto, segundo Pellegrini, surge um novo tipo de censura, a econômica, produto do projeto governamental de maior integração do Brasil ao capitalismo, naquele momento. Isso acarretou uma profunda transformação em todas as áreas da cultura,

incluindo aí a literatura. Assim, uma atitude de resistência a isso, que incluía a criação propriamente dita, foi substituída por produção, banalização e reprodução27.

No meu modo de entender, um dos aspectos mais importantes para uma visão ampliada do fenômeno (...) refere-se à consolidação dos esquemas mercantis de produção cultural e literária, ou seja, à consolidação de uma indústria cultural brasileira, que se efetivou à sombra da censura. Assim, parece claro que reduzir as características dos produtos dessa indústria, durante a ditadura, apenas à influência de uma censura que se queria contornar, é deixar de lado o formidável processo de gradativa e inexorável transformação nos modos de produção cultural como determinante das novas tendências que se gestavam, e que podem ficar mais claras com um exame das ações governamentais nesse âmbito (PELLEGRINI, 2014, p. 154).

Ao mesmo tempo, no plano político, o governo militar sancionava os Atos Institucionais como medida de contenção e coerção popular. Os Atos eram nada mais que um golpe dentro da própria Constituição, que fazia com que os direitos sociais básicos pudessem ser contornados ou ignorados, sendo que o pior de todos foi o AI5, que institucionalizou a censura e cassou direitos civis. “Aos poucos as pessoas começaram a entender que o Brasil não era apenas um país de delícias tropicais, de carnaval, de Carmen Miranda, de Floresta Amazônica. Mas um país de tortura e repressão” (HOLLANDA, 1982, p. 19).

O regime militar durou 21 anos. Clarice viveu seus efeitos, os quais expressou não só nos romances, mas também em suas crônicas, sobre as quais tecemos alguns comentários em seguida, para ir entretecendo os fios que entendemos importantes para nossa análise.