• No results found

Kapittel 2 Teori

2.4 Pedagogisk utviklingsarbeid

movimentos da consciência. É o que tentaremos tangenciar a seguir.

2.1 AS MÁSCARAS DA EXISTÊNCIA

Benedito Nunes, na década de 1970, foi o primeiro a fazer os estudos mais aprofundados sobre as relações entre Literatura e Filosofia na obra de Lispector, relacionando sua cosmovisão às temáticas do Existencialismo. Desde então, seguiram-se estudos que apontavam aproximações da obra da escritora com as propostas existencialistas de Martin Heidegger, Edmund Husserl, Kalr Jaspers e Jean Paul Sartre, dos quais Søren Kierkegaard foi precursor, no final do século XIX.

Sobre a relação entre essa corrente filosófica e o conceito de resistência, Bosi afirma que “O tema da resistência se universaliza na cultura existencialista” (BOSI, 2002, p. 128). Isso se dá, principalmente, pela presença de uma atitude revolucionária contida neste pensamento, no sentido de propor uma negação do conformismo, ou seja, uma resistência ao mundo e ao que ele representa. Assim, são chamadas existencialistas as correntes filosóficas que propõem uma análise da existência. Para tais correntes, existir significa relacionar-se com o mundo, em suas diversas possibilidades de escolha.

Dessa maneira, é essencial compreender o papel fundamental desempenhado pelas personagens claricianas, nas quais o predomínio da consciência reflexiva faz com que se interroguem constantemente sobre a experiência de viver, descoberta que traz consequências e possibilidades, como afirma Nunes: “Toda uma temática da existência, a que não são estranhos os contos da autora publicados entre 1952 e 1971, projeta-se através das situações das personagens” (NUNES, 1995, p. 46). Tais personagens, em sua maioria, carregam sentimentos represados, violentos, que vibram em forma de inquietação, sendo que a estratégia encontrada para abafar sua autenticidade é a escolha de uma “máscara”. Como se percebe aqui:

Escolher a própria máscara era o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivelava a máscara daquilo que se escolhera para representar-se e representar o mundo, o corpo ganhava uma nova firmeza, a cabeça podia às vezes se manter altiva

como a de quem superou um obstáculo: a pessoa era (LISPECTOR, OLP, 1998b, p. 87).

Sem dúvida podemos afirmar que toda a obra da escritora é permeada por uma visão de mundo existencialista, de seres que se questionam, se desentorpecem do cotidiano e que provam que a máscara social é um mal insuperável. Isso se mostra evidente nos contos da coletânea Laços de Família (1960). Destacamos um trecho do conto que dá o nome ao livro, no qual a personagem Catarina reflete sobre sua relação com sua mãe:

O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e examinou-se no seu chapéu novo, comprado no mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo onde não faltava alguma admiração por si mesma. A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se “mãe e filha” fossem vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso (LISPECTOR, 1998a, p. 50).

Ainda na discussão sobre a narrativa de resistência, Bosi cita o romance A Paixão Segundo G.H (1964) como exemplo de narrativa que resiste por deixar falar:

Por sua vez, a narrativa lírica, quando atinge certo grau de intensidade e profundidade, supera a rotina da percepção cotidiana e liberta a voz de tudo quanto esta abafou ou apartou da conversa, até mesmo do diálogo entre amantes, amigos, pais e filhos (BOSI, 2002, p. 135).

Essa inquietação e esses sentimentos represados podem ser interpretados, em relação aos personagens, como uma busca25 velada da sua autenticidade, de sua própria

nudez, de sua verdadeira essência humana, mascaradas pela cultura e pelo cotidiano. “A

25 O processo pelo qual opera essa busca é chamado de epifania, termo que vem do grego “epipháneia” que

significa aparição, e faz com que o olhar descubra a vida em si, que até então passava despercebida, como comenta Olga de Sá: “Ela nos leva a livrar-nos do automatismo perceptivo enfraquecido pelo hábito, ela nos devolve a sensação da vida” (SÁ, 1979, p. 106).

liberdade associal é um mito”, considerou Bosi (2002, p. 134). Como podemos ver representado neste trecho do conto Amor de Laços de Família:

Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca (LISPECTOR, 1998a, p. 25).

O percurso existencial do indivíduo na busca de uma existência autêntica, o questionamento frente às convenções sociais que o oprimem, as máscaras e os disfarces que usa para fugir da sua interioridade, o sofrimento que tem a ver com a liberdade, são algumas das questões abordadas pela obra de Lispector.

Lucia Helena (2010) refere-se ao percurso de Benedito Nunes pela obra de Clarice e fala de uma “intuição sensível” do estudioso:

Benedito Nunes já assinalava, em O dorso do tigre (1969), não haver na obra de Clarice a preocupação de filosofar ou de estabelecer e discutir doutrinas, mas uma intuição sensível de escrever sobre a ameaça da angústia que nos acolhe, quando se anseia viver sob o signo da busca da liberdade (HELENA, 2010, p. 35).

Este final, no qual a autora cita a busca da liberdade26, meta das personagens,

pode ser visto como um sinal de alerta, que aponta para uma sociedade opressora, em vários níveis, mas que se aguça em períodos de arbítrio. Neste sentido, vale a pena recuperar brevemente um pouco do contexto histórico da década de 1960, no Brasil, para melhor entender o movimento de resistência interna, não só dos personagens, no romance

26 No nosso trabalho de TCC, de título Angústia de existir: “Laços de família” de Clarice Lispector (2013),

estudamos as possíveis relações da obra clariciana com o Existencialismo. Ali pudemos perceber que, segundo o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, pai do Existencialismo, a liberdade está ligada à angústia, no sentido de que esta propicia a escolha. Assim, a liberdade põe asas no homem e o empurra diante de um precipício das possibilidades. Em outras palavras, a liberdade, no sentido de apoderar-se de suas escolhas e de seu destino, gera angústia perante o ato de ter que decidir entre essas escolhas.

em pauta, mas também externas, referentes ao contexto em que vivia a autora, criadora deles.