• No results found

Kapittel 5 Diskusjon

5.1 Del 1: Å bli leder

5.1.2 Undervisnings- og læreroppgaver

Nessa mesma linha, de oposições irremediáveis, Lóri e Ulisses disputam um ao outro o tempo todo e jogam com armadilhas de sedução. A intriga envolve esses dois personagens que tencionam amar-se em ritmos diferentes: Lóri com pressa, desespero, desejo, impaciência e revolta e Ulisses com calma, tranquilidade, paciência, controle e frieza.

(Fala transcrita de Clarice Lispector. Disponível em:

As tentativas de conquistar Ulisses com seus vestidos, pintura excessiva e convite para sua casa, de camisola curta transparente, não surtem efeito no jogo amoroso. Ao contrário66, geram censuras por parte de Ulisses, como: “já lhe dissera que ela não tinha

bom gosto para se vestir” (LISPECTOR, 1998b, p. 13), e “esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero” (LISPECTOR, 1998b, p. 36). Lóri cancela encontros e depois muda de ideia, espera o telefone tocar várias vezes para atendê-lo, usa guarda- chuva vermelho para criar uma imagem de impacto: “E assim encontrou-a ele e olhou-a com admiração: ela estava extravagante e bela” (idem ibidem, p. 56). A sereia Loreley canta, seduz e abandona os seus amantes: “Não foram propriamente amantes porque eu não os amava” (idem ibidem, p. 26) e Ulisses, encarnando o herói de Odisseia, percebe o seu possível fim e traça estratégias; uma delas é a de criticá-la para que ela aos poucos se transforme no que ele quer: “Lóri, se bem que você seja a pior de meus alunos” (idem ibidem, p. 63). O ponto máximo desse jogo parece ser esse trecho, justamente aquele em que Ulisses conta a lenda da sereia:

— Loreley é o nome de um personagem lendário do folclore alemão, cantado num belíssimo poema por Heine. A lenda diz que Loreley seduzia os pescadores com seus cânticos e eles terminavam morrendo no fundo do mar, já não me lembro mais de detalhes. Não, não me olhe com esses olhos culpados. Em primeiro lugar, quem seduz você sou eu. Sei, sei que você se enfeita para mim, mas isso já é porque eu seduzo você. E não sou um pescador, sou um homem que um dia você vai perceber que ele sabe menos do que parece, apesar de ter vivido muito e estudado muito (LISPECTOR, 1998b, p. 98, grifo nosso).

Neste trecho, Ulisses delimita as regras do jogo: “quem seduz você sou eu”, marcando sua posição imponente de maneira autoritária. Nesses momentos é possível reconhecer nele uma posição de macho dominador estereotipada, que tenta cercear o comportamento de Lóri numa atitude contrária à proposta da aprendizagem. Nessa cena,

66 “Olhou-se de corpo inteiro ao espelho para calcular o que Ulisses vira. E achou-se atraente. No entanto ele

ele censura o seu lado “moça leviana”, seu descaso pelas regras de conduta feminina de inibição:

— Escute, Lóri, você sabe muito bem como conheci você e quero de propósito relembrá-lo: você estava esperando um táxi e eu, depois de olhar muito para você, pois fisicamente você me agradava, simplesmente abordei você com um começo de conversa qualquer sobre a dificuldade de encontrar táxi àquela hora, ofereci-lhe levá-la no meu carro para onde você quisesse, no fim de cinco minutos de rodagem convidei você para um uísque e você sem nenhuma relutância aceitou. Com os seus amantes você foi abordada na rua? (LISPECTOR, 1998b, p. 50, grifo nosso).

O imperativo “Escute” denota uma mudança de tom de voz masculina, ao mesmo tempo que sua última frase: “Com os seus amantes você foi abordada na rua?” indica uma associação de Lóri com uma prostituta. Ulisses assim joga, desejando que Lóri seja sua, exclusivamente seu objeto de prazer e não mais o de outros. Essas censuras nada mais são que modos de castrar Lóri, colocando-a numa uma posição subserviente e de pouca autonomia:

Pois, segundo a regra, em última estância, eram os homens quem as escolhiam e, com certeza, procuravam para esposa uma pessoa recatada, dócil, que não trouxesse problemas – especialmente contestando o poder masculino – e que se enquadrasse perfeitamente aos padrões da boa moral (BASSANEZI, 2014, p. 613).

Outro episódio interessante neste sentido é quando Lóri, acostumada a tomar guaraná, decide tomar uísque, imitando-o. Ele, surpreso, responde: “Mas meu lado de relíquia de ancestrais faz com que eu fique contente de ver uma mulher que não bebe” (LISPECTOR, 1998b, p. 94, grifo nosso). E também quando Lóri, próxima ao final da aprendizagem, corta os cabelos a sua reação é quase colérica: “[...] ele a olhou e de tanta surpresa decepcionante nem sequer se levantou: — Mas você cortou os cabelos! Você devia ter me perguntado antes!” (idem ibidem, p. 93).

Desse modo, é possível empreender uma leitura feminista do romance, que não dispensa a ironia como seu procedimento, pois Ulisses, em seu disfarce de “cavaleiro andante”, esconde seus reais interesses67:

A função professoral de Ulisses ganha relevo porque, segundo esta visão, debaixo de sua ação como “guia”, escondem-se os interesses patriarcais que mantêm a mulher como um objeto de cama e mesa, à disposição para exploração masculina. [...] Uma leitura feminista teria de considerar o romance como revalidador do esquema afetivo tradicional e repressivo, que cria para a mulher a falsa ilusão de encontrar sua identidade apoiando-se na identidade masculina com a qual contrasta (FRANCO JR., 1989, p. 117).

A atitude de Ulisses é, sobretudo, contraditória, o que evidencia o jogo a dois: ao mesmo tempo que a desaprova, aprova-a. Ao mesmo tempo que quer a moça virgem, quer também que ela seja “cortesã” para os seus desejos. Dito de outro modo, a mulher pode ter liberdade sexual desde que seja dele e para ele. Como aparece neste trecho mais adiantado da aprendizagem, em que Lóri aparece sem pintura:

— Você é de algum modo bonita. Gosto de teu rosto suado sem pintura embora também goste do modo exagerado como você se pinta. Mas é que pintada você prova não sei de que modo que não é virgem. Não, não se engane, não pense que eu desejaria que você fosse virgem, aliás, de certo modo você é (LISPECTOR, 1998b, p. 63).

Contudo, tal como Lóri, Ulisses troca de papéis e também possui várias facetas. No final da aprendizagem, a sua arrogância se transforma em humildade, como nos mostra o narrador em momento raro de onisciência:

Ulisses, o sábio Ulisses, perdera a sua tranquilidade ao encontrar pela primeira vez na vida o amor. Sua voz era outra, perdera o tom de

67Interessante o comentário de Arêas sobre o fato de Ulisses ser socialista: “Mas o dito socialismo de Ulisses

tampouco tem importância na construção do romance, não serve para nada em termos estruturais, a não ser motivar sacadas [...]” (ARÊAS, 2005, p. 44).

professor, sua voz era a de um homem apenas. Ele quisera ensinar Lóri através de fórmulas? Não, pois não era homem de fórmulas, agora que nenhuma fórmula servia: ele estava perdido num mar de alegria e de ameaça de dor. Lóri pôde enfim falar com ele de igual para igual. Porque enfim ele se dava conta de que não sabia de nada e o peso prendia a sua voz. Mas ele queria a vida nova e perigosa (LISPECTOR, 1998b, p. 154).

Ulisses, na espera por Lóri, promete cobrir o quarto de rosas. Quando ela chega em sua casa para o encontro final, ele se ajoelha diante dela assumindo assim o tipo sensível, romântico e apaixonado. Assim, Lóri e Ulisses parecem encarnar a dualidade “homem” x “mulher” com todos os seus estigmas pré-concebidos, binarismos de seus papéis.

3.6 O DESFECHO

Todo o clímax da cena final, representado pelo sexo como ponto máximo da experiência da aprendizagem, da libertação do corpo e consagração do prazer, acaba com uma estranha proposta de casamento:

— Eu te amo, Lóri, e não tenho muito tempo para você porque trabalho muito. Foi sempre com esforço que eu separava tempo para tomar um uísque com você. Meu trabalho vai aumentar, você terá que ser paciente, [...] Você terá que ficar sozinha muitas vezes.

— Não me incomodo. Sou hoje outra mulher. E um minuto de segurança de teu amor renderá comigo semanas, sou outra mulher. [...] Lóri, eu vou estar tão ocupado que talvez o jeito seja casarmos para estarmos juntos. — Talvez seja melhor (LISPECTOR, 1998b, p. 156).

Como era de se esperar, o saldo da aprendizagem é a volta aos padrões e aos signos a eles relacionados: o homem ocupado que trabalha muito; a mulher que fica sozinha esperando. Segundo Gilda de Melo e Souza, esse é o lugar da mulher, o da espera: “A sua