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5.4 Public pedagogies about sustainability issues

5.4.1 Visit to the library

Os marcos cruciais desse momento da vida e os sinais que configuraram seu início e seu término têm reunido um conjunto importante de autores no campo de estudos da juventude, mais particularmente na elaboração de análises em torno das mudanças experimentadas pelos jovens no processo de transição para a vida adulta. Embora esta tese não se concentre nesse campo em particular, tais análises30 podem ajudar a melhor compreender as trajetórias dos jovens aqui investigados, do mesmo modo que estas também podem contribuir para indicar a emergência (ou não) de novos caminhos para a vida adulta.

Tradicionalmente, os elementos mobilizados pelo conhecimento sociológico para marcar a saída do mundo juvenil e o ingresso no mundo adulto seriam o término da escolarização, o ingresso no mercado de trabalho, a saída da casa de origem e a chegada da primeira criança. Considerando o contexto dos “países centrais”, ao longo dos chamados “Trinta Gloriosos” (o período demarcado entre o final da 2ª Guerra Mundial e a crise do modelo econômico ocidental nos meados dos anos 1970), essas passagens davam-se de modo quase imediato (Dubar, 1998) e, embora pudessem ser mais longas ou mais curtas, a depender do tempo, espaço, classes sociais e sexo, também ocorriam de maneira sincrônica (Galland, 1997).

No entanto, uma série de acontecimentos das três últimas décadas, nesses mesmos países, acrescentaram complexidade a esse fenômeno, tanto do ponto de vista empírico, quanto do ponto de vista analítico. Assim, o único consenso possível entre as diferentes

30 Não se trata aqui de esgotar a análise da produção teórica sobre o tema. A reflexão será pautada em torno de

abordagens teóricas e metodológicas é de que as transições juvenis tornaram-se mais complexas (Pais et al., 2005).

Seguindo análise de Lagree (1992), a história da sociologia da juventude caminha paralelamente à história dos questionamentos sociais relativos à população juvenil31, sendo a crise dos anos 1970 e seus impactos nas trajetórias juvenis, particularmente no campo do trabalho, impulsionadores da emergência de novos elementos em relação à transição dos jovens para a vida adulta32 e de um novo campo de preocupações no interior da sociologia da juventude, mais próximo à dimensão econômica (Casal, 1996; Lagree 1992).

Os jovens não aparecem mais somente como os representantes de um ‘planeta’ cultural estranho e desconhecido, como ‘delinqüentes’ ou ainda como indivíduos em vias de socialização ou a reeducar, eles também são analisados em relação à esfera da produção [...]. Se, como se havia escrito, os jovens são os adultos do amanhã, a questão do seu amanhã tende, de agora em diante, a ser abordada em referência ao domínio do emprego, da

inserção, da precariedade e do desemprego, e à valorização da formação

sobre o mercado de emprego. (Lagree, 1992, p. 21)33.

Entretanto, as preocupações em termos econômicos tardaram a se articular aos questionamentos relativos aos comportamentos e modos de vida juvenis, e a questão da transição limitara-se à transição para a vida profissional, da escola em direção ao mercado de trabalho (Lagree, 1992, 1998). No campo político-administrativo, das transformações do contexto socioeconômico, originou-se o termo “inserção” (Dubar, 1998; Lagree, 1998) e um conjunto de ações públicas visando facilitar o ingresso de jovens recém-saídos do sistema de ensino no mercado de trabalho34, o que também contribuiu para o desenvolvimento de um conjunto de estudos que procuravam perceber as razões para as crescentes dificuldades dos jovens em seu ingresso no mundo do trabalho.

Do desenvolvimento de parte das análises, logo fica claro que as dificuldades de inserção no mercado de trabalho não poderiam ser tomadas de modo isolado, verificando-se que afetavam a transição para a vida adulta como um todo. Nesse sentido, a transição passa a ser compreendida em sua multidimensionalidade; para além da transição da escola para o

31 A perspectiva aqui não é de reconstruir a maneira como a sociedade e as diferentes áreas do conhecimento,

sobretudo a sociologia, lidaram e interpretaram a “juventude”. Apenas serão apontadas algumas das formas presentes de analisar esse momento da vida. Sobre os diferentes modos de olhar a juventude nos campos da história e da sociologia, vide Abramo, 1994; Lagree, 1992; Levi e Schmitt, 1996; Pais et al., 1990.

32 Aqui vale lembrar que se a crise dos anos 1970 leva à aparição de novos elementos em relação à transição dos

jovens para a vida adulta, isso não significa a inexistência da problemática em momentos históricos anteriores (Casal, 1996).

33 Todos os textos originalmente de língua estrangeira citados nesta tese são traduções livres da autora. 34 Por esta razão, pareceu mais pertinente a Claude Dubar (1998) lançar mão do termo inserção.

mundo do trabalho, a transição social e cultural (Lagree, 1998). Para Lagree (1992), um dos marcos dessa reorientação dos eixos de análise foi a pesquisa de Catherine Gokalp35, que em um estudo pioneiro relacionara os diferentes momentos da conquista da autonomia juvenil (fim dos estudos, saída da casa dos pais, residência independente e vida a dois) às características da inserção profissional, ao emprego e ao desemprego. Ainda na perspectiva desse autor, o desenvolvimento do conceito de transição para a vida adulta, ao lado do conceito de geração36, acabara por colaborar para a articulação entre os componentes socioculturais e econômicos dos fenômenos sociais relativos aos jovens.

De modo sintético, ao tentar agrupar as diferentes respostas a perguntas sobre a singularidade da condição juvenil no contexto atual, Pais et al. (2005) apresentam pelo menos dois modos predominantes de olhar. Em primeiro lugar, as perspectivas que se apóiam em certa linearidade no prolongamento do processo de transição da juventude para a idade adulta, sendo clássicos os estudos de Galland (1997, 2001); por outro lado, aquelas que focalizam a fragmentação das trajetórias, acentuando a possibilidade de reversibilidade de escolhas e trajetos ao longo da vida, marcadamente de autoria de Pais (2000, 2001).

Ambas as perspectivas37 pautam-se por mudanças que incidiram sobre o mercado de trabalho, como já destacado, mas também no âmbito do “Estado Providência” e do sistema educativo, refletindo-se nas dinâmicas culturais e práticas sociais (Lagree, 1998; Pais et al., 2005). Cada vez mais, conseguir um emprego estável (Demazière e Dubar, 1997a; Lagree, 1998) ou “um verdadeiro trabalho”, para usar a expressão de vários dos jovens entrevistados para este estudo, torna-se muito difícil para alguns e quase uma utopia para outros. As relações de trabalho se precarizam e o desemprego se eleva, afetando profundamente o modo dos jovens – ao menos no contexto desses estudos – obterem um emprego. Ao mesmo tempo, seja em função da massificação escolar seja das exigências de maior “qualificação”, cada nova geração permanece por um maior período inserida no sistema escolar, e os tempos de

35 GOKALP, C., “Quand vient l´age des choix - enquête auprès des jeunes de 18 à 25 ans : emploi, résidence,

mariage“, PUF, Travaux e Documents, cahiers n. 95, 1981.

36 Embora o termo geração já tivesse uma longa história no campo da sociologia da juventude, desde os clássicos

estudos de Mannheim, é retomado neste momento tanto pela sociologia da família e da juventude como também pela economia e demografia, menos no sentido de registro das mudanças de valores, normas, representações, práticas, e mais na perspectiva de abordar questões “de mobilidade social, recomposição do espaço das classes sociais, transformação da relação salarial, de desenvolvimento da precariedade e de segmentação do mercado de trabalho” (Lagree, 1992, p.25).

37 É preciso reconhecer que não existem apenas essas perspectivas na análise do processo de transição para a

vida adulta, mas dados os limites deste estudo e a própria síntese realizada por Pais et al. (2005), essas duas abordagens serão tomadas como ponto de partida. De modo mais específico, cabe aqui mencionar os estudos de Casal (1996); Galland (1997, 2001), Pais (2000, 2001); Pimenta (2007) e Singly (2000).

aprendizagem se recompõem dadas as crescentes demandas de formação ao longo da vida (Lagree, 1998). A vida familiar também se modifica. O tradicional modelo de família nuclear não desaparece, mas se combina a vários outros; ampliam-se os divórcios e o número de pessoas que optam por residir sozinhas. Embora ainda seja a condição normal, o casamento deixa de ser a base definidora da união, dentre outras várias transformações e continuidades (Giddens, 2000). Mas a mudança mais destacada quando o foco é a relação dos jovens com a família é o aumento do período de residência das mais novas gerações em suas casas de origem, por opção própria, pelo resultado do maior tempo de permanência na escola, pela falta de trabalho ou ausência de estabilidade nos empregos. Várias são as razões apontadas por diferentes autores para isso, como Galland (1997), Pais (2001) e Lagree (1998).

Ao analisar esse processo, Galland (1997) pressupõe a compreensão dos percursos da vida de uma maneira linear: o ingresso na vida adulta ocorreria sobre dois eixos principais:

um eixo escolar e profissional, que corresponde à esfera pública da vida do jovem; um eixo familiar que corresponde à esfera privada. Sobre esses dois eixos, quatro passagens são particularmente significativas porque introduzem novos estatutos e novos papéis sociais: duas constituem passagens de saída, duas outras passagens de entrada: o fim dos estudos, a saída da casa dos pais, o início da vida profissional, o casamento ou a vida a dois. (Galland, 1997, p. 137).

O objetivo último e desejado seria a chegada ao mundo adulto, orientado por essas diferentes passagens (Singly, 2000). Não por acaso, a própria simbolização utilizada por Galland (1997) para representar o modelo tradicional de entrada na vida adulta é uma flecha cuja “ponta” vai da infância à idade adulta (Galland, 1997). O autor revela a existência de diferenças nessa passagem, sobretudo segundo o sexo e a classe social: no caso das mulheres, o ingresso na vida adulta aconteceria mais precocemente em função da tradicional tendência das moças de se casarem mais cedo e com parceiros mais velhos e, ao mesmo tempo, pela desvalorização de sua vida profissional. No caso dos jovens trabalhadores, diferentemente dos jovens burgueses, pela maior simultaneidade entre a saída da casa dos pais, ingresso na vida profissional e casamento, sendo o trabalho um elemento central nesse processo. Galland (1997) nomeou este modelo de “instalação”, em contraposição ao modelo burguês do “diletantismo”, ou seja, no caso do jovem burguês haveria maior disponibilidade para vivenciar a experiência juvenil antes de assumir compromissos com o trabalho e a própria casa.

Segundo Galland (1997), devido às transformações já apontadas aqui, quais sejam, o progressivo aumento da escolaridade, a maior dificuldade dos jovens para ingressar e permanecer no mercado de trabalho e o prolongamento da vida dos jovens na família de

origem, esses modelos tradicionais de passagem à vida adulta, consolidados no período entre guerras, sofreram profundas alterações, tendo, no retardamento das etapas que possibilitam o acesso ao estatuto de adulto e nas passagens assíncronas, seus principais traços. Assim, nãoapenas cada uma das passagens ocorreria mais tardiamente como também de maneira desconectada, aspecto mais importante desse processo na perspectiva do referido autor. Isto significa dizer, por exemplo, que um jovem poderia concluir seus estudos sem necessariamente encontrar um trabalho ou deixar a família de origem, sair da casa de origem e encontrar emprego, mas não se casar, abrindo-se possibilidades para variadas combinações entre cada um desses elementos.

Progressivamente, em suas análises o referido autor vai constituindo novos modelos e abrindo espaço para várias etapas que levariam ao estatuto adulto: pós-adolescência, juventude e fase pré-adulta38. A vida a dois e o nascimento de uma criança teriam lugar na última etapa, marcando em definitivo a passagem para a vida adulta. Entre a pós-adolescência e a fase pré-adulta, a juventude seria o período entre a saída da casa de origem e a formação de um casal, fase privilegiada de preparação para a vida adulta. Nesse momento, já distantes e independentes dos pais, os jovens poderiam dedicar-se ao processo de construção de sua identidade. O alongamento das transições juvenis teria como hipótese mudanças profundas nos modelos de socialização: os jovens estariam transitando de um modelo de identificação a um modelo de experimentação:

O modelo de identificação é característico da sociedade francesa do século XIX, e ele ainda se faz presente em certos setores da sociedade. Ele se baseia em um processo de transmissão sem alteração, de uma geração a outra, de estatutos e valores relativamente estáveis. Este modelo funcionava no interior de cada categoria social e era fundado na identificação ao estatuto e aos papéis familiares [...]. Este modelo se esgota sob o efeito do prolongamento escolar, das transformações nas estruturas sócio-profissionais e de aspirações à mobilidade social que acompanham estes movimentos e introduzem uma distância grande entre o grupo de pertencimento e o grupo de referência [...]. O modelo antigo abre assim espaço para um modelo de experimentação. Este não significa uma rejeição às transmissões, mas os elementos transmitidos pelos agentes socializadores são utilizados ou assimilados de uma ou outra maneira em função dos percursos de vida

38 A etapa da pós-adolescência corresponderia ao período entre o final da escolaridade obrigatória e a saída da

casa dos pais, tendo como característica o prolongamento da vida na casa dos pais. Novamente aqui, diferenças de classe e sexo: rapazes tenderiam a permanecer na casa dos pais até a obtenção de um trabalho estável, o que estaria se tornando cada vez mais difícil. No caso das moças, a saída da casa dos pais aconteceria mais precocemente, mesmo sem inserção profissional estável. A etapa denominada juventude seria fortemente caracterizada pela demora em constituir uma família, predominante entre camadas sociais com escolaridade mais elevada. Neste caso, o jovem deixa a família de origem e é independente, mas permanece mais tempo solteiro. Por fim, a etapa pré-adulta corresponde ao período que vai da formação de um casal ao nascimento da primeira criança. Cabe observar o peso dado à maternidade/paternidade no processo de diferenciação da juventude em relação à idade adulta (Galland, 1997, 2001).

(Dubar, 1996). Eu falo experimentação porque a definição de si se constrói, mais do que é herdada. Ela se constrói no interior de um processo interativo, feito de ensaios e erros, até o alcance de uma definição de si [...] Fundamentalmente esta fase de experimentação torna-se cada vez mais longa e explica o prolongamento da juventude e sua formação como nova idade da vida. (Galland, 1997, p. 160).

Uma segunda hipótese construída pelo mesmo autor relaciona-se à passagem de um modelo familiar mais liberal em relação ao modelo anterior, no qual a maior permanência dos jovens na casa dos pais não seria marcada apenas pela necessidade (em função das dificuldades em encontrar um emprego, por exemplo), mas por escolha própria. No entanto, a esse modelo de “escolha” deliberado de prolongar a juventude opor-se-ia “um modelo de constrangimentos vividos por aqueles, sobretudo rapazes, que conhecem um adiamento forçado das etapas de entrada na vida adulta devido às dificuldades de inserção profissional” (Galland, 1997, p. 161).

Nesse sentido haveria um grupo, mais próximo ao perfil dos jovens desta pesquisa, para o qual o prolongamento na realização das diferentes etapas para a vida adulta poderia significar riscos de inserção em um “processo de exclusão durável”. Na perspectiva do autor, esses jovens não chegariam a vivenciar a experiência juvenil. Assim, ao justificar e caracterizar a existência de uma nova idade da vida – a juventude –, também a reserva àqueles com maiores condições materiais para vivê-la.

As interrogações e críticas em torno desse modo de interpelar a nova condição juvenil concentram-se principalmente em torno de sua concepção progressiva e linear da transição para a vida adulta. Para Galland (1997), aos poucos os jovens deixariam a condição de imaturidade e dependência para alcançar a desejada vida adulta, na qual encontrariam maturidade e independência (Lagree, 1998; Singly, 2000). Na medida em que considera a fase adulta como ponto de chegada a certa estabilidade, o autor negligencia as diferentes idas e vindas que podem ter lugar não apenas na juventude, mas também em outros momentos da vida.

De fato, há fortes indícios de que a vida adulta perdeu muito de sua estabilidade (Camarano, 2006; Van de Velde, 2004). Poderíamos até questionar se em algum momento histórico a vida adulta foi estável, principalmente refletindo sobre outros contextos sociais e econômicos, como o brasileiro, por exemplo. É certo que o pressuposto desses autores pauta- se em um determinado momento histórico das sociedades européias, em que haveria um maior grau de previsibilidade. Mas, se em algum momento a vida adulta podia ser assim caracterizada, no contexto mais recente ela perdeu muito de sua segurança, dadas as crescentes mutações em todas as esferas da vida (Lagree, 1998).

Ao também questionar o modelo que repousa sobre o acesso à vida adulta como objetivo central, bem como os eventos que marcariam a “transição”, Singly (2000) apresenta duas de suas teses: a primeira, de que este modelo não corresponderia ao caráter das sociedades contemporâneas, que funcionariam para o autor a partir de outro mito – o da busca permanente de si, na qual os próprios indivíduos desejariam o afastamento dos trajetos lineares (Singly, 2000). Como será aprofundado mais adiante, trata-se de perceber as diferentes idas e vindas dos sujeitos no interior de uma sociedade marcada por “processos de individualização”.

Por meio de sua segunda tese, que novamente remete à constituição do indivíduo na sociedade moderna, o autor questiona a equivalência dada aos conceitos de autonomia e independência. Para ele, as mutações na construção dos indivíduos dariam “condições sociais e psicológicas” suficientes para que, mesmo sem independência econômica, os jovens pudessem construir sua autonomia. Vários exemplos ilustram a capacidade de construção de universos autônomos pelos jovens, mesmo quando residem com seus pais: seu próprio quarto ou um espaço específico dentro da casa. Do mesmo modo, o jovem pode residir fora da casa dos pais, passando a viver autonomamente, sem que necessariamente isto signifique independência econômica. Assim, não seria possível igualar a saída da casa de origem à independência ou considerar que não haveria “autonomia” ali permanecendo (Singly, 2000). Poder-se-ia também acrescentar a possibilidade da dependência econômica dos próprios pais em relação aos seus filhos, o que também é apontado por alguns estudos sobre as relações intergeracionais (Attias-Donfut, 1996).

O autor também chama a atenção para as crescentes dificuldades dos jovens em conseguirem independência econômica com uma atividade assalariada ou profissional, ainda o meio privilegiado para essa conquista: uma vez que as possibilidades de construção como indivíduos são repartidas de modo muito desigual entre aqueles que permanecerem por mais longo tempo em uma situação de dependência econômica, também a construção da própria autonomia ficaria comprometida, principalmente para os indivíduos que dependem financeiramente de suas famílias (Singly, 2000)39.

39 Evidente que o autor não nega a solidariedade entre as gerações e o apoio da família aos jovens. No entanto,

isso também pode ter sua face negativa: o apoio da família pode vir sob alguma condição, tornando-se o jovem dependente pessoalmente vis-à-vis seus pais, embora com certa autonomia. Na avaliação do autor, a dependência no seio das relações privadas parece muito mais problemática do que a dependência em relação a uma instituição. Não por acaso, neste mesmo artigo, o autor defende que o Estado garanta uma alocação de suporte ao jovem adulto, que seja distribuída diretamente aos jovens, sem intermediação de sua família.

Mesmo com algumas diferenças no modo de perceber a transição para a vida adulta, autores como Pais (2000, 2001) e Lagree (1998, 1992) representam perspectivas teóricas de acordo com as quais essa não se configura enquanto uma “metamorfose progressiva e lenta” em uma única direção. Se os caminhos para a vida adulta tornam-se mais longos, não são definitivos, podem ser reversíveis e pautados por escolhas (Pais, 2001), também dependendo de contextos culturais e nacionais (Lagree, 1998; Van de Velde, 2004).

Para Pais (2001), as trajetórias juvenis poderiam ser caracterizadas como “trajetórias ioiô”, relacionadas a contextos de vida cada vez mais instáveis e variáveis, em estruturas sociais chamadas “labirínticas”:

De fato, um dos aspectos essenciais das culturas juvenis contemporâneas deriva das lógicas antinômicas que as caracterizam: ora rígidas, uniformes, coercitivas; ora flexíveis, opcionais, sedutoras. Perante estruturas sociais cada vez mais fluidas e modeladas em função dos indivíduos e seus desejos, os jovens sentem a sua vida marcada por crescentes inconstâncias, flutuações, descontinuidades, reversibilidades, movimentos autênticos de vaivém [...]. São estes movimentos oscilatórios e reversíveis que o recurso à metáfora do yô-yô ajuda a expressar. Como se os jovens fizessem das suas