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O registo mais antigo que encontrámos na documentação relativo a esta irmandade na Igreja Matriz de Santiago refere-se a 1684436, no entanto, Serrão e Serrão aludem que a cartela com

“uma pintura votiva” existente na primeira coluna deste templo, no lado do Evangelho, que representa “uma caravela latina de três mastros e bandeira holandesa”, teria sido “mandada

executar, segundo a inscrição aposta, pelo mareante Manuel Martins Franco, juiz desta irmandade, em 1644”.437

431 AMS SCMS Livro de Registo de Receita e Despesa, 1860-1912, p. 26v. 432 AMS SCMS Livro de Registo de Correspondência Expedida, 1881-1911 433 MARQUES, António Reis, op. cit., 2003, p. 51

434 Idem, ibidem, p. 49. Será ainda de referir que há cerca de 10 anos a Santa Casa da Misericórdia retomou esta

festividade mas já sem o cunho de tradição marítima. Esta entidade escolhe de entre os seus irmãos um juiz e uma juíza para a realização da festividade.

435 Como já referimos, não nos vamos questionar relativamente aos vocábulos confraria e irmandade uma vez

que o tema não se aplica ao presente trabalho. O termo confraria surge-nos em 1684, 1693, 1702 e 1720 (AMS, ERM Livro de Visitação da Igreja de Santiago anos 1666-1773)

436 AMS, ERM Livro de Visitação da Igreja de Santiago anos 1666-1773, p. 5v.

437 Idem, ibidem, p. 64. Será de referir que não encontrámos qualquer tipo de registo que permita confirmar esta

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Figura 32 – A 1ª coluna com motivo do Cálice e Hóstia sagrada, lendo-se na cartela “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”, e na 2ª a pintura votiva de Manuel Martins Franco (Fotos da autora, Dezembro 2012)

Esta seria uma irmandade economicamente forte e com poder social elevado, possuindo eventualmente uma estreita ligação à Ordem de Santiago, e na qual, certamente, se encontraria grande parte da elite sesimbrense constituída maioritariamente por mareantes e representantes da aristocracia local. 438

Os templos mais importantes das duas freguesias, ou seja, as duas igrejas paroquiais, teriam sido embelezados graças ao poder económico dos seus membros. Além da referida

“decoração brutesca, inscrita num gosto que o século XVII português muito popularizou, (…) de singular efeito cenográfico”,439 teriam também sido contratados alguns dos mestres

entalhadores e pintores mais importantes do período, como Manuel João da Fonseca e João Pereira Pegado. Estes seriam os responsáveis pelas obras em talha barroca de estilo nacional na Igreja Matriz de Santiago e na Igreja de Santa Maria do Castelo, nos anos de 1690 e 1695- 98440. O custeio com tais obras só poderia vir da ligação directa desta irmandade com os

homens do mar locais, facto que “mostra a força das corporações de mareantes

sesimbrenses”441 na altura.

438 SERRÃO, Vitor - O Retábulo barroco de Estilo Nacional da Igreja de Nossa Senhora da Consolação do Castelo de Sesimbra (1698), 1994, p. 24-25. Em 1697-1698 seria Juiz António Gonçalves Ferrão; em 1698

tínhamos como procurador António Gonçalves Ferrão, tesoureiro António Farto Mendes, escrivão João Farto Farinha (Idem, ibidem, p. 25)

439 SERRÃO, Eduardo da Cunha e SERRÃO, Vitor op. cit., 1997, p. 64 440 Idem, ibidem, p. 68 e 69; SERRÃO, Vitor, op. cit., 1994, p. 24-25 441 SERRÃO, Eduardo da Cunha e SERRÃO, op. cit., 1997, p. 65

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A Visitação à Igreja de Santiago em 1702, menciona que a Irmandade do Santíssimo Sacramento teria apenas 24 irmãos, número insuficiente para acompanhar o Senhor quando ia aos enfermos442, apelando para que “os fregueses se metam por irmãos com os panos do Santíssimo Sacramento e mando aos irmãos da mesa que aceitem todos os que quiserem ser sendo de boa vida e (…) de limpo sangue”443. A Irmandade do Santíssimo Sacramento na

Matriz de Santiago continua a estar documentada até meados do século XVIII.444

De 1694 datará o “Compromisso da Irmandade dos Escravos do Santíssimo Sacramento”445

da Igreja Matriz de Santiago. Os Escravos do Santíssimo Sacramento seriam membros da elite local, e no caso de Sesimbra de mareantes, que tinham por objectivo zelar e proteger tudo o que envolvia o culto eucarístico, ou seja, o Santíssimo Sacramento.446

442 Além da promoção do culto eucarístico, função primordial das irmandades do Santíssimo Sacramento, esta

irmandade teria tal como as suas congéneres outro tipo de responsabilidades como “zelar os sacrários,

cotizando-se para as despesas destes e das respetivas lâmpadas; visitar os enfermos e acompanhar o sagrado Viático; fazer uma festa anual em honra do Santíssimo; celebrar no terceiro domingo de cada mês uma Missa por intenção dos irmãos, rezar diante do Santíssimo cinco vezes o Pai Nosso, Ave-maria e Glória” (MARQUES,

João Francisco - “A Renovação das Práticas Devocionais”. In AZEVEDO, Carlos Moreira (Dir.) - História Religiosa de Portugal, Vol. 2, Circulo de Leitores, Rio de Mouro, 2000, p. 568)

443 AMS, ERM Livro de Visitação da Igreja de Santiago anos 1666-1773, p. 9

444 Será de referir que as Memórias Paroquiais de 1758, não mencionam a existência de uma Irmandade do

Santíssimo Sacramento neste templo aludindo à existência de uma outra irmandade mas na Igreja de Nossa Senhora da Consolação do Castelo (ANTT, Memórias Paroquiais de 1758, Dicionário Geográfico de Portugal, vol. 10 c3, nº 285, p. 1941 – 1956). A documentação reporta-nos, no entanto, que até meados do século XIX existiria uma Irmandade do Santíssimo Sacramento, na Igreja da Santa Casa da Misericórdia.

445 Existem referências que aludem a existência na Igreja de Nossa Senhora da Consolação do Castelo de

Sesimbra de uma Irmandade dos Escravos do Santíssimo Sacramento em 1698, dada a existência de um contrato celebrado entre esta irmandade e o pintor João Pereira Pegado, de Lisboa, para douramento da Tribuna do retábulo da referida igreja (SERRÃO, Vitor, op. cit., Dezembro 1994, p. 25) e estaria ali ainda sediada em 1747. (PENTEADO, Pedro - “Fontes para a história das Confrarias: algumas linhas de orientação para uma pesquisa

na Torre do Tombo”, 1995b, p. 172).

446 LAPA, Albino, op. cit., 1954, p. 36. O Culto à Eucaristia e consequentemente as confrarias relacionadas com

o Santíssimo Sacramento, surge com a Reforma católica, havendo registo das primeiras instituições assim organizadas em Portugal a partir de inícios do século XV. As confrarias do Santíssimo Sacramento visavam, entre outros fins, “zelar os sacrários”. O que nem sempre acontecia considerando os vários “atentados

sacrílegos” que ocorriam. (MARQUES, João Francisco, op. cit., 2000, p. 568-569) Em 1630, foi arrombado o

sacrário da Igreja de Santa Engrácia, e roubadas das “sagradas formas”. O culpado terá sido “Simão Pires Soliz,

que foi queimado vivo, cortando-se-lhe as mãos. Logo se instituiu uma Nobilíssima Irmandade de cem fidalgos dos mais ilustres de Portugal, que, intitulando-se Escravos do Santíssimo Sacramento, todos os anos festejam três dias, trazendo ao peito, pendente de uma fita encarnada, uma medalha com a insígnia da escravidão, de que muito se prezam. Tudo se faz na Capela Real com assistência dos soberanos, com a maior solenidade, a que assistem várias religiões por seus turnos. (CONCEIÇÃO, Frei Cláudio - Gabinete Histórico de Sua Majestade

Fidelíssima, o Senhor Rei D. João VI. Desde 1580 até 1640, 1819a, p. 210). As cinzas de Simão Pires Soliz terão sido depois atiradas ao mar. (BOAVENTURA, Frei João de S. - Breve Noticia dos Desacatos mais notáveis ocorridos em Portugal desde a sua fundação até agora, 1825, pp. 14) Ainda sobre esta Irmandade, refere a Gazeta de Lisboa, nº 175, de 1819, que teria sido “instituída pela nobreza em 1630 e de que os reis são

protectores”. (CONCEIÇÃO, Frei Cláudio - Gabinete Histórico de Sua Majestade Fidelíssima, o Senhor Rei

D. João VI. Desde 1668 até 1710, 1819b, p. 272). A instituição desta irmandade dever-se-á a Frei Bernardino de Santo António, que teria recebido hábito da Ordem da Santíssima Trindade quando tinha 16 anos. Será ainda de referir que a Irmandade dos Escravos da Santíssimo Sacramento terá recebido Bula Pontifícia. (MACHADO, Diogo Barbosa, Bibliotheca Lusitana histórica, critica e cronológica, 1759, p. 75)

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Figura 33 – Compromisso da Irmandade de Escravos do Santíssimo Sacramento (Igreja Matriz de S. Tiago)447